Easy
1 Capítulo 1: Escola
Notas iniciais
—"I'm easeeee! I'm easy like Sunday morning. I'm easeeeee! I'm easy like Sunday morning." — Gabriel se esgoelava cantando no chuveiro.
Sua mãe no andar de baixo, ria enquanto preparava o café da manhã. Entre todos os seus filhos, Gabriel era o mais escrachado, escandaloso e solar. "A música combina com ele" ela pensou.
— Bom dia mãe! — Gilberto, seu filho mais velho a cumprimentou. Ele era sério e calmo. "Excelente para um futuro médico" ela pensou.
— Ei mãe! Eu não acho minhas meias de lurex. — Gritou do 2º andar, sua filha Glória.
— Você não precisa de meias de lurex para ir à escola, Glória. — Respondeu a mãe.
— Mas mãe, todo mundo na escola está usando lurex atualmente. Eu serei a única sem meias brilhantes. — Glória choramingou na escada.
— Querida, por que não vai à escola igual à Olivia Newton-John, naquele filme "Nos tempos da brilhantina"? — A mãe tentou convencê-la.
— Eu não sei, ela já não está na moda, mas quer saber? Acho que vou igual a ela sim. Vai ser interessante ser a única com personalidade naquela escola. — Glória falou entusiasmada.
A senhora Paula Siqueira era a feliz e orgulhosa mãe de seus três adoráveis filhos. Gilberto, o mais velho, e já frequentando a faculdade de medicina. Gabriel, o do meio, e no último ano do 2º grau. Glória, a caçula, frequentando o último ano do 1º grau. Seu marido Silas, tinha um emprego de assessoria técnica em um órgão estatal, não ganhava muito, mas era estável. Dificilmente seria demitido. Antes do casamento, Paula acumulava as funções de professora, sindicalista e representante de classe no conselho da cidade. Após o casamento, teve que abdicar de suas inúmeras atividades profissionais, restando apenas aulas esporádicas semanais.
— Bom dia mãe linda! — Gabriel desceu as escadas correndo, abraçou-a pela cintura, rodopiando com ela, e lhe deu um beijo estalado na bochecha.
— Assim você me deixa tonta, menino. — Paula reclamou dando um tapinha no braço do filho. Gabriel deu o seu sorriso mais bonito, afastando qualquer tentativa de ficar com raiva dele.
Glória desceu as escadas nesse momento. Estava vestida de negro da cabeça aos pés, com uma calça legging justa, e blusa de malha colada ao corpo, com um amplo decote revelando seu colo. Havia soltado os cabelos castanhos e carregado na maquiagem de olhos fortemente delineados, e batom carmim.
— Glória você ar-ra-sou! Está pronta para o halloween. — Caçoou Gabriel.
— Mãe! Olha o Gabriel aí! Ele está implicando comigo. Fique sabendo Gabriel, que foi ideia de mamãe que eu me vestisse assim, tá?
— Alto lá! ... — Paula não conseguiu segurar o riso franco e escancarado. — Querida, quando eu falei em Olivia, eu estava me referindo à blusa, casaquinho e saia, e não... isso. — Paula falava com a filha enquanto a inspecionava, virando-a de lado e de costas.
— Ah, mamãe! Eu agora não vou mais mudar de roupa. A culpa é toda sua. Eu bem queria usar meias de lurex. Foi você... — Glória não conseguiu continuar, estava irritada e nervosa. Voltou correndo para seu quarto no andar de cima.
— Querida, apenas troque a roupa e lave a cara. Não precisa se irritar por isso. — Paula ainda tentava não rir da filha.
Gabriel e Glória estudavam na mesma escola. Eles pegavam juntos o ônibus. Na escola, Glória rapidamente se enturmou com suas coleguinhas pré-adolescentes, e Gabriel se enturmou com seus colegas atletas. Gilberto já tinha seu próprio carro, e logo mais voltaria para a universidade em São Carlos, para uma temporada de quatro meses longe da família.
— E aí cara, tudo bem? — Marcelo, o melhor amigo de Gabriel ergueu a mão para cumprimentar o amigo, em um ritual estilizado, em que batiam as palmas no alto, fechavam as mãos em punhos, e os tocavam, para então enroscarem os dedos. Este ritual já havia sido mais longo, com direito a gritos de guerra de índio apache, mas eles haviam crescido e acharam que estava muito espalhafatoso, de modo que diminuíram bastante a encenação.
— Tudo bem, cara! E aí, tudo certo para sábado à noite? — Gabriel perguntou com um sorriso. Ao que o amigo limitou-se a responder com um movimento do polegar para cima e outro sorriso.
Enquanto Gabriel e Marcelo caminhavam em direção à sala de aula, encontraram outros amigos, seus companheiros de partidas de futebol e basquetebol. Como compunham um time, era natural que permanecessem unidos o tempo todo, como uma família.
Na sala de aula, a professora tentava explicar o assunto, mas alguns alunos ficaram atirando aviõezinhos de papel. Alguns deles chegavam a voar bem perto da mestra. A turma ficava distraída com aquela demonstração alada. A professora perdeu a paciência.
— Muito bem, quem é que está atirando aviões de papel? Vamos! Eu quero o Santos Dumont aqui na frente, agora. — A mestra ficou calada com uma expressão severa, enquanto encarava os alunos um por um. Todos ficaram mudos, e alguns abaixaram os olhos, temerosos de encararem a professora. Então um dos alunos do fundão levantou o braço para o alto. A professora o encarou séria. Ela poderia jurar que ele estava mentindo, mas isso iria prolongar o impasse além da conta, atrapalhando o desenvolvimento da aula. Por esse motivo, ela limitou-se a chama-lo com o dedo da mão. Quando ele ficou próximo, ela lhe deu o veredicto.
— Gabriel, apresente-se na sala do Diretor. Entregue-lhe este bilhete. — Ela rapidamente escreveu algo em um papel, e o entregou ao rapaz. Este recebeu o papel e saiu da sala.
Gabriel estava acostumado a assumir a culpa em sala de aula. Quase sempre não era ele quem fazia bagunça, mas sim seus companheiros, mas ele sabia que as sanções para seus amigos seriam duras, enquanto que para ele, as medidas eram mais complacentes, sem dúvida, porque todos gostavam dele.
Ele entrou na sala do Diretor, e a secretária o fez esperar sentado, pois o Diretor estava ocupado. Gabriel pensou tristemente que iria perder dois tempos de aula, por causa de besteira. Depois ele teria que pegar a matéria da aula com alguém. Isso era chato, por mais que todos fossem solidários com ele, era inconveniente ficar toda hora pedindo ajuda dos outros. Após uma hora de espera, o diretor o recebeu.
— Sente-se Gabriel. Já li o novo bilhetinho de sua professora. Sabe, estou fazendo uma coleção com eles. É interessante observar, que você é o aluno que mais comparece à minha sala, da sua turma. Eu não acredito em absoluto, que você seja o mais bagunceiro da sua classe. Talvez seja o mais idiota, por assumir a culpa do erro dos outros. É, eu sei o que acontece. Surpreso?
— Um pouco. O que pretende fazer? Vai me punir por isso?
— Não. Vou apenas aconselhá-lo. Sabe, atos que repetimos continuamente, acabam se tornando um hábito. No futuro, você pode se prejudicar bastante assumindo a culpa e o encargo de outros. Isso sem falar que algumas pessoas podem querer se aproveitar dessa sua predisposição, e explorá-lo tomando-o por otário. É isso que você quer para sua vida?
— Não senhor.
— Ótimo. Pense dessa forma quando sentir vontade de assumir a culpa dos outros novamente. Pode ir agora.
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