Eclipse Solar
7 Capítulo 7
Notas iniciais
A noite acima de minha cabeça é negra. Não há estrelas hoje, somente a escuridão fria e profunda que alimenta meus temores. Nem mesmo a Lua, uma amiga de longa data, apareceu hoje. O céu reflete meus medos: sombrios e reais. A noite é real. A escuridão é real. O medo é real. Meus medos são reais. A primeira página do Profeta Diário de hoje trouxe a notícia que eu temia ser verdadeira: meu irmão foi assassinado por Comensais da Morte. William Christopher Campbell, meu irmão mais velho, o primogênito, aquele que havia se juntado ao lado negro da guerra, aquele que eu amava e odiava, aquele que se arrependera por ter aquela tatuagem de fogo no braço, aquele que ficara na frente de seu líder impedindo que este matasse inocentes, aquele que estava morto. No Profeta dizia que seu corpo ardera em chamas. No final, o que restou foi apenas o chão queimado. Suas cinzas flutuaram no ar. Neste momento, deviam estar em campos verdes ou em montes de neve.
Minha relação com meu irmão era um pouco conflituosa. Eu o repudiava por ter os mesmos princípios que meus pais, mas ele, independentemente de meus ideais, amava-me. Assim como eu. Minha irma sentia o mesmo. Nesses anos em que passamos fugindo, Will nos abrigou em sua casa quatro vezes. Ele dizia que eu deveria ser feliz, mas suas palavras paravam por ai. Não tocávamos na parte delicada da conversa: ele estava do lado deles. Do lado das trevas. Mas seu amor pelas irmãs era maior. Não nos denunciava, mas somente nos dava moradia por algumas semanas. Nada mais. Bem, em uma das vezes em que ficamos em sua casa na Escócia, ele me ensinou alguns feitiços defensivos. Eu os usei. Contra ele próprio. Ha um ano e meio encontramos com alguns participantes do lado das trevas. Foi a época em que Voldemort, digamos que, anunciou para o mundo que iria dominar tudo. Um dos participantes era padrinho da minha irma. Ele nos acusou de traição contra o próprio sangue e uma pequena batalha se estendeu entre nós. Meu irmão estava ao lado do padrinho da minha irma. Ele não queria nos machucar, mas não podia trair seu grupo. Usei um dos feitiços que me ensinou e ele simplesmente voou uns bons dez metros. Charlotte e eu aparatamos rapidamente dali.
–Sinto muito pelo William.- uma voz cortou meus pensamentos assim como o vento gelado cortou a minha pele. O corpo da voz sentou ao meu lado na grama úmida.
–Ele escolheu por qual lado lutar.
–Mas ele mudou de ideia.
–Pena que foi tarde demais.- uma lagrima escorreu pela minha cicatriz. Pequenos calafrios percorreram minha pele quando uma mão quente secou o molhado ali.
Seus cabelos negros estavam presos em uma especie de coque ou rabo de cavalo.
–O que isso?- digo sorrindo. Ele também sorri. Seu sorriso é uma das mais belas coisas do mundo.
–Isso?- ele diz apontando para os cabelos presos.- Isso é a mesma coisa que esta no seu cabelo: um coque.- sua voz saiu afetada ao falar as duas ultimas palavras. Rio de sua tentativa de me animar.
–Nunca mais fale isso. Ou prenda o cabelo. Eu gosto deles soltou.- digo arrebentando o elástico de seus cabelos.
–Que selvagem. Mas o elástico nem era meu.
–Eu realmente não ligo.- digo passando uma das minhas pernas por cima dele. Sua respiração esta nos meus lábios feridos. Só agora que percebi que os mordia enquanto estava mergulhada nas lembranças de meu irmão.
–Sempre que esta nervosa, você praticamente mastiga o seu lábio inferior... Sinto cheiro de sangue.- eu rio e sinto a ponta dos seus dedos tocarem o meu rosto. Mais precisadamente, tocar a cicatriz que corta o meu rosto.- Ainda não me contou como ganhou isto.
–Ah.- gemo com a pontada de dor.
–Ainda doí?
–Sim... Foi um lobisomem.- seus dedos param assim como o ar gelado em contato com meus lábios.
–O que?!- Ele me afasta rapidamente de si e me encara nos olhos. Eles ardem e Sirius recobra a consciência do que está fazendo. Encosta a cabeça no meu ombro e abre a boca. Por alguns segundo somente ar sair por entre seus lábios. – Um lo-lobisomem?- sua voz falha.
–Não se preocupe. Não era noite de Lua cheia.- ele suspira aliviado.
–Eu tomei um susto. Não mudou nada em você?- ele pergunta agora com a boca colada no meu ouvido. Entrelaço meus dedos em seus fios longos. É por isso que eu os prefiro soltos.
–Bem, a minha fome por carne sangrando aumentou bastante. Mas antes eu já gostava de carne mau passada, então nem fez tanta diferença assim.- ele ri e arrepios sobem pela minha espinha. – E toda Lua cheia eu fico tentada a olhar para ela. Mas sempre foi uns de meus pequenos prazeres secretos isso, sabe, ficar admirando a Lua.
–Eu sei bem quais são seus pequenos prazeres secretos, Bee...- ele sussurrou ainda grudado no meu ouvido.
–Você acabou de quebrar o clima ao me chamar de Bee.
–Eu acho que não. Afinal Bee que é uma Bee, gosta bastante de mel...
–Isso foi nojento e indecente, Bear.
–Não venha me dar lição de moral, porque eu bem sei o que se passa na sua cabeça nesse momento...- uma de suas mãos entra por baixo da minha blusa.
–Não sabe não...- minha voz sai falhando por conta dos arrepios que traçam caminhos desgovernados pelo meu corpo.
–Como sei.- seus lábios macios tocam os meus e sinto que a guerra em que estamos entrando não é em vão.
As nuvens negras se afastam e o brilho das estrelas contorna nossos corpos. Somos um. Somos um que inibe a escuridão que ameaça nos consumir. Somos o porto seguro de nós mesmos. Somos duas almas prontas para batalhar. Para lutar. Para morrer pelo outro.
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