A qualquer tolo que encontre o diário do almofadinha,peço-lhe desculpas porque não poderá continuar lendo seu relato, já que ele está morto, assim como meu maldito guarda-costas. Por Deus, foi um erro, foi um terrível erro ter vindo até aqui. Se alguém estiver mesmo lendo isso, por favor, diga ao meu avô que eu sinto muito por não ter voltado. Sei que a floresta não me deixará sair viva daqui. Foi ela, aquela cadela do inferno fez surgir esta floresta – esta maldita floresta que brotou desde a Pirâmide Negra!

Acho que ainda tenho algum tempo, afinal, eu mesma feri a desgraçada. Sei que também estou perdida, há crias do demônio ao meu derredor, então, ao menos, deixarei este relato as pressas, assim como também o meu aviso a qualquer um que seja idiota o bastante para encontrá-lo:


SAIA DESTA FLORESTA!


Tudo começou, ou melhor, terminou, logo pela manhã do dia seguinte ao desaparecimento de Alighieri, aquele cão sarnento. O professor veio falar comigo – é outro imbecil – mas parecia imerso num tipo de feitiço, como se estivesse sendo dirigido por outra pessoa, estava totalmente insano, preso a ideia de matar Alighieri.Ele me chamou pelo nome de várias deusas diferentes, as quais, nunca ouvi falar e sequer me recordo dos nomes para registrar. Em dado momento, ele se fixou no nome de Calipso, me pergunto se enxergou em mim a mesma Calipso que outrora se apaixonara por Odisseu…

– “Foste vós mesma que me dissestes…

– “Calipso, ela me contou… há muitos boatos de que ele próprio matou a todos de sua equipe, não é assim?”

– “E vós,bela Náiade, deveríeis ter atentado às palavras de teus subordinados…”

– “Calipso… então, que esperais que eu faça com ela?”

– “E ele, quereis que eu o mate?”

Em seguida, se virou para o deserto e continuou falando suas besteiras com um tom ainda mais insano:

– “Não… não posso permanecer aqui com vós, domicella, da mesma forma não a deixarei sozinha com ele… Calipso, não me obrigais!”

– “Não com ele!”

– “E-ela… ela é minha, ela há de ser minha, MINHA CALIPSO!

– “NECESSITO MATÁ-LO!”

O professor se dirigia a outra pessoa, ou demônio, e falava como um dândi de ocasião, claramente estava possuído. Parecia até com o próprio Alighieri, em algum sentido, um bruto, amante do sangue e não de mulheres, alguém perigoso. Como não havia mais o que pudesse ser feito naquele momento, continuei caminhando em direção ao brilho refulgente do monumento de ouro, mantendo grande distância do louco, com sorte, ambos os lunáticos se encontrariam no caminho e se matariam!


A pirâmide já me parecia bem próxima, e o professor estava fora da minha vista, foi quando ouvi sons de disparos,seguidos por pequenas explosões na areia quase atingindo meus pés. Imediatamente o professor veio correndo de alguma das dunas, agarrou meu braço e me conduziu para trás de outra duna. Fizemos silêncio, ao menos, ele parecia mais racional agora. Ouvimos Alighieri me chamando também de Calipso e proferindo obscenidades que faria com ela, comigo.

– Venha, Aleguero, eu o esperarei pacientemente, como convém a uma verdadeira dama!

Pouco a pouco, conforme as breves pausas dos ventos, sons de passos pesados que afundavam na areia se aproximavam. Quando estavam à pouca distância,tateei suavemente entre meus seios, por debaixo do vestido pensando em nosso encontro, mas, não cheguei a ter o prazer que tanto ansiava, antes notei que o doutor havia sumido do meu lado e, observando os rastros que haviam na areia, supus que saiu rastejando na tentativa de surpreender nosso algoz. Resolvi apenas esperar pra ver o que acontecia.Passaram-se poucos instantes até que os gritos de ambos se elevaram, estavam lutando pela posse de uma arma. Ouvi tiros e fiquei em silêncio numa expectativa.

– Os dois se mataram?

– Seria infinitamente mais simples dessa maneira.

Em resposta, ouvi a voz do professor:

– “CALIPSO, REVELAI-VOS!”

– “Eu o abati, resta apenas a domicella… então, enfim, poderemos permanecer juntos,pela eternidade.”

– “Serei vosso escravo, para sempre!”

No fim, aquele bronco foi completamente inútil:um guarda-costas incapaz de lidar com um professor almofadinha. Que tipo de imprestável é esse?

Houve um silêncio pesado e repentino, que foi quebrado pelo som de outro disparo, certamente o professor queria ir as forras. Até achei que a voz que balbuciava maldições pertencia a ele:

– “Será que não estais te precipitando em tomar a eternidade para si?”

Mas não era o doutor, e sim Alighiere quem falava agora:

– “N-nã… n-ão… que espécie de tolo arremessa a própria arma junto a um inimigo que, claramente, ainda respira?”

– “Não a tomarás para si, a deusa é minha… minha presa. Eu a matarei e colocarei fim a este feitiço!”

Parece me enganei quanto ao meu guarda-costas afinal. Os sons de tiros que se seguiram denunciaram que a loucura havia ido do professor para Alighiere, o ouvi puxando o gatilho repetidas vezes, mesmo após as balas terem acabado, e ele continuou fazendo-o enquanto me aproximava e falava com ele:

– Sempre julguei ser um exagero quando dizem que “alguns homens matam e morrem por mulheres.”

Calmamente, enquanto Alighiere se ocupava de atirar com balas imaginarias,coloquei minhas mãos sobre o decote do meu vestido. Com calma e delicadeza, puxei-o para baixo, apenas um pouco, de modo que Alighieri visivelmente reduziu o ritmo com o qual puxava o gatilho da arma descarregada e fez menção de que voltaria seus olhos para mim. No entanto, ele não pôde aproveitar a visão por mais do que um segundo ou dois,acho que sequer percebeu que saquei minha própria arma que trazia entre meus seios!

– “Me parece, que fora vossa deusa, Alighiere, quem ousou reivindicar vossa alma!”

Meu avô estava certo – “O caminho que conduz à Pirâmide, ó criança, exigirá o sangue dos insensatos!” – e já não havia o que eu pudesse fazer pelos tolos, senão pisar sobre eles e visitar a Pirâmide. Pus-me a fazer o restante da caminhada deixando-os para os abutres.


Quanto mais me aproximava, mais seu brilho me cegava,e tanto mais o calor refletido me fustigava. Era como me aproximar do próprio inferno – o desgraçado do Alighiere teria adorado isso, até me pareceu que ouvi sua risada, por um momento – Apenas quando cheguei, de fato, aos pés da pirâmide, é que me dei conta de sua magnitude:era semelhante a um prédio de dez ou doze andares, talvez. Das areias, erguia-se de forma majestosa, como um farol num mar de areia. Ao me aproximar, notei algo que me deixou chocada: a Pirâmide Dourada não era feita de ouro, muito menos era dourada, mas sim negra, de cor quase arroxeada e brilhante,e aquilo que a fazia reluzir dourada a distância,era o próprio Sol refletido pelas intermináveis camadas de vidro translúcido que a cobriam, tinha algum aspecto etéreo, como um caleidoscópio ou um prisma gigante. Sem dúvida, os ventos a encheram de areia durante éons, então, o Sol – que parecia ser muito mais quente aqui do que no resto do mundo – transformara aquelas camadas de areia numa grossa cobertura de vidro que refletia sua luz por quilômetros!

Caminhei ao redor do megálito, pelo lado que havia sombra, buscando uma entrada, mas não encontrei nada, o próprio reflexo do deserto nas camadas de vidro que dificultava identificar o que estava por baixo, ou talvez a entrada estivesse enterrada na areia. Por sorte, na terceira ou quarta lateral da pirâmide, nãos sei bem ao certo, encontrei uma escadaria perfeitamente esculpida na pedra escura, embora estivesse devidamente protegida pelo vidro, subindo desde sua base até o topo, certamente haveria uma entrada mais acima ou, no mínimo,eu teria uma bela vista de toda aquela maldita areia lá do alto.

Logo em meu primeiro passo, uma súbita sensação de perigo me acometeu, e não se tratava apenas do temor daquele vidro tremendamente escorregadio, não era isso, era mais como algo “externo a mim”, um temor que se aproximava como o espanto noturno. Senti-me tonta e quase me desequilibrei, havia algo maligno enterrado sob o vidro, um ser que pulsava e respirava!

Será que devo mesmo galgar esta escada e encontrar o que quer que habite no seu cume?

Certamente o professor teria se questionado dessa forma, sempre com “todos aqueles serás” sobre tudo. Infelizmente, ele não poderia mais me ajudar – acho que subestimei sua utilidade!

– Novamente, não há mais o que possa ser feito, senão subir! – Então continuei, a cada passo em direção ao céu, menos calor meu corpo sentia, o que estava acontecendo?

Era como se a escada levasse, não para o topo, mas sim para uma dimensão estranha, onde algo ou alguém me esperava, o que, eu não saberia dizer.Por volta da metade da escalada, ouvi um som estranho, a principio não tinha ideia do que era, porém, conforme foi aproximando, vindo do lado oposto, escondido atrás da pirâmide, me dei conta que era o som de asas, de milhares de asas de pássaros, parecia uma massa de aves que logo passaria por cima da minha cabeça. Com o espanto, busquei me proteger, novamente correndo o risco de despencar da escada, mas nada veio até mim.Ergui minha cabeça em busca do que quer que fosse, na verdade, seriam os primeiros seres vivos em que colocaria os olhos naquele deserto, isto, além dos dois tolos que morreram aqui. O som era quase ensurdecedor, sem dúvida, haviam milhares de asas batendo acima de mim, mas, não importava o quanto eu firmasse os olhos e as procurasse, não havia nenhuma porcaria de pássaro no céu!

Me senti tonta novamente e, por isso, voltei os olhos para baixo em direção ao vidro que recobria os degraus, buscando me sentar na escadaria, quando o fiz, eu os vi, lá estavam eles – milhares deles – refletidos na camada de vidro da pirâmide.Haviam incontáveis sombras de animais voadores, embora eu não os pudesse identificar: não tinham bicos como aves, eram mais como morcegos, embora fossem cobertos de penas negras, me virei tão rápido como pude para cima novamente para procurar os donos de tais reflexos. Eles não estavam no céu!

De tanto virar o pescoço, perdi o equilíbrio e caí cerca de dez ou quinze degraus e, mesmo caindo, continuei fitando o céu,estava tão limpo e ainda mais vazio do que antes. Poderia ser que as criaturas que voavam em direção ao topo pertencessem a uma outra dimensão que não possa ser divisada pelos olhos nus?

Levou um tempo, mas os demônios se distanciaram, deixando apenas o som do vento para trás. Me levantei, sacudi a areia e continuei subindo degrau a degrau, com uma sensação de que não deveria continuar ainda mais presente, mas esta, era sobrepujada por meu desejo de encontrá-la.Por mais pesados que meus passos estivessem depois da queda, eles finalmente me levaram até o topo. Quando cheguei lá em cima, ELA estava lá, na imensa plataforma plana do cume da Pirâmide negra, me esperando, como meu avô disse que seria…

– “No topo da Pirâmide Negra que está localizada bem no centro do Deserto Amazônico, habita deusa: uma mulher, se é que se poderia chamá-la de mulher, com longos cabelos encaracolados e ruivos como chamas, que lhe caem sobre a testa e emanam vida e energia própria. Seu rosto aparenta jovialidade e ‘perfeição’;seus olhos são profundos e brilhantes e sua boca sorri com malícia.”

– “Suas vestes não eram incomuns na época, sobre a pele pálida, trajava um vestido com aspecto europeu antigo, que esvoaçava ao vento.”

– “Isso porém, nem era o mais chamativo sobre sua aparência, e sim o enorme par de asas de penas negras, com um leve reflexo arroxeado quando banhadas pelo Sol.”

– “Sem dúvida, era uma presença elegante e marcante, apesar de demoníaca e aterradora!”

– Agradeço-te pelos sacrifícios, criança – disse a deusa com voz formal, ainda que vazia e sem vida alguma – sem eles, não teria sido possível para mim, sair de Abadon!

Ainda que suas palavras fossem polidas e sua beleza grande, seus olhos demonstrava terrível velhice e maldade. Mas era impossível ignorar o desconforto de encará-la, havia algo em sua aparência que parecia falso, como se cada traço houvesse sido colocado ali intencionalmente, toda a sua figura não passava de uma mascara enganosa, um véu que ocultava a verdadeira natureza de anjo caído.

A súcubo desviou seu olhar de mim e se fixou aos pés da pirâmide, e eu, fiz o mesmo.Foi quando vi, incrédula: Alighiere e o professor. Seus corpos jaziam cobertos de sangue, um sangue que descia de seus pescoços e lhes banhavam por completo, parecia que suas gargantas lhe foram rasgadas de maneira brutal. Fui momentaneamente tomada pela náusea da visão, em seguida, fui arrebatada pelo silêncio da “mulher” e a encarei novamente. Como continuava em silêncio, apenas sorrindo malignamente, perguntei:

– Você é a “deusa” que eles têm chamado de Calipso? – e recordei-me de algo mais – e também“she-devil”…?

– Foi assim que te chamavam,meus carregadores covardes. Você é um demônio?

Sua expressão pareceu terna por um instante, como se estivesse tendo uma boa lembrança, então me respondeu:

– Há séculos que ninguém me chama assim – depois a criatura olhou ao redor, como se revirasse éons passados em sua mente – sempre preferi ser conhecida pelo título que recebi no Mundo Acima das Estrelas: Umbra Æterna – e virando-se de volta a mim, prosseguiu:

– Assim como aquela que me chamava de deusa três gerações atrás,tua avó, Aura, que se apaixonou pela humanidade, ambas sois demasiadamente humanas!

– Respondei-me criança: se sequer atendi o desejo daquela traidora, como pensaste que eu atenderia ao teu?

– Assim como ela, nem sois humana, nem sois deusa. Vossa existência é uma afronta ao que sou!

– Só mereceis ser consumida!

Assim que a mulher fechou seus lábios escuros, acima do deserto mais quente da Terra, o céu, que antes parecia até uma fornalha de azul infinito, escureceu-se sob o olhar de Umbra,como que, para protegê-la do Sol, o céu fora coberto por pesadas nuvens de chuva vindas do leste. Aquela “mulher” fantasmagórica bateu suas asas negras com tamanha força que reverberou com os trovões, ela lançou-se sobre mim com tamanha velocidade, que sequer notei o instante em que atingimos a areia, eu apenas senti a dor do impacto e algo se quebrando em meu corpo. Desde o topo da pirâmide até o chão, a vadia me carregou pelos ares, depois fechou suas mãos em meu pescoço e o ar começou a me faltar. Enquanto olhava no fundo dos meus olhos, senti seu desejo de arrancar minha alma pelas orbitas do meu crânio.A criatura sorria com evidente e macabro prazer, como se fosse me devorar. Por detrás de um sorriso sádico, vi seus dentes, antes brancos e perfeitos, tornando-se extremamente pontiagudos, afiados e escuros, como se fossem feitos especialmente para rasgar a jugular humana e tomar-lhes a alma das veias – isso é real?

A dor que sinto, mesmo agora, me diz que sim…

– Existe mesmo um ser assim, um ser que tem vagado por séculos, não só neste mundo, mas também em outros, um ser que tem se alimentado dos homens?

Mesmo perdendo as forças, meu instinto ainda não havia desaparecido, então tentei me soltar de suas garras, mas minha resistência foi inútil – sua força era sobre-humana– Tateei desesperadamente pelo meu corpo, tentando colocar as mãos dentro de meu vestido, na verdade,o que eu buscava era a arma que sempre trazia junto ao coração, para que, com ela, pudesse disparar contra o dela. Contudo, ao perceber meus movimentos, a súcubo gargalhou ensandecida e exclamou:

– Ora, mas o que é isto?

– A morte lhe excita criança? – e soltou um suspiro de profunda excitação antes de prosseguir – talvez sejamos parentes afinal!

Ela aproximou seu rosto do meu, quase roçando minha pele com seus dentes:

– Serás outro sacrifício a minha beleza, no entanto, hei de conceder-te o que desejas em teus últimos instantes.

Umbra afastou seu rosto, cerrou os olhos e ergueu a face para o céu, deleitando-se em luxuria com meu sofrimento. Ela agarrou uma de minhas mãos e a conduziu ao seu próprio corpo.

– Cadela do inferno, não permitirei que me use para profanaras leis de Deus! – gritei, enquanto os suspiros da criatura eram agora tão altos que abafaram os de meus esforços.

Usando meu ultimo fôlego alcancei minha arma. Com os olhos fechados e seu rosto voltado aos céus, a desgraçada sequer se importou quando posicionei o cano do revolver entre seus seios. Puxei o gatilho repetidamente: seis, sete, oito disparos. A cada um deles, a criatura afrouxava suas garras de meu pescoço e gritava como uma cadela quando castigada por seu dono.E caiu de costas no chão, arfando e grunhindo.

Levantei-me cambaleando, mas com determinação, meu corpo tremia, os pulmões ardiam, e a visão ameaçava me abandonar, ainda assim,corri. Os corpos de Alighiere e do professor estavam em meu caminho, de modo que, me joguei sobre o corpo de meu antigo guarda-costas e procurei em suas roupas até encontrar sua arma. Fiz menção de mi virar e atirar novamente no demônio, entretanto, os gritos que antes pareciam de um animal ferido, deram lugar a um terrível berro de dor, gutural e etéreo, que fez minha alma estremecer. Um terror intenso tomou conta de mim e quase me paralisou, foi com dificuldade que me arrastei para longe da pirâmide com lágrimas de desespero queimando pelo meu rosto– ainda ouço aquele grito em minha mente enquanto escrevo estas palavras –Deve ser assim que soamos prantos do inferno.

Não ousei olhar para trás enquanto rastejava para longe, mas a ouvi se apoiando na beirada do monumento, depois vi um breve reflexo dourado refletido no chão e escutei o som de algum líquido caindo da besta – um gotejar constante – sem dúvida, a cadela sangrava como qualquer animal.

Os berros cessaram instantaneamente e um som rastejante se fez presente. Meu temor instantaneamente diminuiu, como se sua fonte se afastasse, então olhei para trás. A súcubo não estava mais ali, certamente, escondeu-se dentro da pirâmide para se recuperar. No local onde havia se reerguido após meus disparos, havia apenas uma poça de sangue, tão grosso e dourado como o ouro – ícor – esta visão me fascinou por um instante, me fazendo até esquecer do demônio. Havia um brilho intenso e frio, como o da Lua. Depois, vi pequenos círculos concêntricos se formando na superfície do líquido e, nos instantes seguintes, pequenos ramos negros e espinhosos surgiram da poça dourada, como se houvesse uma certa vida deturpada naquele “ouro”, uma vida que fora tomada a força de outros seres e que agora, ao ser liberta daquela prisão maligna, buscava respirar novamente e crescer. Em resposta ao crescimento, a chuva caiu pesada e alimentou o que agora eram cipós negros e retorcidos. Estes continuaram crescendo e se espalharam pelo chão, por sobre pirâmide e sob os meus meus pés com a velocidade de uma locomotiva.

Um grande estrondo que se seguiu roubou minha audição por algumas horas, isso foi quando imensas árvores cresceram até os céus, tocaram as nuvens, consumiram-nas imediatamente e envelheceram diante dos meus olhos. Tudo se tornou escuro, como se a umbra da pirâmide tomasse todo o lugar.

Uma floresta tão imponente, velha e extensa como jamais se vira no mundo, simplesmente surgiu onde antes havia apenas um deserto. E a qualquer um que se perguntasse, diria que sempre estivera ali, que ela atravessou os éons e abrigou incontáveis gerações de animais e povos primitivos. Mas esta não é a verdade. Ela simplesmente não é deste mundo. É um habitat de demônios, um condutor desde a quarta dimensão até a Terra!

Meu único consolo é a certeza de que, muito mais do que a mim, esta floresta deseja consumir aquele demônio imundo, assim como ela consumiu a vida que agora sustenta estes galhos. Contudo, não acho que ela sairá da pirâmide agora, ao menos, não sem que novas vítimas a encontrem e se tornem alimento, recuperando sua força e vigor.

Não tenho esperança de sair daqui com vida, porque, pouco a pouco, sinto que atenção das sombras ao meu redor perdem o interesse em Umbra e se voltam a mim, ao menos, posso deixar este aviso e chamar-lhe de tolo por ter adentrado esta floresta e encontrado este diário. A não ser que deseje ser alimento para os demônios:


SAIA DESTA FLORESTA!

Notas finais
NATIVITAS SIVÆ: FIM? Ainda não…
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!