Quando Trunks tinha treze anos assumiu a sua condição de pupilo e Son Gohan de mestre. Percebi o quão forte era essa relação depois de o filho de Goku também ter acabado assassinado pelos humanos artificiais num dia de chuva gelada. Foi também nesse dia que o meu filho conseguira convocar a raiva necessária para atingir o estágio de super saiya-jin.

Completamente sozinho, Gohan assumira a resistência contra os humanos artificiais. Lutava contra eles desde que completara dezassete anos. De uma forma sistemática, procurava-lhes pelas fraquezas. Estudava-os repetidamente, sem se cansar. Não se podia demorar muito no desafio e no confronto, porém. Fingia que brincava com eles, fingimento que não passava despercebido aos humanos artificiais, especialmente ao rapaz, número 17, que se divertia com as tentativas de Gohan para sondá-los. Era uma guerra perdida, Gohan sabia-o, mas não iria desistir de os perseguir. Afinal, ele era o filho de Son Goku.

Chi-Chi não o sabia diretamente, porque Gohan nunca lhe contara, mas desconfiava, claro. Detestava que o filho se empenhasse numa tarefa estéril. Ninguém conseguiria derrotar aqueles malditos humanos artificiais. Uma vez falámos sobre o assunto. Disse-lhe que falaria com Gohan, mas acabei por nunca o fazer. Na altura, achei que a oportunidade certa nunca se apresentara. Agora, vejo que fui indolente, propositadamente. Temia que Trunks lhe seguisse as pegadas. Não que isso fizesse alguma diferença – Trunks acabara por se envolver com Gohan.

Tinha treze anos quando aconteceram os encontros. O meu filho estava naquela idade em que começava a desenhar a personalidade, a vincar o adulto que um dia se tornaria. Para meu grande alívio, abandonara a seriedade e o estilo ligeiramente presunçoso de quando era bebé. A infância, malgrado as circunstâncias, fora pacífica. Mas a adolescência ameaçava ser tempestuosa. Um dia, quando regressávamos a casa após uma saída em busca de mantimentos, que era quando fazíamos as viagens mais longas, pois a comida era conseguida em locais cada vez mais distantes, ouvimos pelo autorádio um boletim noticioso anunciando mais um ataque dos humanos artificiais. O local era próximo, uma cidadezinha situada a sul. Saiu-me disparado do carro, apesar de eu lhe ter gritado que ficasse.

Trunks saiu a voar. Não me espantei. Descobrira-o a flutuar, um dia, no relvado da Capsule Corporation quando tinha dez anos.

- O que é que estás a fazer? – Perguntara-lhe.

Aterrara atrapalhado. Negara, como se eu o tivesse apanhado a furtar fruta no mercado.

- Nada, ‘kaasan.

- Pensas que me importo por estares a voar?

Fixara em mim os seus bonitos olhos azuis. Fez que sim com a cabeça, torcendo as mãos atrás das costas.

- Eu não me importo, Trunks. Afinal, tens sangue saiya-jin nas veias. Saber voar deve fazer parte do vosso desenvolvimento normal… Acho eu.

- Bem, isso não sei… Só sei que custou-me um bocadinho dominar esta técnica.

- Que outras técnicas sabes tu?

Encolhera os ombros.

- Sei… Sei concentrar energia quando mais preciso dela Sei disparar o meu ki com as mãos. Sei sentir o ki das outras pessoas.

- Oh… E quem te ensinou essas coisas?

- Ninguém… Estou a aprender sozinho.

- Ah, bom… Pensei que tivesse sido Gohan-kun.

Corara e eu percebera que continuava a falar com Gohan. Isso acontecera quando contava dez anos. Os contactos seriam à distância, como tinham sido até ali. Por telefone, por intercomunicador que recomeçara a funcionar durantes alguns dias por mês. Com treze anos, no entanto, o filho de Vegeta aceitou ser ensinado pelo filho de Goku.

Portei-me como Chi-Chi – fingia que não o sabia. Bem, Trunks também nunca me contara diretamente que Gohan era o seu mestre. Sumia-se durante tardes inteiras e regressava cansado, mas feliz. Mais do que felicidade, lia orgulho na sua jovem expressão e apoquentava-me. Fora o orgulho que matara o seu pai e eu nem sequer queria pensar que Trunks teria a veleidade de conseguir derrotar os humanos artificiais, naquela idade e só porque estava a ter lições com outro saiya-jin,quando tantos outros, antes dele, tinham falhado clamorosamente. Outros com mais experiência, força e habilidade.

Continuava a trabalhar na máquina do tempo. A estrutura estava quase concluída. Não a planeara muito grande, um veículo apenas com espaço para um passageiro. Por um lado, os materiais que usava para a construção estavam muito caros e eram difíceis de arranjar. Por outro lado, considerava que bastava uma pessoa para fazer a viagem até ao passado e entregar o medicamento a Goku. Entrementes, programava o computador central da máquina e definia o complicado software. Os avanços eram mínimos, mas compensadores. Nesses dias, em que se treinava com Gohan, Trunks desinteressara-se pelo meu projeto. Mais um sinal de que se rebelava contra mim.

***

Era de noite e eu estava preocupada. Trunks ainda não tinha regressado das suas misteriosas tardes de treino com Gohan. As baterias do rádio tinham acabado quando se transmitia um relato alarmante de um ataque dos humanos artificiais a um parque de diversões. Escurecera, entretanto e eu não fora comprar baterias novas. Não saía quando anoitecia. Havia vigilantes nas ruas e de vez em quando apareciam bandos de gatunos que se aproveitavam do caos instalado na cidade para pilhar e destruir ainda mais. Outrora uma metrópole viva à noite, West City tinha-se transformado num local demasiado perigoso para uma mulher sozinha depois de o sol se pôr.

Resolvi trabalhar na máquina do tempo. Sentei-me em frente ao computador e deixei-me absorver pelo trabalho. Concentrada no ecrã, consegui resolver o que entravava o progresso do software que permitiria escolher as várias dimensões temporais em poucos minutos. Estava a congratular-me por ter avançado um pouco mais no projeto, quando Trunks apareceu. Carregava Gohan às costas que estava inconsciente de tão ferido e reparei horrorizada que tinha perdido o braço esquerdo.

Deitámo-lo no quarto que fora dos meus pais, porque era o mais amplo de que dispúnhamos na Capsule Corporation. Consegui convencer o médico a aparecer. Deixou-nos as drogas necessárias para mantermos Gohan sedado, ligaduras e pomadas para os ferimentos. Prometeu regressar na manhã seguinte. Não aconselhou o hospital, estava apinhado de doentes, de feridos. Um cenário de guerra.

Trunks vigiava Gohan, debruçado sobre a cama. Mostrava-se apreensivo. Gohan tinha murmurado algumas palavras raivosas contra os humanos artificiais, espantara-me porque o médico nos tinha avisado que só iria despertar dali a cinco dias – dera-lhe medicação suficiente para o adormecer durante esse tempo, para que não sentisse tantas dores, afinal um braço fora-lhe amputado. Mas voltara a cair num sono profundo e não se mexia havia alguns minutos.

- Vocês estão a combater os humanos artificiais juntos?

O olhar que Trunks me deitou não me tranquilizou. Encolheu-se, voltado para Gohan para que eu não lhe adivinhasse os sentimentos através dos olhos.

- Responde-me, Trunks.

- Acho que não te posso dizer que não, tendo em conta o estado de Gohan-san.

- Eu sei que ele combate os humanos artificiais. O que eu perguntei é se o fazem – e vinquei – juntos.

- Eu estava com ele, sim…

- Trunks, tu só tens treze anos.

- Eu não posso ficar de braços cruzados enquanto aqueles dois malditos bonecos de lata destroem o nosso mundo! – Gritou, de punhos cerrados, esquecendo as cautelas.

Não parti para o confronto. A minha voz continuava calma quando disse:

- Julgo que já tivemos esta conversa. E eu tinha-te explicado como é inútil combater os humanos artificiais apenas com a força. Muitos tentaram antes de ti e de Gohan. Não resultou.

- A tua máquina do tempo também não é solução.

- É a única solução! – Exclamei, ferida no meu orgulho.

- E será que alguma vez a vais terminar, ‘kaasan?

- Nani?

Pousei num móvel as toalhas dobradas que me ocupavam os braços.

- Há quantos anos é que trabalhas nessa máquina? Parece-me que desde sempre.

- Não é um projeto fácil, Trunks.

- Lutar contra os humanos artificiais também não é fácil, mas nós tentamos fazê-lo da melhor maneira, que é combatendo. Punhos, pontapés e energia. E quando chegar a ser um super saiya-jin, como Gohan-san, seremos dois super saiya-jin contra dois humanos artificiais. Teremos mais hipóteses.

- É esse o vosso plano?

- É esse o nosso plano – confirmou, inchado como um pavão.

Contornei a cama de Gohan, deixei que ficasse entre nós os dois, como se estivesse a definir dois campos distintos no terreno da nossa batalha.

- Olha para ele, Trunks – disse, em voz baixa. – Este último encontro com os humanos artificiais deixou sequelas graves. Perdeu um braço! Mesmo que seja um super saiya-jin, terá limitações a combater a partir de hoje.

- Não acredito que Gohan-san se vai acobardar e deixar de lutar só porque tem menos um braço. Vai ter-me ao lado dele.

- Trunks-kun…

- E para de me tratar como uma criança – atirou numa lamúria irada. – Já não sou uma criança!

Saiu do quarto como um vendaval.

Fiquei desanimada. Fora como se, para além de Gohan, também eu tivesse sido derrotada pelos humanos artificiais naquele dia. Tinham assaltado a alma do meu querido Trunks.

Olhei para o jovem Gohan e o meu coração minguou, porque ali estava o espelho de todo o nosso sofrimento e quão inútil parecia qualquer tipo de resistência. Limpei as lágrimas, de seguida, fungando. Tinha de me recompor, agarrar no telefone e dar a notícia a Chi-Chi. Ela deveria estar preocupada com o filho.

Notas finais
Continua...
Próximo capítulo:
A esperança que se colhe depois de semeada.