Easy Way Out

1 Easy Way Out


Notas iniciais
Então, eu deveria estar escrevendo um capítulo para a outra fic. Mas né, essa ideia veio na cabeça quando eu ouvi a música Lullaby do Nickelback e simplesmente me obrigou a escrevê-la.
Não escrevo muito bem, então... é.
Boa leitura, ou não.

A dor era excruciante. Como navalhas rasgando seu corpo. Porém, a dor não era externa, era algo de dentro. Como se o estivessem comendo de dentro para fora. E não importava o que fizesse, nada fazia aquilo parar.

Era um covarde. Do pior tipo. Queria dormir e não acordar mais. Queria morrer. Porém não conseguia fazer isto por si mesmo.

Estava levemente ciente de uma dor seguida de certa dormência acometendo seus pés, porém não era pior do que o aperto em seu coração. Do que o desespero que parecia emanar de cada pensamento que passava por sua cabeça. Tinha andado, andado e andado. Não tinha ideia de onde estava, apenas sabia que era algum lugar muito longe, longe de tudo. Ou, pelo menos, longe do hospital.

Colocou as duas mãos em suas têmporas, apertando com força, porém a dor não parou. Encostou a testa entre os joelhos, batendo continuamente ela ali, enquanto sentia um líquido morno sair novamente de seus olhos. Lágrimas. Lágrimas que já tinham banhado aquele rosto por tanto tempo e voltavam novamente, completando o retrato da destruição de tudo que aquele homem fora um dia. Ou, há um dia.

Uma notícia. Algumas horas. E todo seu mundo pareceu ruir. E ele foi junto. Estava acabado, toda sua existência estava acabada. Não sentia mais nada além de dor, nada além de um desespero crescente que parecia nunca acabar.

Não estava ciente do tempo que ficou ali, conseguia apenas encarar o céu e ter uma vaga ideia de que nele o Sol não estava mais presente.

Quando, de repente, sem prenúncio ou algo parecido, tudo desapareceu. A dor, os pensamentos. Ele parecia ter sido transportado para o limbo. Um estado de torpor muito forte o acometeu, estava atônito, sem saber o que acontecia ou que aconteceu. Continuou a encarar o céu, que estava lhe apresentando uma mistura de cores linda, sendo que estava presenciando o crepúsculo, o fim de outro dia. E, quando despertou de seu transe momentâneo, a escuridão completa já cobria o céu, trazendo as trevas que também eram presentes dentro de si.

Moveu-se mecanicamente, retirando o tênis e sentindo uma dor aguda em toda a região de sua perna. Vagarosamente retirou a meia, vendo bolhas estouradas e feridas sangrando por toda planta de seu pé. Tentou mexer os dedos, o que apenas piorou a dor, dando-lhe a sensação de que eles iriam cair a qualquer momento. Retirou o outro tênis e meia, constatando um estado semelhante neste pé também.

Deixou seus pés de lado, encarando as mãos sujas de barro, barro este que também sujava suas roupas, visto que estava sentado na, agora não mais existente, sombra de uma árvore. Algumas pessoas passam na calçada do outro lado da rua e outras tantas pelo parque no qual se encontrava. Poucas se dignavam a lhe olhar e, mesmo assim, era apenas um relance, logo voltavam para suas vidas. Porque, claro, nenhuma delas sairia do seu caminho para lhe confortar.

No bolso de sua calça, o celular vibrou. Só agora, que parara de caminhar e tinha começado a pensar, notara isto, mas sabia que ele já devia estar neste estado por um longo tempo. Pegou-o, olhando no visor um aviso dizendo “Chamada perdida”, e apertou alguma tecla qualquer para desbloquear o teclado, logo apertando o botão de OK. Arregalou os olhos diante do que viu. 76 Chamadas perdidas. Apertou novamente o botão, vendo quem havia feito aquilo. E seu coração doeu. Pois sabia que deveria estar fazendo outro coração doer agora.

Seu namorado, Reita, era a única pessoa que lhe restara e encontrava-se ligando desesperadamente para si. Porém, mesmo ciente disso, decidiu não responder. Não estava com cabeça para aquilo. Não quando as lembranças ainda passavam insistentemente por sua cabeça e não pareciam nem um pouco mais amenas. Nunca iriam parecer.

A superação da dor se dá algum dia, o tempo vai deteriorando os cérebros humanos e com isto apagando as memórias ali presentes. Tanto as boas quanto as ruins. O sofrimento leva junto consigo as memórias boas que deveriam ser usadas para o superar. Apagando o passado, nos fazendo viver o presente para haver um futuro. Porém, esta superação, este esquecimento, não tem um tempo fixo. Ela varia para cada pessoa. E apavora as mentes mais maduras diante de um tempo longo demais.

Mas este homem, neste momento, não pensa na superação, não pensa no tempo que demorará para esta acontecer. Ele só pensa no quanto dói agora. No quão ruim é se sentir sozinho e inútil. Mesmo que, lá no fundo, ele saiba que não é nenhuma das duas coisas. Porém, este fundo já não é mais acessível. Não para o coração de alguém que está envolto em camadas e camadas de pura dor e desespero.

Sua vida nunca fora fácil e, agora, parecia que iria piorar ainda mais.

*~-~-~-*

Estava desesperado, não apenas pelos acontecimentos recentes, mas pelas consequências destes. Já se encontrava há algumas horas ligando insistentemente para o celular de seu namorado, Ruki. E, mais uma vez, ouvia o bipe não respondido e então a voz extremamente irritante da caixa-postal. Aquela voz já estava lhe dando nos nervos. Tanto pelo tom deveras estridente, tanto pelo que ela significava: outra chamada não atendida.

Estava com medo. Medo de perder a única coisa que lhe restava.

Reita sabia o que aquelas chamadas não atendidas podiam significar. Ruki poderia ter perdido o celular. Não estar o escutando. Ter decidido não atender. Não estar mais vivo.

Porque Reita conhecia aquela sensação. Conhecia a dor que era sentir-se sozinho, sem rumo. Sabia o que era buscar desesperadamente por uma saída. Uma saída fácil. E sabia o quão tentador era deixar de viver nessas horas, não sentir mais nada, não lembrar do passado e tão pouco se preocupar com o futuro.

Agora se pegava pensando como chegara àquela situação.

Como qualquer outro domingo, ele acordou primeiro e ficou encarando seu pequeno repousando calmamente em seu peito. Os escassos raios solares que passavam pelas frestas da cortina iluminando aquelas feições, que ao seu ver, eram angelicais. Observou, achando até meio engraçado, como a sua respiração, e decorrente movimento do peito, fazia a cabeça do outro mexer junto.

E então veio a maldição. O telefone tocou, acordando seu pequeno. Acordando-o de um sono tranquilo. E Ruki, depois de ouvir as tristes notícias daquele aparelho, queria poder voltar para a Terra dos Sonhos na qual se encontrava. Reita assistiu a expressão de seu amado ir degradando de um sorriso para um choro desesperado.

— Meus... — soluçou, não terminando a sentença. Respirou fundo, reunindo coragem e forças. — Meus pais... Eles... N-Não vão chegar.

Reita, sem entender direito a situação, e querendo desesperadamente fazer seu pequeno parar de chorar, perguntou:

— O que aconteceu, pequeno? — sussurrou, visto o fato que já tinha envolvido o outro em seus braços.

— Um acidente... Eles... Reita...

Sabia que os pais de Ruki estavam viajando, eles voltariam naquele dia. Os dois enamorados tinham combinado de os visitarem quando eles chegassem em casa. Ruki fazia questão de não perder o contato com seus pais, mesmo morando com Reita.

— Hospital...

Assim que ouviu esta pequena palavra sair dos lábios de Takanori, Reita correu para o armário para se vestir e logo vestiu Ruki, pois este parecia estar em um estado semi-vegetativo que só o fazia capaz de chorar. Foram direto para o hospital e logo para a sala de espera. E esperaram. Por duas horas Reita se viu obrigado a ouvir o som agonizante do choro de seu pequeno. Então viu o médico abrir a porta, e quando viu a expressão do médico, além da enrolação toda que estava fazendo, soube o que iria ouvir. E sentiu penado baixinho em seus braços.

Seu pequeno teve um ataque de pânico quando ouviu a sentença de morte deixar os lábios do médico. Reita continuou o abraçando enquanto ele gritava e esperneava, e mais do que tudo, chorava. Então Ruki finalmente se acalmou, fazendo com que Reita o soltasse. Ah, e como se arrependia disto agora. Quando viu, seu pequeno já cruzava a porta da sala de espera, correndo como nunca antes.

Ele até tentou ir atrás do pequeno, o seguiu até a entrada e de lá para a rua. Porém, não conseguia entender como algo tão pequeno podia correr tão rápido. A resistência do ar estava contra si e a favor do pequeno. O que resultou que, em uma esquina, seu pequeno desapareceu de suas vistas. O peso de toda aquela situação caiu sobre si, fazendo com que suas pernas não aguentassem o peso de seu corpo. Caiu de joelhos e, só naquele momento, permitiu-se chorar.

Depois de se recuperar foi para casa e a tortura começou. Ruki não atendia o telefone. Ligava e ligava e nada de resposta. E começou a se desesperar, principalmente quando viu que já era noite lá fora. Se já não bastasse o perigo que o baixinho representava para si mesmo, a isto agora se adicionava as outras pessoas maldosas por aí, e todo tipo de coisas ruins que saem das sombras quando tudo se torna sombrio.

Não saberia dizer o quão doloroso era para Ruki. Quer dizer, saberia sim, mas não totalmente. Quando tinha 4 anos seus pais morreram baleados por um assaltante. Não conseguia lembrar muito bem, as únicas imagens que vinham a sua cabeça eram de seus avós chorando e de muitas pessoas vestidas de preto, também chorando, em volta de um caixão. Lembrava-se de seu avô contando que ele era como o Batman.

E, dois anos atrás, sua avó, que foi como uma mãe para si, morreu. Duas semanas depois seu avô também, mas, esse, já estava morto antes disso. Sua alma morreu no mesmo dia que sua avó foi levada deste mundo, seu corpo apenas não percebeu a mensagem no devido momento.

Naqueles dias, nos dias que teve que aguentar toda a dor, pensou em se matar. Achou tão fácil. Eram só alguns remédios ou uma queda. Não parecia tão difícil quanto a perspectiva de ter que viver sozinho pelos próximos anos. Era jovem, sabia disso, do mesmo modo que seu pequeno o era agora. O melhor ainda estava por vir. Mas, um anjo estava ali para salvá-lo. Seu namorado há pouco mais de um ano, Matsumoto Takanori.

Mas, como poderia ajudar seu anjo caído, se não sabia nem onde esse se encontrava?

*~-~-~-*

Acabou adormecendo. E, quando acordou, raios de sol o iluminavam. Abriu os olhos, encarando o Sol, e logo fechou-os devido à intensidade da luz. Virou a cabeça em direção ao chão, abriu seus olhos e encarou a grama.

Grama? Como assim grama?

Ah, claro. Ele tinha recebido a notícia da morte de seus pais e tinha caminhado por 4 horas sem parar, meio correndo meio andando, até chegar àquele parque onde adormeceu. Lembrou-se do celular, das chamadas perdidas, do namorado que provavelmente estava desesperado atrás de si que foi deixado no hospital.

Ficou um tempo ali, até decidir levantar. Colocou as mãos nos bolsos, achando o celular, porém, nem um mísero resquício de dinheiro. Ótimo. Poderia ter ligado para seu namorado, sim, poderia, mas naquela hora esta ideia não passou por sua cabeça. Então voltou a caminhar pelo caminho que lembrava vagamente de ter percorrido no dia anterior.

Enquanto caminhava lembrava-se de seus pais. Da sua infância. Lembrava-se do primeiro dia da escola, ou pelo menos um dia em que foi para escola, mas gostava de pensar que era o primeiro. Seus pais segurando cada um uma de suas mãozinhas e aquela sala cheia de crianças à sua frente. Sentia medo, porém, este era levado embora pelas duas mãos que o sustentavam. Não estava sozinho.

Lembrava-se de sua pré-adolescência. Do único amigo que tinha. De como ele também o deixou. Não era muito popular, nunca o fora. Não conseguia falar com as pessoas. Tinha medo delas. Sempre fora muito baixo e, consequentemente, um alvo fácil para as pessoas que queriam machucar as outras. Nunca as entendera. Continuava não entendendo. E, logo que esse período acabou, quando finalmente iria entrar no ginásio, seu pai mudou de emprego e eles mudaram de casa.

A nova escola não era tão diferente da outra. Porém, ali, os alunos eram todos adolescentes. Finalmente fez um amigo, Uruha. Uruha o chamava de pintor de rodapé, ele chamava-o de bico de pato. Era engraçado. Era legal. Eram amigos. Ele não era exatamente normal, quer dizer, não como a maioria das pessoas. Uruha passava maquiagem, tinha o cabelo descolorido e em um penteado esquisito. E tinha um namorado, Aoi. Que também se vestia desse jeito. Era algo novo para Ruki, mas ele aprendera a respeitar os outros. Porque sabia o que era não ser respeitado.

Dentro da escola seus amigos o protegiam, as pessoas não o machucavam mais. Então Ruki decidiu mudar, queria mudar sua personalidade, mas isso era mais difícil. Então, pediu ajuda para seus dois amigos para mudar sua aparência. E, a partir daquele dia, Ruki passou a pintar o cabelo, vestir roupas negras, acessórios pratas adornando suas roupas e usar piercings. Seus pais surtaram. Mas aceitaram. Seu filho estava mudando, não era mais tão quieto. Acharam uma troca justa.

Então, um dia, quando estava fora da escola, sozinho, vieram uns garotos. Aquilo doeu. Doeu demais. E teria doído ainda mais se um anjo não tivesse aparecido. Chegou ali batendo naqueles garotos. Eram três contra um, que idiota, ele iria perder na certa.

Bem, nem tão certa.

Depois de ter feito os seus três algozes fugirem, ele veio até Ruki, que se encontrava sentado contra uma parede, tremendo e fungando. Seu anjo tinha cabelo loiro, uma faixa no nariz e se chamava Susuki Akira, “mas pode me chamar de Reita”. O levou para casa.

Então os meses passaram, encontros, conversas jogadas foras, loucuras, confissões... e o primeiro beijo. O primeiro beijo da vida de Ruki. Com um homem. Ele surtou. Fugiu dos braços de seu anjo. Mas seu anjo era insistente. Começaram a namorar. Ele tinha 16 anos, Akira, 19, estava na faculdade. Começaram a fazer encontros a quatro: Uruha e Aoi, ele e Reita. Era muito divertido. Finalmente tinha amigos, tinha alguém que o amasse, tinha um lugar para chamar de seu.

Lembrava-se de quando os dois sentaram no sofá de casa, sua manhã tinha feito café para o “Aki-kun”. Seus pais adoravam Reita. Como amigo. Lembrava-se da cara de horror deles quando ouviram a palavra namorado. Ruki passou dois meses trocando apenas monossílabos com sua família, até sua mãe vir chorando em seus braços e o “perdoar”. Então o namoro engajou. Reita vivia dentro de sua casa, ou melhor, de seu quarto.

E agora se encontrava caminhando sozinho. Sem Reita. Sem seus pais. Seus pais nunca mais iriam segurar sua mão. Nunca mais iriam lhe dar forças.

Começou a chover. Ruki desejava com todas suas forças que aquela chuva levasse consigo tudo o que manchava seu coração.

*~-~-~-*

Era uma hora da tarde. Seu almoço estava pronto. Almoço para duas pessoas. Mas só uma encontrava-se ali. Isso se aquele ser pudesse contar sequer como uma.

Estava sentado, pensando em seu pequeno. Queria tanto que ele estivesse ali, desejava tanto que ele voltasse para casa. Escutava atentamente o barulho da chuva, quando, de repente, ouviu batidas. Sequer pensou antes de agir, correu em disparada para a porta, abrindo-a com uma força exagerada.

Seu pequeno. Seu Ruki.

O abraçou com toda a força que pensava já não ter. Aguentou todo o peso daquele pequeno corpo que já não conseguia mais de sustentar. O puxou para dentro de casa, formando uma trilha de água por onde passava. Seu pequeno tinha andado por aí embaixo da chuva. Uma gripe era muito melhor do que esperava há este ponto. O deixou sentado no sofá e correu para o segundo andar para pegar uma toalha. O secou. E não sabia se as lágrimas eram dele ou suas, ou de ambos.

Ajoelhou-se em frente a Ruki, acariciando sua bochecha com a palma da mão.

— Reita... Meus pais estão mortos. — conseguia ouviu o desespero naquela sentença murmurada e aquilo quebrava seu coração.

— Reita! — o grito que saiu daqueles lábios parecia com um pedido de socorro, um pedido de socorro urgente de alguém que não sabia mais aonde se segurar, alguém que não conseguia encontrar uma maneira de não cair.

— Eu sei. Eu sei como é. Mas... Eu estou aqui. Eu vou sempre estar pequeno. Sempre...

Notas finais
Eu não consigo lidar com esse tréco de postar do Nyah... Seria tão mais fácil se desse para editar o HTML. :(
Também não sei fazer capas. ô desgraça
Bom, não tenho muita certeza de como ficou isso.
Mas né, se você aí leu até aqui não deve estar tão ruim.
Obrigada por ler, de qualquer jeito.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!