E se eu for o Próximo?

3 A Noite da Festa - Parte II


Notas iniciais
Olá, tudo bem? Primeiramente, me desculpem por o capítulo ter ficado tão longo, mas eu não poderia deixar de concluir esse trecho da história. Então, nesse capítulo temos a tão esperada festa, que resultará nos conflitos futuros do enredo. Espero que vocês gostem e boa leitura!

Me aproximei vagarosamente, ainda tentando entender o que acontecia, Ícaro sorria, mas eu sabia que nada de bom vinha daquele rapaz, ele puxou uma cadeira vazia ao lado do lugar em que estava sentado.

— Sente-se aqui – disse ele.

Não hesitei, soltei meu prato sobre a mesa e me sentei entre Ícaro e Valéria, de frente para Ferdinan e Caio, que não conseguia disfarçar seu sorriso sacana e fiquei em silêncio, esperando que eles pedissem algum favor ou algo parecido, até Valéria se pronunciar.

— Nós o convidamos para sentar aqui – iniciou ela – para que você não se sinta tão perdido na nossa festinha de hoje à noite. Porque sabemos o quanto isso é péssimo.

— Isso o que? – questionei.

— Não se enturmar, sabe? – ela bebericou do seu copo de suco – Porque, convenhamos, você não se encaixa em nossos perfis.

Valéria tentou forçar um sorriso acolhedor, enquanto eu arqueava uma sobrancelha para ela, não levando muito a sério o que a ruiva me dizia.

— O que ela quis dizer, é que você está começando a ficar popular – tentou consertar Mônica a gêmea dos olhos verdes – mas não se preocupe, você logo se acostuma com isso.

— Exatamente – concluiu Valéria, lançando um olhar de repreensão na direção de Mônica.

Permaneci em silencio a maior parte do tempo, ainda tentando absorver aquela ideia de popularidade, aquele grupo agia de forma diferente, falavam sobre economia, drogas e baladas, como se vivessem em um mundo paralelo ao meu, um mundo ao qual eu nunca fiz parte. Ser popular não era o meu forte. Mas, eu poderia me esforçar para agrada-los, qual o problema nisso?

Nenhum, exatamente.

Trocamos nossos números de celular, para que pudéssemos combinar melhor sobre a reunião daquela noite. E após terminar minha janta fui para trás do refeitório, onde todas as noites de quarta – feira eu trocava um dos meus Malboros por um Black mentolado de Cecília a cozinheira do turno da noite. Nessas quartas, eu e Ceci, como gosta de ser chamada, conversamos sobre assuntos diversos, enquanto fumamos nossos cigarros, mas principalmente sobre a vida fora da instituição. Ceci é uma boa ouvinte. Pena que nosso papo não costuma durar muito, porque o expediente dela termina logo após as vinte horas e trinta minutos.

Em seguida vou para a sala de jogos, que não possui muitos objetos de interação além de uma mesa de bilhar e outra de pebolim e na maioria das veze já estão ocupadas quando eu chego, mas não me importo, eu vou para lá para encontrar Fabiola, observar alguns rapazes bonitos, beber vinho contrabandeado e fumar.

— Nossa, achei que você não ia vir – afirmou Fabiola ao me avistar.

— Eu nunca falto aos nossos encontros – sorri para ela, enquanto ela servia um copo de vinho, escondida atrás de um balcão — Todos aqui sabem que nós bebemos – observei ao pegar o copo – não entendo porque você se esconde para servir.

— É pela adrenalina de saber que um dia posso ser dedurada – ela ergueu o copo em minha direção e fizemos um brinde – mas então, como foi seu jantar com a alta sociedade da ECPA?

— Foi estranho – respondi – eles são estranhos, eu não sei explicar.

— Interessante – comentou Fabiola sem mostrar muito interesse – da uma olhada ali pra trás.

Fiz o que Fabiola pediu e me deparei com Victor, uma paixão esquecida pelo tempo. Ele havia sofrido um acidente de carro a alguns meses e todos nós achávamos que ele havia abandonado a escola, mas pelo visto ele estava de volta. Nós havíamos ficado no início do ano, em uma data comemorativa da escola, mas depois disso ele evitou contato e dias depois sofreu o acidente.

— Ele chegou quando? – perguntei sem demonstrar muito interesse.

— Hoje à tarde – respondeu Fabiola – e ele já veio perguntar de você.

— Agora ele quer saber sobre mim?

— Ele sofreu um acidente.

— Não importa – respondi espontaneamente, sem conseguir filtrar as palavras – Ele parou de falar comigo antes disso e sem motivo algum.

— Porque você não conversa com ele? – persistiu Fabiola.

— Estou em outra agora.

— Ferdinan? – Fabiola soltou uma gargalhada, chamando a atenção de todos – você sabe que isso não vai dar certo.

— Você é uma paspalha, mesmo — bebi o restante do vinho no meu copo – vou para o meu quarto.

Dei as costas para Fabiola, sem me importar com o que ela diria em seguida, ignorei o olhar curioso de Victor também e segui para o dormitório masculino. Precisava espairecer, parecia que tudo estava acontecendo ao mesmo tempo, portas para o futuro se abrindo e o passado voltando com tudo, parecia que minha vida estava sendo narrada por uma Gossip Girl mequetrefe. Ao chegar em meu quarto encontrei Caio enrolado em sua toalha de banho, os outros garotos não estavam lá e o fato de ficar sozinho com ele fez meu coração disparar, ele era gostoso demais para evitar que isso acontecesse.

— E ai, H? – ele me cumprimentou, sem demonstrar vergonha alguma.

— Ah, oi – o cumprimentei de volta, tentando não fixar meu olhar nele – Não sabia que estava aqui.

— Bom, esse é meu quarto também – ele sorriu e tirou sua toalha.

Senti meu rosto esquentar instantaneamente ao me imaginar indo em sua direção, jogando-o sobre sua cama e experimentando seu beijo, sentindo seu corpo. Mas, tive que interromper meus pensamentos ao sentir o enrijecimento lá em baixo.

— Algum problema? – provocou ele.

Balancei a cabeça em negativa, obviamente não havia problema algum, eu adorava o fato de Caio ser um exibicionista e sabia que nada entre nós aconteceria e por fim, dei de ombros, andando em direção ao meu armário.

— Você vai esperar Fabiola comigo? – perguntei.

— Ela vai? – respondeu Caio com outra pergunta.

— Fabiola sempre vai.

— Então acho que não – respondeu ele secamente – ela sabe o caminho, levará você com segurança.

Concordei, abri meu armário e escolhi as roupas que usaria naquela ocasião, peguei minha toalha e produtos de higiene pessoal e fui para o banheiro, diferente de Caio, eu preferia me vestir com privacidade, dentro de algum box do banheiro. Acabei meu banho pouco antes do toque de recolher, me arrumei e fui para o quarto, fingir que estava dormindo enquanto os monitores faziam a vistoria noturna.

As vinte e três horas e trinta minutos Caio abriu a janela e desceu pela escadaria de incêndio. Quinze minutos depois levantei de minha cama e segui para a janela, a abri e olhei para fora procurando pela escadaria, apenas para constatar que ela estava a dois metros da minha janela e que eu teria de me esgueirar por uma estreita viga de concreto para chegar até ela. Ao chegar na escada já estava com os nervos a flor da pele e a desci rapidamente, enquanto meu corpo tremia de nervosismo.

Fabiola me esperava na lateral esquerda do bloco, então seguimos para o prédio abandonado, que ficava na extremidade esquerda do terreno da escola, levamos cerca de quinze minutos de caminhada para chegarmos no local. A construção antigamente funcionava como um matadouro, por esse motivo foi construída o mais longe possível dos prédios escolares, para evitar que o mau cheiro chegasse até lá. Mas, devido as novas normas sanitárias, o matadouro teve de ser fechado e consequentemente abandonado e hoje, mesmo decrepito, serve para a reunião dos alunos delatores de regras.

Ao nos aproximarmos pudemos ouvir a música que tocava lá dentro, não muito alta por motivos óbvios, era alguma banda de rock alternativo, o que me animou bastante, ao menos o som era bacana. Mas, se não fosse pela música, o local aparentava estar vazio, embriagado pela escuridão. Fabiola bateu três vezes na porta de metal e Ícaro nos atendeu e ao entrar, percorri o interior da construção com o meu olhar: na entrada temos uma sala longa e retangular, que antigamente funcionava como recepção, na parede esquerda temos uma escadaria, nada segura, que leva ao segundo andar, onde existem banheiros e salas de reunião, seguindo reto temos as salas de matança do matadouro, as quais todos tentam evitar.

Uma luz estroboscópica, pisca sem parar em um dos cantos da sala de entrada, o rádio portátil está sobre uma bancada velha, no centro da sala há uma mesa e alguns móveis velhos, como sofás e balcões e sobre eles estavam as gêmeas, dançando e sensualizando enquanto bebiam seus drinks de vodca e energético. Em outra bancada, mais afastada, estavam as bebidas, cigarros e até mesmo algumas drogas.

— Que bom que vieram – falou Ícaro ao nos cumprimentar – fiquem à vontade, vou falar para Ferdinan preparar uma bebida.

Ícaro se afastou antes que eu pudesse negar a bebida e Fabiola foi atrás de alguém para curtir a noite, sem se importar com o fato de que eu poderia me sentir desconfortável sozinho naquele lugar. Mesmo com a luz, a penumbra dominava o lugar, o que impedia que eu identificasse a maioria das pessoas que estavam ali. Enquanto eu procurava algum conhecido para me enturmar, notei uma máscara, com o formato de caveira de uma cabeça bovina, provavelmente feita por um aluno veterano, pendurada em uma parede próxima.

— Sinistra, não? – comentou Ferdinan ao aparecer de trás de mim com as bebidas.

— No mínimo – concluí.

Ferdinan ofereceu um copo para mim e por um breve momento pensei em recusar, mas de que adiantaria ir a uma festa e não me permitir experimentar coisas novas? Eu precisava me soltar caso quisesse ser convidado novamente.

— Achei que ia ser algo mais reservado – falei antes de beber um gole do drink, tentando não fazer uma careta por causa do gosto amargo – Caio falou que era para o pessoal de enfermagem e radiologia, mas tem muita gente de outros cursos.

— É, acabamos extrapolando – observou Ferdinan – mas o pessoal aqui é de confiança. Posso garantir que não seremos pegos, se é com isso que está preocupado.

— Não estou preocupado – ponderei por um instante – é que não estou acostumado.

— Não esquenta – Ferdinan colocou sua mão esquerda sobre meu ombro esquerdo – Pode ter certeza que sua noite vai ser inesquecível.

Ele deu uma piscadela em minha direção e eu senti meu corpo estremecer, será que ele estava me cantando mesmo? E u não saberia lidar com aquilo, não sóbrio. Então bebi o resto de meu copo e pedi que ele preparasse outra bebida, ele concordou e se afastou, dando brecha para que Fabiola viesse falar comigo.

— Agarra o boy – ela riu – não deixa ele escapar, sério. Esquece o que eu falei sobre o Victor, você merece experimentar algo novo e Caio comentou que o Ferdinan tem as mesmas intenções.

— Eu não sei – olhei em direção a Ferdinan, que ria junto de Valéria – ele me parece bastante hétero.

— Fachada, Hector. Vai por mim, ele quer você.

— Tudo bem, vamos fingir que eu acredito em suas palavras – ela riu outra vez, demonstrando estar levemente alterada – e quanto a Caio?

— O que tem ele? – questionou Fabiola, fingindo não ter interesse.

— Vai dar uma chance?

— Se ele for um bom galanteador, talvez – Fabiola fez um biquinho e sumiu na penumbra, deixando-me sozinho outra vez.

Mas, não demorou muito para Ferdinan aparecer.

— Vem – ele segurou minha mão – vamos lá com o pessoal.

Não hesitei em segui-lo e logo me vi rodeado de pessoas, que interagiam comigo e riam de minhas piadas, como se fossemos amigos de longa data e em meio as risadas, acabei perdendo a conta de quantos drinks bebi e quando percebi estava dançando junto a Monique sobre a mesa no centro da sala. Não me importei com o que os outros iriam pensar, eu só queria me divertir. Mas, com toda a empolgação, acabei errando o pé da mesa e despenquei. Tudo pareceu ficar em silêncio e quando a música voltou a tocar vi Ferdinan estendendo a mão em minha direção.

— Você está bem? – perguntou ele, enquanto as risadas do pessoal eram abafadas pelo som de Crown on the Ground.

— Estou sim.

Após me ajudar a levantar, Ferdinan continuou me segurando, com suas mãos apoiadas em minhas costas. Ele era mais alto, mais forte e seu corpo estava pressionado com força contra o meu, minhas mãos estavam apoiadas em seu feito firme, Ferdinan sussurrou algo que não compreendi, mas ao invés de pedir que ele repetisse, apenas fitei sua boca e desejei que ele me beijasse e como se estivesse lendo minha mente, ele realizou o meu desejo. Após o beijo Ferdinan me empurrou para trás, até que meu corpo fosse de encontro a parede e continuou a me beijar, sem se importar com os olhares alheios, enquanto suas mãos passeavam pelo meu corpo. Mas parou subitamente.

— Vamos com calma – disse ele ao se afastar – não quero perder a cabeça aqui.

Sorri e concordei. Ferdinan me abraçou e sussurrou “Muito obrigado” em meu ouvido, o que fez meu corpo ficar todo arrepiado. Ele mal sabia que quem agradecia era eu mesmo. Ao voltarmos para o grupo que estava bebendo, eu sentia receio de sofrer algum preconceito, mas Ferdinan segurava minha mão, ele estava seguro de si, porque eu não poderia estar também?

— Ao novo casal – Valéria ergueu seu copo propondo um brinde quando viu que estávamos nos aproximando.

Olhei em volta procurando por meus melhore amigos, mas não vi sinal deles, então decidi beber mais e conquistar os melhores amigos de Ferdinan também. Em algum momento da noite, alguém havia pego a máscara de caveira bovina e agora ela estava passando de rosto em rosto e todos pareciam se divertir. E Ferdinan decidiu colocá-la em minha cabeça, eu tentei evitar, mas ele foi mais rápido, a máscara servia perfeitamente, mas seu cheiro era terrível e aquilo fez com que eu ficasse zonzo.

Tirei a máscara e a devolvi para Ferdinan, levantei logo em seguida e fui em direção do corredor de abate, procurando por uma janela que pudesse ser aberta para que eu conseguisse respirar um ar mais fresco. Andei até a última divisória onde encontrei uma janela aberta, fui até ela e permaneci olhando para fora, tonto demais para voltar para a festa, não lembro quanto tempo permaneci lá. Mas, lembro de ter me assustado ao sentir alguém tocar meu ombro e ao me virar para trás vi um dos rapazes, sem camisa, usando a máscara de caveira. Eu reconhecia aquele peitoral, mas não reconhecia os olhos por trás da máscara, porém, não resisti quando ele veio em minha direção e me agarrou com força.

Notas finais
O que acharam? Vejo vocês nos comentários...