Ecos do Acaso - Vol. I
5 O Hotel Cápsula do Andar Repetido
Comecei a perceber um padrão que não aparecia em lado nenhum escrito: os lugares escolhidos pela aplicação não eram apenas abandonados ou esquecidos. Eram espaços de transição. Lugares feitos para estar de passagem. E todos pareciam partilhar a mesma obsessão silenciosa, ninguém devia permanecer demasiado tempo.
A coordenada seguinte surgiu numa madrugada sem sonho. O telemóvel aqueceu na mesa-de-cabeceira antes mesmo de vibrar.
Nova coordenada disponível.
O ponto ficava em Osaka, num bairro de escritórios quase vazio à noite. O nome do local apareceu desta vez: Hotel Kisaragi. Não encontrei qualquer referência actual. Apenas menções vagas em fóruns antigos, misturadas com relatos contraditórios e datas que não faziam sentido.
Cheguei pouco depois da meia-noite. O edifício era estreito, alto, com uma fachada iluminada por néon fraco. As letras do letreiro piscavam de forma irregular, como se não concordassem entre si sobre a própria existência.
A recepção estava vazia.
Um sino repousava no balcão, mas não ousei tocá-lo. Atrás, penduradas na parede, estavam as chaves, pequenas placas numeradas. Notei algo estranho de imediato: os números iam do 1 ao 6. Depois repetiam. 1 ao 6. Outra vez.
A aplicação vibrou.
“Estadia compatível detectada.”
Peguei numa chave ao acaso. Número 3.
O corredor dos quartos era estreito, iluminado por luz branca agressiva. As cápsulas alinhavam-se dos dois lados, empilhadas em colunas perfeitas. O silêncio era quase absoluto, interrompido apenas por uma respiração distante que parecia vir das paredes.
Entrei na cápsula 3.
O espaço era claustrofóbico, mas limpo. Um colchão fino, um pequeno ecrã desligado, comandos embutidos na lateral. Quando fechei a entrada, ouvi um clique suave, demasiado definitivo.
Deitei-me.
Foi então que percebi que o ecrã estava ligado.
Mostrava uma imagem fixa do corredor. Exactamente o corredor onde eu estava momentos antes. A imagem não se movia. Não havia ruído. Apenas a perspectiva perfeita de um espaço vazio.
A aplicação abriu-se sozinha.
Relato associado encontrado.
“O Hotel Kisaragi não tem andares. Tem ciclos. Quem adormece acorda sempre no mesmo.”
O ecrã do corredor piscou.
Alguém passou.
A figura moveu-se lentamente, parando em frente à minha cápsula, ou à cápsula mostrada no ecrã. A imagem aproximou-se ligeiramente, como se a câmara estivesse a ser empurrada por dentro.
Bati na parede da cápsula. O som foi abafado. A figura no ecrã inclinou a cabeça.
Reconheci a silhueta.
Era eu.
A imagem sorriu.
O ecrã apagou-se. As luzes da cápsula diminuíram até quase desaparecerem. Senti o ar tornar-se pesado, viciado, como se tivesse sido reutilizado demasiadas vezes.
Um som metálico ecoou pelo hotel, passos sincronizados, vindos de cima, de baixo, de todos os lados. As cápsulas começaram a vibrar ligeiramente, como se algo se movesse entre elas.
A aplicação vibrou com força.
“Andar concluído.”
O ecrã da cápsula voltou a acender-se.
Mostrava agora a recepção.
Vi-me a mim próprio a entrar no hotel, a pegar na chave número 3, a dirigir-me para o corredor. A cena repetia-se em loop, com pequenas diferenças: num ciclo, eu olhava para trás. Noutro, tropeçava ligeiramente. Em todos, entrava na cápsula.
Excepto no último.
No último ciclo, a cápsula permanecia fechada.
O corredor estava vazio.
A aplicação apresentou uma nova mensagem:
“Deseja avançar para o próximo andar?”
Senti o espaço à minha volta encolher imperceptivelmente. A cápsula parecia agora mais curta. Mais estreita. Como se estivesse a adaptar-se.
Ouvi o clique de outra cápsula a fechar.
Depois outra.
E outra.
O hotel respirava em uníssono.
Não respondi.
O ecrã apagou-se lentamente. As luzes extinguiram-se por completo.
Na escuridão total, percebi finalmente o detalhe que me escapara desde o início: a chave número 3 que eu trazia no bolso estava quente.
E alguém, algures no hotel, acabara de pegar noutra exactamente igual.
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