Ecos
8 Capítulo 8 - Por você
Notas iniciais
Boa leitura o/
Ecos
Capítulo 08 – Por você
- Kensei-san... – a voz de Shuuhei em forma de um devaneio chegou aos ouvidos dos demais os fazendo se exaltar.
- Merda e agora?! – exclamou Hihori.
- Temos de levar a Mashiro para a loja do Urahara. – falou Rose apertando suas têmporas.
- Mas não podemos deixar essa oportunidade escapar! – comentou Lisa – Sabe lá quando iremos o encontrar de novo.
- Mas a Mashiro precisa da nossa atenção agora. – disse Love, já pegando a garota do chão e a apoiando em suas costas.
- E se o Kensei fugir?! – continuou Lisa.
- Chega! – o grito de Shinji fez a atenção de todos voltarem-se para ele – Vamos nos separar.
- Ta maluco?! – Hihori pôs uma das mãos na cintura fechando a cara enquanto a outra apontava para Shinji – Você sabe o quanto o Kensei é forte, ainda mais na forma liberada dele!
- Ela tem razão Shinji. – prosseguiu Rose completando o raciocínio dela – Vamos precisar de todos nós para poder capturá-lo.
- Não será preciso; temos o shinigami ali para dar apoio, por isso, ou nos separamos, ou perdemos o Kensei de vista.
Os olhares deles se encontraram por alguns segundos. Hihori rodopiou os olhos desaprovando aquilo, mas no final todos acenarem positivamente concordando com ele, sem alternativa.
- Ótimo – continuou Shinji – Love e Hihori, você levarão a Mashiro até o Kisuke.
- Porque eu?! – exclamou Hihori batendo o pé.
- Um de nós já basta Shinji. – comentou Love tentando evitar a ira da garota.
- Não sabemos por quanto tempo esse colar atua. Se a Mashiro acordar no meio do caminho vocês precisaram segurá-la.
Hihori cruzou os braços já irritada com aquilo; detestava ser deixada de fora, ainda mais quando era Shinji quem mandava, mas se era preciso para salvar os outros, o faria; depois acertava as contas com o loirinho metido a sabe-tudo.
Sem mais delongas, Shinji e os outros saíram do galpão a tempo, pois as pessoas começavam a chegar para inspecionar os estranhos barulhos vindos de lá sem entender como caixas tão pesadas, de metal, foram destruídas do nada. Rose usava o rastreador para localizar melhor a presença de Kensei: estavam bem perto.
As expressões de Shuuhei deixaram Lisa preocupada. O observava há algum tempo, e sabia que qualquer coisa relacionada à Kensei o deixava mais atento, ou nesse caso, inquieto. Mas agora teriam de enfrentar o amigo, talvez não da melhor forma possível. Todos estavam receosos, mas pelo jeito, Shuuhei tinha o pior estado deles, e falar algo seria completamente desnecessário, capaz de até mesmo o deixar mais para baixo ainda.
De acordo com Urahara, Kensei era o mais próximo do despertar total. Deveriam se apressar para pará-lo, mas caso isso viesse a acontecer... Se não chegassem a tempo... Deveriam matá-lo. Essa angústia, esse desespero faziam a cabeça de Shuuhei ficar tonta. Como poderia... Seria impossível levantar um dedo contra aquele homem! Não, não poderia deixar Kensei sucumbir dessa forma. Tinha de salvá-lo, de protegê-lo, pois ainda precisava contar a ele...
Aumentou a velocidade passando um pouco á frente dos demais, ficando páreo a páreo com Rose. Apertava as mãos tentando esquecer-se de tudo e se preocupar apenas em seguir à monstruosa reiatsu adiante.
Rose parou pouco tempo depois esticando o braço com o rastreador em diversas direções prestando atenção no sinal; aumentava quando próximo a um parque, e foi para lá que se dirigiram.
Entraram na parte mais escondida dele por entre as árvores; era quase como uma floresta. Shuuhei então cessou os passos olhando ao seu redor; aquele lugar, aquele parque: o conhecia. Tinha sido ali onde se encontrara com o hollow ao chegar ao mundo real um mês atrás. Era naquela pequena clareira onde tinha se ferido... Onde havia reencontrado Kensei.
A boca ressacada tremia ressaltando as rachaduras dela. Os dedos repousaram sobre seu peito, agora ofegante. Lisa apressou-se do seu lado, preocupada, até se distrair com o enorme urro que movia as folhas para longe com um forte vento. Shuuhei ergueu a cabeça com os olhos temerosos.
- Preparem-se... – falou Shinji já sacando a espada, sendo seguidos pelos outros vaizards; Shuuhei, porém, continuava imóvel.
Os galhos adiante se moveram e passos fortes repercutiam por entre as partes ocas das árvores. Alguma coisa se apressava até eles, e um grito, agora humano, surgiu no estranho cenário. Correram até ele e depararam-se com uma criança de cabelos pretos caía no chão aos prantos, sendo encurralada por um hollow; até então desconhecido.
- Será ele?! – perguntou Lisa.
- Não faço idéia... – respondei Shinji analisando-o.
- Não, não é ele. – interrompeu Shuuhei chamando sua atenção.
- Como você sabe? – indagou Rose rodeando com a espada o hollow.
- Eu sei.
De repente, uma sombra fez-se sobre eles, e no outro segundo, a cabeça do hollow partia-se em dois caindo no chão enquanto o corpo ia se desfazendo em cinzas. As bocas entreabertas observavam o monstruoso ser parado sobre a poça de sangue arqueando o corpo para frente numa respiração descompassada e contínua; não haviam nem percebido sua presença sorrateira se aproximando.
Shuuhei tremeluziu seus olhos e as íris arregalaram-se, pois debaixo daquela máscara grotesca, sutis fios prateados pendiam para fora. Grande parte do rosto já havia sido tomado pelos ossos, e a boca juntava-se á ele. O corpo já disforme tinha garras nas mãos e no lugar dos pés enormes patas curvadas davam a ele o ar mais ameaçador possível. Debaixo da pressão de sua reiatsu mover-se ficava até mesmo difícil. E então repararam agora em uma de suas mãos, o menino desacordado, e que estranhamente ainda estava vivo, porém desmaiado.
As pernas de Shuuhei balançavam frenéticas, sem saber como deveria agir agora. Atacá-lo assim como fizera com Mashiro?! Levantar a espada contra Kensei?!
- Vamos cercá-lo. – falou Shinji já se posicionando e sendo seguido por Lisa e Rose.
- Shuuhei! – berrou Lisa chamando sua atenção para a formação deles, mas assim que o fez a forma hollow de Kensei urrou de novo, partindo para cima da garota.
Rose não teve nem tempo para falar nada, pois apenas viu Lisa sendo arremessada até uma árvore onde bateu suas costas. Por sorte bloqueou a maior parte do ataque com sua espada, mas o ombro tinha se deslocado.
- Estou bem continuem! – disse a garota segurando o braço.
A criança desacordada agora repousava tranquilamente num ponto mais afastado deles; sem saber como tinha ido parar ali.
Atacar ou se defender... Qual deveria ser a ação de Shuuhei?! Porque Kensei tinha ido para esse parque?! Dentre todos os lugares no qual poderia se esconder tinha escolhido o lugar onde o encontrara, onde teve sua vida salva, mais uma vez, por ele. Acabara de matar o hollow que perseguira o garoto, e que então lhe parecia tão familiar agora com sua imagem de cem anos atrás... Ele ainda agia como se tivesse parte da consciência ativa, mesmo tento quase cedido... “Kensei-san...” Pensou querendo chorar. “O que eu faço?!” Levou as mãos à cabeça bagunçando os cabelos em sinal de desespero.
Shinji apoiou-se em uma das árvores, para então voar num ataque até Kensei. Conseguiu ferir seu braço, e também irritá-lo ainda mais. O sangue espalhou-se por entre o esverdeado campo pintando as folhas de carmim, e sobre a cena, um sorriso singelo apareceu na frente dos olhos de Shuuhei acompanhado do rosto dele; não conseguia ver a criatura, mas a silueta humana de Kensei sendo machucado.
- Pare! – esbravejou já desconexo de seus pensamentos. Num susto Shinji o encarou sem compreender. Fora atingido pela braçada da besta, berrando e raivosa, no instante seguinte.
- Mer...da... – resmungou Shinji pondo a mão sobre a barriga sentindo uma vontade forte de vomitar.
Rose adiantou-se tirando a atenção de Kensei sobre Shinji, enquanto os outros se recuperavam, mas era óbvio que sozinho não seria capaz de pará-lo. Lisa ainda estava com a expressão de dor e Shinji tentava resgatar o fôlego perdido; talvez somente eles não fossem o suficiente para detê-lo.
Ele havia se distraído por sua culpa, por causa de Shuuhei. O que estava fazendo ali?! Lisa também se ferira e se as coisas continuassem dessa forma Rose acabaria como eles. Tinha se decidido não era?! Concordou em partir com eles, pois queria salvar a Kensei, queria protegê-lo; mas agora tudo o que conseguia era sentir as lágrimas escorrerem até a altura do queixo sem parar. Estava impotente... Sozinho, e fraco...
Por quem lutava? Por quem tinha se esforçado durante todos esses anos? Era por ele, pelo homem no qual devia impedir nesse exato momento; pela criatura que aos poucos se transformava à sua frente na besta que era tão acostumado a matar.
O grito de Rose veio junto com seu corte na barriga já que a paciência do quase hollow tinham se esgotado, e aquela brincadeira de pega-pega perdera a graça. As idéias do shinigami cessaram para assistir a Shinji alcançar o amigo a tempo de impedir sua queda, mas o seu estado era grave.
Lisa bateu com força seu ombro contra a árvore sentindo as juntas voltarem a se unir. Gritou pela dor, mas rapidamente tornou a investir contra Kensei. A espada rebatia e resvalava por entre as garras e a grossa camada de pele, sem causar dano algum; ninguém queria, nem por um instante, usar sua força total contra ele, como poderia? Como se faz para atacar a um amigo?
A reiatsu de Kensei aumentou bruscamente alertando-os. Lisa afastou-se dele ainda empunhando a espada, e Rose tentava se apoiar nos ombros de Shinji para se levantar, apesar do ferimento. As ondas de energia espalhavam-se rapidamente assustando todo o pequeno animal das árvores os forçando a correr dali. E a densidade dela deixava a respiração pesada; viam agora a transformação alcançar um novo nível. As garras de Kensei enterraram-se no chão e um grito, que parecia como diversas vozes misturadas ao mesmo tempo, foi emitido de sua garganta em tom de desespero. As mudanças de seu corpo e alma eram ao mesmo tempo aceitas e repelidas pela sua pura força de vontade; mas até então não seria o bastante para voltar ao normal. Shinji e os outros teriam de se apressar agora, ou seria tarde demais.
Shuuhei desceu as mãos da cabeça não agüentando ouvir aquilo que pareia ser um pedido de socorro abafado de Kensei. Correu até ele na esperança de ajudá-lo e foi quando pôs a mão na parte de trás da fita de sua roupa; um baque e... Merda! Não tinha mais um daqueles colares! Havia usado o seu na luta contra Mashiro. A distancia era curta demais para esquivar e agora, pode apenas ajeitar os braços na frente do rosto, sentindo o impulso da reiatsu o empurrando para longe. Conseguiu parar no galho de uma árvore, segurando-se nela.
A energia se propagava com mais intensidade, e aos poucos, já tomava conta de todo o parque. Kensei debatia-se derrubando o cenário à sua volta, berrando, arranhando a qualquer coisa que se aproximava dele, num frenesi enlouquecido ao tentar aplacar sua transformação.
Lisa estava longe, Shinji cuidava de Rose, quase desacordado; ninguém por perto para lhe ajudar, para bolar um plano, nessa altura Kensei seria consumido pela sua porção hollow, e não havia nada que Shuuhei pudesse fazer para ajudá-lo, nada...
A imagem do sorriso caloroso de Kensei afastava-se de seus pensamentos; seu toque era quase como uma brisa distante do fim da tarde, e a voz era um eco a se dissipar no meio da escuridão. Esquecer-se-ia dele, enfim, do garotinho no qual havia salvado há tanto tempo atrás... Shuuhei estaria só novamente, pois as memórias de Kensei, os sussurros, aquela semana na qual passaram juntos se apagariam para sempre, perdidas no interior daquela fera que brotava aos poucos.
- Não posso... – falou para si mesmo ainda segurando-se ao galho da árvore – Não posso deixar isso acontecer.
As lágrimas caíam descompassadas, uma atrás da outra, chegando até seu pescoço, acompanhadas da voz chorosa enquanto prosseguia:
- Kensei-san! Você não pode... Se entregar assim! – passo a passo chegava mais perto da criatura, protegendo-se como podia de sua tremenda reiatsu – Precisa continuar lutando, por favor!
- Pare Shuuhei! – esbravejou Lisa do outro lado – Ele não sabe o que ta fazendo agora, se você chegar mais perto vai acabar morrendo!
- Se eu não puder trazê-lo de volta, eu prefiro morrer junto dele!
Os olhos negros de Lisa se arregalaram conforme a garota tentava alcançar Shuuhei, mas as feridas, o ombro doído, e o forte vento a compeliam para trás.
- Kensei-san! – prosseguiu Shuuhei sendo acompanhado dos olhares dos demais – Você sempre foi... Sempre foi forte e determinado! – os pés sofriam agora pequenos arranhões a cada rajada de vento – Foi você quem me inspirou todos esses anos a continuar sempre lutando e seguindo em frente! – os braços já sangravam devido à pressão e suas roupas se desmantelavam aos poucos – Eu queria tanto, tanto mesmo te ver de novo... Desde aquele dia... Quando salvou minha vida, há mais de cem anos! – Lisa e Shinji entreolharam-se confusos, vendo o shinigami a poucos metros de Kensei; preocupando-se ainda mais.
A criatura nada mais fazia a não ser gritar o mais alto possível. Coisa nenhuma parecia chegar até seus ouvidos, pois agora apenas o sofrimento fazia-se presente. A dor em seus músculos expandindo-se contra sua vontade, a ossada branca tomando posse das partes de seu corpo, a reiatsu aumentando freneticamente, obrigando-o a liberá-la para todos os lados; Quem? De quem era essa voz tão familiar e ao mesmo tempo desconhecida... Distante.
Lisa soltou um grito esganiçado, aterrorizada. Shinji tremia seu corpo com a boca entreaberta, Rose em seus braços tinha a mesma expressão incógnita; o desenrolar seguinte surpreendera á todos.
Shuuhei continuava a falar, tentando chamar a atenção de Kensei, tentando acordar sua parte humana. A criatura, ainda movia-se desconexo, quando uma sombra apareceu perto dele; uma ameaça. O braço erguido em poucos segundos projetou longas e grossas garras até ela, transpassando os dois ombros, uma perna e o lado esquerdo próximo a traquéia; O sangue escorreu pelas feridas e o gosto de ferro chegou à boca de Shuuhei.
- Kensei...San... – continuou a falar o shinigami, apesar do esforço que fazia para isso, pois agora, encontrava-se a alguns centímetros dele.
Uma respiração densa saía da garganta do hollow formando uma fumaça na frente de sua boca. Olhava para Shuuhei ao mesmo tempo em que não via nada. A face dele; o sangue saindo pelo canto de seus lábios. Quem era ele?
- Kensei-san... Agora... Você vai prestar atenção em mim?... – o shinigami sorriu, tentando esticar a mão até seu rosto – Você... Você precisa se esforçar mais, Kensei-san... Se continuar assim eu não poderei contar a você... Não poderei te dizer... – os dedos ensangüentados tocaram a máscara fria, enquanto a criatura permanecia imóvel — Tudo o que sinto por você... Kensei... Kensei-san... Abra os olhos... Volte para nós... Volte por mim... Eu preciso de você...
A voz... A voz dele era como um eco vindo em sua mente, retornando aos poucos, uma lembrança esquecida, porém muito querida. Ele era alguém importante... Alguém a quem precisava recordar... Mas quem? A dor era tanta. A energia forçando-se para fora do corpo. Uma criança...? As articulações doíam pedindo por um descanso... Cabelos negros, uma cicatriz... A máscara latejava apertando cada vez mais. Um número... Os ossos rangiam tentando aumentar de tamanho. Um nome... Qual nome?...
- Shuu... hei?... – as várias vozes distorcidas saíram de sua boca emitindo o rápido som. Num estalo as garras saíram do pequeno corpo frágil do shinigami aliviando os buracos que resvalavam até o outro lado dele.
- Finalmente... Acordou Kensei-san...? – falou antes de cair de joelhos no chão entregando-se ao cansaço.
Kensei urrou uma última vez, e Lisa ao longe pode ver sua forma grotesca começar a se acalmar, o volume de seus braços diminuíam, as pernas pareciam mais humanas, a máscara quebrava-se em mil pedaços, e as mãos apertavam a cabeça, agora sofrendo por outro motivo. O cabelo prateado pendia na frente do rosto, arfando, puxando o ar com dificuldade. Os dedos tentaram alcançar o corpo de Shuuhei à sua frente, mas num espasmo seguinte, caiu ao seu lado, impossível de realizar outra ação.
Lisa vinha até ele, correndo; foi a última coisa da qual se lembrou antes dos olhos foscos se fecharem. Bom, parecia ter acabado, enfim. Ainda preocupava-se com Kensei, mas sabia que ele seria bem tratado. Agora poderia relaxar... Poderia até mesmo morrer de felicidade, pois havia conseguido: tinha salvado Kensei. O corpo inerte do shinigami continuou parado, mas estranhamente com um sorriso no semblante.
O ambiente estava escuro quando Shuuhei abriu os olhos. A visão turva logo foi se acostumando, e aos poucos levantou seu corpo, sentindo algumas pontadas nele. Arqueou o tronco de volta abraçando seu abdômen vendo grossas faixas envolvendo seu peito e braços. As pernas latejavam, e tinha uma leve dor de cabeça. Apesar da dor parecer incômoda, sabia estar numa situação bem melhor de antes... Antes? Kensei! Tinha desmaiado! Agora não sabia como as coisas tinham terminado, merda!
Saiu do pequeno colchão cambaleante, abrindo a porta com vontade, e arqueando o corpo em seguida.
- Já se sente melhor? – erguendo a cabeça viu Urahara sentado na frente da mesa com o leque em mãos e o cheiro forte do chá vindo da cozinha.
- Kensei... Kensei-san... – falou ainda com dificuldade – Onde ele está?!
- Uma coisa de cada vez, Hisagi-san. Primeiro você precisa se cuidar...
- Me diga onde ele está, por favor!
Urahara bufou baixando seu leque. Foi até o shinigami o ajudando a ficar de pé e quando achou equilíbrio, Shuuhei o acompanhou até um dos vários quartos de lá, onde Kensei dormia tranquilamente. Apressou-se até o lado dele, ajoelhando-se perto de sua cabeça.
- Como ele está?! – perguntou sem tirar os olhos dele.
- Ainda debilitado... Não pude aplicar a cura ainda.
- Porque não?! – esbravejou o encarando sério.
- Porque é preciso uma boa quantidade de reiatsu para isso. – falou Lisa, aparecendo no quarto ao lado de Urahara, de braços cruzados, e aproximando-se de Shuuhei – Você foi muito imprudente, sabia disso?
Cabisbaixo, Shuuhei apenas respondeu:
- Me desculpe... Mas foi a única maneira...
- Ta que seja! Na próxima vez tenta pedir ajuda pra quem ta a sua volta!
- Certo... – sorriu ainda sem animo voltando-se para o assunto mais urgente – Dormi por quanto tempo?
- Pouco! – exclamou Lisa arqueando as sobrancelhas – Era pra você ter passado um dia apagado, mas parece que seu desespero em saber como o Kensei tava foi maior.
Sem graça, e um tanto quanto envergonhado, Shuuhei virou a cabeça para Urahara:
- Então, sobre a cura...
- Sim, eu não pude te explicar ainda Hisagi-san. – Urahara sentou-se perto deles e continuou – A cura consiste em aplicar uma grande quantidade de reiatsu nos afetados pela transformação, os ajudando a limpar sua alma da grande quantidade de energia negativa.
- Então só precisamos de alguém com bastante reiatsu para isso? Qualquer um serve?
- Não exatamente... Como foi a parte hollow deles quem despertou, o melhor seria que alguém com a reiatsu “pura” doasse a eles, como numa transfusão de sangue; alguém que não possua a energia hollow. O problema é que eu já fiz isso com a Mashiro-san quando a Hihori-chan e o Love a trouxeram; não esperava ter de cuidar de dois ao mesmo tempo. Preciso esperar um pouco até me recuperar para isso.
- Eu faço! – exclamou Shuuhei sem pestanejar.
- Não senhor! – interrompeu Lisa – Você está muito abatido! Não tem como fazer algo desse tipo ainda.
- Apenas o meu corpo foi ferido, minha quantidade de energia continua a mesma! Não é verdade, Urahara-san?!
Os dois voltaram-se para o excêntrico vendedor que encarava ora Lisa, ora Shuuhei, talvez pensando de quem apanharia menos dependendo de sua resposta. Deu uma longa bufada, abaixando seu leque e o fechando.
- Bem... O que Hisagi-san disse não está errado... A energia dele não foi diretamente afetada...
- Urahara! – esbravejou Lisa, quase voando em cima dele.
- Lisa-san... – falou o homem calmamente – Eu realmente gostaria de resguardar o Hisagi-san, mas as circunstâncias não são as melhores.
A garota baixou sua cabeça, até encontrar-se com Kensei; o amigo ainda usava o colar inibidor e a expressão de seu rosto lembrava-a da dor que sentira antes quando o hollow tentava apossar-se dele.
- Qual o estado do Kensei? – perguntou finalmente, chamando a atenção de Shuuhei.
- Ele está na beira de um precipício nesse momento... Se ficar mais algumas horas nessa situação em que tenta lutar contra sua própria natureza... Ele pode sucumbir... Para sempre.
Shuuhei socou o piso de madeira rangendo os dentes. Curvou um pouco seu tronco até onde as feridas lhe permitiam, surpreendendo a Urahara e Lisa.
- Por favos Urahara-san... Deixe-me curá-lo...
A mão quente de Lisa tocou a sua nuca de leve. Shuuhei ergueu-se vendo seu doce sorriso, e algumas lágrimas nos cantos dos olhos da garota. Segurou sua mão sorrindo também, e finalmente, olhando para Urahara.
- Hisagi-san, sabe que se fizer isso, sua recuperação irá demorar muito mais do que o normal, não é?
- Sim, estou ciente. Mas nada disso importa. Só me preocupo em salvá-lo, e nada mais.
O loiro esticou os braços para frente, dando uma longa respirada, e arrumando seu chapéu, disse:
- Bem, se é a única maneira, farei os preparativos.
Agradecendo-o, Shuuhei ficou no quarto junto de Lisa, esperando até Urahara aparecer acompanhado de Jinta e Ururu. Traziam alguns fios embolados, e nas mãos do vendedor, um pequeno aparelho com saídas nas laterais.
- Hisagi-san, agora, deite-se do lado dele. Jinta arrume um colchão para ele.
- Porque eu?! – reclamou o garoto, quase jogando os fios no chão.
- Porque eu estou pedindo.
- Ta, ta!
O colchonete foi posto bem próximo a Kensei, enquanto Urahara ajeitava o aparelho no meio acima das cabeças deles. Depois que Shuuhei deitou-se, puxou um pequeno pano preto preso a um dos fios, e o colocou em seu braço direito, fazendo o mesmo no oposto de Kensei.
- Você irá sentir uma leve pressão no braço, e um pouco de fraqueza, Hisagi-san.
- Tudo bem... Pode começar.
Urahara assentiu com a cabeça, apertando alguns dos botões e conectando fios. Subitamente Shuuhei sentiu como se uma longa seringa sugasse a energia de seu corpo, fazendo-a passar pelo fio indo até Kensei. Agora reparou que outro fio saía de seu braço, e agora, Urahara retirava seu colar.
- Sua reiatsu será transferida para Kensei-san ao mesmo tempo em que a energia negativa é removida por estes outros plugs. Esse processo levará pelo menos umas cinco horas Hisagi-san. Preciso que você o tempo todo se concentre em manter o nível de energia estável, ele não pode oscilar muito. Essa máquina o ajudará a monitorar isso. Se precisar de alguma coisa, basta me chamar estarei na sala ao lado.
- Espera, nós não vamos ficar aqui?! – exclamou Lisa.
- Hisagi-san precisa de silêncio para se concentrar. Quanto mais calmo ele estiver, mais eficiente será a transfusão.
- Mas e se tiver algum problema, nós...
- Lisa-san. – falou Shuuhei interrompendo sua fala – Vai dar tudo certo. Eu vou ficar bem, e logo, logo, o Kensei-san também.
- Shuuhei...
Os olhos da garota enchiam-se de medo por detrás das lentes dos óculos, mas agora nada podia fazer a não ser confiar em Shuuhei, e torcer pelo amigo. Levantou-se ajeitando a saia e parou na porta junto de Jinta e Ururu:
- Boa sorte Shuuhei.
O shinigami sorriu, sendo deixado no quarto apenas com a presença de Kensei. Sua cabeça permanecia virada para ele o tempo todo, sem nem mover-se. Estavam agora tão perto, e ao mesmo tempo, uma distância enorme os separava. Ele parecia estar sofrendo com tudo aquilo, mas com o passar das horas, suas feições melhoraram. O aparelho apitava bem baixo, mostrando o quanto de energia já havia sido transferida, e também o quanto faltava; uma hora, e o relógio parecia ter congelado seus ponteiros. Ainda assim, Kensei não abrira os olhos, nem uma vez. Apenas seu peito movia-se com a respiração, antes ofegante, e agora mais controlada.
Como reagiria ao vê-lo? Será que se lembraria da sua luta? De sua quase transformação? Das palavras que havia dito á ele... Do que ainda queria desesperadamente lhe dizer; confessar todos os anos no qual pensou nele. E em como apenas saber de sua existência o deixara extremamente feliz. Ah! Aquela semana que não saía de seus pensamentos, do seu bilhete que ainda carregava consigo... Mas também precisaria se desculpar. Pedir perdão pela sua demora, por não ter percebido o quanto precisava de sua ajuda, e de quão inútil tinha sido, pois nem teve coragem de levantar a mão contra ele.
- Kensei-san... – falou quase sussurrando – Por favor, acorde logo...
Um bipe mais alto saltou na tela do aparelho. Shuuhei o olhou assustado, erguendo um pouco seu corpo, vendo a linha verde subir e descer em pontos mais altos. Ouviu alguns grunhidos e voltando-se para Kensei, sentou-se mais perto dele, vendo a área ao redor de seus olhos se contorcer. As pálpebras forçaram-se até as íris prateadas criarem foco, e enxergar o semblante paralisado e absorto do moreno a sua frente.
- Shuuhei?... – balbuciou com a voz ainda fraca, disperso do que acontecia á sua volta.
As mãos tremulas não paravam quietas ao lado de seu corpo. O olhar antes triste tomava um ar de alívio. Shuuhei não conseguia emitir som algum ao ouvir a voz de Kensei chamando por seu nome, mas pode deixar as lágrimas escorrem livres dos olhos, agora brilhando de felicidade; ele estava bem... Estava vivo.
Continua
Notas finais
Até o próximo capítulo gt o/
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