Ecos do Acaso - Vol. I
3 A Escola que Só Aceita Alunos Ausentes
Depois da notícia do que aconteceu no bairro residencial de Nanako com o Apartamento 404, comecei a evitar espaços fechados. Dormia pouco, sempre com o telemóvel virado para baixo, como se isso pudesse impedir a aplicação de me observar. Não funcionava. A notificação chegou numa tarde chuvosa, acompanhada por uma sensação súbita de déjà vu.
Nova coordenada disponível.
O ponto situava-se fora de Tóquio, na periferia da província de Saitama. Uma antiga escola primária, encerrada há mais de quinze anos devido à diminuição da população local. O nome surgia riscado no mapa, como se tivesse sido apagado à pressa.
Cheguei ao local ao final da tarde. A chuva tinha parado, mas o pátio estava coberto de poças escuras que reflectiam o edifício como um espelho partido. A escola era baixa, em betão gasto, com janelas grandes e portas de correr. A vedação estava aberta, dobrada para dentro, como se alguém tivesse entrado… ou saído.
O silêncio ali era diferente do da cidade. Não era ausência de som, era contenção. Como se tudo estivesse a escutar.
A aplicação vibrava de forma irregular no bolso.
Entrei pelo átrio principal. No chão, alinhados de forma demasiado cuidada, estavam dezenas de uwabaki, sapatos escolares. Pequenos. Médios. Grandes. Todos limpos. Nenhum par parecia gasto.
Não devia haver ninguém ali.
As salas de aula estendiam-se ao longo de um corredor interminável. As portas estavam abertas. Dentro, as secretárias permaneciam alinhadas, com cadernos fechados em cima, como se os alunos tivessem saído apenas por alguns minutos. No quadro de uma das salas, escrito a giz, lia-se:
“Hoje ninguém faltou.”
O telemóvel ligou o ecrã sozinho.
Relato associado encontrado.
“A escola continua a dar aulas. Apenas deixou de aceitar alunos vivos.”
Um sino tocou.
Não era eléctrico. Era mecânico, antigo, com um som grave que ecoou pelo edifício inteiro. As portas das salas fecharam-se de repente, uma após outra, com estalos secos. Fiquei sozinho no corredor.
Ou pelo menos pensei que fiquei.
Comecei a ouvir passos. Muitos. Pequenos, irregulares, arrastados. Vinham de todas as direcções, mas não via ninguém. As janelas começaram a embaciar-se por dentro. Em cada uma, surgiu lentamente a marca de uma mão infantil.
A aplicação mostrou uma nova mensagem:
“Presença não registada detectada.”
O corredor pareceu alongar-se. As paredes aproximaram-se ligeiramente. No fundo, uma porta que eu não me lembrava de ter visto antes abriu-se. Tinha uma placa enferrujada:
Sala de Registos
Entrei.
A sala estava cheia de armários metálicos. Em cada gaveta, um nome. Abri uma ao acaso. Dentro, havia uma fotografia escolar antiga. A criança na imagem não tinha rosto, apenas uma mancha branca indistinta.
Ouvi um sussurro atrás de mim.
— Falta um.
Virei-me. Uma figura de tamanho infantil estava parada junto à porta. Usava um uniforme escolar antigo. O rosto era uma sombra mal definida, mas os olhos, ou o que quer que ocupasse esse lugar, fixavam-me com atenção clínica.
— Todos têm de estar presentes — disse a figura. — A aula não pode acabar.
As gavetas começaram a abrir-se sozinhas. Fotografias caíram no chão. Em todas elas, o rosto começava lentamente a adquirir traços.
Traços demasiado familiares.
A aplicação vibrou violentamente.
“Deseja ser registado?”
O sino tocou novamente, mais perto desta vez.
O ar tornou-se pesado. Senti uma pressão estranha no peito, como se o edifício estivesse a tentar memorizar-me. A figura deu um passo na minha direcção.
Foi então que reparei num detalhe perturbador: no chão, junto aos uwabaki alinhados à entrada, havia agora um par a mais.
Do meu tamanho.
A porta da sala fechou-se atrás de mim.
E, algures na escola, alguém começou a chamar o meu nome, com a voz de uma criança que nunca fui.
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