ENTRE SOMBRAS E CÓDIGOS

7 Capítulo 7 – Ecos do Passado


A fuga da boate não foi esquecida.

Naquela mesma noite, em um escritório escuro cercado por luxo e brutalidade, o chefe do crime girava um copo de uísque na mão, os olhos fixos em uma tela que exibia imagens congeladas da operação.

Ali estava ela.

Clary.

— A garota é uma arma viva — murmurou — Cérebro afiado, reflexos rápidos… ela vale mais que qualquer diamante que já tive nas mãos.

Ele deu um sorriso torto, perigoso.

— Eu quero ela. Descubram tudo. Nome completo, histórico, rotina. Essa garota é minha agora.

Enquanto isso, em um apartamento discreto, Alex estava em pé diante de uma janela aberta, os punhos cerrados.

Nate jogou um envelope sobre a mesa.

— Informações frescas do meu contato. O bastardo não só te desafiou... Ele quer a Clary. E está disposto a cruzar qualquer linha pra isso.

Alex não respondeu. O ar ao redor dele parecia mais denso, mais escuro. Um silêncio pesado tomou conta do ambiente.

Billy olhou para o amigo.

— Alex?

Mas os olhos de Alex não eram mais os mesmos. Havia algo ali que Nate e Billy não viam há muito tempo.

Frio. Mortal. Preciso.

O lado que lhe dera o apelido de "Assassino".

— Ninguém... toca nela — disse ele, com voz baixa e cortante como uma lâmina.

Nate franziu a testa, preocupado.

— Você vai voltar a ser ele?

Alex respondeu sem hesitar, os olhos ainda na noite lá fora:

— Se for pra proteger a Clary... então sim.

**

Três meses.

Três meses desde que o esquadrão de elite foi anunciado. Três meses desde que o submundo começou a temer um nome que antes apenas sussurravam: Alex.

Agora, era diferente.

A unidade que ele formara era imbatível. Cada missão, cada operação, executada com perfeição cirúrgica. As informações vinham antes dos criminosos agirem. Era como se o esquadrão previsse o futuro.

E no centro de tudo isso… Clary.

A pequena hacker que antes andava encolhida entre pilhas de papéis agora caminhava com confiança. Seus olhos ainda carregavam traumas, mas seus passos tinham força. E, por alguma razão, ela começou a se arrumar mais. Um delineado suave, batom discreto… nada demais. Mas Alex notava.

Alex notava tudo.

E ele odiava notar os outros notando.

Naquela noite, estavam sozinhos na sala de planejamento. Alex analisava uma planta baixa enquanto Clary digitava algo no computador, com um coque bagunçado e uma blusa um pouco justa demais pro gosto dele — ou melhor, pro gosto dos outros.

— Sabe que hoje o estagiário do forense quase bateu a cara na porta quando me viu? — ela comentou casual, sem tirar os olhos da tela.

Alex nem se moveu.

— Ele devia prestar mais atenção por onde anda.

Clary sorriu de canto, a voz escorregando com doçura provocativa.

— Ou talvez seja culpa da minha saia nova...

Silêncio.

Alex levantou o olhar devagar. Clary mordeu o lábio, disfarçando a risada.

— Você tá gostando de provocar — ele murmurou, se aproximando com passos calmos, firmes.

— Eu? Imagina — disse ela, fingindo inocência.

Ele parou atrás dela, a mão pousando com leveza no encosto da cadeira.

— Esses caras... esses que te olham como se pudessem ter você... — ele sussurrou perto do ouvido dela, a voz rouca — Eles têm sorte de ainda estarem enxergando.

Clary engoliu seco, surpresa com a intensidade.

— Alex...

— Eu não divido — ele completou, firme, antes de se afastar como se nada tivesse acontecido, voltando à mesa com a mesma postura controlada de sempre.

Mas dentro dele, algo estava prestes a explodir.

E Clary... bem, ela não sabia ao certo se queria fugir ou provocar mais.

**

Clary fechou o arquivo com um clique seco, tentando ignorar a sensação estranha que sentia há dias.

Não era o frio do ar-condicionado.

Era aquela pressão nos ombros. Como se estivesse sendo observada.

Ela olhou discretamente pela janela do andar superior da unidade. Nada. Apenas o pátio, carros da polícia e a entrada principal. Tudo normal.

Mas mesmo assim…

Seus instintos gritavam.

E ela, acostumada a confiar neles, se pegava dizendo a si mesma:

“Você tá paranoica. Anda vendo coisa.”

Ela sacudiu a cabeça e forçou um sorriso. Ainda tinha relatórios pra terminar. E, honestamente, o almoço parecia uma boa ideia.

Do outro lado da base, Alex, Nate e Billy estavam em uma das mesas externas do refeitório, desfrutando um raro momento de calmaria e comida decente.

— Então, ouvi um dos novatos ontem falando da nossa hacker — comentou Billy, rindo. — O moleque tava quase escrevendo um poema sobre as pernas dela.

Alex parou de mastigar.

— Um poema? — a voz dele saiu baixa.

— É, tipo... “aquela calça preta, moldando como se tivesse sido costurada direto nela”— Nate disse, imitando o garoto, rindo alto.

Billy riu mais ainda, engasgando com o refrigerante.

— Mas o melhor foi quando outro respondeu: “Ela é pequena, mas certeza que tem dinamite ali.” — completou Nate, chorando de rir.

Alex fechou os olhos por um segundo. Respira.

— Eu juro que vou espetar um teclado na garganta desses moleques — murmurou ele, tenso.

E então ela apareceu.

Clary caminhava distraída com a bandeja nas mãos, vestindo uma simples camiseta e... a calça. Aquela maldita calça justa.

Alex a viu antes dos outros.

E ele sabia o que viria.

Os olhares começaram. Os cochichos. Um assovio baixo vindo da mesa do fundo.

Alex se levantou. Calmamente. Foi até ela.

— Oi, Alex — disse ela, sorrindo sem imaginar o caos à volta.

— Vem comigo. Agora — disse ele, pegando-a pela cintura e a carregando com facilidade nos braços, como se fosse a coisa mais natural do mundo.

Clary arregalou os olhos, a bandeja quase caindo.

— Mas o que você tá fazendo?! Eu nem comi ainda!

— Você vai comer longe daqueles idiotas — respondeu, sem olhar pra trás.

Nate e Billy gargalhavam, batendo palmas.

— Aaaaah, o cão ciumento ataca de novo! — gritou Nate.

— Isso é que é marcar território! — completou Billy, entre risos.

Clary, ainda nos braços de Alex, murmurou:

— Um dia eu vou te prender por sequestro, sabia?

— Você pode tentar — ele respondeu, com um sorriso perverso.

Mas seus olhos diziam outra coisa.

Ele não estava apenas com ciúmes.

Ele estava em alerta.

Algo dentro dele já sabia: o perigo estava mais perto do que imaginavam.