Echoed
11 Sonho e Realidade
– "O que? Porque está me olhando assim?"
Eu perguntava enquanto dobrava minhas roupas do outro lado do quarto, vendo o Coelho me encarando em protesto com uma expressão fechada. O exame dos Exorcistas seria no dia seguinte e eu estava até então em minha própria ansiedade para partir, vagando pelo instituto sem muito o que fazer, tentando escolher o máximo de memórias que eu iria querer levar embora comigo assim como os poucos pertences que eles também me permitiriam levar para fora daquele lugar.
Segurando meu pequeno crucifixo em minha mão eu pude relembrar facilmente o quanto eu quis que minha vida ali andasse rápido e apenas chegasse ao fim, como finalmente estava chegando, mas eu estava dividido em outro sentimento que eu jamais havia previsto sentir... Uma nostalgia, ao que quase todos aqueles que eu conhecia já haviam partido e me deixado para trás, junto com o resto de suas lembranças...
Uma sensação de abandono voltava a fazer parte de mim, mesmo que eu tão bem pudesse entender aquele desejo de todos, em apenas querer deixar para trás aquele mesmo lugar que um dia nos fez abandonar, o que antes, um dia, consideramos mesmo que por pouco tempo como nossos verdadeiros lares...
Abandonar sem escolha, e junto, perder também nossa chance de escolher um destino por nós mesmos... Eu entendia isso... Mesmo que "Abandono", sempre tivesse soado como algo cruel para mim... Eu sabia que quando chegasse a minha hora, eu também iria escolher sair por aqueles portões e nunca mais olhar para trás... Nunca mais voltar para esse Instituto de novo.
Mas até lá, eu queria poder escolher pequenas lembranças para também levar comigo. Aquelas que conseguiram diariamente me fazer esquecer aqueles longos 11 anos que vivi ali dentro...
Enquanto eu pensava nisso, eu voltei a olhar para o Coelho, que ao notar minha atenção novamente, cruzou suas patas em protesto.
– "O que você quer...?!"
Eu deixei escapar um gemido frustrado, por não ter ideia do que ele queria de mim! Desde a prova final ele começou a ficar nesse humor, e aquilo não me fazia o menor sentido!
– "Você precisa de alguma coisa?!"
Eu perguntei largando o que estava fazendo, e andei até ele, me debruçando na mesa em que ele estava sentado encima, mas ele balançou sua cabeça com vontade negando minha pergunta. Grunhindo, eu comecei a encará-lo com bastante atenção, sabendo que eu estava entrando novamente em um jogo de adivinhações com aquela criatura! E isso era cansativo...
"Porque entre todos os Espíritos possíveis, eu consegui amizade logo com um que não conseguia falar?"
Meus olhos então começaram a divagar um pouco, ignorando aquele instante, e eu comecei a pensar novamente sobre as coisas que eu estava deixando para trás... Era bom poder finalmente deixar Lud para trás, mas e Ezra...? Eu nunca me senti totalmente preparado em deixá-la para trás... Não que eu tivesse ideia do que eu realmente queria com ela (Cada vez mais que eu pensava em Ezra, mais eu me perdia em sentimentos, e menos eu conseguia definir o que eu realmente pretendia ter com ela, se eu tivesse a chance...), mas a última possibilidade que eu teria de chegar perto dela e talvez descobrir essa resposta, seria no máximo amanhã, aonde teria uma boa chance de eu ser apenas mais um em uma quadra tumultuada cheia de alunos e Exorcistas, então essa já era uma batalha perdida para mim... (Otimismo realmente nunca foi meu forte, se tratando dela...) E meus co-... amigos... Que ainda estavam aqui...? Eu ia sentir falta deles, e provavelmente seria naquele exame que eu iria ter a minha última chance de estar com eles, tendo que dividir minha atenção entre tudo que eu mais poderia sentir falta em um mesmo instante... E Tresz?... Eu sei que ele era assustador as vezes, mas ao mesmo tempo ele parecia tão inofensivo, que eu voltei a admirar o fato dele talvez ser a única pessoa além de mim que podia também ver os espíritos, e ainda parecer saber muito mais sobre eles do que eu... (eu acho...) Eu queria poder ter tido a chance de aprender sobre seus pontos de vista, ou ter conversado melhor com ele sobre esse assunto enquanto tinha tempo... Até então jamais tinha sido desconfortável para mim ser o único a "vê-los"... e por muito tempo eu até ignorei esse pensamento... Mas agora que eu sabia sobre Tresz, eu começava a sentir uma vontade maior de poder dividir isso com outra pessoa, não importava quais fossem as consequências...
E finalmente... Meus olhos voltaram em seu trajeto original, para aquele pequeno Coelhinho que parecia não ter conseguido manter sua expressão fechada por muito tempo, e apenas manteve seu olhar fixo em mim, perdido entre sua expectativa de ser compreendido, e de compreender minha distração.
– "Sabe... Eu sei que você me meteu em muitas confusões... mas... Acho que também sentirei sua falta..."
Quando eu disse isso, o Coelhinho se levantou em um pulo e vindo em direção ao meu rosto, deu uma patada em mim que eu não pude sentir, mesmo que meus reflexos tivessem me feito recuar...! (Aulas de combate realmente apuram os reflexos)
Caindo bem na minha frente, ele ficou me encarando ainda mais irritado, e finalmente eu entendi em um estalo o que o estava perturbando...!
– "Você... Quer continuar comigo? É disso que se trata?"
Finalmente ouvindo isso, ele balançou sua cabeça firmemente concordando, sem quebrar sua expressão séria.
Então era isso...
Eu sorri para ele com uma expressão um pouco perdida, mas esquecendo o mal comportamento que ele demonstrou, eu me permiti deixar invadir por um sentimento muito bom, ao ver que nem tudo precisava ficar para trás...
Admito no fundo que eu não sabia se desde sempre, a escolha daquele Coelhinho em ter ficado fosse mais por ele querer ficar naquele instituto, ou por que ele queria realmente estar do meu lado, já que ele passava mais tempo sumindo pelas paredes daquele lugar e explorando-o, do que realmente comigo... Por culpa disso eu desconfiava que ele não iria tão facilmente querer sair dali... E desde então eu apenas pus na minha cabeça que iriamos nos despedir assim que eu fosse partir...
Não que também fosse fácil para mim apoiar a ideias de levá-lo junto, sabendo que ele estaria deixando seu lar para trás, e sabendo como essa decisão não era uma decisão simples, fosse para uma pessoa ou para um espírito... "...mas..."
Olhando para ele fixadamente, eu observei seu jeito, sua expectativa, sua certeza... E vi o quanto estava claro... Era isso que ele decidiu, e por mais que eu tivesse qualquer opinião sobre esse assunto, nunca adiantaria eu tentar falar com ele, assim como jamais adiantou...
– "Você vai me dar muito trabalho quando voltarmos para minha casa, sabia?... Mas... Eu vou adorar te ter por perto."
Eu disse, tentando manter um tom descontraído de bom-humor, mas sem conseguir me conter, um real desabafo acabou escapando pelas minhas palavras...
Ao ouvir aquilo, finalmente aquela expressão séria dele sumiu, e em um único impulso ele pulou em mim subindo animado em meu ombro, pronto para me acompanhar para onde quer que eu fosse!
Resolvido aquele problema, meus ombros relaxaram mais, e eu decidi sair do quarto para tomar um ar fresco finalmente! A espera de finalmente partir, em nenhum instante até então ficou menos angustiante, e eu tinha por isso que encontrar um meio de me distrair até o dia seguinte...
– "Não acredito que tudo isso que você fez foi só para eu concordar em ter você por perto... Afinal você faz o que quer, não importa o que eu diga!"
Eu falei frustrado com aquele coelho enquanto fechava a porta do meu quarto, não esperando uma resposta dele, mas apenas desabafando... Ao me virar e olhar para o corredor dos quartos, novamente, e para aquelas paredes de pedra que moldavam a passagem perfeita para uma corrente de ar gelado, eu me recordei o quão vazio os dormitórios se tornaram... Eu dividia meu corredor com minha turma, e agora que poucos de nós restaram ali, o silêncio se tornou cada vez mais notável naquele espaço... Apenas 4 daqueles quartos ainda estavam ocupados, e só era possível de se perceber ao anoitecer, quando voltávamos silenciosamente para eles, apenas para dormir... Durante o dia, aquele andar apenas parecia abandonado...
Aquele vazio que até então eu jamais havia sentido, me fez abaixar a cabeça lentamente e acelerar meus passos para fora dali, tentando esquecer um pouco aquela realidade solitária em que acabei me prendendo por um tempo...
Desde sempre eu acreditei que era uma pessoa solitária por nunca socializar com meus colegas direito, ou por sempre viver bem, afastado deles... Nunca imaginei que seria afetado por uma situação assim... Até finalmente estar aqui, passando por isso e me sentindo angustiado com esse vazio...
... E até mesmo meus amigos que ainda não haviam partido, tentavam escapar daquela sensação e simplesmente desapareciam pelo instituto sem aviso, até o fim do dia... Me deixando sem muita opção além de realmente suportar sozinho aquela realidade.
Enquanto eu andava, eu observava a arquitetura dos corredores, que até então, jamais havia me chamado a atenção... paredes, salas, passagens e portas passavam ao meu redor, cada um com suas pequenas e diferentes lembranças que pareciam vir tão facilmente a tona, agora que não haviam mais pessoas ali para me distrair de meus próprios pensamentos... Era aquela também, a primeira vez que eu estava andando tão livremente pelo instituto durante as aulas, e era surpreendente como aquele lugar esvaziava nesse horário...
Nem parecia que viviam tantas pessoas ali dentro...
– "Freyjah, que bom que o encontrei."
Uma voz surgiu na minha frente, assim como a imagem de Tresz que vinha em minha direção, com seu mesmo ritmo atarefado e firme de sempre. Um simpático sorriso surgiu no meu rosto! Finalmente um rosto familiar, e fazia tempo que eu também não via Tresz por culpa das provas! Poder encontrá-lo uma última vez não seria tão mal, já que depois de 1 ano, nada do que ele chegou a fazer realmente veio a ser ruim para mim, apenas talvez sem sentido, assim como suas atitudes comigo, por vez confiáveis e amigáveis, e por outras apenas confusas... eu não tinha nenhuma razão para realmente temê-lo, ou pensar algo ruim dele. Especialmente agora que eu aceitaria passar um tempo com qualquer rosto familiar!
– "Aqui está, você ainda não pegou o seu..."
Estendendo sua mão, Tresz me entregou alguns papeis, entre eles uma carta, um mapa e uma lista de várias localizações que pareciam usar coordenadas daquele mesmo mapa. Era minha rota de Peregrinação que eu ainda não havia pego, assim como um documento de Omnos que eu deveria apresentar e sempre carregar comigo. E era fácil reconhecer tudo aquilo, já que dias atrás eu pude ver quase todos os meus ex-colegas com os mesmos papéis em mãos comparando-os uns entre os outros...
– "Quando você for partir, também irá receber alguns suprimentos para a viagem, mas é preferível dar logo a você sua rota antes de tudo, para poder se organizar melhor."
– "Obrigado!"
– "Ah sim, caso esses papéis sejam danificados ou perdidos, você poderá ir a qualquer instituto da Ordem e enviar um pedido para novos documentos... Mas eu não recomendo que você dependa muito disso... O envio pode demorar entre alguns dias até semanas, e isso vai apenas te atrasar... Afinal, não queremos que você fracasse, agora que chegou tão longe, não é?"
Falando isso, a voz de Tresz mudou várias vezes entre um professor que apenas instruía um aluno por obrigação, um amigo tentando aconselhar... E finalmente, para aquele tom sarcástico intimidador que as vezes se apoderava de suas últimas palavras...
Desde a última vez, eu aprendi a subestimá-lo um pouco mais, e não levar tão a sério o jeito que ele tinha de se expressar, especialmente agora que eu estava tão perto de ir embora para sempre, e ele tão perto de não poder fazer mais nada comigo mesmo se assim quisesse... Me sentindo seguro com esse fato, eu pude até mesmo pensar sobre isso sem temer me arrepender mais tarde... Talvez com o tempo, e a necessidade de se proteger dentro da Ordem, Tresz tenha ganho o hábito de ser intimidador para conseguir o que queria, mas não queria dizer que ele era alguém completamente ruim graças a isso... Ele apenas tinha um modo torto de fazer certas coisas.
– "Aliás Freyjah, eu não pude deixar de notar que você já escolheu aonde deseja ficar após sua peregrinação."
Puxando esse assunto, eu me senti novamente envolvido em mostrar minha felicidade, e concordei com Tresz mais uma vez. Era bom poder dividir com alguém que eu finalmente estava tão perto de realizar meu sonho!
Mas sua expressão era de longe empolgada pelas mesmas razões que a minha, e com um tom um pouco mais assustador, ele voltou a falar, sem que a princípio, sua expressão me incomodasse tanto...
– "Sim, eu soube com algumas pessoas o quanto você esperou por isso, poder retornar para casa... Será apenas uma pena que você não poderá ir."
Ao falar essas palavras com prazer em sua voz, eu congelei no mesmo lugar, sem mais saber se deveria levá-lo a sério ou não, me surpreendendo com a resposta de Tresz!
Como assim não poder ir? Minha transferência já estava aprovada e confirmada! E uma das regras da Ordem era dar total liberdade aos Padres formados para que ele pudesse escolher sua residência!
Em questão de segundos, o clima ao nosso redor mudou completamente, para algo tenebroso que parecia deliciar Tresz, e me fazer sentir ainda mais encurralado...!
– "Como...? Omnos não permite a violação de regras, minha escolha não pode ser mudada...!"
Tresz balançou sua cabeça, concordando comigo enquanto me ouvia pacientemente em meu desespero... E foi quando ele jogou uma carta que eu nunca poderia imaginar...
– "Está certo, a regra exige que seja de direito dos Padres escolher aonde eles vão se enterrar para ver o tempo passar e jogar fora suas vidas em tolos rituais cotidianos... E ninguém pode por isso intervir na sua decisão... Isso é... "SE" você ainda fosse um Padre..."
Ao escutar isso, como um estalo, meu corpo se jogou para trás, ao que meus pés começaram a querer se mover para me tirar dali, e apenas não ter que ouvir o que eu estava para ouvir.
– "Eu peguei sua ficha e o requisitei para um outro posto. Graças as suas notas, e aos cursos especiais que você teve a tempo, a Ordem finalmente acatou meu insistente pedido. Assim sendo, sua transferência para aquele mísero lugar já foi cancelado, e agora você irá se formar como um Agente Especial da Ordem, parabéns...!"
Tresz recitou, com um sorriso em seu rosto enquanto batia palmas animado. Eu... apenas... congelei ali mesmo, sem acreditar em um segundo no que eu estava ouvindo...
– "... Eu... Eu não... Não tenho formação completa... para ser do grupo de Elite... Como você conseguiu-...?"
Tresz balançou sua cabeça, enquanto meu olhar se perdia no vazio, deixando sair pela minha boca perguntas que eram mais intensas do que minha própria capacidade de aceitar que aquilo tudo estava acontecendo.
– "Eu não disse que você fará parte da "PdE"... Afinal não é meu plano por você armado em um campo de batalha para morrer... Não... Eu quero você como meu Agente, trabalhando comigo, e fazendo algo muito melhor da sua vida do que desperdiçar ela em uma guerra inútil, ou em um buraco plantando flores e ouvindo lamentações de fazendeiros... Não, você terá a chance de ter todas as suas capacidades aproveitadas e utilizadas, estando sob minha posse, Freyjah..."
Falando isso, e vendo o silêncio e o estado de choque em que eu me aprisionei, Tresz se aproximou de mim, apoiando sua mão em eu ombro, e se inclinando até meu ouvido, falando bem baixo...
– "Eu sei que isso tudo é muita coisa para você pensar, mas não se preocupe, você terá bastante tempo para se acostumar... Dada as regras, você só ganhará seu cargo oficialmente após a peregrinação, então ela ainda vai acontecer... eu não posso realmente impedir isso... Por isso você ainda terá 1 ano para se convencer de que seus sonhos nunca farão parte da sua realidade... Até lá, espero que você não pretenda escapar dos seus deveres, porque ainda poderá ser considerado um traidor se a Ordem descobrir que você decidiu fugir de suas obrigações... E... Não queremos isso, não é...? Afinal... seria muito triste eu ter que ir pessoalmente dar a notícia da sua morte para seu querido "pai"..."
Falando isso, Tresz me soltou gentilmente, e saiu andando contendo um riso maldoso, me deixando para trás enquanto eu mal conseguia ainda me trazer para qualquer reação possível...
"Isso... Não é verdade... Ele... Ele... Não pode... Fazer isso..."
Até hoje eu nunca pensei que um sonho poderia ser destruído, que um sonho poderia ser arrancado de você, e por isso eu nunca me preparei para essa possibilidade, já que eu sempre fui o aluno normal, o aluno que não chamava atenção... Eu era aquele personagem de fundo que apenas estava fazendo parte do cenário... Sem grande destaque, sem grandes motivações... Sem dar para a vida, uma razão para ela querer por qualquer dificuldade em meu caminho... Então... Como aconteceu isso...? Como foi possível que depois de tanto tempo parecendo que tudo estava garantido, algo assim fosse acontecer...? E como eu podia, depois de tanto tempo apenas me deixando ser levado pela correnteza... Estar preparado para reagir, e saber como lutar pelo meu próprio sonho?
Eu... Eu jamais imaginei que um dia eu teria que lutar pelo que eu queria, como se a vida fosse sozinha se encarregar de torná-lo realidade, para não ter que perder seu tempo comigo... Mas agora que percebi, tarde demais, que eu também devia lutar por aquilo que eu queria... O que apenas me restou na verdade... Foi ver que essa luta já estava perdida...

Fale com o autor