Ecos Caleidoscópicos
6 Capítulo 6 – E a paz?
Notas iniciais
Jared e Jeb fazem seus planos na cozinha, Aaron e Brandt foram se livrar de um dos corpos que não serviu ontem. Volto ás minhas atividades regulares, numa atitude mecânica, mas logo me encontro divertindo-me com Paige, fazendo caretas e imitações bizarras da humana mais detestada daquelas cavernas. Por um tempinho, Jamie se junta a nós em nossa brincadeira, mas não demora muito pra Sharon o buscar pela gola da blusa de volta à sala de aula. Pobre garoto.
Há uma movimentação na entrada da caverna e todos param o que estão fazendo, tensos. Vejo Jared sair da cozinha como um furacão. Aos primeiros gritos que se ouvem a multidão da câmara parte naquela direção. Vou junto com a maré!
Insultos, ameaças de morte, gritos e um Kyle muito contido. Fico com medo dele não ser mais ele pelo tipo do comportamento. Esforço-me para ver seu rosto, ansiosa por verificar que minhas suspeitas são um engano, deixando escapar um suspiro aliviado ao ver que os olhos ainda são do O’Shea arrogante.
No entanto, ele não está arrogante. Ele está... Protetor.
Eu contorno por aqui e ali pra encontrar um melhor ângulo e capturo a imagem da garota, um pouco menor que eu, espremida entre Kyle e a parede. Os olhos dela fechados com força. Aterrorizada. Ainda assim ela se agarra a ele como pode e algo naquilo me dá a impressão de que ela quer protegê-lo de alguma forma. Então ela abre os olhos e um breve reflexo denuncia a natureza por traz do olhar. Eu ainda não estou preparada, saio em disparada pelo corredor.
Estou tão cansada dessa sensação de estar me reerguendo e então ser estilhaçada, novamente, pelas coisas mais triviais. Atiro-me sobre o colchão e enterro a cabeça ali, apertando o travesseiro por cima dela, pra abafar o som dos soluços que irrompem.
* * *
Eu apaguei. Não vi mais nada. Agora, abro os olhos para uma Paige que me observa em silêncio. Identifico pena em seus olhos esverdeados. Eu me sento em silêncio, a cabeça está doendo. Provavelmente é devido ao choro de ontem.
– Bom dia? – Olho disfarçadamente pra ela, passando a mão pelo rosto.
– Quase boa tarde na verdade. Lily, eu achei que você não estava viva. Sério, cheguei aqui ontem à noite e você estava, praticamente, sufocando-se com o travesseiro. Eu procurei pelo Doc, mas ele estava ocupado, então chamei o Andy pra ver se você estava mesmo viva... Que susto! – Ela fala transbordado as palavras aflitas e depois cai em cima de mim com um abraço forte, sinto as lágrimas escorrerem em seu rosto.
– Desculpa, Paige. Eu não quis assustar ninguém... Eu só queria... Eu ainda não vi a Peg desde que... E o olhar daquela garota... Ah! – Choro também.
– Não se preocupe, acho que não vai precisar mais ver nenhum daqueles olhos... Não tão cedo. – Há umcerto lamento na voz dela.
– Nenhum?
– Kyle pediu que retirassem a Alma da garota. Candy e Trudy já estão ajudando o Doc a cuidar do corpo, tentando reanimá-lo....
– Candy?
– A última... Cobaia que Peg trouxe. Ela acordou! – Há um discreto sorriso esperançoso no rosto gracioso de Paige.
– Como está a Peg?
– Bem...– O sorriso desaparece e a expressão dela fica confusa. – Peg também partiu... Quer dizer, quase. – Meus olhos arregalam de espanto e incompreensão. – Eu não entendi bem esta história toda... Parece que durante a madrugada ela pediu que Doc a extraísse para que a Melanie voltasse. Ela... Quis que Doc a deixasse morrer, Lily. Ela queria ficar aqui, fazer companhia a Walter e Wes... – Lagrimas silenciosas correm em sua face.
– Não... Paige, ela...
– Não. Jared impediu o Doc.
– Então...
– Ela está bem. Está naqueles tanques e a Melanie está determinada a trazê-la de volta.
– Melanie acordou! – Fico um pouco feliz e um tanto triste. Não entendo. – Ian? – Paige abaixa a cabeça enxugando os olhos, incomodada.
– Dá pra imaginar como ele ficou? – Ela diz num sussurro e eu sinto um aperto no peito. Eu conheço a dor de perder quem você ama.
– Onde ele está?
– No hospital. Os dois não saem de lá. Ian abraçado a uma lata e Kyle agarrado a um corpo... E a uma lata. – Seco minhas lágrimas e me levanto, passo as mãos no cabelo enquanto respiro fundo. Ian me ajudou antes, agora ele precisa de mim.
Minha cabeça dói mais e mais com os pensamentos que gritam aqui dentro. Como Peregrina pode nos deixar? Ela não pensou em todas as pessoas que a ama? Jeb, Jamie, Trudy, Paige, Geofrey, Heide, eu... Ian? Não, aquilo não fazia sentido. Tenho certeza que Peg estava consciente de tudo o que deixava para trás. Como ela pode? Ela sabia o quanto era importante, sobretudo, para nossa sobrevivência? Devia saber. “Ai, essa dor de cabeça!” Estou no final do corredor quando escuto o clamor de Jamie.
– Por favor Ian, deixe-me segurá-la. Só um pouquinho...
– Sem chances. Ninguém. Ninguém, além de mim, toca nela. – Entro a tempo de ver Jamie fazendo um beicinho dengoso, de frente para Ian que está amuado sobre uma das macas, aninhando um tanque com uma luz azul devotadamente em seus braços.
Jeb e Doc estão ao fundo do cômodo. Kyle dorme com a cabeça aninhada ao corpo da garota que trouxera na noite anterior, sem largar um outro tanque, cuja luz também está azul. O sentimento de espera pairando aqui é sufocante. Sigo, timidamente, na direção de Ian e Jamie. Bagunço os cabelos desse enquanto dirijo um sorriso cúmplice para aquele.
– Ela brilha tanto quanto essa luz azul?
– Ela brilha mais que o sol... É incrivelmente linda. – Ian dá um sorriso facinado.
– Ela não é um espetáculo. – Percebo, por fim, Melanie no catre ao lado, aconchegada nos braços de Jared. Ela parece aborrecida, então imagino que eu não seja a primeira a vir aqui para ver Peg. Tento esboçar um sorriso satisfeito como boas vindas para Melanie, mas não me sinto totalmente a vontade com a ideia. Acho que Melanie percebe, posto que ela me dirige um sorriso tímido, quase como se pedisse desculpas. Ela não precisava fazer isso.
“Tadá!”
A atitude de Peg cintila como um letreiro de neon para mim.
Foi um sacrifício, por uma das pessoas que ela melhor conhece e mais ama. Peregrina quis que Melanie fosse feliz, já que elas duas, no mesmo corpo, não estava funcionando, nem para uma, nem para a outra. Só que ela (quase) sacrificou a felicidade de Ian também.
Deve ter sido difícil tomar essa decisão, ainda mais vendo tudo aquilo nos olhos sinceros de Ian. Tanto quanto a angustia mergulhada naquele azul — melancólico agora — é verdadeira, o amor que transbordou dali também era. E ainda é. O silêncio estende-se por uns minutos e eu vago entre esses pensamentos.
– Então vocês vão mesmo para Seattle? – Jeb fala por fim, agora mais próximo de Jared e da sobrinha.
– Sim. Se vamos... Sequestrar alguém, é melhor que seja o mais distante daqui possível. Não se preocupe Jeb. Pode demorar um pouco até que verifiquemos tudo, mas estaremos bem. – Jared declara com convicção.
– Sequestrar? –Pergunto, intrometendo-me na conversa.
–Vamos buscar um corpo para a Peg. – Jamie me responde apontando para o tanque. Seus dedos quase o tocam, mas Ian se mexe bloqueando o acesso com o corpo. É até cômico, o protecionismo exacerbado de Ian.
Não consigo entender como isso foi acontecer. Como ele — um O’Shea! – pôde se apaixonar por algo... Alguém que era tão seu oposto? Eu podia jurar que, se colocassem aquele tanque em meio a outros tantos iguais, ele seria capaz de encontrar Peregrina, enquanto qualquer outro de nós não seria capaz de distingui-los sem uma identificação. Digo, não fosse toda a situação, o ser naquele tanque poderia ser Peg, ou a Alma que Kyle trouxe, ou... a buscadora!
Levo um tempo até perceber que estou em disparada pelo corredor sul, sem saber bem que rumo tomar. Os ecos dessa lembrança ainda são muito fortes, desconfortáveis, aterrorizantes para mim. As imagens vêm sem aviso prévio, repletas de silêncio e gritos. Minha mente fica confusa alternando entre os focos da memória e do presente.
Chego abruptamente à câmara principal e espanto algumas pessoas que já estão trabalhando. Paro um pouco, mas as imagens continuam se misturando na minha cabeça como em um caleidoscópio. Paige vem em minha direção com o olhar cauteloso, mas eu faço sinal para que ela fique onde está.
Volto ao ritmo frenético, rumo a um dos poucos lugares que me trazem algum conforto nessas cavernas. Rezo para que esteja vazio e agradeço quando chego e encontro o espaço silencioso na penumbra. Só o aroma já traz certa calmaria. O cheiro ocre da fonte impregna meus pulmões ofegantes, organiza minha mente por um instante. Então, é como se ele desse um comando e as lembranças rebobinassem rapidamente. Cansada eu cedo, deslizando pela parede áspera.
Fale com o autor