E se eu for o Próximo?
4 Ressaca
Notas iniciais
Acordei com uma forte dor de cabeça, com a garganta seca e um péssimo hálito. Levei um tempo para perceber que estava em outro quarto, deitado ao lado de um rapaz, mas quando consegui focar minha visão em seu rosto, reconheci Ferdinan, dormindo, aparentemente aliviado. Ergui o edredom que cobria nossos corpos, apenas para constatar que estávamos nus.
— Merda – sussurrei enquanto tentava levantar da cama, sem acordar Ferdinan.
Haviam apenas duas camas no quarto e um banheiro, frutos do dinheiro da família de Ícaro, que pode pagar por instalações melhores. Peguei minhas roupas que estavam espalhadas pelo chão e comecei a me vestir, fui para o banheiro e procurei por creme dental e encontrei, mas sem uma escova, eu teria de usar meus dedos para limpar meus dentes. Parei em frente ao espelho, com o intuito de dar uma checada no visual, mas para melhores resultados eu precisaria de um banho.
— Eles não vão se importar – falei comigo mesmo, antes de adentrar o box do chuveiro.
Após terminar o banho, sai do banheiro e me deparei com Ferdinan vestindo suas roupas.
— Você viu meu celular? – perguntei – estou atrasado pra aula de Estatística e vou bombar se continuar faltando.
— Não se preocupe, eu te empresto meu material, a matéria é a mesma nos dois cursos – Ferdinan andou até seu armário e pegou dos celulares, e me entregou o meu – E estivesse pensando de fazermos algo hoje.
— Isso inclui matar aula? – questionei, mesmo sabendo a resposta – Eu não posso, não quero perder a bolsa.
— Você não vai perder, confie em mim – Ferdinan se aproximou e me roubou um beijo.
— Tudo bem, vou mandar uma mensagem para Fabiola, pedindo que ela invente alguma desculpa para o Sr. Silva – digitei a mensagem em meu celular e enviei.
Ferdinan foi ao banheiro se aprontar, enquanto eu fiquei ponderando sobre minhas decisões.
— Então, qual seu plano? – perguntei quando ele retornou.
— Me acompanhe – Ferdinan estendeu a mão em minha direção.
Depois de pagarmos pelo silencio de um dos monitores, andamos até o limite territorial do campus, cruzamos uma cerca de arames farpados, adentrando o terreno de uma propriedade privada e seguimos por uma trilha, que beirava uma APP (área de preservação permanente) e paramos em frente a uma placa que nos proibia de seguir adiante. Mas, isso não pararia Ferdinan, afinal, era apenas uma placa.
— Nós podemos vir aqui? – perguntei, tentando não me mostrar inseguro.
— Não, mas quem irá nos impedir – Ferdinan segurou minha mão com mais força e me puxou para dentro da floresta.
Era bom estar em contato direto com a natureza, sentir o cheiro das flores, sem que estivesse em uma atividade extracurricular da escola, sem ter que me preocupar com nada, apenas sentir o verde das flores, o marrom dos caules, deixando que as cores tomassem conta dos meus sentidos.
— Onde você esteve ontem à noite? – questionou Ferdinan, me roubando do meu breve devaneio.
— Como?
— Você sumiu ontem, por uns quarenta minutos.
— Eu estava me sentindo mal por causa da bebida e fui pegar um ar – respondi da maneira mais verdadeira que eu podia.
— Nós encontramos você fora do matadouro, sozinho – informou Ferdinan – parecia bastante confuso. Então voltamos pro alojamento. Você não se lembra?
— Vagamente – menti, eu lembrava de mais detalhes além destes – E porque estávamos nus em sua cama?
— Caio também sumiu no meio da noite – a semente da dúvida começou a crescer em minha cabeça – E, você não encontrava as chaves do seu quarto, eu não poderia te deixar sozinho no corredor. Então, fomos para o meu quarto e tirei nossas roupas porque estavam sujas. Não se preocupe, não aconteceu nada.
— Ok, sem problemas – falei, no intuito de mascarar a vergonha e o alívio.
Ficamos em silencio por um momento e seguimos com nossa caminhada, enquanto flashes da noite anterior passavam pela minha mente, eu lembrava dos fatos, mas não tinha certeza com quem eles teriam acontecido. E, pelo visto, não tinha sido com Ferdinan que eu havia transado na noite anterior.
Meu celular vibrou, anunciando o recebimento de um sms e parei para lê-lo: “H, não estou na escola. Voltei pra casa mais cedo. Te conto tudo quando eu voltar. Beijos Fah”. Bom, provavelmente terei de lidar com as consequências mais tarde, mas agora, curtirei o momento. Desliguei meu celular e apressei meus passos para alcançar Ferdinan.
— Ouvi dizer que nadar ajuda a curar a ressaca – comentou Ferdinan ao nos deparamos com um lago no meio da floresta, cercado por um grumado, que parecia ter saído de alguma fabula infantil.
— Está tão evidente assim? – perguntei.
— É, você está um pouco abatido.
Ferdinan sorriu e correu em direção ao lago e eu o segui. Ele tirou sua bermuda e camisa, jogando-as no chão e entrou no lago sem pestanejar. Tirei minha camisa e bermuda, mas não entraria no lago com tanta intensidade, se o vento estava gelado, imagina a água do lago, coloquei primeiro o pé direito e sentiu minha perna esfriar, fazendo com que meu corpo ficasse todo arrepiado.
— Não consigo – gritei para Ferdinan que já estava no centro do lago – é muito frio!
— Não seja fresco – falou ele – Eu desafio você a vir aqui comigo!
— Droga – sussurrei, eu detesto ser desafiado.
Respirei fundo e adentrei o lago, mergulhando na primeira oportunidade para molhar todo o meu corpo. Conforme eu me aproximava de Ferdinan, ia me acostumando com a temperatura da água. Mergulhei outra vez e nada debaixo da água até chegar nele.
— Aqui estou – falei ao emergir.
— Ainda com frio? – questionou Ferdinan me envolvendo com seus braços – acho que posso resolver isso.
Nos beijamos e por um tempo pensei se tudo aquilo era real, estava acontecendo tão rápido e tudo foi tão inusitado, sentia como se não merecesse aquilo, aqueles momentos de amor. Então me afastei.
— Posso fazer uma pergunta? – questionei.
— Claro.
— Porque agora? – perguntei – Quero dizer, todos sabiam do meu interesse por você, porque demorou tanto para corresponder?
— Olha, Hector – a seriedade com que ele falava meu nome fazia meu coração acelerar – eu me assumi recentemente para os meus amigos, eu sei que pode parecer tarde, afinal, estou quase completando vinte e dois anos, mas sempre tive medo, não sabia como as pessoas poderiam reagir.
— Sei bem como é – comentei.
— Minha família sempre foi bastante rigorosa, eles nunca aceitariam. Mas aqui no campus, acabei encontrando um refúgio, fiz amizades sinceras e posso ser quem eu sou, eles me aceitam assim – ele fez uma pausa e me encarou – e agora, estou prestes a me formar e entrar na vida adulta. Quero viver tudo o que esse lugar me proporcionar.
— Então, eu sou apenas uma experiência de vida?
— Não, Hector – ele engoliu em seco – eu já te via com ostros olhos antes, mas agora, tão de perto, é diferente.
— Diferente como? – perguntei.
— Eu me sinto vivo – ele se aproximou – você desperta sentimentos que não sei explicar.
Não queria mais ouvi-lo falar, queria senti-lo, então o beijei outra vez e em seguida joguei água em seu rosto e ele riu, deixando o melodrama de lado, ficamos nos divertindo por alguns minutos, até a fome bater.
— Que tal escaparmos para o posto do outro lado da rodovia? – sugeriu Ferdinan – poderemos almoçar lá, o bufê é ótimo.
— Acho uma boa ideia – respondi, sem me importar com o fato de que poderíamos ser pegos lá.
— Então estamos combinados – concluiu ele – vou sentar um pouco ali no gramado e pegar um sol, me acompanha?
— Pode ir – falei – vou daqui a pouco.
Observei Ferdinan sentado no gramado, apenas de cueca, olhando para além do lago em que eu estava, ele parecia tão distante naquele momento, mas eu sabia que ele poderia estar suficientemente perto, se eu quisesse. Mergulhei uma última vez, na tentativa de desembaralhar meus pensamentos, fiquei debaixo da água o maior tempo que pude, assim ele ficaria preocupado e estaria olhando diretamente para mim quando eu emergisse.
Três, dois, um...
Emergi, ficando em pé, com a água batendo na altura dos meus ombros e lá estava Ferdinan olhando em minha direção, sorrindo, provavelmente aliviado por eu não ter me afogado. Comecei a andar em direção a margem do lago e conforme o nível de água abaixava, eu ficava mais excitado por saber o que estava por vir. E, talvez ao perceber minhas intenções, Ferdinan foi ficando cada vez mais sério, o que me deixava ainda mais interessado. Quando o nível de água chegou em minhas coxas eu já não podia esconder minha ereção e meu sorriso também se desfez, mas eu não estava ficando envergonhado, estava assumindo meu posto de predador.
Fora do lago, fiquei para em frente de Ferdinan, mas ainda longe dela, se ele quisesse fugir era esse o momento, então ele se levantou, mas permaneceu parado. Vagarosamente fui abaixando minha cueca, deixando que ela deslizasse por minhas pernas, expondo meu corpo por completo para Ferdinan. Ele sorriu e andou em minha direção, me segurou com força pelo quadril e me beijou. Retribui seu beijo e em seguida beijei seu queixo, desci beijando seu pescoço e lambi seu peitoral enquanto me colocava de joelhos na sua frente, minha língua passou por seu umbigo e parei quando cheguei em sua cueca. Ferdinan respirava ofegante, sua cueca preta ressaltava o volume de seu membro enrijecido. Mordi a parte superior de sua cueca e a puxei para baixo delicadamente.
— Tem certeza que é isso que você quer? – perguntou Ferdinan baixinho.
Dei um sorriso de canto, segurei seu pênis e passei minha língua desde sua base até sua glande e Ferdinan suspirou quando coloquei seu membro em minha boca. Meu corpo todo estava vibrando de excitação, assim como o membro dele, que pulsava a cada movimento da minha língua. Ferdinan colocou a mão em minha nuca, segurou meus cabelos e puxou minha cabeça para trás, para frente e manteve um ritmo, que fazia com que eu quisesse aquilo cada vez mais.
Mas, eu não queria ficar só no sexo oral, então me afastei e o puxei para perto de mim.
— Você tem camisinha? – falei em seu ouvido.
Senti Ferdinan balançar a cabeça em negativa e aquilo fez meu coração desacelerar, infelizmente não poderíamos seguir adiante sem proteção e ele teria que entender essa decisão. Me levantei devagar e o beijei.
— Vamos ter que continuar em outra ocasião, então.
— Droga – ele riu – Vamos nos vestir, se não sou capaz de perder a cabeça.
Vestir a bermuda com a cueca ainda molhada fazia com que eu me sentisse desconfortável, mas andar por aí sem cueca era ainda pior. Olhei para Ferdinan por um momento, ele estava contra o sol, então notei uma cicatriz próxima do seu umbigo, ela não era muito grande, mas parecia ser resultante de um ferimento grave.
— O que aconteceu? – perguntei apontando para a cicatriz.
— Não é nada – ele vestiu a camiseta rapidamente.
— Olha, se você não queria que eu visse, não deveria tirar a camisa perto de mim.
— Eu não tenho problema com ela, só não gosto de falar sobre ela.
— Ok, fica pra próxima então.
Ferdinan concordou e seguimos para o nosso almoço no posto de gasolina do outro lado da rodovia, a caminhada era um tanto cansativa, mas a comida superaria esse problema. Entramos no restaurante ao lado da sala de conveniências do posto e procuramos um lugar para nós sentarmos. O bufê ainda estava sendo servido e demoraria um pouco mais para o rodizio de churrasco começar, então ficamos conversando sobre nossas vidas e rindo de alguns acontecimentos inusitados.
— Preciso ir ao banheiro – disse Ferdinan – não fuja.
— Tudo bem, vai lá.
Fiquei sentado olhando para as pessoas que aos poucos lotavam o restaurante, então senti meu celular vibrar e o peguei em meu bolso. Era uma notificação de mensagem de uma rede social, enviada por Fabiola:
“Olá, H. Tudo bem?
Espero que não por muito tempo.
Que tal conferir esse link: sexo.no.matadouro.mp4 ”
Cliquei no link enviado por Fabiola, mesmo suspeitando que pudesse ser um vírus de rede, e fui direcionado para um site pornô, um vídeo, para ser mais específico. O vídeo iniciou sua reprodução automaticamente e rapidamente diminui o som do celular o máximo possível. No vídeo era possível ver um corredor mal iluminado e a pessoa que estava filmando seguia por ele, até entrar em uma sala e largar a câmera/celular sobre um contêiner velho. Nessa sala havia um rapaz apoiado em uma janela e outro, sem camisa e usando uma máscara de caveira bovina, entrou em cena, encostando no ombro do que estava na janela. E nesse momento eu me reconheci ali e sabia exatamente o que viria em seguida, fechei o vídeo.
Minhas mãos estavam tremendo, não podia acreditar que aquilo estivesse acontecendo, tentei manter a calma, mas era impossível. Porque Fabiola faria aquilo?
— Você está bem? – perguntou Ferdinan – Esta pálido.
Eu não conseguia responder, não sabia como reagir naquela situação, então ouvimos o celular de Ferdinan tilintar, anunciado que ele havia recebido uma mensagem.
— É a Fabiola – falou ele e eu senti meu mundo desabar.
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