Eclipse Miragem

1 A letter lies inside the Pickwick's Club birdhouse


Laurie,

Eu sinto muito.

Eu sinto muito, muito mesmo, por não poder me casar com você. Eu queria dizer sim, queria de verdade, no mais íntimo desejo dentro do meu ser. Sinceramente, é fácil imaginar nós dois juntos, por todo o sempre, por toda a eternidade. Nós dois dividindo sonhos e risadas e danças ao redor da lareira, nós dois multiplicando palavras e abraços, mas, acima de tudo, vivendo um grande faz-de-conta.

Laurie, é difícil falar isso, e eu não consegui dizer em voz alta, mas você é tudo que eu sempre quis. Eu gosto quando você me olha e quando bagunça meu cabelo e quando belisca minha orelha e quando sorri, como se eu fosse o seu sol e você a minha lua. Mas a lua e o sol nunca se encontram, Laurie. Eles são muito diferentes. Um é quente, o outro é frio. Um é inocente, o outro juvenil. Laurie, eu sinto muito. Mas eu não poderia me casar com você. Pois quando a lua brilha no céu, o amor se transforma. E eu não sei fazer-de-conta. Talvez eu saiba atuar. Sei fazer isso no clube, sei fazer isso nos livros. Mas na vida, na vida real, Laurie, é demais pra mim.

Eu sinto muito. Sinto muito mesmo por ter que dizer isso, e eu sei, eu o conheço o suficiente, sei que você não ligaria, que iria entender. Mas em algum momento, em algum momento, Laurie, você não conseguiria se conter. Porque é uma questão que está acima de nossas vontades, de nossos desejos. É a natureza da lua que precisa movimentar energia, é ela que rege o crescimento das plantas, as poções mágicas, o caminho dos navegantes e o amor de todos os romances. Você me procuraria às quatro da manhã e eu o mandaria embora. Porque a vida é assim e assim seria se eu aceitasse me casar com você.

Eu não posso, não posso lhe tirar isso, não posso ser o que você precisa, formaríamos sequer um casal de verdade? Ou permaneceríamos nesse eterno faz-de-conta? Estaríamos, nós dois, muito longe do felizes-para-sempre?

Laurie, eu chorei quase um oceano quando precisei te dizer não. Chorei porque eu queria dizer sim, é claro que eu queria. Queria dizer sim, queria seus braços em volta dos meus, seus dedos brincando com minhas orelhas, queria seu sorriso e seus olhos brilhando quando eu o puxasse para uma dança. Queria que o que tivemos cristalizasse suas memórias dessa mesma forma. Que você se lembrasse de mim, na velhice, desse mesmo jeitinho. Pois se eu tentasse forçar uma realidade em que o sol e a lua habitassem um único espaço, um falso eclipse seria criado. Uma miragem, como quem vê o paraíso num deserto. Só que o nosso deserto, Laurie, é o que nós dois juntos seríamos. Uma vida árida de emoções, recheada de promessas e expectativas e esperanças e eventualmente brigas e mais brigas, e antes que pudéssemos fazer algo a respeito disso, você já não se lembraria mais de mim de outra maneira. E isto seria a última coisa que eu cogitaria, em mais de um bilhão de anos.

Eu sinto muito, Laurie. Nós dois nunca poderíamos formar uma família. Caso a gente adotasse, com quem a criança ficaria depois de um divórcio? Com quem nossa reputação ficaria, depois de um desquite? Como poderíamos habitar o mesmo espaço depois de tanta distância? Como eu ficaria, como eu poderia aguentar vê-lo com outra garota, outras mulheres, uma outra senhora Laurence, mesmo depois de tantas tentativas? Eu nunca conseguiria, Laurie. Imaginar outra em meu lugar agora, quando ainda há tempo, parece uma tortura menor do que seria no futuro.

Sei que você também é do tipo que chora, então se você estiver chorando nesse momento, lembre-se de uma única coisa, Laurie. Você é o garoto dos meus sonhos e para sempre o será, nas profundezas do meu coração. Para sempre poderemos imaginar todos os nossos finais felizes em faz-de-conta do jeito que gostaríamos que realmente fosse. Porque eu o amo, e eu sempre o amei, mas um amor diferente. Um amor que combina com dias de verão, sorvetes e ventania da praia. Que combina com poesias, flores e piqueniques. Um amor completamente vestido e aconchegante.

Um amor que nunca poderia dar certo, porque veio sem encaixe, com validade vencida, como astros em fuso horário diferente. Como eu e você.

Da sua eternamente,

Jo March

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