Ecos do Futuro Memórias de Ontem
8 O regresso a casa.
Acho que fiquei em choque por ver como fora tão fácil eliminar Freeza e que o nosso padecimento inicial fora quase desnecessário. Sentei-me, a amparar as costas do corpo amassado na rocha onde me refugiara naqueles derradeiros instantes da presença do maléfico par, pai e filho, Cold e Freeza, na Terra.
Goku aterrou, abandonando a aura amarela que o envolvia. Os cabelos voltaram à cor negra original. Volveu os olhos habitualmente escuros e meigos para Vegeta, mas o que quer que tinha para dizer não o disse, pois dos céus desciam os restantes guerreiros que ali tinham combatido. Piccolo vinha à frente, seguido de Gohan. Ten Shin Han amparava Yamucha e Kuririn seguia-os num voo irregular. Estavam todos feridos, rasgados, cansados e com o aspeto de que tinham lutado contra monstros invencíveis. Mas para Goku, tudo tinha terminado em segundos.
Olhei-o. Isso significava que ele estava no mesmo patamar que os monstros e que seria, também ele, um monstro. Talvez loiro e com aqueles olhos verdes, não agora, com aquele sorriso franco a iluminar-lhe o rosto. Sacudi a cabeça para afastar esse pensamento mesquinho. Salvara-nos mais uma vez e, monstro ou não, ele era o nosso amigo.
Gohan gritou a correr para ele:
- Otousan!
- Gohan!
O miúdo abraçou-se ao pai e Goku retribuiu o abraço. Olhou para Piccolo que se aproximava, enquanto Gohan escorregava-lhe dos braços.
- Desculpem não ter chegado mais cedo, mas nunca pensei que Freeza chegasse a aterrar na Terra. Sempre pensei que nos iríamos enfrentar no espaço, terreno que lhe era mais favorável.
- O importante foi teres chegado.
Kuririn atirou-se ao pescoço de Goku e agradeceu emocionado:
- Companheiro! Mais uma vez, foste tu que vieste em nosso auxílio. A batalha estaria perdida sem a tua intervenção.
- Kuririn… — Goku riu-se atrapalhado. – Nunca deixaria Freeza destruir a Terra. Mas a nave dele estava muito mais adiantada do que a minha, para além de ser mais veloz.
- E como é que chegaste? – Perguntou Piccolo. – Não me lembro de ver nenhuma nave a aparecer nestes últimos minutos…
- Se esperasse alcançar a Terra com a minha nave, só o faria daqui a duas ou três horas e Freeza já aqui estava. Aconteceria uma tragédia, se não me despachasse. Mataria todas as pessoas, incluindo vocês e os nossos amigos e família, e destruiria o planeta. Tive de me adiantar a Freeza.
- E como o fizeste? Não me digas que agora sabes respirar no espaço e consegues voar no vazio – apontou Kuririn cético.
Goku tornou a rir-se.
- Tenho uma técnica nova, que aprendi neste tempo todo em que estive fora.
- A sério? Que técnica?
Voltou-se para Ten Shin Han e para Yamucha que chegavam.
- E vocês, amigos?
- Estamos bem, não te preocupes, Son – disse Ten Shin Han. – Obrigado por teres acabado com Freeza e com Cold. Sem ti, nunca o conseguiríamos.
Goku rodou o pescoço na direção oposta.
- Ah… Vegeta. Também participaste na batalha, pelo que vejo.
Vegeta voltou-lhe a cara.
- Pfff!
- Não nos queres contar que técnica é essa? – Perguntou-lhe Piccolo, cruzando os braços.
Goku abriu um sorriso jovial, apoiando os punhos na cintura.
- Claro! Chama-se Shunkan Idou e aprendi-a num planeta chamado Yardrat.
- Yardrat? – Admirou-se Kuririn.
- Hum-hum.
- Kakaroto, porque é que não começas pelo início? – Exigiu Vegeta erguendo um punho. Todos se voltaram para ele. – Como é que conseguiste escapar de Namek?
Goku apagou o sorriso. Aclarou a garganta e começou a contar as últimas horas de desespero no planeta moribundo. Namek desagregava-se e ele voava em direção à nave de Freeza que estava mais próxima do local do combate. Tudo tinha terminado de forma amarga – Freeza tinha tentado ataca-lo no derradeiro instante, mesmo depois de ele lhe ter dado um pouco de energia para que tentasse também escapar à explosão de Namek. Mas Freeza utilizara essa energia contra ele e Goku não tivera outro remédio senão acabar com Freeza. Pensava sinceramente que o tinha eliminado, a patética criatura não era mais que um terço do corpo original serrada um pouco abaixo do peito pelos seus próprios discos de energia assassinos com os quais tentara desfazer Goku e não era suposto ter sobrevivido àquele ataque energético.
Contudo, a nave de Freeza estava avariada, Vegeta tinha-a destruído horas antes, para escapar de Freeza e de Zarbon. Uma enorme fenda no terreno, onde borbulhava lava ardente, abrira-se e tragava a nave, que caía no vazio. Goku saíra da nave, julgando que tinha encontrado o seu fim, quando vira uma pequena cápsula a passar-lhe diante dos olhos. Entrara dentro da cápsula, esmurrara os comandos. Desmaiara com o solavanco quando a cápsula espacial arrancou à velocidade da luz, abandonando Namek que se estraçalhava em mil pedaços no vácuo longínquo do Universo.
Acabara por descobrir que a cápsula pertencera ao comando de elite de Gyniu e que após a missão que os levara a Namek, ordenados pelo seu mestre Freeza, deveriam seguir para Yardrat para arrasar com esse planeta. Por isso, Goku chegara a esse lugar alienígena, ainda mais longínquo que Namek. Estivera doente, aí recuperara a saúde e a sua forma física. O povo de Yardrat não era guerreiro, mas conhecia muitas técnicas místicas e fora aí que aprendera a Shunkan Idou, uma habilidade que lhe permitia mover-se de um local para outro, de forma instantânea, apenas sentindo o ki de quem queria encontrar. Vegeta apontara sarcástico como ele parecia ridículo vestido com as roupas de Yardrat e Goku recuperara o sorriso.
- As minhas roupas estavam tão rasgadas, que não tive outro remédio senão aceitar vestir isto. O povo de Yardrat é pequeno, eu era um gigante ao pé deles. E eles tiveram tanto trabalho em fazer uma roupa para mim igual à deles, que não consegui dizer-lhes que não queria.
Fiquei cansada só de escutar aquela explicação e bocejei. No entanto, não deixei de sorrir levemente ao observar melhor a fatiota de Son-kun. Era realmente ridícula, como Vegeta apontara. A sombra de alguém tapou-me a claridade e ouvi a voz de Kuririn perguntar-me:
- Bulma-san, estás bem?
Entreabri um dos olhos. Sem querer, adormecera por uns segundos. Inclinava-se sobre mim, mostrando-se interessado, analisando o meu estado com preocupação. Olhei furiosa para Yamucha que ainda não se tinha aproximado de mim e amaldiçoei-o entredentes. Suspirei, voltando-me para Kuririn.
- Hai, estou bem.
- Também estás ferida.
- Era difícil não ficar, no meio desta confusão.
- Não te tinha dito para ires embora?
Gritei ainda mais furiosa:
- E como querias tu que eu fosse embora? Perdi a cápsula do monolugar! Tentei correr, mas só havia explosões e raios e tremores de terra por todo o lado!
Qualquer coisa latejou junto às costelas e encolhi-me a gemer, envolvendo o torso com o braço esquerdo.
- Não grites. Parece-me que tens aí qualquer coisa partida.
Puar apareceu vindo de nenhures e flutuou em linha reta como uma flecha até Yamucha, que o recebeu com um esfusiante abraço. Senti lágrimas nos olhos e funguei ruidosamente. Para o raio do gato sabia ele ter atenções! Eu para ali estava, abandonada, sentada no chão duro, com qualquer coisa partida, moída até à alma e o meu namorado nem sequer se importava com o meu estado, ou se estava viva ou morta. Quis berrar até fazer estalar os rochedos! Mas não o conseguia fazer, porque me doía imenso qualquer esforço e só me apercebia disso agora. Fechei os olhos derrotada. Queria ir para casa…
Um silvo constante aproximava-se. Reconheci o som do motor de um veículo magnético. À distância vislumbrava-se uma nuvem de poeira à medida que avançava na nossa direção. Passado um pouco, chegou Yajirobe. Desligou o veículo, saiu do lugar de condutor com um salto e aproximou-se de Goku.
- Bem-vindo de volta à Terra, Son Goku.
- Ahn… Olá, Yajirobe.
- Tenho um presente para ti, do velho Karin.
E estendeu-lhe uma pequena sacola castanha.
- Não são para ti, tu não precisas. São para os teus amigos.
Goku recebeu a sacola com alegria.
- Senzu! Que excelente presente!
Ao lado dele, Gohan deu um salto e soltou uma curta gargalhada.
- Estão aí cinco senzu. Não havia mais. Usa-os bem.
- Hai! – Goku piscou os olhos e perguntou: – Como sabias que estávamos aqui?
- Karin viu tudo no seu pote mágico. A chegada de Freeza e do outro que se chamava Cold, o combate. Sabia que estavas também a chegar. Ordenou-me que viesse aqui ter para vos entregar senzu. Disse-lhe que viria, mas que não entraria em combate nenhum. Não sou parvo, sei até onde posso ir.
- Chegaste a tempo. Arigato, Yajirobe!
- Karin também viu coisas estranhas no pote…
- Que coisas estranhas? – Indagou Goku enquanto desatava o fio que fechava a sacola.
- Um rapaz com uma espada, a cortar Freeza ao meio. Um rapaz que também era loiro, como tu.
- Outro super saiya-jin?
Vegeta exclamou irritado:
- Impossível!
Yajirobe enfiou os polegares no cinto, olhando Vegeta de esguelha:
- Bem, contigo não discuto. Mas se o velho Karin disse que viu, é porque viu. Não duvido dele… Coisas estranhas, disse eu.
- Piccolo, apareceu aqui algum rapaz com uma espada?
- Que eu tenha visto, não – respondeu Piccolo.
Goku encolheu os ombros, esquecendo o assunto prontamente.
Yamucha e Ten Shin Han aceitaram partilhar um senzu, alegando que não estavam assim tão esgotados. Gohan recebeu um senzu inteiro, por ser o mais novo dos guerreiros e Piccolo comeu outro. Goku entregou o quarto senzu a Kuririn e dirigiu-se a Vegeta. Estendeu-lhe o braço, com o pequeno feijão pousado na palma da mão.
- Toma, Vegeta. Este é para ti.
O saiya-jin olhou para Goku desconfiado.
- Já comeste isto em Namek. Lembras-te? Dei-te um igual depois de enfrentares as forças de elite de Gyniu.
- Hum.
Relutante, Vegeta agarrou no senzu, enfiou-o na boca e mastigou-o.
A sombra de Kuririn voltou a tapar-me a claridade. Tinha metade do senzu entre os dedos.
- Guardei isto para ti. Também precisas, acho eu…
Se pudesse, tinha esmurrado Yamucha naquele preciso momento. Mas continuava sem forças. Perguntei assustada:
- Isso engorda?
Os ombros de Kuririn descaíram.
- Bulma! Não te faças de esquisita. Isto vai curar-te e vais sentir-te melhor. Não te queres sentir melhor?
De olhos fechados, enfiei o pedaço na boca, como se fosse o mais amargo dos remédios e devesse comê-lo depressa e sem saborear. Foi o que fiz. Quando aquilo me tocou no estômago, um grande calor incendiou-me por dentro. Soltei um par de soluços, enquanto o calor se espalhava por todos os milímetros da minha perplexa pessoa. Foi como se me estivessem a insuflar de força. Pus-me de pé com um gritinho assombrado. Estava curada, fresca e bela como quando me levantara, naquela manhã. Bem, o vestido não se salvava, mas isso não era crítico. Acho que só então Goku se apercebeu que eu também estava ali, com eles.
- Bulma!
- Son-kun – e mostrei-lhe o mais radioso dos sorrisos.
Depois, lembrei-me que havia alguém com quem deveria ter uma conversa muito séria. Recuperei a fúria e aproximei-me de Yamucha. Encolheu-se quando me viu. Puar afastou-se, pressentindo a tempestade. Sem lhe dar tempo para uma explicação, agarrei-o pela orelha esquerda e puxei-a com ganas.
- Eu podia ter morrido, que tu nem te importavas!
- Bulma… Eu… Eu sabia que tu estavas bem – desculpou-se atrapalhado.
- Mentira!
- Eu sentia o teu ki e sabia que te estavas a safar. Não precisavas da minha ajuda… Não me enganei, pois não? Acabaste por te safar bastante bem.
- E queres que eu acredite nisso?
- Eu sou um lutador. Consigo sentir o ki dos outros. Certo, Kuririn?
Kuririn suspirou.
- Pois, pois…
Desataram todos a rir.
O vozeirão de Vegeta interrompeu a nossa boa disposição.
- Kakaroto!
Goku voltou-se para ele. Coloquei-me atrás de Yamucha, para me proteger do que aí vinha.
- Não penses que, por seres um super saiya-jin, me fazes desistir do meu objetivo. Temos um combate marcado, nós os dois. Iremos lutar outra vez e eu vou ganhar. O príncipe dos saiya-jin não recua perante ninguém, muito menos em face de um soldado de terceira categoria como tu.
- Eu sei, Vegeta.
- Vou treinar-me duramente nos próximos tempos e quando também eu for um super saiya-jin, voltaremos a encontrar-nos.
Goku acenou ligeiramente com a cabeça.
- Estarei à espera.
Vegeta foi-se embora, num voo que rasgou o ar. Rapidamente, deixei de o ver.
- Que obstinado… — comentou Kuririn.
- E vais mesmo enfrentá-lo? – Quis saber Piccolo a olhar para o horizonte onde Vegeta se sumira.
- Claro. Se ele não recua perante um desafio, eu também não.
- E se perderes? Existe a possibilidade de ele fazer o que se propôs a fazer quando aqui chegou pela primeira vez. Vegeta vai rebentar com a Terra.
Goku sorriu com amargura.
- Não o vou deixar, porque não vou perder o combate.
- ’Tousan, pensava que Vegeta estava do nosso lado.
Passando uma mão pelos cabelos do filho, Goku disse:
- Gohan, não te preocupes com isso agora. Vamos para casa? Será uma grande alegria para a mãe ao aparecermos juntos. Não achas?
Os olhos do miúdo iluminaram-se.
- Hai! Vamos utilizar a tua técnica nova, ’tousan?
- Será melhor não. Não quero matar Chi-Chi de susto. Vamos a voar. Há muito tempo que não respiro o ar da Terra e quero saborear a viagem!
Também eu queria muito regressar a casa. Abracei o pescoço de Yamucha e ordenei:
- Vais carregar-me até West City. E sem resmungares. Abriste uma enorme dívida comigo, esta tarde. E vais começar a pagar.
Nova gargalhada geral.
O nosso mundo estava, finalmente, em paz.
Notas finais
Próximo capítulo:
A obsessão do príncipe.
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