Ecos do Acaso - Vol. I

4 A Estação Sem Horário de Retorno


Assim que a notícia do que aconteceu na escola na periferia da província de Saitama deu na TV, deixei de confiar em horários. Relógios, painéis electrónicos, notificações automáticas, tudo me parecia arbitrário, decorativo. O tempo já não se comportava como devia desde que comecei a seguir coordenadas que não pediam consentimento.

A nova notificação surgiu ao início da noite, quando o céu começava a ganhar aquele tom azul sujo que antecede a verdadeira escuridão.

Nova coordenada disponível.

O ponto localizava-se numa estação ferroviária rural, algures nas montanhas da província de Nagano. O nome surgia no mapa, mas desfocado, como se o sistema tivesse dificuldade em fixá-lo. Reconheci-o vagamente de um fórum obscuro que visitara dias antes, um tópico arquivado, cheio de mensagens apagadas.

Dizia apenas: “Não apanhes o último comboio.”

A viagem até lá foi longa e silenciosa. À medida que o comboio se afastava das zonas urbanas, os passageiros foram desaparecendo, estação após estação, até restar apenas eu. Ninguém entrou nas últimas paragens. O revisor passou por mim uma única vez, sem levantar os olhos.

Quando cheguei, a estação estava vazia.

Era pequena, antiga, construída em madeira escurecida pelo tempo. Uma única plataforma, um edifício principal com janelas cobertas de pó e um painel de horários desligado. O vento atravessava o espaço com um assobio irregular, fazendo ranger as estruturas como ossos velhos.

O comboio partiu assim que desci. Não esperei que as portas se fechassem. Simplesmente arrancou.

Fiquei sozinho.

O painel electrónico piscou subitamente. Letras verdes acenderam-se, formando uma tabela incompleta. Horários sem destinos. Destinos sem horas. Apenas uma linha estava bem definida:

Último comboio — Plataforma 1

Sem hora indicada.

A aplicação abriu-se sozinha.

Relato associado encontrado.

“A estação continua activa, mas apenas para quem já devia ter partido. Os comboios que ali param não levam a lado nenhum que conste nos mapas.”

Sentei-me num banco de madeira gasto. O frio começou a entranhar-se nos ossos. As luzes da estação acenderam-se uma a uma, apesar de não haver ninguém para as controlar. O som distante de um comboio ecoou pelo vale.

Não vinha no mapa.

Do outro lado da linha, comecei a ver figuras. Pessoas paradas, imóveis, viradas para a plataforma. Não atravessavam. Não acenavam. Limitavam-se a observar, como se aguardassem uma confirmação silenciosa.

O comboio aproximou-se lentamente. Era antigo, com carruagens de outro tempo, janelas opacas e portas manuais. Quando parou, o silêncio tornou-se absoluto.

As portas abriram-se.

Lá dentro, os bancos estavam ocupados. Homens, mulheres, crianças. Todos sentados de forma rígida, a olhar em frente. Nenhum parecia respirar. Os olhos estavam abertos, mas vazios, como fotografias mal reveladas.

Um altifalante chiou.

— Última chamada.

A voz não era humana. Tinha um tom neutro demais, desprovido de intenção, como uma gravação feita por algo que apenas imitava linguagem.

A aplicação vibrou violentamente.

“Destino compatível detectado.”

Senti uma pressão estranha no peito, como se algo estivesse a alinhar-se dentro de mim. As figuras do outro lado da linha começaram a mover-se em uníssono. Deram um passo em frente.

Reparei então num detalhe perturbador: no interior do comboio, havia um lugar vazio.

Exactamente à minha frente.

O painel de horários apagou-se. As luzes da estação começaram a falhar. O vento cessou de repente, como se o ar tivesse sido sugado para outro lugar.

O altifalante voltou a chiar.

— Passageiro em falta.

O comboio aguardava. A porta aberta parecia alargar-se, escurecendo no interior, como uma boca paciente.

A aplicação mostrou a última mensagem antes de o ecrã escurecer:

“Não existem viagens de regresso registadas a partir deste ponto.”

Dei um passo atrás.

O chão da plataforma rangeu, como se desaprovasse a decisão.

O comboio começou a apitar.

E, algures no meio das montanhas, tive a certeza desconfortável de que, quer entrasse ou não, algo naquela estação já tinha decidido o meu destino.