Ecos
2 Capítulo 2 - Ilusões
Notas iniciais
Ecos
Capítulo 02 – Ilusões
O hollow urrava de dor pelo braço decepado. Estava tão confiante e sedento em sua luta que não tinha percebido a presença do outro quando foi atingido. Xingava-o de todas as formas possíveis conforme afastava-se dele.
– Você não vai fugir dessa vez. – disse Kensei empunhando a pequena faca na sua direção.
- Seu filho da puta! Você não vai me pegar agora!
– Então sugiro que corra.
Girando a faca até a lâmina encostar-se à palma de sua mão, Kensei se projetou para cima do hollow como um vulto. Os olhos vermelhos da criatura se arregalaram e novos cortes surgiram em seu corpo. Se continuasse ali, sua vida estaria em risco. Desesperado, olhou ao seu redor vendo o corpo da menina jogado próximo a uma árvore. Seus dedos cresceram até ela numa medida desesperada. Kensei adiantou-se para sua frente repelindo o ataque, mas ele não passara de uma distração. Após arrancar os dedos do hollow, este se aproveitou do espaço entre eles para desaparecer de sua vista. Devia ter se concentrado totalmente na corrida, pois sua velocidade parecia ter triplicado em menos de um segundo.
Bufando, Kensei tratou de guardar a faca na bota virando-se para o ferido. Ele ainda estava de joelhos, mas agora a cabeça tinha se abaixado. A poça de sangue diante dele aumentara e continuava a fluir.
Shuuhei observava a cena diante de seus olhos atento para não deixar nenhum detalhe escapar. Era como um devaneio. Estava vendo-o novamente como se o seu grito abafado de angústia o tivesse invocado. Como se de alguma forma, seus sonhos tivessem tomado conta da realidade.
Forçou-se ao máximo permanecer fixo á sua imagem, mas a vista começou a cansar. A respiração, falha, deixava o ambiente pesado. Tentou puxar o ar para dentro de seus pulmões, mas cada vez que o fazia uma dor dilacerante tomava conta de seu ser, fazendo o gosto de ferro subir a sua boca. As pupilas trêmulas cediam cada vez mais, e a cabeça, pesada, pendia para frente, pedindo por um descanso.
– Ei, acorde! – a voz de Kensei parecia um eco distante chegando aos seus ouvidos. Sentiu pequenos tapas em seu rosto, mas não conseguia se mexer.
– Merda. –praguejou quando não teve resposta do shinigami.
O corpo robusto abraçou gentilmente as costas de Shuuhei deitando-o na grama. O que restara das vestes foram afastadas revelando com mais clareza seu ferimento. Estava feio, muito feio mesmo. A carne havia saltado um pouco para fora o que dificultava a regeneração. Por sorte, não havia chegado aos órgãos mais importantes com muita profundidade, mas se não fosse tratado logo, morreria.
Concentrando suas mãos sobre o machucado Kensei emanou um brilho esverdeado e era claro o esforço que fazia para isso; não tinha treinado para ser do esquadrão médico, tão pouco sabia utilizar um Kidou de nível mais alto para aprimorar sua cura, mas era o máximo que podia fazer no momento. Focou-se em reconstruir com calma a parte interna, primeiro. Quando teve certeza que tudo estava nos lugares certos, encerrou o Kidou, ofegante.
Shuuhei estava desmaiado, e pálido, muito pálido. Mas seu coração ainda batia o que era um bom sinal. Kensei removeu uma de suas blusas esgarçando o tecido. Pegando o shinigami pelos braços ergue seu tronco e pousou sua cabeça no seu ombro. Enrolou com cuidado as faixas em seu torço, dando um nó com força em seguida.
Ele realmente não era do esquadrão médico, mas ao menos, pode salvar a vida do rapaz. Tentou acordá-lo novamente, mas ele estava muito debilitado. Revirando seus olhos, pegou sua zampaktou do chão e encaixou de volta na bainha, o pegando no colo. A menina ainda estava na mesma posição de antes quando ouviu uma voz ao longe chamando por um nome. Aproximou-se do parque vendo uma senhora olhando ao redor. Chutou uma árvore para chamar sua atenção e quando obteve sucesso afastou-se a deixando encontrar a criança.
Já distante dali, olhou para o rapaz em seu colo. Apesar de ter um pouco de sangue em seu corpo, sua face parecia tranqüila, como se estivesse dormindo. Mas não era este o detalhe que mais lhe chamava a atenção. Aquele número tatuado em uma de suas bochechas, não lhe soava como uma coincidência qualquer.
Apertou-o mais forte contra seu peito e num salto, já estava a três telhados de distancia. Continuou com o percurso até chegar a um velho condomínio, perdido num dos cantos da cidade. Poucas pessoas moravam ali o que facilitava sua circulação furtiva. Puxou com dificuldade devido ao corpo em seus braços, a chave do bolso e rodou-a na fechadura ate ouvir o clik e entrar.
Um pequeno corredor o levava até uma sala, ligada a cozinha. A porta á sua direita dava no banheiro e a do outro lado ao quarto. Foi até ele, onde devagar depositou o corpo na cama.
Os olhos ainda fechados e uma expressão de desconforto avisavam-no que ele não acordaria tão cedo. Coçou a nuca pensando no que diabo ia fazer com aquele shinigami. Bufou indeciso e sem uma resolução. Retirou a espada de sua cintura e a recostou do lado da escrivaninha. Puxou o cobertor da ponta dele e cobriu-o até a altura do peito.
Ao virar-se para ir até a cozinha, pensou ter ouvido alguma coisa. Olhou para a cama e reparou nos lábios um bocado abertos do rapaz. Ajoelhou-se do seu lado aproximando os ouvidos de sua boca, o sussurro veio quase como uma respiração ofegante, mas ele claramente pode ouvir sua voz chamando seu nome; “Kensei...”
Encarou novamente aquele rosto. Encostou a mão nele virando para a face tatuada. O que aquilo queria dizer?
O soltou indo até a cozinha para pegar um pouco de café. Atendeu o celular no meio do caminho.
–... Não, hoje não posso, tenho um assunto pra resolver... Estou bem, só um pouco cansado, nos falamos no fim da semana. Okay tenham cuidado.
Desligou o aparelho e o recostou na mesa de centro da sala. Ainda chovia muito e só agora havia se lembrado das roupas molhadas. Soltou um leve grunhido de raiva e foi até o quarto pegar uma muda de roupa. Trocou-se rapidamente, lembrando-se do shinigami. “Merda!”, pensou, não podia deixá-lo ferido daquele jeito e ainda por cima encharcado.
Pegou uma camiseta e uma calça folgada, sentando-se no colchão do lado dele. Abaixou o cobertor até a altura do abdômen onde retirou a parte de cima das vestes de shinigami. Conseguiu por a blusa sem muita dificuldade, e sem reabrir a ferida, o que era um alívio. Mas a parte de baixo é que era o problema. Pensou em terminar de remover o cobertor e tirar suas roupas, mas quando começou a fazê-lo, sentiu-se um tanto encabulado com aquilo.
Tentou acordá-lo mais uma vez recebendo um pequeno gemido em retribuição. Ele abriu os olhos piscando algumas vezes.
Shuuhei viu o cabelo prateado, e nada mais além disso. Sua visão estava turva demais para distinguir qualquer coisa. Ergueu os braços e quando percebeu estar próximo de alguém, envolveu o que pareceu ser seu pescoço com eles, deixando o peso da cabeça cair no ombro.
Kensei não esperava uma reação tão rápida, mas talvez ele tivesse entendido o que queria fazer, ou apenas estivesse delirando. Passou o braço por detrás do shinigami encostando seu peito no dele. Suas pernas ainda estavam dentro do cobertor, e assim ficaram, quando ele o despiu. Levantou um lado do seu corpo de cada vez para por suas calças, levando mais de quinze minutos para uma ação tão simples. Respirou fundo quando tudo tinha terminado, apoiando suas mãos nas costas dele, como se fosse um novo abraço. Desceu seu corpo até a cama onde o recostou suavemente no travesseiro. Por um segundo, seus rostos ficaram a poucos centímetros de distancia, os narizes se encostavam. Kensei o analisou mais uma vez. Além da tatuagem ele tinha grandes cicatrizes do outro lado, cortes parecidos que indicavam um ataque único.
Pousou a mão sobre eles por um instante vendo o rosto de Shuuhei se contorcer em reprovação a isso; talvez as cicatrizes ainda doessem. Soltou-o, levantando-se da cama e finalmente, indo até a cozinha pegar um punhado de café. Enquanto bebia no sofá da sala puxou seu telefone. Estava visivelmente irritado ao digitar os números no teclado, mas não tinha outra saída; precisaria da ajuda dele.
Um borrão negro começou a desfazer-se em luz conforme abria seus olhos. Soltou um grunhido de dor, ainda sem mover seu corpo. Quando se acostumou com a claridade rodeou a cabeça no ambiente onde estava, desconhecido. Apoiando os cotovelos no colchão, Shuuhei ergueu seu tronco ao mesmo tempo em que deu um rápido urro. Colocou uma das mãos no peito sentindo o ferimento sobre a blusa. Aliás, não se lembrava de ter trocado de roupa. Sua zampaktou estava recostada na escrivaninha do lado da cama; talvez fosse uma boa hora para desembainhá-la.
– Finalmente, já estava ficando cansado de esperar você acordar.
Voltando-se para a porta ele viu Kensei encostado na entrada de braços cruzados. Parou de respirar por um instante arregalando os olhos. Pensou ter sido um devaneio de sua mente, mas era ele de verdade quem estava ali.
– E-eu... – balbuciou.
– Não precisa se preocupar, você está num lugar seguro, eu te trouxe para cá há três dias.
Mudando as feições de surpresa para algo mais sério, ele curvou as sobrancelhas.
- Três dias?! – exclamou eufórico, deixando sua ferida emanar mais desconforto.
– Sim. Você apagou depois do ataque daquele hollow.
As últimas lembranças da luta vieram a sua mente; a menina caída perto da árvore, a sua ferida, e a visão de Kensei salvando-lhe a vida.
Um pequeno rubor surgiu em seu rosto. Virando a cabeça um pouco para o lado, ele disse, com o tom de voz mais baixo.
- V-você... – gaguejava um pouco, mas nada que fosse perceptível, pensava – Quer dizer... Obrigado, por salvar minha vida... E me desculpe pelo trabalho.
– Não foi nada.
- Mas eu devo ter atrapalhado alguma coisa, você mesmo disse...
– Hã? – sua face tomou um ar de interrogação com aquela frase. Encontrou-se com ele e o hollow e depois disso... – Ah Sim! – exclamou, dando uma rápida risada em seguida – Quando eu disse “você só me dá trabalho”, eu não estava me referindo a você, mas ao hollow. Eu o caçava já algum tempo, e ele acabou fugindo de novo.
Shuuhei encarou seus olhos enquanto ele falava. Assumiu um ar de tristeza e o brilho no olhar desapareceu. Ah, então era isso, pensava. Ele não se lembrava dele. Também, como poderia, era apenas uma criança naquela época, vindo dos bairros pobres do Rukongai. Era insignificante para um capitão como ele, ou melhor, ex-capitão. E suas memórias, bem, elas ficariam apenas para si assim como seus desejos.
– Bem... obrigado, por tudo. – falou desanimado — Mas não quero abusar de sua hospitalidade, então...
Tentando se erguer Shuuhei tornou a cair na cama apoiando seus braços com força no colchão. Kensei apressou-se ao seu lado. Encostou as mãos em seus ombros colocando-o de volta na cama.
– Ainda precisa descansar, seu ferimento está longe de ficar bom.
- Mas... Já faz três dias, eu deveria poder pelo menos andar sem ajuda... – estavam próximos o bastante para ele reparar seu rosto corado. Torcia para não perceber ser por causa de sua presença.
- Este ferimento não é comum. – afastou-se um pouco ficando de pé ao seu lado – Aquele hollow é esguio, passou um bom tempo aperfeiçoando suas técnicas. Qualquer arranhão consegue devorar uma boa quantidade de reiatsu, e bom, o seu corte não foi nem um pouco pequeno, você deve ficar debilitado até ele cicatrizar.
Acenando com a cabeça Shuuhei a deitou de volta no travesseiro.
– Eu preciso avisar a Soul Society... Eles têm de enviar um grupo para caçá-lo.
– Eu vasculhei suas roupas. Seu comunicador estava quebrado, sinto muito.
Shuuhei pegou o aparelho esmigalhado. Era impossível concertar o pedaço de metal, e o portal só se abriria de novo dali a pouco mais de uma semana.
– Venha eu vou te ajudar a se levantar.
Vendo sua mão esticada Shuuhei corou mais uma vez quando a tocou com a sua, e mais ainda quando ele passou seu braço por sua cintura erguendo-o devagar. Chegou a apertar o ombro dele pela dor, mas pode ficar de pé. Na verdade agradeceu somente naquele instante pela ferida tê-lo feito parar de pensar em “besteiras”. Foi quando viu no sofá da sala um cabelo parecido com o seu. Aproximando-se, encontrou seu corpo, sentado, e de olhos fechados.
– Isso é...
– Um Guigai. – completou Kensei – Pedi ao Kisuke-san que o fizesse para você, assim vai recuperar sua energia mais rápido, e também vai sentir menos dor pelo ferimento.
– Não precisava se incomodar com isso, mas obrigado.
– Vamos, entre nele, veja se está bom.
Tocando a cabeça do Guigai Shuuhei sentiu ser atraído e juntando suas forças pode compelir-se dentro dele. Ergueu-se do sofá com maior facilidade sentindo a energia retornando depressa.
- Então, como está?
— Muito bom, já me sinto um pouco melhor.
– Ótimo, agora, se não se importa em responder, o que pretende? Vai voltar a Soul Society?
– Esse é o plano. Mas não posso falar com eles sem um comunicador. Acho que visitarei o Urahara-san.
Kensei concordou com ele, indicando-lhe o caminho. O acompanharia até a loja, pois o hollow ainda deveria estar atrás dele, uma boa oportunidade para matá-lo. Além do mais a tatuagem em seu rosto ainda o intrigava, mas era preciso ter paciência, difícil, mas necessário, a situação ainda não era propícia para fazer uma pergunta dessas, afinal, tudo podia ser um grande coincidência. Podia.
Chegaram à loja em menos de uma hora sendo recebidos pelas duas crianças que cuidavam dela. Kensei esperava na sala de visitas enquanto Shuuhei era atendido por Urahara.
– E também temos este novo produto que ajuda a tirar o cheiro ruim que alguns guigais têm, e esta bala te deixa mais rápido, mas dura só alguns segundos, e isso aqui...
– Urahara-san! – irrompeu-o cortando sua fala – Obrigado, mas só preciso de um comunicador Novo.
- Ah, se era só isso porque não disse logo de cara?
– Mas... eu disse...
– Vamos, vamos, deixe-me ver isso aqui.
Ele passou a mexer no aparelho enquanto Shuuhei aguardava sentado. Pegou algumas ferramentas pequenas e novas peças, onde montaria o novo comunicador através dos restos daquele. Nada muito complexo, mas engenharia não era o forte de Shuuhei. Estava mais acostumado a lidar com documentos e no geral, nas lutas.
– Se me permite posso fazer uma observação, Hisagi-kun? – uma faísca saltou dos fios nos quais mexia dando-lhe um pequeno susto, mas logo continuou.
– Sim, o que seria?
O chapéu listrado abaixou-se formando a sombra encima de seus olhos. Fitou as íris de Shuuhei tornando a falar.
– Pretende contar tudo o que aconteceu á Soul Society?
Ele juntou suas sobrancelhas após ouvir a pergunta. Mas é claro, era seu dever como soldado reportar todos os detalhes de sua missão, falhas, ou não.
– Desculpe-me Urahara-san, mas o senhor conhece o protocolo.
– Mesmo que isso possa colocar em risco a vida do Kensei-kun?
Foi como um soco no estomago. Aquela frase lhe dera um baque repentino, ao mesmo tempo em que percebia sua verdade. Provavelmente, se falasse sobre a intervenção de Kensei seria interrogado sobre seu paradeiro, suas condições físicas, dentre muitas outras coisas. Apesar de tudo, ele ainda era considerado um perigo em potencial aos olhos da Soul Society; mesmo com sua ajuda na última batalha. Qualquer comentário sobre os Vaizards era tratado como assunto de segurança máxima.
– Não estou querendo interferir nos seus deveres, longe disso. – continuou vendo as expressões no rosto dele — Mas também não quero vê-lo em maus lençóis por sua causa. Afinal, ele se arriscou muito cuidado de você nesses últimos dias, até lhe encomendou um guigai... Seria pouca gratidão de sua parte.
– Eu não pretendo fazer isso com ele. – rebateu de imediato, sério.
Urahara o olhou mais uma vez. Um rápido sorriso esboçou-se em seus lábios. Guardou suas ferramentas, e entregou o aparelho de volta á ele.
– Agradeço a compreensão. Aproveite as promoções da loja!
Reverenciando-o, Shuuhei guardou seu comunicador saindo da sala. Parou no corredor encostando as costas na parede fitando o nada. É claro que nunca colocaria Kensei em perigo, como poderia fazê-lo? Entregar de bandeja o homem que salvou sua vida, duas vezes? O homem que faz parte de sua mente desde criança, aquele que por mais que tente não pode esquecer? Jamais deixaria encostarem as mãos nele.
Respirou fundo e continuou o caminho até a sala de espera. As duas crianças enchiam Kensei de perguntas, sem paciência para respondê-las, mas contendo-se para não ser rude.
– Vamos. – disse já de saída.
Kensei o seguiu agradecendo por sair de perto daqueles dois.
– Conseguiu seu comunicador de volta?
Ele acenou negativamente com a cabeça.
– Precisava de mais algumas peças, então Urahara-san disse que o teria pronto no fim da semana. – mentiu, pois não havia outra desculpa para permanecer ali.
– Hmm...
Terminaram de sair da loja vendo o fim da tarde se aproximando. Shuuhei curvou-se de forma repentina para ele, dizendo:
– Obrigado por tudo. Não posso expressar minha gratidão com palavras.
Kensei o achava polido demais, mas deveria ser a formalidade com a qual se encontraram.
– Não precisa agradecer, eu só cumpri minha obrigação.
Ah, aquilo parecia doer mais do que seu ferimento. As esperanças de revê-lo eram tantas e seus anseios maiores ainda, porém ele não passava disso: uma obrigação na vida daquele homem. Uma obrigação da qual ele nem se lembrava. Por um instante, toda sua vida passou por seus pensamentos. Era um tolo, achava, por dedicar tanto tempo à ele, por perder dias a fio procurando suas informações, pela sua euforia a cada nova descoberta, e mais ainda, pela paixão ardente que explodia em seu peito só de vê-lo. Engolindo seco, e recobrando a consciência, Shuuhei se levantou continuando:
– Mesmo assim, obrigado.
Virando-se e enfiando as mãos no bolso da calça, Shuuhei caminhava sem rumo até a voz rouca irromper naquela rua deserta.
– E vai para onde?
Seu corpo se virou, mas ainda permaneceu na mesma pose.
– Ainda não tenho certeza, mas encontrarei um lugar para ficar.
– Você poderia pedir abrigo ao Kisuke-san.
Na verdade até poderia, mas assim quais seriam as desculpas para permanecer na cidade? Se voltasse antes do tempo previsto para a Soul Society, colocaria em risco a vida de Kensei. A melhor opção no momento era esperar a abertura do portal, como se nada tivesse acontecido. É claro, ainda existia o problema do hollow, mas isso poderia ser resolvido mais facilmente, bem melhor do que um retorno inesperado, e relatórios incompletos.
– Urahara-san já fez muito por mim, eu não me sentiria bem com isso. Sou grandinho, sei me virar. – mentiu.
Kensei soltou alguns ruídos parecendo bolar alguma coisa.
– Nesse caso, podemos nos ajudar.
Erguendo uma das sobrancelhas e com a boca um pouco aberta Shuuhei continuou a fitá-lo esperando por uma conclusão, curioso.
– O caso é que eu ainda estou atrás daquele hollow, mas ele não vai aparecer na minha frente e entregar a cabeça numa bandeja de ouro. Nisso você poderia me ajudar, e muito. Não quero que sofra nenhum risco, mas já é um começo para por um fim nas ações dele. Assim além de você concluir seu trabalho, e me ajudar, você também vai ter um teto para passar os dias. Sem contar que não vai precisar ficar sem jeito, afinal, estaria fazendo um favor para mim também.
A única parte relativa das palavras que Shuuhei se dignou a prestar atenção foi: “... você também vai ter um teto para passar os dias.” Ficar ao lado daquele homem, por quanto tempo fosse, era o que mais ansiava, mas resistia a demonstrar esse sentimento para ele. Virando a cabeça um pouco para o lado e abaixando olhos Shuuhei passou a analisar a possibilidade. Talvez não fosse má idéia. Ainda estava debilitado, mas era capaz de fazer alguma coisa. Pousou uma das mãos na frente da boca mordiscando de leve a pele do dedo. Se conseguisse eliminar o hollow poderia sem dificuldades forjar um documento sem mencionar o envolvimento de Kensei. Caminhou para perto dele, ainda sem encará-lo.
– Tudo bem, se não for incomodar, acho uma boa idéia.
– Perfeito. – ele sorriu – Vamos indo então, ainda tenho de passar no mercado.
– Mer...cado?
– É, para comprar comida, sabe?
– Ah... Verdade... Esqueci que para manter um guigai eu preciso me alimentar também.
Acenando positivamente, Kensei começou a refazer o trajeto para sua casa. Shuuhei o acompanhava de uma distância segura, ainda pensativo. As mãos nos bolsos suavam frio. Passaria a próxima semana na mesma casa que ele. Em todos os seus sonhos, jamais imaginou um dia como esse. Dividiria os afazeres, o ajudaria a caçar o hollow, mas o pior de tudo: dormiria no mesmo lugar que Kensei. Esfregou um pouco o rosto sentindo-se incomodado por um calor em suas bochechas.
– Algum problema? – perguntou sem olhá-lo.
Queria dizer “sim”, mas foi compelido a negar piamente, perguntando-se porque raios tinha aceitado a oferta dele, e aonde tinha se metido.
- A propósito. –Kensei parou, também com as mãos nos bolsos, olhando para ele – Qual o seu nome, garoto?
Ah! Mais lembranças, aquelas mesmas palavras. Conteve-se, respondendo meio sem jeito.
- Hi-hisagi Shuuhei.
- Hmm. Me chamo Mugumura Kensei, mas pode me chamar só de Kensei.
“Eu sei”; pensou, mas apenas acenou a cabeça. Prosseguiram com o caminho até a casa. Ele não se exaltou ao ouvir o seu nome, nem ao menos esboçou uma reação. É, Shuuhei havia guardado sentimentos individuais, tolos por muitos anos... E eles continuariam presos dentro de si.
Continua
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