Echoed
4 Omnos
A viagem até as fronteiras, foi uma longa viagem... Exaustiva talvez, mas para uma criança como eu que nunca tinha visto o mundo além daquelas colinas, era também parte de um encanto...
Um encanto que aos poucos e aos poucos, era quebrado pela realidade...
Eu me lembro as vezes, como aquela viagem começava, entre grandes campos abertos, pequenas casas simpáticas, pessoas que paravam suas vidas apenas para olhar aquele movimento de carros escuros passando pela estrada, por entre as cercas de madeira que contornavam nosso caminho... E eu não as julgava, afinal até para mim, ver um carro pela primeira vez foi um choque, ou melhor dizendo, uma divertida surpresa...!
E foram por aquelas mesmas estradas, naquela longa viagem, que eu tive meu primeiro contato com aquela guerra... Quanto mais distante eu me sentia de casa, mais perto eu estava de descobrir porque eu estava naquele carro, e porque eu não iria tão cedo voltar...
Eu poderia gastar muito tempo explicando oque eu vi, e as peças que juntei em minha cabeça para entender o que eu entendi com o tempo... Mas eu prefiro apenas falar diretamente sobre isso... Porque não existem caminhos fáceis ou curtos para se explicar a guerra...
Desde que eu era criança, e desde que eu fui recolhido para o Instituto, eu comecei a aprender sobre o mundo, fosse de meus professores, ou apenas dos livros... O mundo em que eu vivia era enorme, maior do que minha cabeça até hoje pode conseguir imaginar, e por ser enorme, muitas culturas diferentes também sempre habitaram nele, cada uma com suas crenças, filosofias, religiões... E nesse meu mundo, quanto mais o tempo pretendia se fechar sobre nós, mais a fé nas pessoas enriquecia, e isso acabou dando uma força muito grande a todas as religiões... A um ponto que suas culturas e suas províncias começaram a ser representadas por suas crenças e seus líderes espirituais... Mas quando filosofias muito diferentes começaram a se confrontar entre as fronteiras, muitas dessas mesmas religiões se mascararam como poderes militares, dispostas a lutar e dominar todas as outras para demonstrar sua completa superioridade... A guerra estourou, tendo a filosofia como sua motivadora, e seus representantes como seus generais... Aos poucos, vendo que as maiores religiões possuíam mais poder de massa do que outras para gastar em exércitos, criou-se a ideia de se eliminar logo a concorrência, e eliminar de vez qualquer outro tipo de pensamento que não fosse o seu próprio... Assim começou a inquisição...
(Ainda tenho dificuldades em acreditar que eu e o Padre vivemos por tanto tempo isolados, alheios tudo isso que estava acontecendo ao nosso redor...)
Diferente de uma guerra normal, que poderia andar em passos rápidos e decisivos, a Inquisição era destrutiva, porém lenta... tão lenta, que depois de um tempo ela recebera o nome de "A Guerra dos Anos"... Aquela não era uma guerra em que se eliminava de vez o inimigo, mas sim fazia todos tomarem seus passos estrategicamente, pressionando o próprio povo a se voltarem contra suas próprias ideias, e cederem para as crenças mais resistentes... Era uma guerra psicológica muitas das vezes... Afinal, o alvo nunca fora eliminar as outras pessoas... Mas sim as outras fés...
Poucas foram as vezes em que eu ouvi por alto, sobre confrontos diretos, e batalhas travadas com armas de verdade. Mas talvez fosse apenas porque eu vivi por todos aqueles anos também isolado dentro do instituto, e excluído do próprio mundo, que eu tive que me virar em imaginar o mundo com os fragmentos que eu podia recolher das pessoas de fora que as vezes apareciam, comentando baixo aquilo que seus olhos haviam testemunhado lá fora...
E enquanto eu vivia uma vida diferente do resto das pessoas... No meio de todo aquele confronto de ideais, era certo que a mais poderosa das Religiões, e a mais perigosa naquela guerra... era Omnos.
A Ordem de Omnos contava com o maior território e grupo de todos, a um ponto que poucas outras tentavam enfrentá-los diretamente... Para as religiões menores, era muito mais fácil se esconder e esperar que os peixes grandes se casassem, se devorassem, e se eliminassem... E naquele mar enorme, Omnos era um tubarão...
Tamanho era seu poder, que mesmo que eu tenha passado mais de 10 anos vivendo nas fronteiras, jamais consegui testemunhar uma tentativa de confronto contra Omnos, pois ninguém possuía coragem suficiente para enfrentá-los e esperar que tudo acabasse bem. Era mais fácil não chamar a atenção da Ordem, e esperar que um dia, de tão grande, Omnos perdesse sua força e abrisse a guarda para finalmente sucumbir diante de todo seu poder até então acumulado...
O que sempre pareceu impossível, pois graças a segurança que sua força trazia, várias pessoas escolhiam se abrigar sob suas asas, á lutarem pelo que seus corações realmente desejassem... Aos poucos isso se tornou sua maior arma para enfraquecer os inimigos, e se fortificar...
E graças a essa gentileza do inimigo de não impor confrontos diretos, para Omnos, o único trabalho que eles tinham realmente, era o de sempre manterem aquele mesmo poder... buscando aumentar seus "soldados" para "fortificar" sua presença.
Enquanto Omnos se mostrasse presente e ativo, ninguém bateria de frente com eles... E era aí que eu e todas as outras crianças entravamos...
A primeira vez que eu cheguei no instituto, eu pude ver seus enormes muros, fortificados como uma prisão, com homens de trajes religiosos e armamentos em suas mãos... Tanques, veículos, aeronaves... Alguns desses espalhados em sua frente, decorados com estandartes vermelhos, como se dessem boas vindas as pobre crianças que em fila junto de seus acompanhantes, se encolhiam de medo diante daquela assustadora recepção...
O Instituto por mais que focasse em cuidar das crianças acolhidas pela Ordem, também servia de base para aqueles que trabalhavam mais... "Ativamente" na guerra... E assim como qualquer outra base deles, Omnos adorava intimidar a todos com aquela demonstração de poder, apenas esperando o momento para ser utilizado...
Felizmente por dentro da Instituição, nada mais parecia dividir espaço com aquela terrível cena da entrada... O Instituto era um lugar agradável e enorme, uma velha construção em pedra que quase parecia um castelo, de tão espaçoso e amplo... Diversos corredores e salas, interligadas por mais e mais corredores, escadas, e quartos... Havia espaço suficiente para dormitórios, salas de aulas, banheiros que comportavam todos os alunos, e um belo jardim central com vista para o céu, contornado por vários outros corredores abertos... Acho que de tão grande, até hoje eu não consegui conhecer aquele Instituto por completo...
Assim que eu cheguei, logo fui abandonado pelas pessoas que me trouxeram até lá, como um animal sendo jogado em um curral para fazer parte do Rebanho. Aquela foi a primeira vez que eu via tantas pessoas em um mesmo lugar... Ou pior, tantas crianças...!
Antigamente, quando eu vivia na capela, eu cheguei a conhecer uma ou duas crianças que vinham com seus pais para pedir auxilio, então eu não me senti cercado de alienígenas também... Mas eram crianças demais para eu me sentir no mínimo confortável ali dentro!
Sim, eu era uma criança muito tímida.
Muitas daquelas crianças ali dentro tinham um misto de expressões... As maiores, que andavam livremente pelo pátio entre suas aulas, mostravam expressões mais leves, e algumas até riam ou pareciam alegres enquanto seguravam seus livros e conversavam entre si! Possivelmente já haviam aceitado aquela falta de escolha e abraçado suas novas vidas a muito tempo... E enquanto isso, aquelas mais fechadas, que pareciam incomodadas ou chateadas, claramente eram novas ali, e assim como eu elas mal entendiam porque aquilo estava acontecendo... As mais jovens tinham até uma expressão de que poderiam chorar a qualquer instante!
Mas assim que eu prendia meu olhar nelas, logo surgiam outros jovens (Que mais pareciam serem alunos veteranos) e pegavam elas tentando acalmá-las, recebendo e acolhendo elas, como se fossem todos da mesma família...
Talvez porque eles entendessem, melhor do que ninguém, a terrível sensação de entrar ali pela primeira vez...
E enquanto as coisas aconteciam ao meu redor, como se eu estivesse perdido em uma multidão que já sabia seus próprios passos... naquele dia, ninguém veio também me acolher... Talvez porque eu não estivesse chorando... Talvez porque eu não parecesse incomodado ou triste... Talvez porque eu apenas combinasse bem demais com aquele lugar, para parecer que eu havia acabado de chegar...
Nos 4 anos seguintes, eu passei estudando normalmente, como qualquer outra criança da minha idade. Aprendendo matérias desnecessárias, carregando livros pesados, aguardando cada minuto restante para o intervalo entre as aulas, e me adaptando naquela nova vida...
Aos poucos, eu não me senti mais dependente de ter alguém como o Padre ou Ama por perto, porque eram tantas pessoas ao meu redor, que eu apenas não tinha a chance de me sentir sozinho... Como aquele lugar era sempre cheio de pessoas, poucas eram as vezes que eu podia ver algum espírito também vagando pelo pátio e entre as plantas e árvores que cresciam ali... Na maioria das vezes eram pequenos animais, ou criaturas que de tão pequenas mal possuíam forma, apenas um distinto brilho como vagalumes voando a noite pelo céu. Isso acabou me fazendo perder um pouco do costume que eu já tive um dia, em conviver com eles...
Especialmente porque eu tinha que manter aquele segredo, e como sempre tinham pessoas por perto, eu simplesmente parei de interagir com eles e assim eles também pararam de prestar atenção em mim... Talvez tenha sido a época em que eu mais pareci uma pessoa normal!
Mas o preço que isso me custou, de certa forma foi acabar me isolando um pouco... afinal, eu também nunca criei laços muito fortes com as outras crianças, já que eu nunca aprendi a realmente fazer isso... E no fim, eu não tinha com quem conversar sobre a vida, sobre pensamentos, ideias ou sobre meus sentimentos...
Aos poucos a minha vida apenas se resumiu em servir quando me pedissem, e em seguida aproveitar meu tempo livre para descansar... Fosse assim, estudando ou fazendo pequenas tarefas ali dentro... Eu apenas me adaptei a crescer em uma rotina já bem familiar...
Me pergunto se essa coincidência era culpa do Padre ter tido esse mesmo tipo de ensinamento quando jovem... O que acabou fazendo ele me criar exatamente como a Ordem criava todas as crianças...
Mas finalmente em meus 13 anos, a rotina finalmente se apagou um pouco...
Foi quando eu descobri que toda e qualquer criança ali dentro haveria de escolher um destino para suas vidas, e começar seu treinamento desde então... Omnos afinal, recolhia suas crianças para serem seus "soldados", e isso significava que você podia decidir se sairia por aqueles portões como um Padre ou uma Freira da Ordem, servindo como a ferramenta deles para manter sua influência através das Províncias... Ou como seus "soldados de elite"... Se tornando um Exorcista...
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