Eclério Sallasman
1 Prólogo
Ruídos, uivar de lobos e o gritar do vento cortante de inverno. Esses eram os sons que se ouviam na véspera de Natal na área rural da cidade de Kalispell, localizada no Condado Flathead, Montana. A neve caia levemente, como algodões das nuvens cobrindo os troncos
dos pinheiros com uma camada branca e espessa. Ao lado, um pequeno chalé,
iluminado por lamparinas a óleo. Quem visse aquela pequena construção durante o
dia, a acharia digna de uma visita, mas, quando a noite caia, e a luz da lua
era ofuscada pelas pesadas nuvens que traziam neve, aquele lugar parecia o
cenário de um filme de terror, em que cada sombra, cada canto mal iluminado,
podia esconder uma armadilha mortal.
Para o caçador que ali vivia há 30 anos, aquela era uma ótima hora para pescar no gelo do Flathead Lake, o maior lago de água doce dos Estados Unidos.
Gerald subiu o zíper de seu espesso casaco, pegou sua espingarda, sustentada por um pedestal em sua pequena e rústica estante — que havia sido feita da madeira de um gigante pinheiro que cairá sobre a casa 25 anos atrás, quando o pai de Gerald, Hudson Renomi ainda era vivo. – e saiu para o frio do inverno, indo em direção a sua velha picape,
estacionada a poucos metros de sua casa, ao lado da estrada que levava ao
Flathead Lake. Foi então que percebeu que alguém o observava. Com um movimento
e um estralo, ele armou a espingarda, colocou o dedo em seu gatilho, e virou-se
bruscamente, e riu ao ver quem fixava os olhos nele.
Parado em frente à porta do chalé, havia uma figura branca, com olhos pidonhos e esbugalhados, com as orelhas abaixadas, e, em sua boca, havia uma coleira.
-Ah minha garota – disse Gerald, chamando seu tesouro mais precioso, a única memória de sua família, sua cadela husk, Floco de Neve. – Hum, será que eu devo leva-la comigo? Da última vez você comeu todos os peixes que eu consegui pegar, lembra?
Floco de neve soltou um gemido e enfiou sua cabeça entre as patas, envergonhada. Gerald ria abertamente. Lembrava como se fosse ontem quando conhecera a husk. No último aniversário de seu pai, antes dele morrer, um velho amigo da família Semefield, levou um
pequeno filhote de husk siberiano, pois sua cadela havia parido dois filhotes.
O homem não poderia cuidar de três cachorros, então presenteou Hudson, o pai de
Gerald, com o pequeno filhote. Como naquele dia nevava muito e seu pelo era
muito branco, deram o nome para a cadela de Floco de Neve.
Hudson trabalhava como carteiro, então, para ajuda-lo no trabalho, treinou Floco de Neve para fazer entregas. A cadela poderia levar a correspondência a qualquer pessoa, desde que a tivesse visto pelo menos uma vez.
Gerald encarou a husk com uma sobrancelha arqueada.
-Tudo bem, eu levo você, mas antes terá que fazer o juramento da patinha, sabe o que é isso né? É O Juramento da Patinha!
Floco de Neve ergueu a cabeça, ergueu a pata dianteira direita e deu um latido, feliz.
-Certo vamos lá. Você, Floco de Neve, jura solenemente não comer os peixinhos que eu pegar hoje no lago, sob risco de ser severamente condenada a uma semana sem rolar na lama?
A husk siberiana latiu estrondosamente, aceitando a promessa.
-Juramento é juramento! – disse Gerald sorrindo. – Vamos lá, antes que uma nevasca apareça. O Flathead Lake fica há uns 15 minutos daqui.
O caçador foi até a sua picape, abriu a porta do motorista, e antes que pudesse fazer qualquer coisa, floco de Neve pulou para o banco do carona.
-Sua viciada em automóveis – disse o homem, sentando-se à frente do volante, ligando o carro e desengatando o freio de mão.
O motor velho da picape urrava em agonia, como se dissesse: “eu não posso me aposentar?”. Mas mesmo assim aguentou a estrada esburacada e cheia de neve que levava ao lago.
Durante a viagem, Floco de Neve finalmente ficou quieta. Ela adorava ficar na janela, observando a paisagem branca como seus pelos passar por seus olhos verdes como um borrão.
Após cerca de 17 minutos, se viram diante de um lago fenomenal. Não era gigantesco, como alguns lagos que Gerald vira em fotos, mas mesmo assim não perdia seu brilho. À sua volta uma floresta boreal coberta de neve dormia, sem um ruído sequer. Uma camada de gelo havia se formado sobre a água, espessa o suficiente para que um homem com o
peso de Gerald poder caminhar sem se preocupar.
Desceu do carro, e Floco de Neve pulou logo atrás dele, correndo em círculos pela clareira que estavam, tentando pegar o próprio rabo.
O caçador abriu o porta-malas e puxou de lá sua vara de pescar, nunca a tirava do carro, em nenhuma hipótese.
Tirou do carro também uma pequena maleta, recheada de iscas para peixes, variando de pedacinhos de pão, a minhocas. Colocou um verme na ponta de seu anzol e foi em direção ao buraco no gelo que fizera no dia anterior, para que poupasse tempo naquela noite. Floco
de Neve veio atrás, carregando em sua boca uma das lamparinas do chalé,
iluminando o caminho que os dois amigos percorriam.
-Boa garota. – elogiou Gerald, andando com delicadeza pelo Flathead Lake. Mesmo o gelo sendo muito espesso, o caçador tinha pavor de caminhar sobre as águas congeladas, era um trauma que não sabia por que adquirira.
Sentou-se de pernas cruzadas ante o buraco, e a husk se enroscou em seu colo, aninhando-se em seu casaco. Gerald balançou a linha da vara de pescar e a lançou dentro da abertura no gelo, e então esperou, aquecendo-se às chamas da lanterna, tomando o cuidado pra que o vento gélido não a apagasse.
-Floco, você não sente falta do papai? É que, ele se foi faz três anos já, e eu... Sinto muita falta dele. Às vezes quando vou me deitar, choro em meu travesseiro, relembrando todas as vezes que ele me levou para caçar e entregar cartas, e como nós nos
divertíamos. As últimas palavras que ele disse a mim, definhando na cama, foi:
“meu pequeno herói, nunca perca sua bravura e coragem, nem se um urso pardo
ficar de pé diante de você”.
A husk gemeu de tristeza. Lembrava sim de Hudson, ele era uma recordação muito viva em sua memória.
Gerald olhou para seu relógio de pulso, e seus ponteiros marcavam exatamente meia-noite.
-Feliz Natal, minha amiga. – desejou, deitando a cabeça sobre os pelos albinos de Floco, que lhe lambeu a bochecha com carinho. Uma lágrima escorreu do rosto do caçador.
Então algo sinistro ocorreu, algo que marcaria a vida de todos pra sempre.
Um grito dilacerante encheu o ar frio da noite, assustando Gerald e a husk, que pularam de medo.
-Céus! – exclamou o homem. – O que será que foi isso? Não é um animal, pois não se parece com um cervo ou um lobo. Foi o grito de uma pessoa.Floco, temos que ir lá ver o que aconteceu!
A cadela concordou, gemendo. Seus instintos lhe diziam que não era algo agradável o que os esperava. E, Gerald sabia também que não era.
Abandonaram todas as coisas que haviam levado até o lago, e levaram apenas a lanterna e a espingarda, que já estava armada e pronta para atirar.
Embrenharam-se em meio aos pinheiros do lado direito do Flathead Lake, com enormes montanhas cobertas de neve ao fundo da paisagem. As agulhas das folhas das árvores que haviam desmoronado ao chão os espetavam além das medidas, quase fazendo o caçador e a cadela surtarem de tanta coceira nas pernas. Após o que pareceu dois minutos
caminhando em meio à neve e a galhos caídos, o caminho começou a descer. De início
uma descida pouco acentuada, mas ao caminharem mais alguns metros tornou-se tão
íngreme que os amigos escorregaram pra o fundo de uma vala. A espingarda voou alguns metros mais longe, caindo em meio a vários troncos retorcidos de pinheiros mortos que haviam vindo ao chão.
-Floco, você está bem? – perguntou Gerald, pondo-se de pé.
A cadela latiu em aprovação, pôs-se ao lado do dono, em posição de ataque, pronta para defendê-lo, pois vira a arma voar da mão do homem.
O caçador olhou em volta, vendo se a clareira estava vazia. Para sua infelicidade, não estava.
Em frente a uma pedra coberta de neve, perto da parede de gelo à frente do caçador, estava aninhado um homem, vestido de um espesso casaco de esquiador. Gerald poderia deduzir que estava dormindo, não fosse a neve vermelha que estava em volta de sua cabeça. Sangue.
-Meu Deus – exclamou o caçador em horror, aproximando-se lentamente. Floco de Neve em seu encalço, cautelosa como uma sentinela.
Quando chegaram ao corpo, os dois amigos olharam para todos os lados, vendo se alguém os vigiava. Nem um ruído sequer, a floresta estava num silêncio pesado e mortal, os únicos sons era a respiração de Gerald e Floco.
O homem, hesitante, virou o corpo para que sua cabeça ficasse de frente com seu campo de visão. Quando os olhos da pessoa caída fitaram os de Gerald, este quase enfartou de tanto horror.
O defunto, que possuía mais de 60 anos, evidente em suas rugas, fora morto cruelmente. Em sua testa havia uma enorme fissura, do qual era possível ver o crânio, seu sangue escorria livremente, como um rio vermelho, tingindo a neve a sua volta do carmim da
vida.
Gerald pousou sua mão direita no ferimento do velho, e retirou-a rapidamente com cara de asco.
-O sangue ainda está quente, o que significa que foi morto há poucos minutos. Provavelmente é a pessoa que ouvimos gritar lá no lago. Mas quem será esse homem?
A resposta veio imediatamente quando o caçador fitou o dedo anular da mão direita do morto. Repousado ali, havia um lindo anel quadrado feito de ouro. Nele havia uma curiosa imagem: dois homens, um segurando uma espada, e o outro uma corneta. Entre a cabeça das duas figuras, havia uma estrela de oito pontas. Gerald conhecia esses símbolos.
-Um Anel Cardinalício... – disse, mal acreditando. – conheço esse homem... ele é o Cardeal Maxmillian, da Cúria Romana! Lembro-me de ter o visto em minha visita ao Vaticano, três anos atrás. Meu Deus, por que alguém assassinaria um cardeal da igreja católica? Floco,
precisamos avisar o presbítero de Kalispell sobre essa morte. – remexeu então o
bolso de seu casaco e tirou de lá um saquinho. Retirou o anel do dedo do cardeal, e o colocou dentro do plástico. Depois disso pegou uma caneta e um pedaço de papel e escreveu em letras garranchadas, pois sua mão tremia muito:
“Padre Octavio, precisamos de sua ajuda imediatamente. O Cardeal Maxmillian, pertencente à célebre Cúria Romana foi assassinado próximo ao Flathead Lake, chame a polícia!”
Entregou então o embrulho a Floco, que o segurou com a boca.
-Sabe o que fazer, minha amiga. Leve ao Padre Octavio com a máxima velocidade que tiver nessas pernas de husk siberiano!
A cadela assentiu e saiu correndo a uma velocidade impressionante, subindo a vala com tamanha facilidade como se sobe uma escada.
Gerald ficou observando a sua cachorra desaparecer na neve como um camaleão e, antes que pudesse se dar conta, uma voz fria como o ártico sussurrou em seu ouvido:
-Viu o que não devia, não é? Faremos você esquecer...
Então a lâmina ensanguentada de um machado perpassou o pescoço do caçador, e sua cabeça saltou dos ombros, indo se juntar ao corpo do cardeal.
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