EGREGORE
2 CAPÍTULO 2 - Eduardo
CAPÍTULO 2 — EDUARDO
São seis e meia da manhã de uma sexta-feira quente como nunca na Barra da Tijuca, Zona Oeste do Rio de Janeiro. O despertador do celular sinaliza em cima da cama que é chegada a hora de levantar, porém é rapidamente desativado por seu dono, que já está arrumado e terminando de pentear os cabelos. Na verdade ele já acordou, tomou banho, deu uma corrida pelo condomínio, colocou a comida dos gatos, fez algumas flexões, tomou café, viu as redes sociais, respondeu o flerte de uma mulher que mandou mensagem algumas semanas atrás e depois de inventar uma desculpa esfarrapada para reaparecer de forma nada pretensiosa numa sexta-feira, marcou um encontro para as nove da noite num barzinho perto da praia do Pepê, próximo ao seu apartamento, com todas as intenções malfadadas possíveis que isso possa acarretar.
Eduardo tem trinta e cinco anos e mora sozinho com seus dois gatos, Xirico e Xeroca, numa cobertura de luxo. Veio do interior de São Paulo para o Rio de Janeiro sozinho aos dezoito anos para estudar Administração na universidade federal enquanto trabalhava à noite num fast-food para pagar as contas e o aluguel de um apartamento que dividia com outros três amigos. Foi assim durante quase cinco anos, até conseguir se formar e ganhar uma promoção para gerente de um dos supermercados da rede Felicitá. A responsabilidade sempre foi atrás dele e este nunca arredou o pé. Desde criança já tinha que cuidar dos quatro irmãos mais novos enquanto a mãe fazia faxina pra fora e o pai trabalhava numa metalúrgica. Quando a responsabilidade de ser gerente geral de todos os supermercados da rede da região caiu em seu colo não foi nada inesperado. Na verdade ele já almejava isso e na certeza prévia dessa nova conquista já se preparava para os próximos objetivos. Ele sempre foi assim. Vive a vida com base em fatos, não admite atrasos e surpresas e um mundo perfeito é um mundo onde ele pode decidir tudo, se possível, decidir até às atitudes dos outros por eles, pois sendo muito analítico e perspicaz sempre sabe o que é melhor. Por isso sente-se realizado neste emprego. Pode controlar tudo.
Ele pega as chaves de seu carro, se despede de seus amigos de quatro patas, os quais ele considera seus únicos amigos de fato, pois não lhe exigem nada em troca além de comida e água, e vai até a garagem. Ao sair com o carro nota o céu cinza-escuro e pesado, não estava assim mais cedo quando ele saiu para correr. Eduardo para o carro e volta para casa, só para conferir se deixou alguma janela aberta, caso ocorra um temporal mais tarde. Não deixou. Tudo certo e conferido, dá um beijinho nos gatos dormindo e volta para o carro. Ele respira fundo, olha no espelho retrovisor e diz para seu reflexo:
—Você é foda! Você merece isso, cara! Parabéns, parabéns pela sua promoção! Parabéns... aff, que tosquice de merda.
Passa-se uns segundos encarando seus próprios olhos no espelho, como se procurasse congratulações de mais alguém ali, mas não tem nada, está sozinho.
—Bom, é hora de ir! Simbora trabalhar, cambada! Mais um dia abençoado! Diz novamente para ninguém, ou para si mesmo, enquanto liga o veículo.
O carro sai da garagem com o som ligado, música clássica, para acalmar, e dirige-se ao seu destino, seu primeiro dia como gerente geral da região.
—BOM DIA CAMPEÕES! HOJE É O MELHOR DIA DE NOSSAS VIDAS! — Esbravejou entusiasmado para o pequeno grupo que estava ao redor do caixa de dona Geralda.
—Bom dia... — Responderam os funcionários, com entusiasmo que dava gosto de ver. A vontade de não estar ali só não era maior do que o ranço de ver o rosto sorridente do gerente.
—Que isso, pessoal? Funcionári-- Colaboradores Felicitá tem que passar FELICIDADE para seus estimados clientes, então vamos ser felizes! Quero mais animação nesse "bom dia", vou repetir, hein:
—BOM DIA, EQUIPE FELICITÁ!
—BOM DIA! — Finalmente responderam em uníssono, na esperança de que isso fizesse o encosto sair logo dali.
—Aaaah, agora sim! Bem melhor! Vamos parar de conversa então, cada um pro seu setor que hoje a gente tem bastante trabalho, vou abrir as portas agora. – Concluiu numa súbita e assustadora mudança de expressão. Enquanto dirigia-se à frente da loja com a chave automática das portas na mão o grupo ali anteriormente se dissipava como poeira recém varrida, cada um dirigindo-se a seus postos, numa vã tentativa de postergar o máximo possível os minutos da labuta.
Eram oito e vinte e nove da manhã e tudo estava pronto, a grande porta de ferro se abriu permitindo que a luz do dia preenchesse o local e iluminasse o ambiente. O rosto de Eduardo amarelado pela luz da manhã encara com entusiasmo a brilhante Estrela subindo no céu. Começava mais um dia feliz no Supermercado Felicitá.
Fale com o autor