Ecos
6 Capítulo 6 - Remorsos
Notas iniciais
Ecos
Capítulo 06- Remorsos
- Hisagi-san, posso entrar?
- Sim. – respondeu a um dos shinigamis de seu esquadrão baixando a papelada de documentos na mesa.
- Desculpe interromper, mas o Yamamoto-taichou pediu que todos os capitães e seus subordinados fossem até uma reunião.
- Certo. Irei imediatamente, obrigado.
O menino curvou-se saindo da sala. Shuuhei respirou fundo, já entediado com tudo aquilo. Nem sabia por que de tal reunião agora pois as coisas pareciam mais paradas do que o normal.
Bufou levantando-se da cadeira ajeitando a braçadeira no seu braço; olhou para a sala vazia e na papelada jogada pelos cantos. Pensou em como fazia falta ter um capitão por perto.
Chegou em poucos minutos na frente da enorme porta de madeira do saguão de reuniões, mas ele estava fechando. Foi quando viu Renji parado em uma das pilastras com os braços cruzados e cabeça baixa; parecia estar dormindo.
- Renji? – falou ao se aproximar dele, mas não obteve resposta. Fechou o punho dando-lhe um leve soco no ombro, fazendo o amigo quase cair.
- Porra Shuuhei! – esbravejou – Podia ter me acordado com mais delicadeza?!
- Se você não estivesse dormindo durante as horas de serviço eu nem precisava te bater.
- Ah! Dá um tempo, eu virei à noite com o Kuchiki-taichou preenchendo uma penca de formulários... To exausto!
- Falando no Kuchiki-taichou, onde ele está? Já começou a reunião?
- Sim, o Yamamoto-taichou disse que falaria com eles primeiro e depois com os sub-capitães.
— Sabe do que se trata?
- Sei lá! A Rukia comentou algo como uns problemas com hollows no mundo real, mas nada fora do comum... Devem querer escalar um time para ir até lá ou algo do tipo.
Problemas com hollows sempre eram coisas complicadas, ainda mais depois da devastação que a Terra sofreu na luta contra Aizen. Porém o mais preocupante na cabeça de Shuuhei era a segurança de Kensei e dos outros Vaizards. Aos seus olhos eles não passavam de pessoas injustiçadas pela Soul Society, afinal, tinham os ajudado e muito.
Mordeu um pouco o lábio inferior perguntando-se sobre qual assunto Yamamoto-taichou queria conversar, e ficou mais angustiado ainda com o medo de ser sobre Kensei.
- Pensando em alguém? – perguntou Renji.
Seu rosto corou quando o ouviu, virando um pouco a cabeça para o lado, fazendo o ruivo rir.
- Sabe, sua cara te entrega... – comentou – Mais um pouco e já estaria babando.
- Pare de falar besteiras!
- Digo pro seu bem, não quer que outras pessoas vejam isso, né?
Bufando Shuuhei cruzou os braços encostando-se ao lado oposto da pilastra. Renji chegou a soltar um ou outro comentário seguido de risos, mas o moreno apenas ignorou. Depois de meia hora, as portas da sala se abriam e capitão por capitão, saíam, retornando aos seus esquadrões. De relance, Shuuhei pode ver os olhos de Renji esgueirando-se para o lado observando uma figura conhecida caminhando com a imponência de sempre de um capitão com os cabelos negros milimetricamente presos e ajeitados, com as pontas movendo-se junto ao vento. Sorriu, pondo a mão no ombro do amigo:
- Você devia aprender a disfarçar essa cara, Renji.
O ruivo corou voltando-se depressa para ele.
- O-o que você quer dizer com isso?! – indagou visivelmente irritado e sem graça, mas Shuuhei apenas riu.
- Vamos, temos de entrar no saguão.
Renji chegou a bater o pé, andando na frente de Shuuhei resmungando mais algumas coisas, mas logo já estavam lado a lado, juntos aos demais sub-capitões. Ajeitaram-se em duas fileiras paralelas aguardando o parecer de Yamamoto. O senhor ergueu as sobrancelhas analisando a sala, e finalmente, se pronunciou:
- Chamei-os aqui, pois temos um problema a ser resolvido de imediato no mundo real, mas agora saibam apenas que anomalias têm surgido por conta da batalha contra Aizen Sousuke...
- Que tipos de anomalias, Taichou? – perguntou Rukia.
- Eventos que tem causando uma grande transição de hollows para a cidade de Karakura, e que agora vêem se espalhando para as cidades próximas. De acordo com as análises do esquadrão de pesquisas, parte da reiatsu do Hogyoku permaneceu na Terra, sendo um chamariz para espíritos, pessoas com sensibilidade espiritual, mas principalmente de hollows.
- E quais medidas iremos tomar senhor? – indagou Kira, dando um passo à frente.
- Cada um de vocês irá cuidar de áreas com menor influência dos hollows, enquanto alguns dos capitães serão enviados para eliminar os pontos mais críticos.
O alvoroço foi rápido, mas Yamamoto logo tomou a ordem. Em seguida cada um foi designado a uma região, enquanto outros ficariam responsáveis apenas por análises básicas.
- Hisagi Shuuhei – continuou Yamamoto citando os nomes – você ficará responsável pela cidade de Karakura e a eliminação dos hollows, já que sua última visita a ela foi bem sucedida, e os incidentes de lá não tem sido tão freqüentes.
Uma pequena explosão apossou-se do peito de Shuuhei. Poderia, finalmente, voltar à Karakura e rever Kensei. Tentou pelo menos disfarçar a alegria na sua resposta, saindo da sala logo em seguida, e deixando um largo sorriso brotar no rosto.
“Kensei-san...” Pensava. “Quero encontrá-lo logo.” Ao mesmo tempo sua mente tentava se focar no objetivo da missão, mas era impossível fazê-lo depois de remoer por tanto tempo suas resoluções.
Partiu acelerado para seu esquadrão já se preparando para a saída no fim da tarde, e diferente de sua outra missão, as horas pareciam não passar nunca o deixando angustiado.
- Já está pronto Shuuhei? – o moreno olhou para a porta vendo Renji encostado nela.
- Sempre me preparo com antecedência, diferente de certas pessoas.
- Ah! Corta essa! Deu pra ver sua cara lá na sala, você ficou bem mais animadinho que de costume quando recebeu sua missão. Tem algum motivo especial para isso? – o amigo foi entrando no escritório fechando a porta atrás dele.
- Motivo? Nenhum... É só mais uma missão. – mentiu de costas para ele ajeitando os papéis na mesa. Foi quando viu a mão de Renji apoiado nela ao seu lado.
- Shuuhei, vou te dar um conselho, então ouve direito, porque eu não sou muito bom nessas coisas.
Ele virou-se para Renji com uma das sobrancelhas arqueadas e logo o amigo continuou:
- Se você tiver a chance de vê-lo e dizer tudo o que sente; não a perca ta bom?
Apesar de ter ficado surpreso, sentiu-se extremamente feliz com o comentário de Renji, e sua única reação foi sorrir ao amigo e lhe dar um leve tapa no ombro, tornando a arrumar suas coisas.
Na hora marcada estava diante do portão já pronto para sua saída. As últimas instruções foram dadas, e assim ele partia mais uma vez ao mundo real, e ainda que seu senso de dever o levasse até lá, um sentimento mais forte e uma vontade imensa de ver Kensei falava mais alto.
Ao pisar no solo da Terra, correu em disparada para seu apartamento; obviamente ficou atento as reiatsus à sua volta, mas nada fora do normal estava acontecendo. Fazia quanto tempo mesmo? Dois meses? Os dias pareciam ter demorado séculos, ainda sim, tinha sido um período longo comparado a semana que passou ao lado de Kensei, a qual queria repetir.
Em poucos minutos estava diante da portaria olhando para o alto, na varanda dele. Saltou até ela pousando na grade e descendo. Empurrou a porta de vidro entrando devagar.
- Kensei-san? – falou ao entrar, mas não obteve resposta.
Caminhou até seu quarto; estava vazio, e a cama um pouco revirada. O banheiro também estava assim, e finalmente, foi até a cozinha. Chegou a sentir um cheiro podre e abrindo a geladeira encontrou a maioria dos alimentos estragados; preocupou-se. A casa estava num estado desordeiro, e um pouco suja, ainda mais com a cozinha daquele jeito, algo estava errado. Ou Kensei era extremamente desleixado, ou não havia retornado há algum tempo.
Ao virar um pouco o rosto sentiu um metal frio encostando ao seu pescoço. Parou o movimento virando as órbitas para encarar um homem loiro apontando sua espada para ele.
- Quem é você? – perguntou forçando um pouco a lâmina.
- Já que está fazendo uma apresentação tão amistosa, porque não começa?
- Quem tem a espada apontada na garganta é você, shinigami, então responda à pergunta.
- Tudo bem Rose. – uma voz feminina irrompeu no ambiente – Eu o conheço.
O homem loiro baixou a espada ainda encarando Shuuhei que finalmente pode ver Lisa com os braços cruzados o encarando.
- Lisa-san. – falou dirigindo-se a ela – Desculpe ter aparecido assim do nada.
- Você sumiu por um bom tempo.
- Fiquei fora das listas de vigília para resolver assuntos do meu esquadrão.
- Lisa, quem é ele? – perguntou o loiro.
- Foi mal, Rose, esse é o Shuuhei, um amigo meu e do Kensei.
- Oh... – a voz do loiro parecia um tanto quanto abatida – Nesse caso, peço desculpas pela “surpresa”.
- Eu entendo, afinal é estranho um shinigami revistando a casa de seu amigo. A propósito, o que aconteceu?
Os dois Vaizards se entreolharam deixando Shuuhei mais apreensivo ainda. Lisa bufou enquanto ia até a varanda.
- Venha. Nós estamos indo até a loja do Urahara. Ele poderá te explicar melhor.
Concordando os três partiram em direção ao outro lado da cidade.
- Veio em missão especial? – indagou Lisa no meio do caminho.
- Bom, sim. Tivemos algumas leituras de anomalias acontecendo em Karakura e nas cidades vizinhas por conta de um resquício da reiatsu do Hogyoku que ficou no mundo real depois da batalha com Aizen.
Lisa e Rose olharam-se de novo acrescentando mais dúvidas a cabeça de Shuuhei. Chegaram, finalmente, à loja, sendo recebidos por Jinta, que logo os encaminhou para a sala de espera. Passados alguns minutos, Urahara juntou-se a eles.
- Hisagi-san! Há quanto tempo!
- Sim verdade.
- E o guigai? Funcionou direito?
- Perfeito, muito obrigado.
- Dá licença. – interrompeu Lisa batendo com a mão na mesa – Mas nós temos assuntos mais sérios a tratar do que as fofocas de vocês.
- Hmm. Verdade. – continuou Urahara abrindo seu leque na frente da boca. – Então, Hisagi-san está a par do que tem acontecido?
Lisa meneou que não com a cabeça fazendo Urahara soltar um longo suspiro.
- Nesse caso – continuou ele – Darei uma pequena aula a você. Lembra-se da batalha de Aizen, correto?
- Sim.
- Pois bem. Durante o tempo que o Hogyoku ficou na cidade de Karakura, devido ao seu enorme poder, acabou deixando aqui uma pequena parcela de sua reiatsu.
- Essa foi a informação que o instituto de pesquisa nos deu antes de nos mandarem para a missão.
- Ótimo, já me poupa tempo. Prosseguindo. Essa reiatsu apesar de pequena foi capaz de se regenerar aos poucos, atraindo primeiro espíritos pequenos, e almas ainda não transformadas em hollows. Com o passar do tempo que ia “digerindo” essas energias a sua própria foi se expandindo, indo parar em outras cidades, como se fosse uma extensa linha ramificada até que os hollows mais fortes começaram a surgir, inclusive os remanescentes da batalha contra Aizen que debandaram antes do confronto final.
- Entendo. Isso começou a causar uma reação em cadeia.
- Sim, e como o Hogyoku tem uma espécie de vontade própria, seu objetivo primário foi de restabelecer suas forças, até se completar novamente.
- “Novamente?!” – exclamou o moreno – Então quer dizer...
- A crescente massa dessa reiatsu pode gerar um “novo Hogyoku.” – concluiu Rose.
Shuuhei baixou a cabeça mirando a mesa; estava pasmo. A situação era mais perigosa e delicada do que tinham previsto. Olhou para Urahara falando:
- Temos e fazer alguma coisa! Destruir essa reiatsu antes que ela aumente ainda mais!
- Esse era o plano inicial. – interrompeu Lisa – Mas nós tivemos... Complicações.
- Que tipo de complicações?
Rose a encarou ainda com o olhar distante, voltando-se para Urahara.
- Eu criei um dispositivo capaz de se autodestruir com o projeto de Hogyoku, e pedi a Lisa-san e os demais que o instalassem, mas ocorreu um imprevisto durante a operação. Não sei se é da sua ossada Hisagi-kun, mas a mutação de shinigami para hollow foi provocada pelo Hogyoku.
- Acho que cheguei a ouvir algo desse tipo.
- E esse foi o problema. Quando os Vaizards se aproximaram da reiatsu, a energia começou a interferir nas suas transformações, tornando-as incontroláveis de novo.
- A primeira que acabou sucumbindo... – continuou Lisa – Foi a Mashiro.
Arregalando os olhos, Shuuhei deixou a boca um tanto quanto entreaberta. Num estalo, perguntou á ela:
- Quando isso aconteceu Lisa-san?!
- Quando? Deixe-me ver... Há uns dois meses, acho eu... Foi quando a situação começou a ficar fora de controle.
- E nós percebemos tarde demais. – bufou Rose, ainda cabisbaixo.
Dois meses... O tempo exato no qual tinha partido. Como ainda estava debilitado não percebeu tamanha alteração acontecendo bem debaixo de seu nariz, mas, além disso, era a explicação mais óbvia para o sumiço de Kensei naquele dia.
- Pensei que a Mashiro-san fosse a mais bem preparada ao lidar com sua transformação.
- Ela é por isso ficamos tão surpresos. – ajeitando os óculos Lisa continuou – Por isso nossa prioridade agora é procurar pelos nossos amigos que se transformaram, para lhes dar a cura e evitar danos maiores.
- “Amigos?” – indagou com as sobrancelhas arqueadas – Então foi mais de um?
- Infelizmente sim. Depois da Mashiro o Hachi tentou pará-la, mas acabou sendo pego também.
- E onde eles estão agora?
- Não sabemos. – continuou Rose – Eles podem estar sem consciência agora, mas ainda possuiu um extinto de sobrevivência; eles vêem se escondendo de nós há algum tempo.
- Eles já não deveriam ter se transformado em hollow por completo a essa altura?
- Ainda não. A parte humana deles está resistindo, agüentando durante todo esse tempo. Estão parcialmente despertados.
- Por isso Hisagi-san – Urahara fechou seu leque guardando-o – Sua ajuda será muito bem vinda, afinal, um shinigami “puro” tem menos chances de ser afetado.
- Podem contar comigo, mas não seria melhor chamarmos pelos outros? Ao menos assim terei apoio na parte das buscas.
- Contatarei o Love a Hihori e o Hirako. – falou Lisa puxando um celular do bolso da saia.
- E quanto ao Kensei-san?
Os dedos de Lisa pararam de digitar no telefone. Rose baixou sua cabeça enquanto Urahara deixava a típica sombra de seu chapéu formar-se sobre seus olhos.
- Shuuhei... – falou Lisa com a voz estranhamente calma e tristonha – Quando a Mashiro se transformou e o Hachi também, o Kensei foi logo atrás deles, para tentar salvá-los.
O coração do shinigami parou por alguns instantes. Se estivesse ouvindo direito aquela conversa o levaria a um lugar completamente desagradável.
- Ele desapareceu. Procuramos por ele em toda a parte, e quando finalmente achamos... – ela fez uma pequena pausa, aumentando sua angústia.
- O que aconteceu com ele?! – exclamou Shuuhei levantando-se.
- Kensei... Foi o terceiro a se transformar... E é o que está mais perto do despertar total.
Um baque repentino o fez encostar-se à parede. O coração paralisado agora parecia apertar-se no peito. As lágrimas queriam cair, mas não tinha vontade disso, pois uma raiva tremenda apossava-se de si, por não ter conseguido salvá-lo antes, por não ter voltado mais cedo, por não tê-lo impedido de sair naquela manhã... Via-se mais uma vez impotente, um inútil, como o garotinho assustado de antes.
Num instante seguinte, tomando conta melhor de suas ações e melhor resolvido, olhou para os três, decidido, sussurrando para si mesmo:
- Dessa vez eu irei salvá-lo...
Continua
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