Eclipse Radiante
6 Todos nós somos vítimas de um crime
Notas iniciais
07h. Acordei e antes de abrir os olhos tateei o lado da minha cama e achei um umbigo. Eu não estava sonhando, ele ainda estava ali. Abri os olhos e fiquei observando-o enquanto dormia. Eu amava cada pedacinho daquele corpo: as tatuagens, a pintinha embaixo do mamilo direito, o piercing abaixo do lábio inferior, o corte de cabelo exótico e aquela big testa. Era mesmo uma pena, mas eu tive que sacudir ele:
- Acorda Bela Adormecida!
- Nãããão me deixa dormir mais um pouquinho
Ele virou de bruços, o ‘Sullivan’ e o nº zero tatuados nas costas ficaram à mostra.
- Desculpa ducky, mas eu tenho que ir trabalhar.
- Exatamente! VOCÊ é que tem que ir trabalhar, não eu. Nem pisei na faculdade esqueceu?
- Mas o senhor não tem uma banda pra tocar não? E o seu amigo “possivelmente corno” também está ali jogado no meu sofá. Vocês dois aqui sozinhos é sinônimo de super bagunça pra eu arrumar, nem a pau que deixo vocês aqui.
- Ah não Sarah
- Anão é o Johnny Christ. Vou me aprontar e quando eu voltar, quero ver as duas mocinhas no mínimo de pé.
Fui dar um beijo nele quando ele me puxou e me agarrou contra o corpo dele:
- HAHAHA Senhorita Thompson, The Reverend Tholomew Plague a capturou. Agora você é minha escrava pra sempre!
- Oh não senhor Plague, tenha piedade de mim, eu sou apenas uma pobre moça de família.
Começamos a gargalhar. Eu o amava, e agora ele era todinho meu.
- Quer dizer então que fui eu que inaugurei a fábrica de beijos do James Sullivan?
- Na verdade não.
- Como não? Ontem você disse que era.
- Eu menti. Meu primeiro beijo foi com uma garota chamada Mary, no jardim de infância.
Eu soltei uma gargalhada deliciosa.
- É serio Sarah, ela não resistiu ao meu charme infantilmente angelical. Pena que depois ela me trocou por um tal de Steve. A lancheira dele era mais legal que a minha.
- Então por que você disse que eu tinha sido a primeira?
- Porque de certo modo você tinha sido mesmo a primeira. A primeira de quem eu gostei. Apesar de naquele dia eu ter ficado meio revoltado.
- Revoltado?
- É! Não se beija um homem e sai correndo, ainda mais se você demora seis anos pra reaparecer. Eu fiquei lá parado feito a estátua da liberdade. Por causa disso, minha irmã me zoa até hoje.
Preciso dizer? Eu adorava cada segundo ali com ele. Então levantamos. Quando acabei de me aprontar Jimmy e Brian já estavam tomando café.
- Bom dia Haner
- Bom dia Thompson, esse uniforme lhe caiu bem. Conseguiu fazer que até uma louca desgrenhada como você ficasse Sexy. Ta bonita.
- Cala a boca Gates Bundão! – Jimmy o empurrou
- Não pode nem elogiar? Nossa, as coisas entre vocês evoluíram rápido de ontem pra hoje hein?
Abaixei a cabeça envergonhada. Mas Jimmy estava ali pra contornar a situação.
- Mas e você garanhão? O que vai fazer com a sua mulher?
- Com a Michelle? Não vou fazer nada, só manter uma looonga distância
- Ainda acho que devia ir conversar com ela
- Ah cabeção, vai cuidar da sua desgrenhadinha, vai. Deixa que eu me viro com a Michelle.
Estava na hora de eles voltarem para junto da banda e eu de ir ao trabalho. Jimmy e Brian seguiram de carro, e eu fui andando a caminho do metrô. Belos cavalheiros eu arranjei, nem uma mísera carona até a estação de metrô eles tiveram coragem de oferecer. Foi então que senti dois braços fortes agarrarem com certa violência por trás. Algo tapou a minha boca e eu apaguei.
Acordei com muitas dores de cabeça, estava sentada no chão, amarrada a uma coluna de uma espécie de porão escuro, com uma escada bem defronte a local que eu me encontrava. Estava com medo. Quem havia feito isso comigo? Não tinha dinheiro nem pra comprar direito um carro, imagine para pagar seqüestro. Tudo o que eu não queria era morrer ali. Comecei a espernear, tentei me sacudir de todo jeito, era impossível me soltar. Foi nessa hora que ela chegou, exibia um sorriso que mal cabia na maldita daquela cara.
- Thompson!
Eu devia ter imaginado. Vadia! Tentei falar umas boas pra ela, mas estava amordaçada e só conseguia grunhir e urrar. Ela riu. Aquilo tudo devia ser muito divertido pra ela. Leana não tinha falado todas aquelas ameaças a toa, ela mandou me seqüestrarem e por mais que eu tentasse ser forte, estava me cagando de medo.
Ela agachou até a altura em que eu estava e enquanto apertava as maçãs do meu rosto dizia:
- Tsc Tsc, olha só pra você. Quase nada de feminilidade, cabelo cheio de pontas duplas e a pele tão branca que parece até que nunca viu sol. Você devia ter vergonha de dizer que veio da Califórnia com uma cara dessa. Lá é terra de gente bronzeada, gente bonita. Você parece que saiu de uma vala. Aliás, considerando que você apareceu “do nada” pra foder com a minha vida, deve ter mesmo saído de uma vala.
Vacaaaaaaaaa. Que porra eu odiava ela!! E nem podia retrucá-la.
- Own tadinha, quer falar bebê?
Soltei um urro com toda a força dos meus pulmões.
- Você só vai falar na hora que EU quiser
Um homem encapuzado entrou no quarto e chamou ela. Enquanto Leana se encaminhava até a porta pude notar os olhos dele (aliás, era a única parte do rosto dele a mostra) se demorando sobre mim. Leana parece que também notou porque logo sussurrou para ele:
- Calma, ainda não.
A porta se fechou e eu fiquei sozinha de novo. Vi os meus pertences espalhados sobre uma pequena mesa no canto, se ao menos eu pudesse me mexer e pegar meu celular. Droga! O que ela pretendia com aquilo? Coisa boa não era, com toda certeza.
Ouvi vozes no piso superior, eu devia estar no porão da casa dela.
- Lea?
- Oi Mih, tudo bem amiga?
Meu deus, a namorada do Gates tinha ido visitar a Leana. Quem sabe se eu fizesse barulho ela não viria me ajudar? Mas eu nem conhecia ela, vai que ela é uma louca desvairada feito a Leana? Se ao menos fosse a Val, mas não custava tentar. Comecei a bater com as pernas no assoalho de madeira e tentar gritar.
- Que barulho é esse Lea?
- Esse barulho? Er... Devem ser os encanadores dando um jeito em uma infiltração lá no porão.
- Ah
Droga! Mas essa Michelle bem que podia ser mais esperta e desconfiar um pouco da barulheira. Mulher burra! A chave da porta do porão girou e o homem desceu as escadas.
- Sem fazer barulho Thompson, senão a coisa fica feia pro teu lado.
Tinha algo estranho naquele cara. O modo como ele me olhava, apesar da situação e de eu dever desconfiar que ele quisesse abusar sexualmente de mim, não me assustava, aliás, eu cheguei a pensar que o conhecia.
Ele então começou a andar de um lado para o outro. Vez ou outra ainda olhava para mim. Eu estava com sede, meio ofegante, a mordaça machucava a minha boca. Acho que ele notou isso. Ele saiu do porão e depois de alguns minutos retornou com uma garrafa de água e um canudo.
- Olha garota, se você contar pra Leana que eu estou dando água pra você, você vai passar o resto do dia e da noite sem comer nem beber nada. Então a escolha é sua.
Claro que eu não ia dizer nada para aquela vagaba, e ele até que era um carrasco legal. Mas a voz dele... Eu tinha quase certeza que a conhecia de algum lugar, mas de onde?
- Eu sei Lea, mas o Brian é esperto, ele nunca iria acreditar mesmo nessa história. Meu pai e o Chris já cansaram de correr atrás dele. Eu acho que tenho mesmo que desistir.
Ainda dava pra ouvir a conversa. Parece que o Haner tinha razão, o filho não era dele, isso SE tiver filho mesmo. E é claro, que a ideia brilhante tinha saído da cabeça da rainha da dissimulação. Como o Jimmy foi capaz de gostar dela? Ele era idiota mesmo. Voltei a pensar no Jimmy, por que será que ele nunca estava perto quando essas coisas aconteciam? Se ele estivesse por perto com toda certeza acreditaria que a Leana é uma bruxa, vadia, nojenta.
Minhas mãos já estavam dormentes e minha boca doía por causa da mordaça apertada. Estava com medo do que viria a seguir.
- Tchau amiga, espero que o que você disse dê certo
Michelle estava indo embora e logo que a porta fechou pude ouvir o barulho de saltos descendo as escadas.
-Que ideia idiota foi aquela de fazer barulho enquanto tem gente aqui, hein sua vadiazinha? Achou mesmo que aquela sonsa da Michelle ia ajudar você? Como você é burra!
Ela me deu um tapa bem forte no rosto. Vaca trapaceira, aproveitando que eu não podia me defender.
- Para Leana! Você me prometeu que não ia machucá-la
- Cala a boca seu imbecil! Aqui você joga o meu jogo, entendeu? Ou você prefere ficar pra sempre sendo só o ‘pseudo-amigo gay’ da vadiazinha? Lembra que eu não sou a única que vai lucrar com isso tudo aqui.
Ela olhou cheia de ódio pra mim.
- E você, sua putinha, é bom se comportar se quiser sair viva daqui.
Ela saiu, mas algo me dizia que não demoraria a voltar. Eu olhei pro homem ali no quarto. Enfim eu sabia quem ele era. Eu não podia acreditar, não queria acreditar.
- Você já sabe quem eu sou não é? Seus olhos não mentem. Nunca mentiram, pelo menos não pra mim.
As lágrimas começaram a rolar suaves pelo meu rosto. Não podia ser ele.
Ele veio caminhando em minha direção e agachou perto de mim. Ele tirou o capuz, e pude ver claramente seus olhos castanhos me encarando, como sempre doces.
- Me desculpa Sarah. A última coisa que eu queria na minha vida era fazer você sofrer. Ele desatou a mordaça da minha boca, a sensação foi horrível, meu rosto estava dolorido pra cacete.
- Eu não posso acreditar Greg. Por que tudo isso?
- Sarah me perdoa. A Leana não me deu escolha e a proposta dela me pareceu boa no principio, mas eu não tinha ideia do quanto ela era má. Com você aqui na minha frente sofrendo desse jeito é diferente, faz tudo parecer horrível.
- Você era o meu melhor amigo, como pôde?
- Talvez você nunca tenha percebido, mas foi isso que sempre me incomodou Sarah. Ser só seu amigo nunca foi o suficiente para mim. Eu amo você, sempre amei. Desde a primeira vez que te vi. E naquela noite em que dormimos juntos cheguei a pensar que você enfim seria minha, mas você não quis nem saber. Mesmo depois de tudo que havia acontecido entre nós, você preferiu esquecer tudo pra não ‘estragar a nossa amizade’.
Eu estava em choque, aquilo era um super balde de água fria na minha cabeça. Não conseguia pronunciar nenhuma palavra. Então ele continuou falando.
- Ah! Mas foi aí que apareceu o maldito baterista do seu tenebroso passado. Ressurgiu das cinzas feito Fênix. Me arrependo todos os dias por ter levado você naquele maldito festival.
- Greg eu...
- Não fala nada, não precisa.
Ele parou. Abaixou os olhos e se afastou de mim.
- Hey Kiddies! Hora da diversão!
Ela voltou com um sorriso de orelha a orelha e pra piorar tudo, tinha uma caixa com algo nas mãos.
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