ENTRE A CERCA E O CORAÇÃO
1 Todos têm algo a perder
Ela está na varanda olhando boletos.
Rosa entra.
— Você não dormiu de novo. — Ana continua olhando os papéis.
— Dormir não paga dívida.
— E ficar acordada resolve?
— Resolve mais do que fechar os olhos. — Rosa suspira.
— O banco ligou? — Ana fica em silêncio. O silêncio responde. Rosa engole seco.
— Tão ruim assim?
— Pior. — Ana aperta o papel.
— Se eu errar mais uma vez, acabou.
"Não posso perder essa fazenda. Não depois de tudo que meu pai sacrificou."
*******
Jornalistas cercam a saída. Flash. Perguntas. Gritos.
— Zé! É verdade que você vai cancelar a turnê?
— Zé! Fala com a gente! — Ele entra no carro. Bate a porta. Silêncio. Seu empresário, Diego, senta ao lado.
— Você precisa aparecer.
— Não.
— Você precisa se explicar.
— Não.
— Você precisa voltar a trabalhar.
— Principalmente não. — Diego passa a mão no rosto.
— Então o que você quer? — Zé olha pela janela. Pela primeira vez responde sem brincar.
— Sumir.
****
Augusto observa um mapa enorme. Seu advogado entra.
— A situação deles está piorando. — Augusto sorri.
— Quanto tempo?
— Alguns meses.
— Ótimo.
— E se ela conseguir dinheiro? — Augusto fecha a pasta.
— Não vai conseguir.
— Como tem tanta certeza?
— Porque orgulho sempre custa caro.
*****
Caio atende um cavalo. Outro veterinário comenta:
— Ouvi dizer que ela voltou. — Caio para. Mesmo tentando parecer indiferente.
— Quem?
— Ana. — O coração dele dispara. Mas sua expressão continua calma.
— Ah.
— Só isso?
— O que você quer que eu diga?
— Que ficou feliz. — Caio sorri de canto.
— Talvez eu tenha ficado.
*****
Velho. Sozinho. Folheando uma caixa antiga. Cartas. Documentos. Fotografias. Ele encontra uma foto antiga. Duas famílias sorrindo juntas. Castela. Monteiro. Antes da rivalidade. Ele treme.
— Então era verdade… — Seus olhos se enchem de preocupação.
— Eles precisam saber.
*****
Ana chega à fazenda. A noite caiu. Ela desce da caminhonete. Olha para as terras. Respira fundo. A propriedade parece enorme. Pesada. Como uma responsabilidade impossível. Luzes surgem ao longe. Uma caminhonete para no morro vizinho. É Augusto. Observando. Em silêncio. Com um sorriso. Ana não percebe.
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