Earthquake.

1 Prólogo.


A pequena lâmpada presa em seu suporte era a única fonte de luz da sala escura a qual habitava. Em seu campo de visão, inúmeros copos plásticos estampavam o logo alviverde da Starbucks juntamente com várias embalagens de alimentos industrializados, empilhados majestosamente como que para uma exótica exposição: era a sala de trabalho destinada a Matthew, então, poderia condecorá-la da maneira que mais lhe parecesse conveniente, uma vez em que a habitava — muitas vezes — mais do que sua própria casa: não era um incômodo, visto que o rapaz vivia para o trabalho. O foco dos olhos esverdeados, porém, davam-se às peças da AK-47 enegrecida, desmontada, pairando sobre a mesa. Odiava tê-la de desmontar: era praticamente um ser vivo que o acompanhava nos melhores – e piores – momentos de sua vida. Definitivamente, gostava mais da arma do que de muita gente: estava certificado de que nasceram um para o outro. Porém, era preciso. A limpeza do instrumento da morte é um dos fatores cruciais para um melhor desempenho no quesito mira, criança, era o que lhe fora passado pelos instrutores de mais idade e ressoava em sua mente como um teorema decorado tamanhas repetições executadas – principalmente o apelido de criança. Apesar da pouca idade e da face infantil ao qual apresentava, o inglês possuía uma experiência admirável: destacava-se nas aulas de lógica, assim como nos treinamentos de tiro ao alvo. Com um chumaço de algodão, acariciava toda a estrutura da arma, retirando os resíduos de pólvora que teimavam em persistir. Era uma atividade habitual, o que trazia aos movimentos do loiro um ar de facilidade, apesar de não serem, de fato.

Toc toc.

O doce silêncio era quebrado por leves batidas na, até então encostada, porta de madeira. O olhar sagaz direcionava-se rapidamente até a origem do som, ainda mais atraídos devido o ranger que as dobradiças executavam com a abertura calma e contínua da porta. A mão fora levada rapidamente até o bolso da jaqueta de couro a procura da arma reserva – um soco inglês. Tratou de trajá-lo entre os dedos grossos e másculos antes de retirar a mão do bolso, prontificando-se a levantar. Quem seria? Os passos silenciosos levaram a silhueta bruta até as proximidades da porta, que continuava a se abrir. Aos poucos, os olhos verdes acostumavam-se à pouca luz e reconheciam a silhueta do porteiro, este que portava uma garrafa entre os braços. – Entrega pra você, Matt. Sua preferida. – a voz masculina ressoava pelo âmbito vazio enquanto o rapaz estendia-lhe o recipiente. Um sorriso involuntário abriu-se, satisfeito e ansioso: uma garrafa de Jack Danniels. Tratou de pegá-la de forma indelicada das mãos do porteiro e riu, acenando positivamente com a cabeça – Juro que lhe chamaria para presenciar esse momento comigo, mas... Realmente é minha favorita. – continuou a rir enquanto erguia uma das sobrancelhas de forma agressiva, o que fazia o porteiro sorrir e retirar-se, um tanto quanto encabulado. Em um movimento repentino, desferiu a tão amada garrafa contra a face do trabalhador, estilhaçando o recipiente de vidro sobre a região, de modo que o homem desfalecia sobre o solo. – Porteiros não sabem meu verdadeiro nome. – As pálpebras fecharam-se por um curto espaço de tempo enquanto retomava em seu inconsciente as palavras que fluíam com facilidade dentre os lábios bem treinados. — Regna terrae, cantate deo, psallite dominio... Tribuite virtutem deo. Exorcizamus te, omnis immundus spiritus, omnis satanica potestas, omnis incuriso infernalis adversarii, omnis legio, omnis congredatio et secta diabolica... – a medida que o proferido ressoava pelo âmbito, uma orla gasosa negra tomava conta do recinto, oriunda da cavidade bucal do pobre porteiro possuído. Como se atraídas pelo centro da Terra, a nuvem negra estagnava-se ao solo e por esse era absorvida. Agora tudo estava perfeito: o aroma de Jack Danniels, uma AK-47, um silêncio ensurdecedor.

Notas finais
Espero que vocês curtam, pelo menos, um pouquinho! É o início da minha primeira história e, portanto, não sejam tão críticos. Agradecida, caso tenha lido até aqui.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.