Eco
1 Capítulo único
Nós nunca sabemos quando será a última vez que olhamos nos olhos de quem amamos, que ouvimos a voz, que sentimos o abraço. E quando nos damos conta disso… já é tarde demais.
Eu olho para trás e vejo tudo o que perdi, cada momento que passou sem eu perceber, e agora a memória é a única coisa que me resta — apenas o eco das vozes que não ouço mais.
Isso me lembra o quanto eu devia ter valorizado cada segundo, cada risada, cada palavra dita — porque o presente é frágil, ele escapa pelas mãos, e pode sumir de um dia para o outro, sem aviso, sem adeus. E quando se vai… só o eco fica.
O tempo não pede licença para ir embora. E a gente só aprende quando já não há mais tempo.
Valorizar o agora… é a única coisa que não podemos perder. Porque um dia, até ele se tornará apenas mais um eco no silêncio.
…
Os olhos dele não suavizaram, mas os dedos, por um instante, pararam de se mover sobre a alça do bule. Uma das cadeiras era a que Erwin sempre ocupava: direito, ombros eretos como se ainda estivesse diante de uma tropa, mesmo quando estavam só os três. A outra, torta em uma das pernas por causa de uma brincadeira antiga de Hange, que jurava que balançar daquela forma ajudava a pensar. E ao redor da mesa, em silêncio, ele quase podia ver os outros assentos — aqueles que um dia ocuparam Petra, Oluo, Eld e Gunther, o Esquadrão de Reconhecimento Especial, arrancados dele entre as árvores gigantes, sob a lua fria e implacável. Agora, todas estavam imóveis, silenciosas demais para um cômodo que um dia se encheu de vozes, de risadas, de planos, de loucura e de fogo.
A água ferveu. O vapor subiu devagar, branco e leve, desfazendo-se no ar frio como se nunca tivesse existido. Ele despejou o líquido sobre as folhas secas. O aroma se espalhou de imediato — forte, amargo, inalterado, como se o tempo não tivesse passado, como se a porta fosse se abrir a qualquer momento e Hange entrasse rindo alto, falando mil coisas ao mesmo tempo, e Erwin seguisse atrás, calmo, com aquele olhar que sempre parecia ver mais do que todos... e, com eles, os quatro que um dia beberam chá ali, antes de a floresta os levar.
Mas a porta permaneceu fechada. O som do mundo lá fora era apenas o vento arrastando poeira pelas ruas vazias.
Ele pegou a xícara com as duas mãos, sentindo o calor que mal conseguia aquecer sua pele. Não sorriu. Não chorou. Levi Ackerman nunca foi homem de grandes demonstrações. Apenas levou a xícara aos lábios, bebeu um gole devagar, saboreando o amargor que não era só do chá — era o gosto de todos aqueles que partiram antes dele.
— Está forte demais — murmurou, baixo, como se Erwin estivesse ali para ouvir. E depois, ainda mais suave, quase perdido no silêncio: — ...Cheguei primeiro.
Ninguém respondeu. O vento bateu suavemente na janela. Ele encheu mais duas xícaras, colocou-as diante de Erwin e de Hange... e, por um instante, hesitou, os olhos parando no espaço vazio onde Petra costumava sentar. Encheu mais quatro, devagar, com cuidado, e as pousou uma a uma. Ficou ali, sentado, bebendo o chá, dividindo uma ocasião especial com seis fantasmas que, para ele, nunca estiveram realmente ausentes. O silêncio continuava a zumbir, mas agora já não parecia tão vazio.
Ninguém avisa quando o adeus é definitivo. Se soubesse, Levi teria dito algo diferente a Erwin antes que ele cavalgasse em direção às pedras do Titã Bestial. Se soubesse, teria segurado o braço de Hange com mais força antes que ela saltasse em direção ao vapor escaldante dos Titãs Colossais. E se soubesse, teria dito aos quatro que, naquela manhã na floresta de árvores gigantes, não os deixaria seguir sem ele.
Em vez disso, deu-lhes ordens, consentimentos silenciosos e a promessa de carregar todos os seus lutos. A percepção do fim sempre chega com o atraso cruel do relógio; quando nos damos conta de que aquela foi a última vez que vimos o rosto de quem amamos, o chão já engoliu os passos e o vento já levou as vozes. O "sempre" deles havia acabado — e, para Levi, restara apenas o "tarde demais".
Ao fechar os olhos, o calor do vapor em seu rosto operou uma mágica cruel. O silêncio do quarto foi subitamente quebrado pelo estalar de uma madeira velha. Naquela névoa quente e cinzenta, por um milésimo de segundo, o silêncio projetou suas lembranças. Ele quase pôde ouvir o bater de papéis na mesa quando Erwin gesticulava sobre um mapa, o som estridente da risada de Hange reclamando das folhas demais... e a voz de Petra, suave e firme, dizendo que estavam prontos para partir.
Estendeu a mão trêmula e segurou a xícara de porcelana sem alça, apertando-a firme entre os dedos marcados por cicatrizes.
— Você está colocando folhas demais, Levi. Desse jeito vai acabar o estoque antes de descobrirmos o que tem no porão daquele pirralho — a voz de Hange ecoou em sua mente.
— Se você fizesse o seu trabalho em vez de reclamar do meu chá, Quatro Olhos, renderia mais — ele respondera na memória, sem saber que aqueles momentos eram contados.
Hange soltara uma risada curta, que logo murchara. — A gente só percebe o espaço que alguém ocupa quando tenta preencher o vazio que eles deixaram.
Levi se lembrava de ter continuado em silêncio. Naquela época, ele não sabia que precisaria preencher tantos espaços. Apenas empurrara uma xícara em direção a ela. — Toma. Antes que esfrie.
Foi a última vez que eles tomaram chá em paz, sem a iminência do fim do mundo pairando sobre suas cabeças.
Um estalo alto na madeira do fogareiro o trouxe de volta à realidade com a força de um soco no estômago. Ele abriu os olhos. Não havia quartel-general, não havia risadas. Havia apenas ele, a perna dormente, os dedos trêmulos e o vazio de seis cadeiras à sua frente.
A dor de perceber que aqueles momentos triviais tinham sido os últimos entre eles era um corte que não sangrava, mas ardia o tempo todo. Ele olhou para o líquido escuro restante na porcelana. Hange estava certa. O vazio que todos deixaram era imenso, e não importava quantas xícaras de chá ele preparasse — o "tarde demais" continuaria ali, flutuando no vapor, ecoando no silêncio do quarto.
O líquido agora estava morno, perdendo aos poucos a cor escura e a força do aroma. Com um movimento lento, pesado, ele levou a porcelana aos lábios pela última vez e bebeu o gole final. Deixou que o amargor residual se assentasse no fundo da língua — sabendo, com certeza absoluta, que nunca mais voltaria a sentir aquele gosto. O estoque havia acabado. A última folha de chá repousaria agora para sempre na terra das memórias.
O passado tinha sido totalmente consumido.
Ele pousou a xícara sobre a mesa. O som da porcelana tocando a madeira áspera produziu um estalo seco e solitário. Levi esperou. Por um instante instintivo, esperou que alguém respondesse. Mas nada aconteceu. O som bateu nas paredes nuas do quarto e morreu ali mesmo, engolido pela imensidão do vazio. Um eco sem resposta.
Com esforço visível, apoiou as mãos na mesa e se levantou. Uma fisgada aguda subiu por sua perna machucada, arrancando-lhe um suspiro baixo. Tateou a lateral da cadeira até encontrar o cabo de madeira de sua bengala. Firmou os dedos em torno dela, usando-a como o apoio que seu corpo mutilado exigia para não desabar.
Mesmo cansado, mesmo com a alma pesada como chumbo, o hábito antigo falou mais alto. Pegou as xícaras vazias e o bule, caminhando a passos lentos e mancos até a pia de pedra. Lavou-as com uma precisão cirúrgica, quase obsessiva. Limpava para afastar os fantasmas. Limpava porque, se parasse de mover as mãos, seria obrigado a encarar a verdade cruel: a guerra tinha acabado, e com ela, todos por quem ele lutou.
Secou-as com cuidado e as guardou no armário. Seis xícaras. Uma para cada um.
Levi caminhou até a janela e olhou para o horizonte escuro do pós-guerra. O mundo lá fora estava em paz, finalmente livre do terror dos Titãs. As pessoas respiravam sem medo. Mas para o homem que havia sido o mais forte da humanidade, o preço daquela liberdade tinha sido o isolamento. Ele havia sobrevivido a todas as matanças, a todos os infernos, apenas para se tornar o guardião solitário de um cemitério de lembranças.
Apagou o fogareiro. A última luz do quarto se desfez, entregando o espaço à escuridão da noite.
Levi deitou-se na cama estreita, puxando o cobertor fino até os ombros. Fechou os olhos, mas o sono não veio. No breu do quarto, o zumbido em seu ouvido direito pareceu aumentar de volume, crescendo até preencher todo o espaço. Era o único som que lhe restava. O eco eterno de um tempo onde ele não estava sozinho — onde Erwin, Hange, Petra, Oluo, Eld e Gunther estavam ali, ao seu redor, vivos.
Fale com o autor