Echoed
7 Onde existe Luz e Escuridão - Parte 2
Meu peito começou a acelerar, como se algo naquele instante um misto entre angustia e curiosidade começasse a crescer dentro de mim, fazendo meus pés simplesmente começaram a se mover... até aquela parede. Algo estava errado. Eu sentia aquela certeza, mas esse era o mais longe que meus pensamentos conseguiam chegar...
Eu fiquei encarando aquela parede mais um pouco, quando eu finalmente ouvi o som novamente! Eu corri para encostar meu ouvido ali, tentando ouvir mais claramente! Pareciam Gemidos, Gritos...? Não importa quem ou o que fosse, ou quão assustador pudesse começar a ser... eu podia sentir um estranho sofrimento começando a preencher aquela sala.
Eu me afastei assustado, sem imaginar o que fazer! Boa parte de mim queria descobrir o que era aquilo, e o resto de mim, aquele aonde meu bom-senso estava, apenas dizia para eu ir embora de vez antes que alguém me pegasse ali dentro!
Me vendo ali parado, o Coelho então deu um pulo, alto suficiente para que eu abaixasse minha cabeça e o visse... Então em um único impulso, ele correu parede acima até a altura do meu ombro, e deu um tapa com sua pata em uma das tábuas revestindo ela.
Nada aconteceu, e estava claro que ele não poderia realmente fazer nada ali, em um ambiente construído por uma pessoa... Então eu o imitei estendendo minha mão, e exatamente aonde ele bateu, eu me apoiei e empurrei, jogando o peso do meu corpo contra o lugar... Facilmente assim, uma parte do revestimento sucumbiu, e uma nova passagem se abriu do nosso lado...
Eu olhei receoso por aquela passagem escura, e só consegui ver uma estreita escadaria que ia para baixo...
O Coelho então olhou para mim, e em um único salto, ele se arremessou naquele breu e sumiu escadaria abaixo!
– "Não!!"
Eu sussurrei! Quase me jogando para tentar pegá-lo em um impulso, mas foi em vão...! O que quer que tivesse ali embaixo, eu não queria descobrir... Definitivamente não queria arriscar...! Mas... Eu também não podia largá-lo ali e ir embora logo agora... Eu não me perdoaria se o abandonasse... Afinal, ele era meu amigo.
Abandono... Acho que preciso admitir, tenho um sério problema com essa palavra.
Finalmente aceitando minha falta de opção, eu me apoiei nas pedras da parede e desci cuidadosamente pela escura escadaria... rezando para não encontrar absolutamente nada ali embaixo, e poder convencer aquela maldita criatura a voltar comigo de uma vez!... Eu estava muito assustado... afinal eu nunca ia ser típico personagem corajoso de uma história, que se empolgava com mistérios e com a chance de se encrencar... Aquela situação até hoje deve ter sido um dos momentos aonde eu mais agi fora da minha natureza...
Depois de descer aquele longo lance de escadas, eu já nem mais conseguia dizer em que andar eu estava... Depois de um tempo se tornou quase impossível de se saber se eu estava descendo devagar demais, ou se aquela escadaria realmente era muito longa... E quanto mais eu descia, mais sufocado pela noção de dificuldade que eu teria em subir tudo de novo, eu me sentia...
Finalmente eu pude ver a saída, e de certo modo isso me deixou mais contente...! Já não me importava muito com o que teria além daquela passagem, só queria sair de perto daquelas escadas...! Sem esquecer que eu tinha que ser cuidadoso, me inclinei um pouco espiando o que tinha além dela, e logo travei meu olhar no chão, aonde aquele Coelho me esperava, bem parado e olhando para frente...
Não tenho palavras para dizer a felicidade que senti quando o vi! E... A possível mistura de raiva junto...
Discretamente, eu me abaixei e andei até ele para tentar atraí-lo de volta pelo mesmo caminho em que viemos, mas foi uma questão de segundos sendo ignorado, para que minha atenção seguisse a mesma direção de seus grandes olhos vermelhos, e finalmente notasse oque tinha naquela sala além de nós dois!!
De repente gritos agudos, parecendo os de uma mulher entraram pelos meus ouvidos, dessa vez, bem alto e claro, o que antes parecia apenas ser um eco distante percorrendo uma parede e me trazendo uma sensação ruim, agora parecia me rasgar por dentro em toda sua potência...! A dor que parecia me dominar por inteiro me fez fechar os olhos por alguns segundos enquanto eu me encolhia ali para tentar suportar aquela sensação...! Nunca apreciei tanto o silêncio, como quando ele finalmente retornou para aquele quarto... Finalmente eu voltei a olhar, dessa vez mais atentamente, aonde nós dois realmente estávamos... O lugar era um enorme quarto completamente revestido de enormes blocos de pedra, com tetos muito altos e completamente escuro... se não fossem por tochas de um fogo roxo que iluminavam algumas partes daquele recinto... Principalmente seu centro, aonde eu pude ver uma das coisas mais surpreendentes da minha vida!
Ela era enorme... Parecia talvez uma pessoa, mas ainda sim era enorme... Sua altura era notável, ao que parecia estar ajoelhada, e mesmo assim, sem dificuldades ultrapassar meu tamanho... E o que pareciam cabelos, caiam e cobriam sua face e seu corpo de um modo totalmente desarrumado... Finalmente de suas costas, surgiam o que pareciam várias asas, abertas e ao mesmo tempo caídas, como se estivessem pesadas demais para conseguirem se erguer... E a única coisa mais espetacular do que sua aparência, era sua forma inteira parecer na verdade um contorno iluminado, como se ela fosse feita de luz, mas apenas o brilho que a contornava e delineava realmente conseguisse se destacar naquela escuridão... Quase como ver uma tocha que não tinha forças para lutar contra o escuro ao seu redor... Ela estava ali, imóvel sobre um chão que igualmente parecia brilhar com riscos e símbolos desenhados... Iluminando seus pés com uma luz roxa bem mais intensa do que todo o resto das luzes ali dentro...
E finalmente diante dela eu consegui reparar, uma sombra, com seu braço estendido e em sua ponta um livro aberto...
Vendo que possívelmente era uma pessoa coberta por um manto ali parada, eu olhei para os lados procurando aonde me esconder... Facilmente, eu reparei na parede do meu lado que parecia assim como uma coluna, se manter presente entre o centro da sala e a passagem pela qual entrei!
Parecendo que eu não tinha sido visto, eu corri em um rápido passo para o lado e me escondi, rapidamente me agachando e chamando a atenção do coelho para vir até mim! Eu podia não saber o que era aquilo tudo, mas algo me dizia que o que quer que estava acontecendo ali, poderia facilmente fazer mal também ao meu coelho, e eu tinha que protegê-lo...!
Completamente desprotegido e sem se dar conta disso, o coelho parecia encantado e ao mesmo tempo estático vendo aquela cena, mas assim que ouviu minha voz ele rapidamente voltou a si, e sem pensar duas vezes correu para os meus braços, também se escondendo...! Tenho que admitir, sempre faltou uma noção de perigo nessa pequena criatura... Estendendo meus braços para "pegá-lo", eu não fazia questão de senti-lo em meu colo para saber que ele estava lá, contanto que ele ao menos tivesse essa certeza... E aquilo já me reconfortava um pouco mais, já que me deixava claro... ao menos eu não estava sozinho dentro daquele quarto!
Um clarão de repente tomou novamente minha atenção até o centro do quarto, fazendo com que eu me protegesse atrás do muro! Fechando meus olhos, eu ainda conseguia ouvir uma voz distinta vinda do centro do quarto, falando firmemente palavras em um dialeto estranho, e aumentando a intensidade de sua voz a cada nova palavra que saia de sua boca! A luz sobre aquela criatura diante da pessoa misteriosa aumentou ainda mais, e eu espiei a tempo de testemunhar um pilar de luz envolvendo-a sem piedade! Sua voz mais uma vez circulou agonizadamente o quarto em gritos bem altos! E suas asas se abriam em conjunto ao que uma intensa dor pareceu circundar seu corpo inteiro!!
Era... Uma cena... Insuportável...
Naquele momento em que ouvi seu grito novamente, não era mais dor que estava correndo dentro de mim como uma corrente sendo puxada através do meu corpo... Era... Outro tipo de dor... Era... Um peso... Um medo... Uma tristeza... Era... Impotência...?
Assim que a luz enfraqueceu um pouco mais, eu pude abrir meus olhos de vez, travado no mesmo lugar, olhando-a sem forças para fazer nada... chocado, e apenas... Derrotado...
– "Ei, já chega de testes por hoje, suba aqui, preciso que você veja algo..."
Uma segunda voz de um homem completamente desinteressada surgiu de outra passagem... Essa outra pessoa não parecia estar ali embaixo vendo o que estava acontecendo, mas parecia saber exatamente o que acontecera pela sua falta de interesse, como se já estivesse cansado de saber o que se passava ali dentro...
– "Certo, certo..."
A sombra na frente da criatura disse em um tom desanimado, fechando aquele pesado livro que tão facilmente segurava em uma mão, e deu suas costas para seu alvo de teste que sem forças, caiu no chão, tentando se apoiar sobre seus braços assim que finalmente aqueles símbolos todos sumiram debaixo dela...
Depois de alguns minutos apenas ali, olhando-a em um estado tão deplorável, eu tive a certeza que estávamos sozinhos ali dentro, e também a certeza de que eu tive nas minhas mãos a chance perfeita de fugir...
Quisera eu ter feito aquilo. Sério...
Algo naquele ser abatido na minha frente e aquela infelicidade dentro de mim, tomou conta da minha capacidade de pensar, e eu apenas andei até ela como se eu devesse fazer aquilo... Saindo do meu esconderijo e prendendo meus olhos no que estava diante de mim, eu ignorei qualquer outra coisa, até mesmo o Coelho que até então estivera comigo seguro atrás do muro...
Eu me aproximei com passos firmes e muito cuidado, não imaginando o que ela realmente era, mas observando-a, como se fosse um belo anjo dos quais os desenhos enfeitavam vários dos meus livros...
Sua luz não incomodava meus olhos, mais do que sua óbvia dor já estava me incomodando... Não combinava ver algo daquele porte, tão... Submisso... Tão... Torturado...?
"Tortura"... Como eu cheguei naquela palavra eu não sei, mas foi uma intuição que pareceu mais do que adequada naquela hora.
Eu me aproximei dela, ficando diante de seu rosto assim como aquela pessoa de antes estava... E ao invés de me atacar como um animal assustado, ou tentar avançar em mim, ela apenas lentamente levantou um pouco seu rosto ainda coberto... O suficiente para conseguir me ver com todo aquele cabelo cobrindo sua face... E o suficiente para eu saber que ela já havia me notado a muito tempo.
Ela não falou nada... Ela não se moveu... Apenas ficou ali parada, como uma criatura que sabia o quão inofensivo eu era... Ou talvez, uma criatura que apenas não soubesse fazer o mal a outra pessoa...
Pensar daquela forma chegava a ser... cruel...
Ela então moveu suas asas, bem devagar, levantando-as um pouco e apenas fazendo-as cair para que eu pudesse ouvir o som de correntes batendo no chão. Só então que eu pude finalmente ver os grilhões presos em suas asas, mãos e pernas, percorrendo o chão ao seu redor em direções opostas e sumindo por dentro de vários buracos sob ela... Ela estava presa ali, como um animal... não sei como era possível que objetos humanos a conseguissem prender, mas ela estava...
Vendo aquilo, minha expressão finalmente espelhou o sentimento que estava sendo construído esse tempo inteiro dentro de mim, como se fosse eu em seu lugar, preso ali naquela escuridão para sofrer eternamente nas mãos de um humano sem a menor razão...
Finalmente, em um gesto compassivo, ela se moveu melhor em minha direção parecendo me olhar com complacência... Um rosto fino quase surgiu entre seus compridos cabelos, ao que sua mão começou a vir em minha direção... Eu não senti medo... Não senti vontade de correr, de fugir... Não havia razão, porque aquela criatura apenas me fazia sentir em paz... Qualquer misto de sentimentos confusos dentro de mim apagaram, assim como se apaga uma luz, e junto deles, minha mente também apagou, cada vez mais que ela se aproximava...
"...Me ajude..."
Aquelas palavras surgiram dentro de mim... Era ela se comunicando? Ou era meu próprio coração falando comigo...? Eu não sabia... Eu não ouvia... Eu apenas... Sentia... No lugar de tudo aquilo que sumiu de dentro de mim, apenas ficou sua real e bela voz. Nítida como um Eco.
– "Fascinante, não?"
Em um único estalo, a paz que se alojara em mim sumiu, e o peso da realidade voltou assim como o medo, assim como a tristeza, assim como a dor que estava me alucinando e anestesiando qualquer capacidade real que eu tinha de reação! A criatura também recuou assustada, ao que aquela impetuosa voz tomou conta da sala inteira em que estávamos!
Quando foi que alguém chegou atrás de mim?!
Eu me virei rapidamente para confirmar meu medo, sem esconder o choque em meu olhar! E ali estava ele, apenas nos observando admirado... Aquela pessoa alta, bem vestida, alinhada... Com aqueles cabelos claros compridos... E o óculos... Como se todos aqueles anos nunca tivessem afetado-o... o Professor das turmas avançadas, Tresz Ailmheirt.
O que ele estava fazendo ali!? Como ele sabia daquele lugar!? Será que era ele que estava ali o tempo todo!? Ele sabia o que estava diante dele!??
No instante em que eu apenas esqueci que estávamos ainda no instituto, todas as minhas perguntas que se formaram não foram capaz de chegar na altura da maior de todas as minhas dúvidas naquele instante...
Por que ao invés de estar bravo por ter me encontrado ali... Tresz apenas parecia sorrir, contente...?
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