Eddie e Seus Peugeots: Roads of Paradise
9 Maués Rumble Rally - Irmãs Ferruccio On Fire!
Notas iniciais
Aeroporto de Maués, Mirante do Éden, 01 de Outubro de 2016, 16:27
Na pista de voo, está acontecendo uma espécie de teste automotivo envolvendo um Chevrolet Opala SS. Na área próximo a entrada do terminal, estão dois mecânicos junto com um Mazda – de propriedade de um deles – e um caminhão-reboque.
— Tá perfeito! – elogia Yuri, um dos mecânicos observando em seu notebook o desempenho do Opala depois de 10 voltas na pista de voo – Temos um forte candidato pelo torneio!
— Esse desempenho atingiu acima das nossas expectativas, nós criamos um monstro! – disse Chelinka, irmã gêmea do Yuri, também observando pelo notebook.
— Um monstrão de um carro tão popular do que o Fusca na época – disse Yuri.
— A gente teve que abrir mão de um conserto de um carro para a gente atualizar o Opala para estar ao nível, provavelmente do Geovanni, para ganhar esse torneio – disse a irmã gêmea loira.
— Mas essa peça custou uma grana preta para poder comprar, especialmente pagar frete e imposto para vir para a nossa oficina – disse Yuri.
— Ainda bem que não tivemos que revelar o nosso segredo à aquela moça de cabelos vermelhos – disse a irmã gêmea loira – se não me engano, era a Joanna, amiga do Eddie, que está disputando o torneio com aquele Ford Escort.
— Oficina fechada todo o dia?
— Oficina fechada todo o dia, e só – conclui a loira.
Em seguida, aparece o Chevrolet Opala SS amarelo depois dos longos quilômetros de dez voltas de teste próximo aos gêmeos. Quem sai pela porta do motorista era o Eddie Peugeot, vestindo o seu macacão vermelho com patrocínios do tempo de piloto na Fórmula Peugeot, do qual se aposentou desde o fim de 2014 após mais um campeonato conquistado, o oitavo na carreira.
— E aí, gêmeos? – pergunta Eddie aos gêmeos mecânicos, que observam ainda o notebook – como foi o teste?
— Perfeito, cara! – disse o mecânico – o resultado do nosso teste foi acima da nossa expectativa! Parece que as peças premium que compramos deve estar dando efeito de melhor aceleração e melhor velocidade máxima.
— Aqui no computador – disse a mecânica loira – o resultado mostra que o carro teve sua potência aumentada de 190 para 260 cavalos de potência, atinge em até cinco segundos os 100 quilômetros e atingiu a velocidade máxima de 210 para 245 quilômetros por hora!
— A aceleração pode variar em caso de uso do nitro, Eddie, mas é altamente recomendável usar o nitro somente nas longas estradas dependendo do trajeto da corrida – explica o mecânico.
— Como as estradas de Miri-Moraes – explica Eddie – Moraes e São João, as ruas Amazonas, a avenida Dr. Pereira Barreto, Antártica...
— São tantas ruas que são longas, Eddie – disse o mecânico – nem tantas para falar a verdade, ainda conheço um pouco o mapa geográfico da cidade.
— Mas Maués não é uma cidade metropolitana como Manaus e São Paulo, Yuri – disse a irmã mecânica – é uma cidade mediana com quase 60 mil habitantes, contando com populações rurais...
— A gente corre na área urbana, gêmeos – disse Eddie – não nas comunidades e nem nos rios. Se fosse correr nas comunidades rurais, a gente alugaria balsas para levar os carros por lá. Se fosse correr nos rios, é melhor utilizar lanchas ou voadeiras...
De longe, ao lado dos arbustos, da grade e da estrada, uma moça de física cheinha com cabelos castanhos amarrados, vestida de camiseta azul, calça jeans e sapatos pretos, observa de longe o teste do carro do Eddie na pista do aeroporto. Percebendo a presença do Eddie, que é a pessoa que ela está observando, coloca-se as mãos na região do seu peito, e vira para trás, no qual ela sente os seus batimentos cardíacos, e tem uma visão sobre ele.
Colégio Secundário de Maués, Maresia, 07 de fevereiro de 1996, 15:35
“Com licença, eu posso falar com você?”
“Quem é você?”
“Eu sou o seu novo colega, Eddie Peugeot. E você?”
“Eu sou a Lindinez...”
“O que houve com você, porque você está tão triste logo no início das aulas?”
“Eu repeti de série... não passei no ano passado para me formar.”
“Calma, eu sei que repetir de ano é uma frustração... mas te deixa um aprendizado para você para poder estudar mais, se esforçar mais...”
“Mas como? Meus pais viajaram porque arrumaram um emprego lá no tal Distrito Industrial em Manaus... minha irmã ficou encarregada de cuidar de mim e da minha outra irmã, leso! E eu não tenho como...”
“Lindinez... Calma... Este ano vai ser diferente do que foi ano passado.”
“Vai ser diferente?”
“Vai ser. Quando o professor ou a professora propor um trabalho em dupla, você vai comigo porque eu irei te ajudar nos seus estudos, além de fazer tarefas juntos.”
“Cê jura?”
“Eu juro.”
Dia presente
— Senhora? – disse um motorista de mototáxi.
— Pois não – disse a moça, enxugando as lágrimas que haviam escorrido no seu rosto – desculpe-me por isso...
— A senhora pretende ficar aqui ou quer voltar para a sua casa como havia dito antes de vir pra cá?
A moça observa de forma rápida o papo entre o Eddie Peugeot com os gêmeos Yuri e Chelinka ainda na pista de voo do aeroporto, e depois vira a cabeça ao motorista de mototáxi.
— Quero voltar pra casa – responde a moça, que sobe na garupa do mototáxi e deixa o local.
De volta para o papo entre os três...
— Então o Renan e a Kerol te deram uma carona para observar de longe os outros participantes – disse o mecânico.
— Sim – confirma Eddie – o que eu vi foram: Tenório Basso, Steffane Flora Dortmund, Geovanni Dortmund...
— Geovanni Dortmund? – disse os gêmeos simultaneamente, surpresos.
— É – confirma Eddie – além dele observei outros pilotos como Donaldo Gomes, Alfredo Piochi, Yago Kury Correia, Kerolaine Ferreira...
— É uma seleta de pilotos... – disse a mecânica – parecia que você era um espião para espioná-los para arrumar algum jeito de atropelá-los na competição.
— Eu não quero jogar sujo, Chelinka – disse Eddie – eu quero é ganhar reputação forte. Meu foco é na corrida.
— Além desses – disse Yuri – os detetives deram sobre Elina Battaglia, Victor Hugo...
— Victor Hugo é meu amigo de longa data desde o segundo grau há vinte anos – disse Eddie – junto com a esposa dele. Eu não sei o que eu vou fazer se numa eventual semifinal confirme o confronto entre Victor e eu...
— Ou se numa eventual final – disse Chelinka – você confronte a Lindinez e seu psicológico chegará à mil de tantas lembranças de sua paixão do passado – Eddie cora.
— Chelinka – reclama Yuri – deixe esse assunto só para ele, isso é coisa pessoal!
— Eu não consigo esquecê-la – disse Eddie – se ela conseguir avançar... se ela consegue superar o Geovanni numa semifinal... o meu coração não vai aguentar...
— Calma, Eddie – se assustam os gêmeos, que veem Eddie de cabeça baixa se agachar de joelhos com a mão na região do coração.
— Lindinez Ferruccio de Souza... ou melhor, Lindinez Ferruccio Peugeot de Souza... – disse Eddie, choramingando.
— Deve ser o futuro nome de batismo de casamento dela – disse Chelinka ao irmão Yuri.
— E é – concorda Yuri – como se fossem casados.
Eddie limpa as lágrimas no rosto e depois se levanta, para o alívio dos gêmeos.
— Independentemente do que aconteça... eu não quero olhar pelo meu passado passional... eu quero é vencer...
— Você vai vencer, Eddie – disse o mecânico.
— Esse assunto do seu passado passional é muito delicado para você, Eddie – disse a mecânica – esquece isso e foque na corrida de daqui duas semanas!
Eddie e os gêmeos se abraçam por alguns minutos, depois o próprio piloto retorna ao Opala para colocar o veículo no caminhão-guincho para transportá-lo de volta para a oficina.
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Praia Antártica, Santa Tereza
Enquanto isso, na extensa praia da zona sul da cidade, estão presentes o casal Freddy Peugeot, com óculos escuros e calça de praia camuflada, e Joanna Ferruccio, de maiô listrado em preto e branco também de óculos escuros. Ambos estão deitados no pano lado a lado.
— Parece que você perdeu o seu medo – disse a moça de cabelos vermelhos.
— Eu perdi? – questiona o loiro sobre a sua timidez de se apaixonar – eu adquiri esse medo faz uns anos...
— E como você adquiriu esse seu medo?
— Mana – coça a cabeça – isso foi num momento de leseira com uma amiga nossa junto com o mano... depois ela ficou grávida e fui suspeito junto com o Eddie de ser o provável pai da criança que nasceria no ano seguinte...
— Credo, mano, teléso... e ele era o seu filho?
— Depois que o menino nasceu, foi feito um exame de DNA com os nossos sangues e genes e foi comprovado que esse menino era do Eddie.
— Nossa... – Joanna cora – e qual era o nome desse curumim?
— Pedro Teixeira – responde o loiro – e o nome da mãe era Brena Dortmund, que se casou com o Eddie, já que os dois tinham uma forte amizade desde criança, apesar da grande paixão do passado era a sua irmã.
— E aonde está o menino Pedro Teixeira, Frederico? – pergunta a moça.
— Ela está com a mãe... só que longe daqui. Ela e o Eddie tiveram que se divorciar anos atrás, e a posse do filho ficou com a mãe.
— Poxa, Frederico... queria conhecer esse menino...
— Eu não sei se suas irmãs, especialmente a Lindinez, souberam do casamento, do nascimento do filho e depois do divórcio...
— A Jeyci soube de tudo, especialmente ela esteve no casamento do “Eddinho”. Já a Lindi... ela sequer falou sobre isso já que ela estava em outra cidade trabalhando naquele tempo.
— Pra mim – disse o loiro – ela soube, porque o casamento foi transmitido pela TV e na internet. Tu sabe como é o alcance de alguma coisa a ser exibida na internet...
— Eu nem perguntei pra ela sobre isso quando ela veio para Maués.
— Depois que nasceu o menino anos atrás, eu nem queria mais saber de apaixonar e ser suspeito de engravidar uma moça. Eu já tive alguns relacionamentos, mas o meu medo persistiu e desisti de namorar – completa Freddy.
A moça, deitada ao lado do loiro, não tira o seu foco a ele, logo quando ela observa o peitoral exposto e a sua musculatura.
— Você deve estar malhando junto com o seu irmão – disse a moça.
— Malhando? – questiona o loiro – Meu irmão já é malhado faz anos... aqueles quinze meses de coma diminuiu bastante a musculatura, e ele está conseguindo se repor toda a massa que ele perdeu. Eu malho sim... mas malho de vez em quando. Eu não quero ser apelão como o meu irmão.
A moça começa a se encostar no loiro e Freddy começa a ficar vermelho ao sentir o tato do corpo, especialmente...
— Mana...
— Pois não, Frederico?
— Afaste-se de mim...
Percebendo a timidez do amigo, Joanna se aproxima na orelha do loiro para...
— Não vou não – sussurra a moça, deixando um beijo na bochecha do loiro, que fica tremendo de tanta timidez já explicado o motivo de não se apaixonar.
— Joanna, por favor...
— Já disse que não – sussurra novamente, que começa a agarrá-lo suavemente – tu tem que vencer o seu medo.
— Eu... eu... – gagueja o loiro – não consigo...
— Tu se lembra do nosso primeiro beijo? – sussurra Joanna, fazendo o próprio Freddy corar e rever o referido fato citado pela moça.
— Eu... eu... – gagueja o loiro, mais uma vez.
— Foi na nossa casa quando a gente fazia os nossos trabalhos... – sussurra – aliás você estava morando conosco naquele tempo quando o seu irmão viajou junto com a sua mãe.
— Mana...
De repente, o celular toca e Joanna atende a ligação.
— Alô?
— (Joanna?)
— Mana?
— (Sou eu...)
— Quem é, Joanna? – pergunta o loiro, no qual a moça apenas responde gesticulando ‘silêncio’.
— (Eu vi o Eddie... ele está preparando o carro para a próxima fase... eu não quero disputar o torneio...)
— Mana, calma, tenha calma...
— (Mas Joanna...)
— É a Jeyci que está falando? – questiona o loiro sobre a pessoa que está ligando, novamente recebe apenas o mesmo gesto da moça, de ‘silêncio’.
— Calma, mana, daqui a pouco eu já volto pra casa para a gente conversar, não se espante, ok? – termina a moça, encerrando a ligação na sequência.
— É a Jeyci que estava falando? – questiona novamente o loiro.
— A Jeyci está em casa, só que... – suspira – é a mana que é a eterna paixão do seu irmão que me ligou, mano – revela.
— A Lindinez? – duvida o loiro, ao mesmo tempo veste a camisa também camuflada.
— É – confirma – mas essa conversa que farei com a mana é pessoal, portanto, irei te deixar de volta para a sua casa, Frederico.
— Tá bom... o mano deve estar chegando dos testes das novas peças do carro para a segunda etapa.
— Tive que fazer alguns ajustes no meu carro para a sequência do torneio...
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Residência Família Ferruccio, Rua Henrique Magnani/Estrada Maués, Ramalho Júnior, 17:06
Joanna acaba de chegar em seu Ford Escort de cor preta na garagem da residência da família, pouco depois de deixar o amigo Freddy na residência do irmão e também amigo Eddie. Ainda de maiô, com short jeans e sandálias da cor roxa e carregando a sua bolsinha, a moça de cabelos vermelhos deixa o carro pouco depois de acionar freio de mão e desligar o veículo e sobe pela escada para ir ao chuveiro no banheiro no terceiro piso para retirar alguma impureza de areia deixada durante o banho na praia.
Depois do banho e se vestir no seu quarto suas roupas casuais de casa – camiseta branca e short jeans marrom, Joanna decide procurar as suas irmãs que estão lhe esperando, na sala pelo segundo piso.
Na sala pelo sofá em frente da TV, estão as irmãs Jeycianne, a primogênita e ao lado está a Lindinez, a irmã do meio. A primogênita está vestida com camiseta preta e short jeans azul, consolando a irmã.
— Mana... – disse a caçula, que é recepcionada pela irmã do meio com um abraço – eu sei que o seu coração fala mais alto por causa dele.
— Joanna – disse a primogênita – tentei acalmá-la de muitas vezes – explica – não queria que ela saísse de casa só porque ela viu um caminhão-guincho levando o Opala amarelo que o Eddie está dirigindo para o torneio passando pela rua. Ela não queria esperar por muito tempo, pegou da minha carteira uns cinco reais para pagar mototáxi para seguir o caminhão-guincho.
— Mana, você viu o Eddie mesmo? – pergunta a caçula à irmã do meio.
— Vi – responde, chorando – eu vi sim...
— Mana...
— Eu não quero confrontá-lo, porque eu ainda o amo...
— Se não quiser disputar o torneio por causa do Eddie, mana – disse a primogênita – desista! Nós duas iremos disputar por você!
— Mana – disse a caçula – e quem vai ficar com o prêmio?
— A gente se resolve mais tarde, Joanna – responde a primogênita para a caçula – vamos te deixar lá no quarto para que você se descanse – disse para a irmã do meio, acompanhando-a ao subir do terceiro piso – A gente sabe que foi um assunto muito delicado para você, mas é melhor que você refresque a sua mente.
Lindinez observou de longe o Eddie testando o seu Opala (que na verdade pertence ao seu irmão, Freddy) no aeroporto e, para ela, confrontar o Eddie no decorrer do torneio será um grande choque, já que Eddie foi a paixão da sua vida desde o colegial e foi ele que melhorou os seus estudos naquele tempo porque ambos fizeram trabalhos e tarefas de casa juntos, mesmo que se passaram anos sem que os dois se reencontrassem, e não quer vê-lo derrotado por ela no torneio.
O tal “beijo na praça em 1996” ainda está guardada na sua memória e na dele.
As cartas que recebia do Eddie via correio ainda estão guardadas em seu quarto.
Falando em cartas, a moça de cabelos castanhos pegou em seu armário no seu quarto uma carta, datada de 27 de outubro de 1997, e abriu o envelope, iniciando-se a sua leitura da carta escrita pelo Eddie:
“Querida Lindinez.
Sou eu, Eddie Peugeot. Você pode não acreditar, mas me tornei campeão mundial de Fórmula Peugeot aqui em Maués ontem, no Grande Prêmio do Brasil.
Não sei se você e suas irmãs, inclusive seus familiares, estiveram em alguma arquibancada pelos arredores do percurso do circuito, mas nem olhei em alguma arquibancada se você, ‘Lindi’, estava presente.
Quando cruzei a linha de chegada na última volta, recebendo a bandeira quadriculada, meu coração falou mais alto durante a volta de encerramento. Parei na frente da arquibancada montada na praça, escalei a grade do muro e festejei com o povo, mas olhei em algum ponto da arquibancada e não encontrei você.
E quando recebi o troféu na escadaria da igreja, meu coração falou muito mais alto e gritei, em pleno pódio, na frente de milhares de pessoas e da imprensa...
“Lindinez, eu te amo!”
E depois, ergui o troféu de campeão... e começou a festa que nunca irei esquecer.
Você sabe, Lindinez, que não desisti de você. Sabe que poderia me acompanhar a viagem do próximo ano para que você possa conhecer o mundo todo, do Brasil para a Europa, para a Austrália, Japão...
Que tal a gente passear para a Veneza quando formos para a Itália dias antes do Grande Prêmio da Itália?
Que tal a gente visitar a minha terra natal em Portugal para conhecer como é a cidade de Peugeotlândia?
Que tal?
Não me esqueça, porque eu te amo muito, eternamente, até o meu e o seu fim.
Beijos.
Eddie Peugeot – S2”
Lindinez não conteve as lágrimas ao ler completamente a carta redigida pelo Eddie Peugeot nessa data. Uma forte paixão distante, separada pelo tempo, pelo escândalo que abalou a vida do apaixonado, mas que nunca desistiram de que um dia os dois poderiam se reencontrar por uma nova chance, uma nova família, um novo tempo.
— Eu também te amo muito, Eddie – disse a moça, emocionada – eternamente até o meu e o seu fim.
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Pátio do Armazém de Lisa Stevens Organization, Rua Guaranópolis, Maresia, 08 de outubro de 2016, 09:00
Os corredores e os fãs de velocidade voltaram a se presenciar no retorno do torneio Maués Rumble Rally depois de duas semanas paralisado devido ao incidente após a corrida de Eddie Peugeot e Gael Piochi. Os carros estão presentes no pátio, porém, a multidão está concentrada em frente ao palco montado com púlpito.
— Cadê o Eddie, ele devia estar presente aqui, querida? – disse um rapaz de cabelos pretos despenteados, vestindo uma camisa laranja com o símbolo do Corinthians no peito do canto direito com calça preta e tênis vermelhos. Ao seu lado, está a sua amada de cabelos castanhos, vestida com a camisa verde, porém, com o símbolo do Palmeiras (arquirrival do Corinthians) com calça jeans escura e sapatos pretos.
— Ele costuma demorar para aparecer, Victor – responde a moça.
— Muita gente me contou que o carro dele está com uma performance melhor...
— Victor, tá pensando que ele vai correr agora? – o rapaz balança a cabeça, negando – Ele está na segunda fase! Ele está esperando ou a Jeycianne ou a Elina, que vão correr daqui a pouco!
No palco, surge uma moça bem conhecida pelo público de cabelos castanhos ondulados, de corpo físico um pouco cheinho, vestida de camisa lilás, calça jeans escura comprida e sapatos pretos com meias brancas, além de óculos de grau, andando em direção ao púlpito com o microfone e segurando uma folha de papel com o discurso que ela fará... agora.
— Testando, testando, som, som – testa o microfone, cujo volume está sendo regularizado pelos sonoplastas.
— Senhoras e senhores, população de Maués e fãs de corridas, sejam bem-vindos de volta ao Maués Rumble Rally – discursa Lisa Berger, que é aplaudida pela multidão – em nome da minha companheira na organização deste torneio, peço sinceras desculpas aos corredores envolvidos na competição pelo adiamento da sequência da primeira fase depois do ocorrido após a terceira corrida da série do duelo entre Eddie Peugeot e Gael Piochi. Então, em meu nome, peço também muitas desculpas por esse referido motivo – mais aplausos da multidão.
— Devemos também anunciar que o Eddie Peugeot já está classificado para a segunda fase por vencer a série de três corridas contra Gael Piochi, então iremos dar a continuidade da primeira fase para definir os confrontos da segunda fase – mais aplausos da multidão – enquanto o torneio estava suspenso, autorizamos aos corredores envolvidos para que pudessem fazer as mudanças e checagem dos seus veículos para que não haja nenhum problema durante a corrida. Caso haja problemas no veículo durante a corrida, o piloto será desclassificado e haverá guincho para o veículo a ser recolhido de volta para o pátio.
— Espero que o meu carro não sofra nenhum problema na corrida – disse Joanna, presente no meio da multidão, vestida com camiseta laranja, calça jeans escura comprida e sapatos marrons.
— Por cometer um ato de agressão contra o seu oponente pouco depois da corrida ser declarada encerrada, o piloto do veículo Fiat Prêmio modelo 1987, Gael Piochi, está banido por dez anos sem disputar um torneio de corrida de rua. Esse banimento já está declarado para os outros organizadores de torneios de corrida de rua e de track days pelo Brasil, evitando assim a sua participação nesses demais eventos – declara Lisa, revelando a punição ao Gael Piochi – Gael Piochi se encontra preso na unidade prisional da cidade.
— Graças a Deus que esse filho da puta se fodeu de vez – disse Jeycianne, também presente no meio da multidão, porém ao lado da irmã caçula, vestida com camiseta preta e jaqueta jeans clara, calça jeans escura e sapatos pretos, sentindo-se aliviada pela prisão do Gael.
— Com o prosseguimento do torneio, iremos relembrar os outros duelos pela primeira fase que irão acontecer hoje e, provavelmente, até amanhã – anuncia Lisa – a agenda de hoje tem os duelos: Jeycianne Ferruccio contra Elina Battaglia, Victor Hugo Battaglia contra Joanna Ferruccio – as citadas Irmãs Ferruccio observam entre si mesmas – e Kerolaine Ferreira contra Steffane Flora Dortmund.
— Mana, e a Lindinez? – pergunta a caçula para a primogênita – será que ela atendeu a declaração de desistência?
— Mana, eu não sei, mas ela deve falar daqui a pouquinho a confirmação ou não da desistência – responde a primogênita.
— E tivemos uma mudança na agenda de domingo, pessoal – avisa Lisa, deixando as irmãs Ferruccio e a multidão atentas – houve um pedido de desistência da pilota Lindinez Ferruccio, e o piloto Kenneth McCormick, que faria o duelo contra a pilota, está automaticamente garantido para a segunda fase. Então, a agenda de domingo tem os duelos: Geovanni Dortmund contra Yago Kury Correia, Donaldo Gomes contra Tenório Basso, e Corey Lanskin contra Alfredo Piochi.
A multidão ficou surpresa com o anúncio da desistência, inclusive as irmãs Jeycianne e Joanna, que já esperariam a confirmação da desistência de Lindinez.
— Mana, a ‘Lindi’ está fora mesmo – disse a caçula – agora o Eddie não terá mais problemas antes e durante a corrida por causa da mana.
— Mas o problema dele é o psicológico e a memória, que é capaz de que ele possa pensar e imaginar que a Lindinez está ao lado dele na cabine. E ela precisará assistir as corridas dele pela internet e evitar que ela venha para o pátio em numa hora decisiva.
— É mesmo... mas vai ser difícil, porque uma hora, a ‘Lindi’ ficará louca de querer vir pra cá para ver o Eddie.
— E nesse momento, chamando agora Elina Battaglia e Jeycianne Ferruccio para a primeira corrida! – avisa Lisa – e que as corridas começam!
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Estrada dos Moraes, Bairro Senador José Esteves
De um lado, está um Chevrolet Corsa Wind 1995 verde-azul com neons azuis pelo fundo, tendo como piloto... ou melhor, uma pilota, uma jovem de cabelos loiros vestida de camiseta preta, calça jeans escura e sapatos marrons. Seu nome, Elina Battaglia.
No outro lado, está um Renault Clio Authentique 2005 verde-escuro, com adesivos de folhas pelo capô e nas laterais do carro, tendo como também pilota uma veterana de 38 anos de cabelos dominantemente castanhos, porém com algumas mechas loiras, vestida também de camiseta preta, porém com jaqueta jeans clara, calça jeans escura e sapatos pretos. Seu nome, Jeycianne Ferruccio, ou ‘Jeyci’ como é conhecida.
No espaço entre os dois veículos, está a jovem Bebe Stevens, co-organizadora do torneio, vestida de camiseta preta, calça jeans escura com jaqueta vermelha amarrada e sapatos azuis, que está conversando com ambas as pilotas antes da largada.
— Lembrem-se, isso é disputa de série de três corridas. A mesma vencedora da primeira corrida leva a vaga se vencer a segunda corrida. Caso contrário, haverá uma corrida de desempate chamada de ‘morte súbita’ para definir a classificada para a segunda fase – explica a loira de cabelos cacheados.
As duas pilotas acenam suas cabeças, concordando com as explicações da loira. Em seguida, Bebe caminha mais em diante para preparar a largada da corrida.
— Você está pronta? – pergunta, para a pilota do Corsa, que responde acenando a cabeça, concordando – Você está pronta também? – pergunta, para Jeycianne, que também responde acenando a cabeça, concordando.
— Liguem os seus motores – estende os braços – preparar – fecha os braços – já!
Autorizados, os dois carros largam de forma instantânea, deixando a Bebe sentir poeira pouco depois de sinalizar o início da primeira corrida da série do duelo.
Jeycianne, ao bordo do seu Clio, teve um pouco de sorte de estar uns centímetros na frente em relação à sua oponente. Mesmo assim, ainda está concentrada no percurso da corrida porque antes de vir, havia prometido junto com a sua irmã caçula – que vai disputar depois do seu duelo contra Elina – que disputará pela irmã do meio, que não pode nem participar para evitar algum encontro inesperado entre ela e o Eddie Peugeot.
Porém, essa tranquilidade concentrada da Jeycianne passa a ser de preocupação quando a moça observa a presença do Corsa verde-azul já aproximando pelo retrovisor. As duas pilotas no momento estão na área próxima à rádio ainda na estrada.
Ao passar pela parte arborizada da estrada, que está dividida em dois sentidos, Jeycianne bem que aproveita uma leve desvantagem que a oponente sofre, mas não evita a preocupação de ser ultrapassada pela Elina.
Poucos metros depois, Jeycianne cruza os sentidos durante a esquina, passando para o sentido contrário enquanto Elina aproveita e entra no sentido certo da estrada. Metros depois, Jeycianne surpreende Elina ao bloquear a sua passagem ao retornar para o sentido certo, bem na frente da sua oponente. Logo depois, os dois carros fazem a curva direita, pegando a Avenida Getúlio Vargas e cruzam a roda próxima à praça, entrando pela Rua João Verçosa.
A preocupação de Jeycianne ainda é grande, mas tão grande que faz a moça suar de nervosismo.
“Merda, que merda e que merda!”— pensa, completamente nervosa.
Ao observar o Corsa da sua oponente agora de lado a lado, Jeycianne já estava mentalmente desesperada, pior ainda que já tinha chegado ao limite de marchas – seu carro possui cinco marchas de transmissão manual – quando, ao observar o seu volante personalizado, notou a presença do botão ‘N2O’, que aciona o óxido nitroso para ganhar velocidade. Sabendo que a corrida já está em metros finais próximos à linha de chegada, a vontade de apertar o botão aumentava ainda mais, porém, havia mais um problema: Jeycianne possui apenas uma garrafa de nitro, e se acionado, consumirá toda a garrafa, impossibilitando o uso futuro para a próxima corrida da série.
Como a linha de chegada está no meio do aterro da Rua Boa Vista, notam-se a presença de sinalizadores de fumaça no meio-fio, demarcando a chegada final do percurso.
Voltando para a visão da Jeycianne, a sua situação, em metros finais, já está se complicando demais para a pilota do Clio pois está focalizado tanto no botão ‘N2O’ quanto na corrida, praticamente distorcendo o seu olhar. Até que...
“Vou deixá-la vencer essa primeira corrida, porque eu vou tentar vencer de alguma forma a segunda corrida e conseguir a classificação no desempate”— pensa.
Por conta disso, Jeycianne vê o Corsa verde-azul passar na frente e cruza a linha de chegada depois, sacramentando a vitória da oponente na primeira corrida da série. Apesar da derrota, a irmã primogênita de Lindinez e Joanna se alivia porque a disputa era completamente acirrada e seu carro já estava no limite de câmbio e na potência, com tanto esforço que a deixou suada de nervosismo.
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Pátio do Armazém de Lisa Stevens Organization, Rua Guaranópolis, Maresia
De volta ao pátio, Joanna Ferruccio, que estava na torcida pela irmã primogênita, sente-se frustrada ao ver a sua irmã perdendo a primeira corrida da série. Porém, sua frustração durou pouco ao sentir as duas mãos segurando os seus ombros que, para ela, são bem familiares.
— Frederico! – advinha a moça de cabelos vermelhos, que vira para trás e reconhece a pessoa que acabou de citar – você me deu um susto, leso!
— Desculpa, Joanna – disse o loiro, que está vestindo uma camisa amarela, com calça cinzenta e tênis azuis – eu vim aqui só para acompanhar a competição.
— Cadê o seu carro e o “Eddinho”? – pergunta, tentando observar de longe a presença do Opala do Freddy.
— Eu vim de mototáxi, Joanna – responde – o Opala está com o Eddie e ele está ainda na residência, assistindo a corrida pela internet.
— Mano, a mana acabou de perder a corrida! – disse, desesperada sobre o referido resultado da corrida recente da irmã – e eu estou com medo de que aconteça algum problema com o carro dela!
— Calma, Joanna... – tranquiliza – ainda tem a segunda corrida e tu sabe que ela pode conseguir dar a volta por cima – disse, abraçando a moça para tranquilizá-la.
Enquanto isso, em num lugar nem tão longe da multidão...
O celular toca.
— Alô? – disse uma voz masculina.
— (Se lembra do nosso plano?)
— Repita por favor, porque eu estive atento na corrida.
— (Você está empregado como um dos fiscais de prova antes da largada, tá ligado? – explica – agora, quando terminar a reunião da definição da segunda corrida, você acompanha as pilotas normalmente. Mas na hora da checagem antes da largada, eu quero que você...)
— O que eu faço na hora da checagem? Os outros fiscais vão me desconfiar de alguma atitude suspeita!
— (Só apenas avisa a pilota que você fará apenas uma checagem no assoalho do carro, para tentar identificar algum problema, irregularidade, etc.)
— E...
— (Fure o cárter de óleo no motor do carro dela!)
— Mas se eu for furar o cárter de óleo, pode derramar um pouco de óleo no meu rosto!
— (Quem manda aqui sou eu! Eu te contratei para esse serviço, então pare de reclamar ou você não ganhará uma grana preta se não fizer esse serviço!)
— Ok...
A ligação é encerrada.
De volta ao pátio...
— Joanna – disse o loiro.
— O que foi, Frederico? – pergunta a moça de cabelos vermelhos.
— Cadê a Lindinez...
— A mana Lindinez está em casa, Frederico – responde, justificando a ausência da referida irmã – ela não pode vir e nem disputar o torneio, aliás, ela pediu desistência.
— Por quê? – pergunta, questionando sobre a desistência da referida pessoa.
— Ela não quer mexer com as emoções do “Eddinho” durante o torneio e sabia da possibilidade de que ela poderia confrontá-lo em numa eventual final.
— Caramba – o loiro fica surpreso com a justificativa – ainda bem que isso não vai acontecer, já imagina a Lindinez ganhando o Camaro da Lisa?
— Ô, Frederico – disse a moça.
— O que foi, Joanna? – disse o loiro, no qual a moça, que está de frente com o irmão caçula do Eddie, se encosta nele e abraça, enquanto o Freddy fica surpreso com a atitude da moça e ainda sente a timidez.
— Depois do torneio, independentemente do resultado se Eddie ganha ou não – a moça observa aos olhos do loiro, com um olhar sapeca – a gente... pode... dar uma voltinha com o seu Opala?
— Joanna, eu... – gagueja – eu digo que sim... – concorda, desviando o olhar – mas espero que o seu Escort esteja tudo bem depois do torneio, e o meu Opala também depois da competição.
— Você jura? – pergunta.
— Juro, Joanna – responde – para – gagueja – para relembrar a nossa... amizade.
— Tu esqueceu uma palavrinha que complementa a sua fala, Frederico.
— O qual?
— O nosso amor – o loiro fica com o semblante avermelhado de timidez – eu sei que você já teve outras relações, mas a nossa paixão nunca será apagada, assim como foi o seu irmão com a minha irmã – a moça se aproxima na orelha do loiro – o seu primeiro beijo foi comigo, não se lembra? – sussurra, no qual o loiro acaba tendo uma visão relembrando o fato.
Residência Família Ferruccio, Rua Henrique Magnani/Estrada Maués, Ramalho Júnior, 12 de Junho de 1997, 20:09
— Mana, eu vou rapidinho lá pra cozinha para conferir como está a sopa – disse a primogênita, saindo da sala rumo a cozinha.
— Tá, mana.
— Joanna, agora a gente... – o loiro sente a mão sendo tocada pela outra mão, só que da moça.
— A gente?
— Podemos finalizar antes da janta?
— Podemos sim... – observa aos olhos do loiro – mas tem que ser rápido, antes que a mana volta trazendo a sopa.
— Tá bom... espero que seja bem melhor ou igual ao mano no ano passado com a sua irmã – conclui.
Os dois continuam trocando os olhares até que... instantes depois... os dois lábios se encostam e iniciam um longo e demorado beijo. Um momento amoroso que acontece troca de salivas e de língua por língua. Freddy acreditava que seria um beijo curto, mas como já estava se acostumando, preferiu demorar um pouco.
Porém, quem estava observando de longe, mas não na cozinha e sim na escada para o segundo piso, era a irmã do meio, Lindinez, que está vendo a mesma cena que aconteceu com ela um ano antes com o irmão primogênito dele, sendo repetida pela sua irmã caçula e pelo irmão caçula da pessoa que se apaixonou um ano antes.
Ao sair da cozinha carregando a panela com a sopa já pronta, Jeycianne também flagra a sua irmã caçula beijando o Freddy. Isso os dois sequer notaram a presença das duas irmãs enquanto beijavam. Só foi o beijo terminar que os dois já notam a presença apenas de Jeycianne, boquiaberta.
— Meus parabéns, Joanna – disse a primogênita, irônica e com os braços cruzados – agora só falta agendar o casório e preparar a cerimônia e os padrinhos.
— Mana, foi só um beijo! – contesta Joanna – nossa irmã já teve um beijo parecido no ano passado!
— Mas eu não tava presente na praça quando a nossa irmã beijou o Eddie! – retribui a primogênita.
— Meninas, se vocês não estavam naquele dia em que o mano beijou a mana de vocês, inclusive eu... – disse o loiro – cadê a Lindinez? Cês não deveriam ter organizado um casamento antecipado com eles? – ironiza.
Dia presente
— Naquele tempo, a sua irmã pegou a gente no flagra.
— A Lindinez também nos viu escondida, maninho, ela mesma me contou dias depois porque soube de todo esse papo.
— Cheguei até falar que a Lindinez e o mano mereciam se casar quando a Jeyci disse que ‘só falta agendar o “nosso” casório, preparar a cerimônia e os padrinhos’.
— Casar... – disse a moça de cabelos vermelhos – era para ter mesmo acontecido bem mais cedo com eles.
— Pena que aquele cara filho da puta arruinou a reputação do Eddie naquela festa da formatura ao revelar que ele era ateu – relembra – ele temia que seria linchado pela população, a Jeyci e a Lindinez não mais o aceitará e estariam magoadas...
— Sabia que esse cara foi preso recentemente? Ele fez parte de uma rede de pedofilia no estado com ligações de uma igreja evangélica que nós já frequentávamos – Freddy balança a cabeça, entendendo erroneamente que jamais frequentou uma igreja evangélica.
— Ele que se fode e está pagando o alto preço que ele fez com o mano.
— Você pode me acompanhar para assistir a segunda corrida da mana?
— Eu vou, Joanna – concorda – já estou na expectativa da reação dela.
— Tomara que não haja nenhum problema com o carro...
X///////X
Rua Apoquitaua, Mirante do Éden
Novamente os dois carros, Renault Clio e Chevrolet Corsa, estão perfilados para a largada da segunda corrida da série.
— Com licença, senhora, posso conferir o seu carro por debaixo? – pergunta um dos fiscais, de cabelos praticamente pouco grandes e ondulados, com uma barbicha e vestindo uma camisa preta com a palavra ‘fiscal’ estampada nas costas, calça jeans e tênis preto, à motorista do Renault Clio.
— Sim – responde a moça, tranquilamente.
O fiscal desce e utiliza um “skate” para poder ‘conferir’ o fundo debaixo do carro. Porém, o que a Jeycianne não sabe, é que esse ‘fiscal’ está carregando um prego e um martelo, que ao enxergar o cárter de óleo no motor, ele coloca o prego e começa a furar o cárter. Depois de conseguir furar o cárter, o ‘fiscal’ tira o prego e começa o vazamento de óleo, no qual se desliza do seu “skate” e sai do fundo do carro, guardando de imediato o martelo dentro da sua camisa.
— Moças e moças motoristas desses carros – disse a loira cacheada Bebe Stevens para as referidas pilotas – Lembrem-se das regras do jogo. Você – aponta para Jeycianne – sabe que precisa vencer essa corrida para poder decidir uma corrida de desempate – Jeycianne acena a cabeça, concordando com as palavras da loira – Você – aponta para Elina Battaglia, pilota do Corsa – sabe que precisa vencer para se garantir na próxima fase – Elina também acena a cabeça.
“É agora que preciso dar uma arrancada daquelas tipo... tipo... como o “cunhadão” fez em 2012 na Fórmula Peugeot”— pensa Jeycianne, relembrando de um dos fatos que viu na carreira de piloto do Eddie.
— Estão preparadas? – estende os braços pelos lados – atenção – fecha os braços, batendo as palmas – JÁ!
Em seguida, de forma instantânea, os dois carros já largam logo após o sinal de início da Bebe Stevens, novamente sentindo a poeira da largada.
Porém, pouco depois da largada, Bebe estranhou a presença de uma poça líquida no chão no ponto de onde saiu o Renault Clio de Jeycianne. A loira, ao conferir e esfregar um dedo no líquido, sente-se que a substância era oleosa: era o óleo lubrificante do motor do carro de Jeycianne. E o pior, a loira percebe que o óleo seguiu vazando na trajetória da corrida. Em seguida, a loira tira do seu bolso um telefone celular modelo iPhone 7 para fazer a sua ligação.
— Lisa? Temos um carro com problemas de vazamento de óleo.
X///////X
Após a descida da Rua São João, os dois carros viram para esquerda e entram pela Rua das Icabanas, seguindo direto até virar para direta, entrando pela Rua dos Cuiabanos no sentido contrário. No momento, Jeycianne lidera com o seu Clio, mas ainda está na cola da Elina com o seu Corsa.
O que a Jeycianne não sabe é que o carro está sofrendo um vazamento de óleo graças à um furo no seu cárter de óleo causado por um falso fiscal de prova, ou seja, seu carro foi sabotado antes da largada. A qualquer momento, se o óleo ficar vazio, haverá problemas de superaquecimento do motor e consequentemente, o carro parará durante a corrida.
Enquanto isso, a pilota concorrente do Corsa, Elina, ao observar de lado, nota a presença de uma pequena espessura de líquido saindo por trás do carro. Era o óleo do motor. Só parou de vazar durante o percurso da rua, agora que o cárter está completamente vazio, expondo o motor à sérias consequências.
Seguindo adiante, logo após o final da rua, os dois carros viram para a direita, entrando em numa parte da Estrada Miri-Moraes, no qual a Jeycianne ainda fica na frente de Elina. Em seguida, os dois carros novamente viram para a esquerda, entrando pela Rua Boa Vista.
Sabendo que era a hora de se distanciar mais ainda em relação à sua oponente, Jeycianne aciona mais a marcha e ainda pisa mais fundo para aumentar a sua velocidade até atingir 250 km/h. Porém, esse exagero da pilota para tentar distanciar da sua oponente está forçando muito o seu motor, que está sem óleo e com risco de sérios problemas de funcionamento.
No fim do percurso entre Rua Boa Vista e Rua João Verçosa (combinando numa mesma reta), a líder da segunda corrida já vira para a direita, entrando no Largo Marechal Deodoro. Poucos segundos depois, é a vez da sua oponente Elina fazer o mesmo trajeto.
Sabendo-se que o ponto de chegada é na Avenida Antártica, Jeycianne novamente pisa mais fundo logo depois de ter virado para a esquerda, entrando na Avenida Dr. Pereira Barreto, com a velocidade chegando aos 250 km/h, parecendo que, para ela, a vitória estava garantida... quando de repente...
POW!!!
Um grande estouro é ouvido dentro do seu carro e uma fumaça sai do seu capô, assustando de vez a motorista do Clio, que vê o carro diminuir drasticamente de velocidade.
— Não... não... não... – disse Jeycianne, desesperada – não para não! Não para, não para, não para... – se desespera ainda mais, tendo a vontade de chorar.
Porém, já era tarde demais para a irmã primogênita de Lindinez e Joanna. O carro parou de funcionar literalmente e consequentemente, Jeycianne está automaticamente desclassificada. Com a velocidade caindo, Jeycianne estacionou o veículo bem na frente do Colégio Secundário de Maués, que já para de vez.
— O que aconteceu com o meu carrinho? – desespera Jeycianne, caindo nos prantos bem no volante.
Enquanto isso, a sua oponente Elina para o seu Corsa bem próximo ao seu Clio. A pilota sai do seu carro para conferir como está a pilota do Clio, percebendo a tristeza total da Jeycianne.
— O que foi?
— O meu carrinho querido quebrou, lesa – grita, de uma forma desesperadora e sofrida – alguém fez alguma merda com o meu carrinho queridinho!!!
A pilota loira do Corsa olha para trás e percebe a vinda de um caminhão reboque de emergência e volta a observar o sofrimento total da pilota do Clio.
— Mana, saia já porque o reboque já chegou para levar o seu carro – avisa.
— Eu não quero que levem o meu carro, não! – grita, de uma forma mais desesperadora – eu quero ficar com o meu carro, não levem o meu carro não, eu não quero...
— Eu te dou a carona para voltar ao pátio, mana. Não se preocupe, porque eles só vão avaliar o seu carro para conferir algumas causas do problema.
Sem alternativas, Jeycianne deixa o carro completamente triste e sai acompanhada pela Elina, que ambas entram no Corsa e em seguida, deixam o local rumo ao pátio da organização. Enquanto isso, os fiscais já colocam o Clio na caçamba do caminhão reboque e deixam o local também rumo ao pátio para o carro ser analisado.
X///////X
De volta ao pátio, a repercussão do acontecido chocou a multidão que estava observando pelo telão, especialmente Joanna e Freddy, porém, o semblante da moça já demonstrava a sua frustração e tristeza ao ver a sua irmã perdendo a corrida por problema mecânico no motor. Ela, no momento, está ao lado do amigo, em prantos e sendo consolada por ele.
— Calma, Joanna – disse Freddy, consolando.
— Calma o quê? – grita Joanna, desesperada – o carro dela quebrou de repente! Eu não quero correr com o medo de que o meu carro quebra também durante a corrida! – chora.
— Foi um problema mecânico, isso tudo acontece – tranquiliza.
— Isso tudo acontece? – grita Joanna – ela estava chegando para levar a disputa a ser decidida na corrida de desempate até a porra desse motor explodir em num momento tão decisivo!
— É tão estranho... – disse Freddy, sob desconfiança – o carro da Jeyci estava tão bem na corrida até que acontece essa explosão do motor e mata de vez a chance da Jeyci ganhar e levar a decisão para a “morte súbita”, tá me cheirando alguma suspeita de trapaça para prejudicá-la...
— Vocês dois são os familiares da Jeycianne Ferruccio? – disse uma voz feminina.
O casal vira para trás e se depara com a pessoa feminina de cabelos castanhos ondulados, de corpo físico um pouco cheinho, vestida de camisa lilás, calça jeans escura comprida e sapatos pretos com meias brancas, além de óculos de grau e sarnas no rosto.
— Eu sou a irmã dela – disse Joanna – esse aqui é amigo dela – apresenta o Freddy à organizadora.
— A Bebe me ligou que havia uma poça de óleo no ponto de onde a Jeycianne largou na segunda corrida – disse Lisa Berger – há indício de vazamento de óleo.
— Mas o cárter de óleo no motor estava intacto – disse Freddy, olhando para Joanna – como pode haver um vazamento de óleo?
— Só para lembrar a vocês que o motor do carro sem a adição do óleo no tanque aumenta os riscos de falhas mecânicas e explosão no motor – explica Lisa.
— Então pode haver uma suspeita de sabotagem no carro da mana! – desconfia Joanna, completamente irritada – Alguém sabotou o carro da Jeyci!
— Até agora, nada de informação dessa tal suspeita de sabotagem – disse Lisa – nossos fiscais vão analisar todo o carro para descobrir algum defeito que causou esse problema.
De repente, Joanna sai dos braços do Freddy e corre bem distante dos dois.
— Joanna, volta! – grita Frederico, mas nada adianta porque a moça continuou correndo em diante.
— Frederico Peugeot – disse Lisa – você sabe que ela vai disputar o próximo duelo de hoje.
— Eu sei... mas essa Elina vai enfrentar o meu irmão, não?
— O cruzamento do torneio determina esse confronto, Frederico. Ele vai enfrentá-la na outra semana.
— Espero que seja uma ótima corrida para a Joanna... minha doce amiga... – termina Freddy, baixando a cabeça.
Elina Battaglia está classificada para a próxima fase do torneio e enfrentará o Eddie Peugeot. Mas a desconfiança da ‘suposta’ sabotagem que resultou em problemas mecânicos no carro da Jeycianne está à flor da pele para Freddy e para Joanna, além claro, do Eddie e Lindinez, que acompanharam de longe toda a corrida da primogênita das irmãs Ferruccio.
Joanna Ferruccio, caçula do trio de irmãs, não está nada feliz e tentará de vez sacramentar a sua chance de ter sucesso no torneio. E a próxima corrida do torneio é entre Joanna Ferruccio e Victor Hugo Battaglia.
Em seu Ford Escort, ao sentar no banco do motorista e fechar a porta, ainda com lágrimas no rosto, a moça de cabelos vermelhos tingidos esfrega o rosto para limpar as lágrimas e segura no volante do carro, demonstrando o seu semblante de determinada e enraivecida.
— Essa corrida eu vou ganhar na porrada! Nada vai poder me parar já!
— CHAMANDO VICTOR HUGO BATTAGLIA E JOANNA FERRUCCIO! REPITO, CHAMANDO VICTOR HUGO BATTAGLIA E JOANNA FERRUCCIO!
(CONTINUA)
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