Puar pediu-me:

- Não vás, Bulma-san…

Engoli em seco, respirando fundo. O ar carregado de pó fez-me doer os pulmões. Estava transida de medo, tal como em Namek, pensando em como era matematicamente impossível estar na mesma embrulhada mortal duas vezes e das duas vezes não ter uma qualquer solução prática para me salvar. Estava, novamente, nas mãos de Son-kun, esperando, tal como tinha dito Piccolo, que ele estivesse suficiente perto de nós para vir em auxílio da Terra.

- Não ouviste? Para além de Freeza, existe outro inimigo.

Apoiei as mãos na cintura.

- Ah! Se cheguei até aqui, não vou voltar para trás!

Puar escandalizou-se, tapando a boca com as patas.

- Bulma-san!

- Achas que vou acobardar-me, agora que estou tão próximo do meu objetivo? Só se fosse idiota! E idiota é coisa que não sou. Eu sou…

Retive o ar no peito. Anunciei cheia de orgulho em mim mesma:

- Eu sou Bulma! E não recuo ante nada!

- O combate vai começar e vai tornar-se demasiado perigoso.

Antes que perdesse a coragem que, subitamente, me aquecia toda por dentro, afastando o medo que me pregava àquele chão agreste, agarrei em Puar pela longa e felpuda cauda azul e desatei a correr. Ouvi o gato a guinchar atrás de mim. Disse destemida:

- Não te preocupes! Vegeta vai proteger-me.

Acreditava que sim, pois sabia que Piccolo tinha razão. Só o saiya-jin poderia enfrentar Freeza e ter alguma possibilidade de o derrotar. Era curioso como não colocava a minha vida nas mãos de Gohan, mais confiável, mas também menos maduro nas artes de combate. Quanto a Piccolo, o demónio nunca seria uma opção – infundia-me mais receio que Vegeta.

Tive de parar repentinamente quando se ergueu diante de mim um penhasco de uma altura impossível de transpor. Puar soltou novo guincho quando embateu no rochedo. Larguei-lhe a cauda, vendo-o a flutuar zonzo diante de mim, com as patitas dianteiras a tentar tatear o que o rodeava para se apoiar em alguma coisa. Torci a boca pintada num esgar.

- E agora, como fazemos para passar por cima disto? Acho que eles estão do outro lado.

- Damos a volta… — gaguejou Puar.

- A volta? Oh! Mas vamos levar uma eternidade!

- Não existe outra maneira.

- Tu consegues voar. Espreita ali por cima e vê se eles estão mesmo do outro lado. O esforço de contornar esta montanha tem de valer a pena.

- Hai.

Obediente, o gato azul foi até ao cimo do penhasco. Vi-o subir com uma lentidão exasperante, ziguezagueando para escapar das pontas afiadas de rocha. Mordi o lábio inferior, batendo com o pé direito, nervosa porque Puar nunca mais se despachava.

- Vamos, vamos… — murmurava. – Vamos…

Perto do topo, abrandou ainda mais o voo. Enfiou a cabeça entre os ombros, apoiou-se numa saliência e espreitou. Baixou imediatamente as orelhas e veio até baixo como uma flecha, demorando menos de metade do tempo que tinha levado a subir até lá acima.

- Então? – Indaguei ansiosa. – O que foi que viste?

- A nave!... – Exclamou tremelicando. – A nave está ali, pousada numa espécie de planalto. À frente da nave está um batalhão de extraterrestres, cada um da sua cor, vestidos com as armaduras dos saiya-jin.

- E Freeza?

- Não sei. Deve estar lá, mas eu não sei como ele é para saber se realmente está junto da nave, ou não.

- E Vegeta e os outros?

- Não os vi. Devem estra escondidos à espera da melhor ocasião para atacarem. Mas já devem ter sido detetados, pois os extraterrestres estão agitados.

- Muito bem.

Olhei para o cimo do penhasco.

- Estão do outro lado, então… Vamos, Puar!

Enveredei por um caminho disfarçado entre as rochas, do meu lado direito. Parecia igualmente que subia e era isso que eu queria: subir, para poder alcançar o planalto que ficava para lá do penhasco onde estava a nave de Freeza. Enquanto caminhava, apoiando cuidadosamente os pés para não escorregar, lamentei o facto de Puar ter tão pouca força e não conseguir aguentar comigo, senão bastava agarrar-me às patas dele que haveria de me transportar lá para cima, onde tinha estado. Que inveja! Até Puar já tinha visto Freeza – sim, pois eu acreditava que ele estaria a comandar o tal batalhão de extraterrestres – e eu não.

O caminho principiou a estreitar e subi para um rochedo pontiagudo, equilibrando-me no cimo. Como senti a sola das sapatilhas a resvalar e percebi que iria perder o terreno entretanto conquistado, agarrei-me com toda à força ao rochedo. Raspei a palma da mão esquerda, senti uma dor intensa, mas fiz mais um esforço e consegui içar-me. De repente, do outro lado não havia nada. Rebolei por uma escarpa abaixo, parando quando embati de costas noutro rochedo, as pernas para o alto, o pescoço dobrado, o queixo a tocar no peito. Puar gritava:

- Bulma-san! Estás bem?

- Acho… Acho que sim – respondi, deixando cair o corpo para o lado para sair daquela posição cómica.

Vi sangue na perna. Levantei-me a sacudir a poeira da saia laranja. Tinha rasgado a bainha, observei contrariada. A par do cabelo, também tinha estreado o vestido naquele dia. E já estava estragado.

Quando levantei a cabeça, o coração deu um salto. Agarrei-me à parede rochosa que tinha amortecido a minha queda. Encontrei Gohan e Piccolo, que desciam para junto do batalhão de extraterrestres que Puar havia avistado. Via também em toda a sua enormidade a nave de Freeza, pousada como Puar tinha descrito. Via o planalto, mas, virando a cabeça de um lado para o outro, não conseguia ver muito mais – nem Vegeta, nem Freeza, nem o tal segundo inimigo muito poderoso. Havia uma parede de rochas recortadas como dentes que me tapava a visão. Mas descobri uma ladeira que serpenteava mais para baixo e que passava entre essas rochas.

Galgando a parede rochosa, acenei:

- Puar, estamos perto. Vamos!

O gato suspirou. Já nem considerava avisar-me, pois sabia que qualquer palavra seria inútil naquela altura. Nada me iria demover daquela aventura.

Agora que me recordo dela, sorrio. Sempre fora intrépida, mas com todos os anos que passaram depois desse dia, parece-me que a coragem, a quem visse a cena de fora, soaria mais como pura teimosia e ignara estupidez. Mas era jovem e tinha esperança e havendo a perspetiva de um futuro, de uma sensação de infalível imortalidade, nada parecia perigoso ou simplesmente estúpido.

Sentei-me na ladeira e arrastei-me devagar, segurando e impulsionando o corpo com as mãos enquanto descia. A testa encheu-se de suor. As pedrinhas daquele caminho íngreme rolavam de vez em quando, deslocadas pela sola das minhas sapatilhas. Eram como pequenas esferas que me fariam deslizar sem controlo se perdesse a aderência das mãos. A raspagem que fizera na palma da mão esquerda ardia-me, mas apertei os dentes e continuei. Puar flutuava em silêncio logo atrás.

Bastava o terreno irregular para provocar um acidente aborrecido e fazer terminar a aventura, mas haveria ainda de suportar outra prova. Parei, sustendo-me com a ajuda dos pés, que finquei num rochedo mais abaixo, antes de uma curva que guinava para a direita e que chegava finalmente à parede de rochas dentadas. Parei porque comecei a sentir o chão a tremer.

- Puar! O que é que está a acontecer?

O gato não me respondeu. Tinha definitivamente perdido a fala.

O tremor cresceu aos poucos, até se transformar num sismo de baixa magnitude que acabou por desfazer o apoio dos meus pés. Gritei ao sentir-me desamparada. Parti uma unha quando tentei agarrar-me às rochas que saltitavam em redor. Desci o resto da ladeira às cambalhotas.

Quando pensava que iria atingir a parede de rochas e finalmente parar, dei uma pirueta estranha e comecei a cair no vazio. Gritei desesperada, agitando os braços. Escutei o guincho de Puar a chamar pelo meu nome, mas o guincho, em vez de me acompanhar, ia ficando para trás, como se eu estivesse a precipitar-me num abismo sem fim e ele tivesse ficado na beira, a olhar para mim a despencar-me no fundo.

A queda parou abruptamente. As costas estalaram e o traseiro explodiu com a pancada. Grunhi com a dor que me paralisou. Continuava de olhos fechados, a evitar enfrentar a realidade. Agarrei-me ao traseiro, com os olhos húmidos e a repetir:

- Ui… ui… ui…

O sismo, que tinha, de alguma maneira, abrandado – ou teria sido eu que o deixara de sentir quando estivera a cair – aumentou de intensidade e o chão sacudiu-se numa convulsão brutal. Foi então que abri os olhos e percebi que estava muito próximo do local que buscava atingir. As dores drenaram-se para um ponto esconso do meu espírito, entreabri um sorriso de triunfo e gritei:

- Cheguei!

A nave de Freeza estava agora num ponto acima do meu campo de visão, assente em grandes pinças metálicas, utilizadas certamente para a aterragem naquele sítio. O enxame de soldados movimentava-se para a direita, para dois vultos que os desafiavam – provavelmente, Piccolo e Gohan – sobre terreno irregular, uns passos mais abaixo do lugar onde me sentava. E havia uma criatura mecânica, os cinzentos a resplandecer ao sol, pequena e esguia como um lagarto a desafiar alguém que se elevava nos ares. E havia outra criatura junto ao lagarto robotizado, um gigante carrancudo com enormes chifres pontiagudos, iguais aos de um touro, vestido com uma couraça e uma longa capa escura, de grossos braços rosados cruzados, pés enormes de apenas três dedos.

Senti o segundo calafrio da tarde.

Freeza!

De seguida, franzi o sobrolho. E qual deles seria? O lagarto ou o gigante? Apostei neste último e fixei-o com temor e admiração.

O chão tremia sem parar. Havia alguém que desafiava esses dois seres terríveis. Vegeta disparava um raio amarelo fogo com ambas as mãos unidas diante dele. Os cabelos negros ganhavam tons de castanho e de laranja, como se se tivessem incendiado.

- Vegeta…

Era maravilhoso e assustador vê-lo em ação. Como era belo todo aquele poder selvagem que exibia! O meu coração começou a bater loucamente.

O raio dirigia-se ao lagarto. Percebi, com repulsa que esse era Freeza.

Quando me dei conta, o raio explodiu e a paisagem mergulhou numa vaga quente e branca que me cegou e empurrou de encontro a um penedo, onde raspei os cotovelos e rasguei as costas do vestido. Tossi atarantada, pondo-me de gatas.

O combate prosseguiu. Deixei de ver o saiya-jin. Levantei a cabeça e chamei assustada:

- Vegeta!!

Aconteceram mais explosões e, quando me apercebi, Piccolo também entrava no combate. Desafiava o gigante chifrudo e os dois engalfinharam-se numa luta corpo-a-corpo que depressa se desvaneceu por utilizarem golpes muito rápidos. Gohan surgiu ao pé de mim, agachando-se para procurar o contacto visual comigo.

- Bulma-san! O que fazes aqui?

Vestia o uniforme que ganhara em Namek, o que fazia dele um pequeno saiya-jin. Ficava engraçado com aquele uniforme, realçava-lhe os pequenos músculos. Sorri por me parecer tão bonito e fazer-me lembrar uma versão mais agreste do pai.

- Estás ferida… Não devias estar aqui. Vou levar-te para um sítio seguro.

Mas ele também estava ferido. Tinha sangue a correr de um rasgão do braço, que lhe rompera a manga azul e tinha ainda um fio de sangue que lhe saía da linha do cabelo para a testa, tisnando o sobrolho esquerdo.

- Gohan-kun!

- Isto não é nada. Vamos, Bulma-san, eu ajudo-te.

Pus-me de pé sem a ajuda dele. Olhei para diante e vi, pelo meio do pó a assentar, a silhueta fria da nave de Freeza a aparecer como um navio fantasma. E vi o lagarto a desferir um soco em Vegeta, um golpe tão avassalador que o eco vibrou pelas montanhas. O saiya-jin caiu longe do adversário, ficando quieto. Estava provavelmente inconsciente.

Sem saber bem o que fazia, corri para ele, afastando Gohan.

- Vegeta!

Amparei a cabeça do saiya-jin, olhei-o condoída.

- Ve-Vegeta…

Uma gargalhada cortou a cena. O lagarto ria-se, com uma voz tão desdenhosa e irritante, que me teria feito enfrentá-lo. Quase que me punha de pé, punhos crispados e desafiado a maldita criatura, não fosse Vegeta ter despertado naquele instante. Forçou as pálpebras e rugiu o nome do inimigo:

- F-Freeza!

Acho que nunca se apercebeu que eu estive lá, a segurá-lo e, à minha maneira, a protegê-lo. Pelo menos, julgo que acreditei nisso naquele instante de insensatez em que também eu entrei no combate contra Freeza. Vegeta saltou e atacou Freeza com um braço em riste, gritando enquanto cruzava o espaço entre ele e o adversário.

Sentei-me atarantada. Gohan passou por mim, no encalço de Vegeta.

- Bulma-san! Sai daqui, por favor!

O chão tornou a protestar com novas sacudidelas à medida que eles se enfrentavam a Freeza e à outra criatura. Piccolo, Vegeta e por fim Gohan tentavam atingir o terrível inimigo com tudo o que tinham, raios de energia e golpes bem aplicados. Mas eu, que já tinha presenciado alguns dos combates mais entusiasmantes do mundo nos grandes torneios de artes marciais e que sabia distinguir forças e capacidades, percebia que todo aquele empenho não seria suficiente face a adversários tão formidáveis.

Estávamos nas garras do inimigo e completamente à sua mercê.

Notas finais
Continua...
Próximo capítulo:
Chega o salvador.