ENTRE SOMBRAS E CÓDIGOS

2 Capítulo 2 – A Escolha


Na manhã seguinte, a delegacia estava em movimento. A notícia se espalhara como pólvora: Alex Hunter não era só um observador. Ele era o novo comandante da unidade especial.

Joe não disfarçava a irritação.

Apesar do cargo de chefe administrativo, ele sabia que Alex tinha autonomia direta com a inteligência nacional. Seu poder vinha de cima. Acima dele. Acima de qualquer um naquela sala.

Na reunião geral, Alex entrou com a mesma calma fria de sempre. Vestia uma jaqueta tática escura, sem nenhum distintivo visível. Mas todos sabiam quem ele era agora.

Clary estava sentada ao fundo, como sempre. Sozinha. Em silêncio.

— A partir de hoje — Alex começou, sua voz preenchendo a sala —, esta unidade será reestruturada.

Sussurros começaram. Ele os ignorou.

— Estive observando. E tenho uma lista com os nomes que farão parte da nova força especial de combate a crimes de alta complexidade. Serão apenas cinco agentes. E eu não aceito contestação.

Os olhos se arregalaram.

Joe cruzou os braços, forçando um sorriso diplomático.

Alex abriu a pasta à sua frente e leu o primeiro nome.

— Clary.

Silêncio absoluto.

Por um instante, ninguém reagiu. Era como se o nome tivesse sido cuspido em uma língua estranha.

— Deve ter algum engano — Andrew murmurou, tentando rir. — Clary? Sério?

Rick riu alto. Daniel fez uma careta.

Joe, por outro lado, fechou o semblante.

— Comandante Hunter, com todo respeito — disse ele, tentando manter a compostura —, a agente Clary é... especialista técnica. Ela não tem perfil de campo.

Alex o encarou. Um olhar reto. Cortante.

— Não pedi sua opinião.

Joe travou a mandíbula. Clary observava tudo, imóvel.

— Clary é a única aqui que entendeu a estrutura lógica por trás da rede dos traficantes aéreos. Criou uma tecnologia funcional de bloqueio e rastreio. E... — ele pausou, virando-se diretamente para ela — é a única que consegue pensar fora da caixa quando todos os outros ainda estão presos em protocolos ultrapassados.

O silêncio era denso.

Alex voltou para a pasta.

— O segundo nome será anunciado amanhã. E quem tiver problemas com isso... pode pedir transferência.

Ele fechou a pasta com um leve estalo.

Antes de sair da sala, lançou um último olhar para Joe. Sem desafiar. Sem provocar. Apenas afirmando sua autoridade:

— E só pra deixar claro: essa unidade agora responde a mim.

Alex saiu. Os murmúrios voltaram. Olhares cortantes foram lançados para Clary. Mas ela estava em choque demais para reagir. Aquela foi a primeira vez que alguém, em voz alta, reconheceu seu valor diante do pai.

Joe se levantou abruptamente e deixou a sala sem dizer uma palavra.

Horas depois, Clary estava em um dos corredores menos movimentados da delegacia, com uma expressão difícil de decifrar. Quando Alex apareceu, ela se virou para ele.

— Por quê? — ela perguntou.

— Porque você é boa. — ele respondeu, simples.

— Isso vai me colocar na mira. Dos meus irmãos. Do meu pai. De todo mundo.

— Você já está na mira deles. A diferença é que agora você está armada.

Ela segurou o olhar dele.

— E você? Está armado?

Alex sorriu de lado, com aquela calma que escondia perigo.

— Sempre.

E então se afastou, deixando Clary com o coração dividido entre o medo, a fúria... e uma sensação estranha de segurança.


**


A manhã seguinte começou com um ar pesado. Clary sentia na pele o peso dos olhares desconfiados e das conversas sussurradas que paravam assim que ela passava. Andrew, Daniel e Rick estavam claramente incomodados com sua presença na equipe de elite — e fariam de tudo para desestabilizá-la.

Durante o briefing, enquanto Alex delineava a missão, os irmãos trocaram olhares cúmplices, prontos para agir.

Quando a operação começou, o plano deles era claro:

Deixar Clary para trás nos momentos críticos.

Mas Clary não era apenas uma hacker por trás de uma tela. Ela estava pronta para provar que seu poder ia muito além do teclado.

No campo, Alex acompanhava de perto a equipe. A missão era interceptar um carregamento de armas que passaria por uma rota pouco monitorada.

Em um momento crucial, enquanto os irmãos insistiam para que Clary ficasse fora da linha de fogo, ela avançou com rapidez surpreendente, aproveitando uma brecha.

Com passos leves, ela se posicionou atrás da linha inimiga, observando os guardas com calma cirúrgica.

Foi então que ela puxou uma pequena pistola escondida na bota — não era seu forte, mas tinha mira e agilidade.

Disparou dois tiros precisos, silenciosos, acertando os pontos vitais que derrubaram os inimigos sem alarde.

Alex viu tudo de longe e não conseguiu esconder a surpresa.

Ela não tinha a força física dos irmãos, nem o porte intimidador deles, mas sua rapidez e precisão eram mortais.

Depois da operação, enquanto a equipe voltava, alguns tentaram minimizá-la.

— Foi sorte — disse Daniel, tentando disfarçar o incômodo.

Alex se aproximou, voz baixa e firme:

— Sorte não derruba um homem treinado. Ela sabe exatamente onde atingir. E isso faz toda a diferença.

Clary olhou para ele, um pouco surpresa com o elogio.

Alex continuou:

— Nunca subestime quem tem a mente afiada e os reflexos rápidos. Força bruta é apenas uma parte da equação.

A equipe ficou em silêncio. A admiração velada era palpável.

Mais do que isso, era um aviso para quem ousasse subestimar Clary.

Alex voltou seu olhar para ela, algo ali começava a mudar.

Não era só respeito. Era admiração.

E talvez, no fundo, um instinto que não conseguia controlar.