Ecos do Acaso - Vol. I
9 O Site que Só Existe Durante Sete Minutos
Comecei a desconfiar que a aplicação já não precisava de me enviar coordenadas. Havia dias em que sentia a aproximação de um novo ponto antes mesmo de o telemóvel vibrar, uma pressão leve atrás dos olhos, como quando se tenta lembrar de algo que nunca aconteceu.
O aviso surgiu às 02:00 em ponto.
Não vibrou. Não emitiu som. O ecrã simplesmente acendeu.
Acesso temporário concedido.
Não havia mapa. Não havia localização física. Apenas um endereço web composto por caracteres japoneses misturados com números que pareciam mudar sempre que eu piscava os olhos. O contador no canto inferior do ecrã começou a descer.
06:59
Abri o site.
A página era simples, quase primitiva. Fundo branco, texto preto. Nenhum logótipo. No topo, uma frase:
“Se estás a ler isto, ainda vais a tempo.”
Abaixo, uma lista de links numerados. Não havia descrições. Apenas números.
06:21
Cliquei no primeiro.
Era um relato. Uma pessoa descrevia a visita a uma estação rural sem nome. Falava de um comboio antigo, de passageiros imóveis, de um lugar vazio que parecia reservado. O texto terminava a meio de uma frase.
Reconheci-o. Uma vez vi nas notícias a relatarem esse acontecimento.
Voltei atrás. Cliquei noutro link. Um hospital desactivado. Um relógio parado. Uma cama reservada. Outro relato interrompido abruptamente.
A aplicação abriu-se sozinha, sobrepondo-se ao navegador.
“Correspondência elevada.”
05:12
Comecei a percorrer os relatos rapidamente. Escola abandonada. Aldeia costeira sem registos. Hotel cápsula com andares repetidos. Floresta que aprende passos.
Todos estavam ali.
Mas havia diferenças.
Alguns relatos iam mais longe. Descreviam escolhas. Entradas aceites. Registos concluídos. Permanências definitivas.
Num deles, o narrador deixava de usar a primeira pessoa.
Noutro, o texto passava a ser escrito no presente contínuo, como se ainda estivesse a acontecer.
03:47
No fundo da página, reparei num link diferente. Não tinha número. Apenas um símbolo circular, semelhante aos que vira nas notícias sobre a entrada de um torii, meses atrás.
Hesitei.
Cliquei.
O ecrã escureceu por um segundo. Depois, surgiu uma caixa de texto vazia.
Por cima, uma instrução simples:
“Escreve o teu estado actual.”
A aplicação vibrou com força.
“Entrada pendente detectada.”
O contador acelerou.
02:15
Comecei a escrever, sem pensar demasiado. Palavras soltas. Medo. Cansaço. Adiamento. A sensação constante de estar a ser preparado para algo que nunca me era explicado.
À medida que escrevia, o texto ajustava-se sozinho. Reformulava frases. Corrigia tempos verbais. Tornava tudo mais… definitivo.
01:02
Por baixo da caixa de texto, surgiu uma nova linha:
“Aceitas o isto o que descreveste?”
Dois botões apareceram.
SIM
AINDA NÃO
O cursor tremia.
Ouvi um som estranho no quarto. Um clique suave, como uma tecla a ser pressionada noutro computador. Depois outro.
A aplicação mostrou uma última mensagem:
“O registo precisa de fechar.”
00:14
Escolhi AINDA NÃO.
O site não reagiu.
00:07
A página começou a desfazer-se. O texto distorceu-se. Os relatos desapareceram um a um.
00:01
O ecrã apagou-se.
Fiquei a olhar para o reflexo negro do telemóvel. Por um instante, vi algo escrito por cima do meu rosto, como um título mal alinhado.
Quando o ecrã voltou ao normal, a aplicação estava fechada.
Não havia notificações.
Não havia coordenadas.
Mas, nas definições do telemóvel, reparei num detalhe novo: um histórico de navegação que eu não reconhecia.
Um único endereço repetido dezenas de vezes.
Com datas futuras.
E, ao lado de cada uma, um estado diferente.
Alguns diziam: “Concluído.”
Outros: “Em permanência.”
O último, ainda sem data, dizia apenas: “Por decidir.”
Olhei para o relógio.
E, pela primeira vez desde que tudo começara, tive medo não do que vinha a seguir, mas do momento exacto em que deixaria de ter escolha.
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