Ecos do Acaso - Vol. I

2 O Apartamento 404 de Nakano


O primeiro erro foi pensar que podia ignorar o que tinha acontecido.

Saí do complexo industrial pouco depois do amanhecer, com a sensação persistente de que Tóquio tinha deslizado alguns centímetros para fora do sítio durante a noite. O torii não voltou a aparecer, pelo menos, não de forma visível, mas a aplicação continuava instalada no telemóvel, mesmo depois de a ter apagado três vezes. O ícone surgia sempre de novo, exactamente no mesmo lugar do ecrã.

Durante dois dias, nada aconteceu. Convenci-me de que o cansaço, o jet lag e a sugestão tinham feito o resto. Até que, na terceira noite, a aplicação enviou uma notificação.

Nova coordenada disponível.

Desta vez, o ponto ficava em Nakano. Um bairro residencial, conhecido pelos prédios antigos e corredores estreitos, onde os apartamentos parecem empilhados uns sobre os outros como caixas esquecidas num armazém humano. O mapa indicava um edifício específico. O nome não aparecia. Apenas um número: 404.

O prédio era baixo, cinzento, com varandas pequenas e unidades exteriores de ar condicionado penduradas como órgãos expostos. À primeira vista, parecia normal demais. Demasiado normal. A entrada não tinha porteiro nem intercomunicador funcional. A porta estava destrancada.

No interior, o corredor cheirava a humidade antiga e produtos de limpeza baratos. As lâmpadas fluorescentes tremeluziam, emitindo um zumbido constante que se entranhava nos ouvidos. O elevador estava avariado, com um aviso colado à porta: “Fora de serviço desde 2009.” Subi pelas escadas.

No terceiro andar, os números dos apartamentos seguiam uma ordem estranha. 401, 402, 403… depois saltavam directamente para 405. Não havia sinal do 404.

A aplicação vibrou no bolso.

“Destino alcançado.”

O corredor pareceu esticar-se. O ar tornou-se pesado, como se alguém tivesse fechado uma porta invisível atrás de mim. Entre o 403 e o 405, onde antes só havia parede, surgiu lentamente uma porta. Não fez barulho. Simplesmente passou a existir.

A placa dizia: 404.

Bati à porta. Não sei porquê. Talvez porque, num nível primitivo, esperava que alguém respondesse e tornasse aquilo tudo normal outra vez.

Ninguém respondeu.

A porta abriu-se sozinha.

O apartamento estava mobilado, mas de forma mínima e antiquada. Tatamis gastos no chão, uma mesa baixa no centro da sala, cortinas corridas apesar de ser noite. O ar estava estranhamente frio. Demasiado limpo. Como se ali ninguém respirasse há muito tempo.

Entrei.

Assim que o fiz, ouvi a porta fechar-se atrás de mim. Não com força. Com cuidado.

Na parede oposta, um televisor antigo estava ligado. O ecrã mostrava estática, mas por trás do ruído havia algo mais, sombras que se moviam com intenção, formando padrões quase reconhecíveis. Aproximando-me, percebi que as sombras pareciam corredores. Corredores iguais ao daquele prédio.

A aplicação abriu-se sozinha.

Relato associado encontrado.

Texto a piscar no ecrã:

“O Apartamento 404 aparece apenas para quem não devia encontrá-lo. Diz-se que pertence a alguém que nunca saiu de casa, mesmo depois de morrer. Quem entra ocupa o espaço deixado vago.”

Ouvi passos no interior do apartamento.

Vieram do quarto.

Lentamente, a porta do quarto deslizou. Lá dentro, vi uma figura sentada no chão, de costas para mim. Vestia roupa comum, urbana, mas o corpo parecia ligeiramente errado, demasiado imóvel, demasiado direito. Quando falou, a voz não ecoou na sala. Soou directamente dentro da minha cabeça.

— Este lugar estava vazio — disse a figura. — Agora já não está.

O televisor apagou-se.

As luzes começaram a piscar.

A aplicação mostrou uma última mensagem:

“Deseja permanecer?”

Antes que pudesse responder, senti o espaço contrair-se à minha volta, como se o apartamento estivesse a decidir se eu fazia parte dele.

E, pela primeira vez desde que descarregara a aplicação, tive a clara sensação de que sair já não dependia apenas de mim.