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4 Capítulo 4: Cavaleiro medieval


Notas iniciais
"Quem é você, por quem eu me encanto, que com um sorriso acaba o meu pranto, e me faz sonhar acordado?"

Luís Henrique tentou levantar-se. Logo, um par de mãos veio em seu auxílio, puxando com força seu braço, e empurrando suas costas para fora da maca. O impulso foi tão forte, que ele perdeu o equilíbrio, e só não caiu de cara no chão, porque um largo tórax amparou o seu corpo, deixando-o seguro em pé. Ele olhou para o rosto a frente do seu, e percebeu os pelos alourados da sobrancelha e do buço, num simulacro de bigode. Era a primeira vez que ficava tão perto de outra pessoa, num abraço tão estreito. Luís ficou sem ação. Gabriel então afastou o corpo do dele, mas continuou segurando seu braço.


— Você está bem, cara? — Gabriel perguntou numa voz grave.


— Sim. — Luís ainda um pouco perturbado, pela intimidade forçada, procurou por sua mochila, abaixou-se na mesma hora que Gabriel, que resolveu ajudá-lo, pegando a mochila no chão para ele. Aconteceu que ambos bateram as cabeças, nesse movimento.


— Desculpa, cara. Foi mal. Eu devia ter te avisado. Sinto muito! — Gabriel se desculpou.


— Tudo bem. A culpa não foi sua. Eu vi quem atirou a bola. Eu só gostaria que você parasse de me chamar de cara, tá bem? Meu nome é Luís Henrique, mas todos me chamam de Luís.


— Certo. Ei... Luís. Não fique dizendo por aí, que não fui eu quem atirou a bola. Eu já assumi a culpa, e já estou sendo punido. Não precisa complicar a vida de outra pessoa. — Gabriel ficou olhando para Luís, esperando pela confirmação nos olhos do outro.


— Eu não preciso que você cuide de mim. E não acho correto você assumir a culpa dos outros. Se você se sente bem fazendo isso, é por que tem algo muito errado na sua cabeça. — Luís arrependeu-se do que falou na mesma hora. — Desculpe-me, eu não pretendi ser agressivo. Eu sinto muito.


— Pode ser agressivo comigo, eu não me importo, mas não faça nada para prejudicar meus amigos, pois aí sim eu vou me importar de verdade.


Luís parou para observá-lo por um momento. Então baixou os olhos, raciocinando que aquilo não era da sua conta, mas logo depois mudou de ideia, e falou tudo o que teve vontade.


— Se seus amigos fossem sinceros, eles não deixariam você assumir a culpa no lugar deles. Eles estão te usando.


— Cala a boca! — Gabriel ficou encarando Luís fixamente, então baixou os olhos e contemporizou. — Você tem razão, mas deixe tudo assim, tá certo? Não fale nada disso a ninguém, está bem?


— Está bem. Como é seu nome?


— Gabriel.


— Gabriel, você quer ser meu amigo? Eu prometo que não vou me aproveitar da sua boa vontade, nem te prejudicar de alguma maneira. — Luís estendeu a mão para Gabriel, formalmente. Então Gabriel apertou a mão dele. — Já que somos amigos agora, a primeira coisa que faço é te liberar desse castigo. Você não precisa cuidar de mim.


— Você não pode fazer isso. Só o diretor pode me liberar do castigo. Além disso, são só três dias, isso não vai me custar nada.


— Eu sei Gabriel, mas eu precisava dizer isso, pra te provar que eu vou agir corretamente com você. — Luís ficou encarando-o candidamente.


— Oh, puxa! Eu não tinha percebido isso. Ah, obrigado, cara. Desculpe. Luís. — Gabriel ficou piscando, pasmo, com os lábios entreabertos. Era a primeira vez que ele conhecia alguém, que levava ética e correção de conduta, tão a sério.


— Se você vai me acompanhar até a minha casa, vamos andando, pois temos que apanhar dois ônibus. — Luís falou sorrindo.


Gabriel carregou a mochila de Luís e caminhava bem próximo ao outro, para o caso de sua deficiência visual o atrapalhar. Mas mesmo sem os óculos, e com um curativo tapando seu olho, Luís podia ver as coisas claramente. Ele estava exultante por ter feito amizade, com aquele rapaz de coração tão nobre e magnânimo. Pegaram juntos os dois ônibus, e uma hora depois, chegaram na casa de Luís, que não conseguia tirar o sorriso do rosto.


— Muito obrigado Gabriel. Te vejo amanhã na escola. — Luís estendeu a mão para o outro. Gabriel apertou a mão de seu novo amigo, e se despediu. Sentiu vontade de abraçar aquele rapaz magrinho, mas isso não ficava bem, porque eles haviam acabado de se conhecer, e eram ambos homens, e homens não se abraçam. Gabriel coçou a nuca frustrado e se afastou.


Luís teve que explicar a seus pais, como tudo aquilo acontecera. Eles exigiram que Luís mandasse a conta dos novos óculos para Gabriel pagar. Luís concordou com tudo o que os pais falaram, para evitar discussões desnecessárias, mas ele não pretendia de maneira nenhuma, explorar Gabriel. Ele daria um jeito de reembolsar seus pais. À noite, na sua cama, Luís ficou admirando Gabriel na memória. Ele era tão cavalheiresco, no seu modo bruto de ser. E tinha uma alma nobre também, como os antigos cavaleiros medievais. Esse fio de raciocínio o levou até Shakespeare. Então ele se levantou e pegou "Romeu e Julieta" em sua mochila. Nunca, aquela tragédia clássica de amor, parecera mais atraente para ele.


Gabriel chegou em casa bem tarde. Teve que se explicar com seus pais, do por que havia se atrasado. Ele permaneceu taciturno a maior parte do tempo. Perdera o apetite e recolheu-se cedo para dormir. Ficou deitado em sua cama, olhando para o teto, tentando entender o que se passava consigo. Por que não parava de pensar em um rapazinho que conhecera, e que era tão lindo quanto uma menina?


Na manhã seguinte, Gabriel saiu bem cedo de casa, sem tomar café da manhã. Quando Luís abriu a porta de sua casa, para ir para o ponto de ônibus, ele encontrou Gabriel na calçada, esperando por ele. Ambos se cumprimentaram, e Gabriel fez questão de carregar a mochila do outro. Luís, naquela manhã, havia retirado o enorme curativo, deixando a mostra, um olho roxo e uma pálpebra costurada. Mas ele preferia assim, pois ele enxergava melhor, com aquele olho. Conversaram pouco, mas ficaram olhando um para o outro, com o canto dos olhos. Os lábios de Luís teimavam em continuar sorrindo, de uma forma ridícula e inexplicável. Gabriel também sorria, só que de forma comedida. Ele tentava não ficar admirando o corpo do outro, e quando não conseguia controlar os próprios pensamentos, sentia-se corar, ficando envergonhado e se sentindo culpado.


Na escola, todos estranharam os novos amigos. Os atletas sentiram-se traídos, ao verem Gabriel confraternizando com o inimigo. Maria Dolores não acreditou no que viu, e até pensou em procurar Luís, para aconselhá-lo a se afastar daquele atleta. O diretor regozijou-se intimamente, por ver os dois jovens se dando tão bem. O professor Paulo ficou reticente, ao ver seu melhor aluno se misturando com indivíduos que cultuavam o corpo, e não o cérebro. A bibliotecária lamentou que Luís ficasse tão empolgado, com a companhia de outro homem, mas considerou que aquele atleta não era de se jogar fora.