Cortei o cabelo. Estava cansada de o usar comprido e descuidado, preso num rabo-de-cavalo junto à nuca, sem qualquer vestígio de penteado ou de vaidade. Cortei o cabelo e senti-me melhor quando me vi ao espelho, admirando a minha nova imagem.

Já não era jovem, tinha dobrado os cinquenta, mas não me deixava abater pelo peso da idade e por toda a amargura e desilusão que tinha norteado a minha existência nos últimos vinte anos. Agora, sentia-me pronta para recomeçar, tal como a cidade em meu redor e o mundo inteiro para além das fronteiras desta. Os trabalhos de reconstrução de West City tinham começado e o ar impregnava-se de sons de gruas e de martelos, três anos depois do desaparecimento dos humanos artificiais.

Fui até ao exterior do complexo da Capsule Corporation onde Trunks esperava por mim, vestido com o equipamento de combate que fabricara para Vegeta, emulando o mesmo porte régio do pai. A máquina do tempo tinha os depósitos cheios e brilhava triunfante, com um raio de sol a bater na cobertura transparente e aberta da carlinga. Ele disse-me que iria viajar novamente para o passado para contar que tinha liquidado os androides número 17 e número 18 e que a paz havia sido restaurada no nosso mundo.

- Trunks, tem cuidado – pedi. – Diz-lhes que envio cumprimentos.

- Hai, ‘kaasan.

De repente, franziu o sobrolho.

- ‘Kaasan, vai para casa.

- O que foi? Temos visitas?

Julguei que tinha percebido a súbita reserva dele. Retirei as mãos dos bolsos das calças brancas, semicerrei os olhos.

- Ah… É uma namorada?

Dei-lhe uma cotovelada cúmplice, gracejando de seguida:

- Como é que conseguiste arranjar uma namorada, meu sonsinho?

Mas Trunks não respondeu à minha brincadeira e percebi que era coisa séria pois o sobrolho continuava franzido, enquanto controlava os movimentos atrás dele e da máquina do tempo. Entrei na Capsule Corporation numa corrida.

Dentro de casa, pus-me a espreitar o exterior através de uma janela.

Vi o monstro verde, semelhante a um inseto gigante, a aproximar-se de Trunks. Vi os dois a falarem. Vi depois o meu filho empurrá-lo, com uma barreira invisível de ki, que fez disparar o monstro pelos ares. Trunks foi em sua perseguição e sumiram-se os dois no céu azul.

Encostei-me à parede, a morder o lábio inferior. Tinhas as mãos suadas. O coração batia assustado e, de repente, o peso daqueles anos todos desabou sobre mim como uma chuva de pedras.

Levei uma mão ao peito, enquanto deslizava pela parede e aterrava no chão. Por muito que achasse que deveria ser absolutamente necessário naquela hora de desamparo, não consegui derramar uma única lágrima. Quando era mais nova, era uma chorona, chorava por tudo e por nada, como uma forma de chamar a atenção e de fazer valer a minha vontade, caprichos de menina a quem nada, nunca, lhe tinha sido negado. Mas quando os tempos exigiam o desabafo de um choro que limpasse a alma, retivera todas as lágrimas.

Como ali, naquele dia em que o meu filho perseguia um monstro que, segundo o relato dele, num passado que não era o meu, trouxera mais desgraça ao mundo do que o par de humanos artificiais que havia devastado os dias da minha juventude. Estava com medo, essa era a verdade, mas as pedras que me tinham soterrado não conseguiam arrancar de mim nada… Estava seca, nem uma lágrima.

Achei que devia ter chorado mais. As lágrimas obrigatórias por Goku e pelos meus amigos caídos num estúpido combate que não tinham procurado e para o qual não estavam à altura. As lágrimas suficientes por Vegeta, que eu amava com todo o meu coração, apesar da indiferença e dos magros momentos que partilhámos. As lágrimas necessárias pelo meu pai e pela minha mãe. As lágrimas sofridas por Gohan, o último a cair, o que acabou por levar para o esquecimento tudo o que eu tinha sido nos dias felizes. As lágrimas pelo terror que me assaltara as longas noites de derrota e de incerteza, em que me abraçava ao corpo pequeno do meu filho e em quem, secretamente, depositava todo o peso da minha necessidade imperiosa de regressar a esses dias felizes.

E, de repente, embrulhei-me em silêncio.

A voz de Trunks chamou-me.

- Okaasan?

O meu filho voltava. Tinha-se passado muito tempo, mas não dera pelo correr das horas. Pela janela, o brilho do dia diminuíra e os sons de reconstrução tinham cessado, sinal de que os trabalhos tinham sido interrompidos para a noite. Atirei-me ao pescoço dele. Mas não estava ferido, nem mostrava cansaço. Entalei a cara de Trunks entre as mãos para olhar diretamente para os olhos azuis dele. Continuavam serenos.

- Filho…

- Faltava ainda este capítulo.

- O Cell que te queria roubar a máquina do tempo?

- Esse mesmo. O monstro biológico do Dr. Gero.

- O que te matou para te roubar a máquina e ir até ao passado onde Goku, tu e todos os nossos amigos o acabaram por encontrar e tiveram tantas dificuldades em derrotar?

- Isso aconteceu noutra era, não nesta, em que estava preparado para a vinda do monstro.

- Mas quantas linhas temporais existem?

- Pelos vistos, três… A linha temporal em que existimos, uma segunda linha temporal semelhante a esta onde fui assassinado por Cell e uma terceira linha temporal onde os nossos amigos estão vivos. Estavas preocupada comigo?

- Claro, Trunks!

Sorriu, retirando-me as mãos da cara, estreitando-as nas suas. Deixou-me um beijo na testa, que estava fria, em contraste com os lábios dele que estavam quentes. Lembrou-me, por uma parcela de segundo, do toque de Vegeta, que também sabia ser carinhoso, nos seus melhores momentos.

- Já terminou, ‘kaasan. Infelizmente, não sem alguns estragos. Vais ouvir brevemente, nas notícias, o que Cell andou a fazer nestes últimos dias. Matou algumas pessoas em cidades próximas, para lhes absorver a energia.

- Os repórteres vão lançar uma nova vaga de pânico, julgando que temos outro inimigo na Terra, depois do fim dos humanos artificiais. Três anos depois e regressa a loucura.

- Exato. Mas como Cell não voltará a atacar, o pânico vai morrer por si.

- Hai.

Respirei fundo, recuperando o ânimo. Libertei as mãos das dele.

- Vamos beber um chá e comer qualquer coisa. Precisas de recuperar as forças, depois desse combate.

Trunks ficou pregado ao chão.

- ‘Kaasan… Não estou cansado. A máquina do tempo está pronta para partir e eu queria ainda fazer essa última viagem até ao passado.

- Podes fazer essa viagem, só que não vai ser agora. Pregaste um grande susto à tua mãe e deves-me companhia no chá da tarde. Concordas?

- Concordo – respondeu quase num murmúrio.

- Mas primeiro vais despir esse equipamento. Cá em casa… – Senti um nó na garganta ao dizer isto. – vestimo-nos como pessoas normais.

- Hai, ‘kaasan.

Entrei na cozinha. Enchi a chaleira de água e percebi que tínhamos, finalmente, vencido. Não havia mais nenhum obstáculo entre nós e a felicidade. O passado ficava definitivamente sepultado. Apesar de, teoricamente, eu puder regressar a esse passado porque tinha construído uma máquina do tempo.

Apesar de conseguir convocar o passado com a ajuda dos meus fantasmas.

Não, nunca mais. O futuro aguardava-me.

Bastou olhar para Trunks a entrar na cozinha e sentar-se à mesa para que acreditasse nesse facto com toda a força. Sorri, satisfeita.

E quando Trunks me sorriu de volta, a vitória tornou-se completa.

***

Meses depois, quando também a Capsule Corporation fora contaminada pela febre da reconstrução e o complexo estava revirado de cima a baixo pelos trabalhos que decorriam, gostava de ir até ao parque que se situava próximo, num local elevado de onde conseguia ver a minha casa. Passava aí alguns momentos do dia, encostada a uma árvore, a ler um livro. Ainda não tinha conseguido uma revista de moda e de mexericos, mas tinha o pressentimento de que iria em breve ter uma entre mãos e sorria a antecipar esse dia glorioso.

Trunks foi ter comigo e levantei-me, sacudindo a relva e a terra das calças. Passou-me um braço pelos ombros e ficámos a ver as gruas a trabalharem incansáveis sobre a Capsule Corporation, recuperando a cúpula que se tinha esventrado no dia em que o ataque dos humanos artificiais tinha ferido gravemente o Dr. Brief.

A paz era uma sensação estranha, mas inebriante, como um vinho novo. Tinha descoberto que teria de reaprender a viver num mundo pacificado, quando, ao anoitecer, ainda armava as defesas eletrónicas do exterior do complexo e apagava as luzes todas da casa, andava em bicos de pés e dormia no chão, entre a cama e um armário, para disfarçar a minha presença no quarto.

Debaixo do abraço do meu filho, fechei os olhos e involuntariamente recordei-me de Vegeta. Rezei por ele, que deveria vaguear pelo Inferno. Não o Vegeta que tinha disparado a sua ira sobre Cell para defender o filho, mas o meu Vegeta, o irascível, orgulhoso e solitário príncipe dos saiya-jin do meu passado, o meu mais querido fantasma.

Recordei-me de como gostava do cheiro dele, tanto ou mais que ele gostava do meu. Um odor distinto que emanava da pele despida, perigosa, indomável. Estávamos na nave, a intensa luz branca apagada, movíamo-nos nas sombras. Os contornos eram percetíveis através da claridade emanada pelas vigias do convés superior. Eu enfiava o nariz no cabelo negro, junto à nuca, cheirava-o demoradamente, absorvendo com prazer o perfume que se soltava daquela rebeldia. Sentia todas as fibras do corpo dele arrepiarem-se por saber-me tão perto, a luta interior para não me afastar porque me desejava com a mesma determinação e eu sabia que tinha alcançado aquele coração duro e frio, mesmo que fosse apenas pelo momento de uma inspiração, o cheiro entrando pelas narinas. Ele deixando-se cheirar, rígido, aguardando a carícia que se seguia, curioso por aquilo que experimentava, uma novidade certamente. A extrema proximidade com alguém que não iria assassinar. Novidade era para mim, isso sim, sem qualquer dúvida. Respondia-me com um gesto brusco, travando-me os braços, manietando-me, prendendo-me debaixo do corpo dele, exercendo a supremacia que achava que deveria demonstrar, para que eu soubesse sempre quem liderava. A seguir, cheirava-me, junto à orelha, gemendo docemente de prazer. E era assim, dessa maneira espantosa, que mostrava o que sentia por mim.

- ‘Kaasan?

Dias preciosos e inesquecíveis.

Olhei para Trunks, pestanejando para afastar essa lembrança.

- ´Kaasan, estás a sorrir.

- Julgo que ganhámos o direito de sorrir, Trunks.

- Hai!

A paisagem era ainda desoladora. Até ao horizonte via-se terreno despido, rasgado por enormes crateras, onde tinham ocorrido as explosões. Edifícios parcialmente destruídos, os escombros enegrecidos pelos incêndios e pela humidade. Terreno queimado e estéril, privado de vida e de som, onde assobiava o vento que se lamentava da perda inútil e sem sentido. A cidade moribunda a reerguer-se lenta mas resolutamente da hecatombe, apagando as cicatrizes. Tal como eu, que ainda continuava a dormir no chão, mas que teria de reaprender a confiar na segurança do meu quarto, outrora um castelo inexpugnável.

Mas para além dessa paisagem desanimadora havia também um futuro. O passado estava definitivamente sepultado, Trunks já tinha feito a sua última viagem no tempo. A máquina repousava na sua cápsula e tencionava desmantelá-la para não haver tentações. Eu tinha o cabelo curto, tinha comprado roupas novas e lia livros no parque, enquanto contemplava a Capsule Corporation a renascer das cinzas.

Contemplava também uma paisagem gloriosa de feitos e de ambições por estrear.

- Trunks, acho que devemos celebrar.

- Celebrar?

- Hai, dar uma festa. O que te parece?

Deu uma gargalhada e enterneci-me por vê-lo feliz. Sempre fora um miúdo tão introspetivo e sofrido.

- Acho uma excelente ideia! – Exclamou entusiasmado.

E daquele fim, nasceu um novo início.

Notas finais
E assim acaba esta pequena fic...
Quero agradecer a todos os meus leitores, especialmente à LiLuni cham, pelos seus comentários deliciosos e pelo seu entusiasmo.
Dedico-lhe esta fic, de todo o coração.
Até ao meu regresso!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!