Eclipse

1 Capítulo Único


Notas iniciais
Say my name
And every color illuminates

Quando ele pensa na cor rosa, ele vê uma estrela no céu. Ele vê sinais em neon de cidades grandes, o glamour dos cassinos, a beleza da noite. Ele também vê aquela pequena aurora matutina, o céu do amanhecer, um degradê de anil, violeta, laranja… E Viktor seria aquele tom de rosa pastel entre o violeta e o laranja. Yuuri olha para Viktor do mesmo jeito que olha para os fogos artifícios de um festival de verão em Hasetsu, como se seu noivo fosse uma das cores a riscar o firmamento diante de seus meros olhos mortais.

Viktor é o arco-íris inteiro, mas ele é rosa, principalmente. Ele é a rosa da roseira, o perfume, a pétala, o significado. Ele ri toda vez que apoiam o nariz em sua nuca e tragam seu cheiro, a risada grossa e gostosa e grogue pela manhã. Viktor é a própria magia da risada, é cada nuvem de ar que ele solta quando gargalha.

Ele é toda brisa que sopra do Oeste, todo bater de asas das gaivotas e do coração de seu noivo. Ele é o leão que atravessa o Kalahari, que caminha sobre a areia em brasas e ruge em direção ao sol, desafiando-o. Ele é também cada grão de areia que se esgueira pelas frestas das mãos e dos dedos.

Viktor é o chorar dos violinos e o murmurar dos violoncelos. Ele é aveludado e sofisticado. Ele é a valsa que conduz os casais, que empina os queixos dos homens e endireita as colunas das mulheres. Ele é a mão no quadril e a mão na lombar. Ele é a passada, o ritmo do 1-2-3, 1-2-3. Ele é a luz das velas nos candelabros, os cristais dos colares das madames, o ouro nos relógios de pulso de marca.

Ele é cada arquear de perna e braço de uma bailarina, cada leve toque da ponta dos pés contra o chão de um estúdio, cada girar, cada meneio de mão.

Ele é cada floco de neve dançando no vento gelado do inverno, cada badalar dos sinos das feiras de Natal e das igrejas das cidades, cada ladrilho das ruas de Barcelona.

Yuuri tem quase certeza de que está noivo de um filhote de nébula, algum pedaço místico do espaço. Esse homem não pode ser real, ele sempre pensa antes de sorrir e acenar em direção a Viktor.

Ele é o sol que nasce e morre todos os dias, o sol que mantém os planetas em órbita, que rege o dia e a noite como bem entender. Ele poderia escolher queimar e cegar seus súditos, mas ele é o toque morno na pele exposta e os beijinhos leves e demorados sobre pálpebras que cobrem olhos castanhos cansados.

E assim, Yuuri sente-se sempre lentamente tragado para esse campo gravitacional, para a influência dessa força centrípeta; voluntariamente rendido ao magnetismo da tentação que é orbitar esse astro-rei.

Ainda é difícil olhar para ele e não ver um deus encarnado na forma de um contador de histórias, um dançarino e alguém simplesmente maravilhoso demais pra ser real. Intangível. Mas toda vez que encontra Viktor jogado sobre o sofá, lavando a louça, debruçado sobre a máquina de lavar ao olhar pela janela, Yuuri sabe que ele é ninguém mais ou menos do que Adão, a criação, e não Deus. À imagem e semelhança de alguma força além das nuvens do verão russo.

Às vezes, se pergunta por quantas vidas passadas sua alma sofreu para poder ter o privilégio de caminhar lado a lado com Viktor nessa encarnação; o que fez para merecer algo tão bom e imensurável quanto um amor que jamais imaginara que pudesse sentir. O amor intrínseco e genuíno sobre o qual cantam os anjos às portas do Céu.

E é tão fácil perceber-se pequeno diante das constantes universais do destino. É tão fácil perceber-se insignificante diante do brilho do olhar de quem promete o sol e as estrelas, e pode muito bem cumprir a promessa se assim Yuuri desejar. É tão fácil mergulhar naquele azul à qual nenhuma denominação cromática faria justiça. É tão fácil deixar braços firmes abrigá-lo no encaixe perfeito entre suas costas e o peito dele. É tão fácil sentir lábios firmes cantarolarem sobre a pele de seu pescoço, duas figuras juntas formando uma só silhueta contra a luz de velas na noite de São Petersburgo, a canção de um coração terrivelmente apaixonado para outro coração igualmente terrivelmente apaixonado.

E Yuuri olha para seu anelar e percebe que o sol vai continuar nascendo e morrendo.

Que amanhã vai ser outro dia.

Mas para Viktor, cada nascer do sol é uma tortura. Todo nascer do sol é um prelúdio de um pesadelo que só acaba quando ele deita a cabeça sobre o travesseiro e afunda num sono sem sonho. Toda e qualquer fonte de luz projeta sombras, e dependendo da natureza e angulação dessa luz, as sombras tornam-se maiores do que elas deveriam ser. E onde quer que ele fosse, sempre haveria um canto escuro a assombrá-lo.

As assombrações não param nunca e nunca vão parar enquanto ele queimar no céu como o sol. Mas, às vezes, elas param. Toda vez que ele sente uma mão correr por sobre a pele suada de seu peito para gentilmente acordá-lo de um pesadelo, toda vez que ele se encolhe em direção à beirada da cama e dois braços firmes o puxam de volta para o centro e o seguram ali, toda vez ele afunda o rosto contra o pescoço de seu noivo e ouve uma voz sussurrar em seu cabelo: “Tudo bem, Viktor. Já passou”.

O corpo de um homem adulto é cerca de 65% de água em sua composição, mas Viktor tem quase certeza de que Yuuri é todo feito dela; feito inteiramente de sangue, suor e lágrimas; de caráter, esforço e sofrimento; de fervor, perseverança e emoção.

Yuuri é o azul do mar e o canto das gaivotas. O lento murmurar das ondas contra a areia sobre a qual os pés de Viktor afundam e se encaixam. Ele olha para o céu do fim de tarde do verão em Hasetsu e se pergunta quando foi que ele deixou de ser humano.

Quando foi que sua humanidade foi arrancada com tanta violência?

E tudo que sobrara foi um buraco no peito e uma máscara em sua face. Às vezes perguntava-se se seu coração ainda batia por debaixo de todo aquele brilho, foleado a ouro, preso ao destino de Midas.

Humano ou não, Yuuri ainda vinha tocar-lhe como a maré a lavar seus pés e sua alma, aberta para a água salgada do oceano e de suas próprias lágrimas. Devagar, experimentalmente, lentamente fazendo seu peito ecoar, batida por batida. O ritmo surdo e firme em seus ouvidos, em sua garganta, nas pontas de seus dedos. Yuuri tem mãos firmes e calejadas, provavelmente de tanto cair e se apoiar sobre elas para se levantar de novo. E essas mãos quentes tocam-lhe a máscara dourada.

E ela cai.

Ele atravessa seu peito e segura seu coração com essas mesmas mãos, cálidas, vulcânicas, ardentes. E o ouro derrete e escorre e se derrama para fora de seu peito como o pus de uma inflamação.

O único vestígio de ouro que ele se permite carregar é o que abraça seu dedo anelar.

A maré sobe de repente e Yuuri o engole, mergulha-o na água de seu sangue, seu suor e suas lágrimas e Viktor percebe que não apenas é humano, mas é humano com outro humano, envolto na corrente de um amor torrencial e diluviano.

Yuuri é a lua que comanda as marés sobre a qual ele hoje flutua, para longe das minas de ouro da terra firme e para cada vez mais perto da linha onde o céu beija o mar. É o rastro de gelo da cauda do cometa que risca o céu. Yuuri é o brilho prateado que invadia seu quarto pela janela, do satélite que reina soberano e põe todas as outras estrelas para dormir quando a lua é cheia.

Ele é o tilintar dos sinos nas varandas, a chuva de verão, o vendaval que carrega as pétalas das cerejeiras, o rugir das ondas do oceano e o rochedo que resiste à força d’água. Ele é cada espinho da roseira, o eixo do bambu que enverga a favor do vento, mas nunca quebra ou cai. Ele é o peixe que nada contra a correnteza e o barco que atravessa a tempestade.

Ele é o uivar do lobo nas noites mais frias, a serenata pelo brilho prateado da lua. Ele é o canto dos rouxinóis na ausência das luzes, na madrugada.

Ele é cada nota musical, cada retumbar do tambor. O impulso antes de um triplo Axel e a leveza do Ina Bauer.

Yuuri é o cheiro de madeira queimada e o cheiro da chuva. Ele é o fundinho de canela num chá preto e o achocolatado quente ao fim dos dias mais difíceis. Ele é o silêncio confortável, a perfeita harmonia entre duas almas conectadas por alguma coisa que as pessoas chamam de “destino”, mas que eles escolheram chamar de “nós”.

As coisas não precisam ter um nome certo. As duas metades de um relacionamento não precisam ser medidas. O sol e a lua não disputam o espaço do céu, e nem precisam. Não são, nem de longe, parecidos um com o outro.

É um amor sem categorias, sem limites e sem condições. Escrito nas estrelas ou na areia de uma praia. Entregue ao vento para soprar para os quatro cantos do mundo ou desfrutado apenas dentro de quatro paredes. É algo a ser celebrado a cada dia, a cada nascer do sol e a cada ciclo da lua. O encontro de duas margens distantes de um rio, que desembocam no oceano de um futuro maior.

O esperado encontro de dois corpos celestes, dois polos opostos de um só espectro. Um príncipe prateado roubando da Terra seu rei dourado só para si.

Um eclipse eterno.

Notas finais
We are shining
And we will never be afraid again

obrigado por ler! aquele abraço
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!