E se eu for o Próximo?

6 Resquícios do Passado


Sexta – Feira

Fingi prestar atenção enquanto a professora falava alguma coisa sobre radiação durante a aula de Técnicas Radiológicas I, mas minha mente estava para além disso: eu só pensava em Ferdinan e em como tudo tinha dado certo e acabado tão rápido. Mas nada que eu pudesse fazer resolveria isso, não existia mais respeito entre nós, não depois da agressão.

Me vi levantando de minha classe, pegando meus materiais e saindo da sala de aula, ignorando os chamados de atenção da professora. Desde ontem também não acessava minhas redes sociais, mas de acordo com as notificações, não existia nada além de xingamentos por lá. Fui para o dormitório e no corredor ouvi um garoto falar o quão safado eu era e que ele tinha certeza de que eu havia aceitado gravar o vídeo e agora apenas me fazia de vítima. Mostrei o dedo do meio da minha mão esquerda para ele e entrei em meu quarto. Comecei a arrumar minha mala, queria levar tudo embora, não tinha planos de voltar, não me importava com o dinheiro pago pelas mensalidades, apenas não queria continuar naquele inferno. Talvez em casa, ou no trabalho eu conseguiria me dispersar um pouco. Esperei por Caio no quarto, ele me daria carona até a cidade, partiríamos após o almoço.

Não conversamos muito durante o trajeto, nós dois estávamos cansados por causa da semana de aulas e tudo o que tinha acontecido nele, Caio me deixou na casa de meus pais e foi embora. Me buscaria novamente na segunda de manhã. Como de costume, ninguém estava em casa, então decidi lavar minhas roupas e organizar meu quarto. Enviei uma mensagem de texto para meu chefe, pedindo a confirmação de onde seria o evento daquela noite, mas não obtive respostas, ele deveria estar ocupado. Deitei em minha cama e cochilei. Ao acordar notei que haviam três chamadas perdidas de meu chefe e retornei à ligação, apenas para receber a notícia de que ele estava me demitindo, não havia lugar para uma pessoa com a conduta indevida, como a minha, em sua primorosa equipe de bartenders. Pelo visto, meu vídeo pornô não tinha o agradado.

Fui para a cozinha e preparei alguma coisa para comer e escolhi uma boa garrafa de whisky do meu pai para me acompanhar. Uma garrafa e algumas horas depois minha mãe chegou em casa, com a aparência cansada devido a um dia puxado no trabalho de enfermeira em um posto de saúde do bairro.

— Precisamos conversar – disse ela assim que entrou em casa e me viu sentado no sofá, bêbado.

— Fique à vontade para começar – falei, tropeçando sobre as palavras.

— Vamos esperar seu pai chegar – ela forçou um sorriso e seguiu para seu quarto.

Ao que tudo indicava, eles não estavam muito satisfeitos de ter seu filho em casa, como nunca estiveram. Sempre que podiam me afastavam dos eventos sociais em família e até mesmo deles, ter um homossexual no grupo familiar era sinônimo de vergonha. Eu não os culpava, também tinha vergonha de tê-los como pais. Eu já sabia o que estava por vir, então fui para o meu quarto e arrumei as malas novamente, queria sair de casa antes que meu pai chegasse, mas não fui rápido o suficiente.

— Onde ele está? – gritou meu pai ao abrir a porta.

Ele estava com aquele tom de voz arrogante, de quem se acha o dono da verdade.

— Aqui! – falei ao sair do meu quarto, aparecendo no corredor.

— Como ousa aparecer aqui? – meu pai soltou um risinho de decepção.

Ele andou em minha direção, com seu celular em uma das mãos, enquanto minha mãe permanecia sentada em uma cadeira na cozinha, fingindo que a história não tinha nada a ver com ela.

— Que porcaria é essa? – meu pai me agarrou pelos cabelos e colocou seu celular na minha frente, dando play no vídeo – onde foi que eu errei? Eu não criei você para ser uma bichinha.

Ele me soltou e me empurrou para trás.

Fiquei em silêncio, não imaginava que ele reagiria de forma tão abrupta e olhei para minha mãe, esperando algum consolo de sua parte.

— Nós decidimos – iniciou ela – que você precisa sair dessa casa.

— Vocês decidiram, ou ele decidiu? – perguntei, tentando não perder o controle – Já era de se esperar, você aceita tudo que vem dele mesmo, até mesmo as prostitutas que ele come.

Notei os olhos da minha mãe se arregalarem, mas todos sabíamos que nada do que estava acontecendo ali era novidade.

— Eu deveria quebrar a sua cara – esbravejou meu pai.

— E porque não faz? – desafiei – ou será que tem medo que eu conte por aí que você anda com jovens menores de idade? Você sabe que isso é crime, não sabe?

Meu pai afastou-se e se escorou na mesa, levando sua mão ao coração, à beira de um ataque iminente. Mesmo que eu soubesse, a muito tempo, das tentativas de abuso sexual, que muitas amigas minhas haviam sofrido nas mãos do meu pai, eu nunca tinha falado sobre aquilo, eu tinha medo. Medo de expor minhas amigas, de expor meus pais. E sempre guardei como um segredo, que me corroía aos poucos, mas que agora, precisava ser libertado.

— Olhe o que você fez com o seu pai! – disse minha mãe ao acudi-lo.

— Nada que ele já não tenha feito pior.

— Chame ajuda – pediu ela.

— Ele não precisa – me aproximei vagarosamente dele – Só está tentando desviar o foco do assunto.

Me abaixei ao lado do meu pai e enfiei minha mão no bolso de sua calça, pegando sua carteira.

— Vou precisar de dinheiro – peguei as cédulas de sua carteira – Acho que é o suficiente.

— Seu ladrãozinho – sussurrou meu pai, enquanto ainda fingia estar passando mal.

— Seu pedófilo – respondi e segui em direção a porta, com minha mala em mãos – podem esperar a visita de algum policial nesse fim de semana – avisei antes de sair da casa.

Respirei fundo assim que a porta se fechou atrás de mim. Eu não tinha como provar nada do que eu sabia sobre o meu pai, mas falar aquelas verdades na frente da minha mãe, fez com que eu me sentisse muito mais livre. Minhas amigas nunca quiseram confronta-lo, ou denuncia-lo, sempre diziam que era normal que homens fizessem aquilo, ele nunca tinha ido “longe demais” e eu, como o bom filho que tentava ser, sempre fiquei em silencio.

Andei sem destino pela cidade, pensando no que poderia fazer e para onde poderia ir. Sem casa e sem emprego, não me restavam muitas opções. Os cem reais que eu recebia por noite em que trabalhava como garçom, sempre me foram úteis durante as semanas na escola, mas sem o emprego tudo ficava apertado e a única solução era continuar estudando, afinal, minhas mensalidades estavam pagas.

Senti meu celular vibrar em meu bolso e o peguei, era uma mensagem de texto de Victor: “NÃO ACREDITO QUE VOCÊ ESQUECEU!”. Tentei buscar na memória o que eu poderia ter esquecido e quase comecei a chorar ao me lembrar. Nem eu mesmo acreditava que havia esquecido aquilo, eu não poderia. Fiz sinal para um táxi que passava e o carro parou.

— Para onde? – questionou o taxista, assim que entrei no carro.

— Cemitério Colina Celeste – respondi, procurando por dinheiro em meus bolsos.

A corrida não foi cara e o taxista me deixou em frente aos portões velhos e enferrujados do cemitério, sem fazer qualquer pergunta, ou estranhar o fato de que eu queria visitar aquele local naquele horário. Uma névoa densa pairava sobre o local e a noite estava mais fria do que de costume, empurrei o portão, que rangeu como em um filme de terror e usei a lanterna do celular para me guiar no labirinto de túmulos. Eu sabia o local de cor, ia ali todos os meses, no dia treze de cada mês, as vinte e uma horas e hoje fazia exatamente um ano que minha melhor amiga, Beatriz, tinha se suicidado.

Acendi um cigarro pouco antes de encontrar Victor, sentado sobre o túmulo de Beatriz, segurando um buquê de margaridas, as flores preferidas dela. Ele estava chorando e aparentemente nervoso. Éramos amigos de infância, mas depois da morte de Beatriz, acabamos nos afastando e nos reencontrando novamente na escola, onde tivemos um relacionamento, breve, que não acabou de uma boa forma e nos afastamos novamente.

— Como você está? – perguntou ele ao me ver.

— Não muito bem e você? – questionei, sem me aproximar, evitando que ele pudesse me dar um abraço.

— Deveria? – Victor abaixou a cabeça – ainda não consigo acreditar que ela morreu – ele apontou para a lápide dela.

Na lápide havia uma foto colorida de Beatriz, loira e sorridente, junto de sua data de nascimento: 07/03/1998 e de seu falecimento: 13/08/2015. Faltavam letras em seu nome, Betiz heci, que haviam caído devido ao tempo e que seus pais nunca se prestaram para arrumar.

— É Beatriz Chechi – resmungou Victor enquanto preenchia as letras que faltavam com um canetão – Bem melhor agora.

— Fabiola não deveria estar aqui também? – questionei, sem querer saber a resposta.

— Deveria, mas depois do que ela fez com você – Victor fez uma pausa – acho que não vai dar as caras.

— Espero que não mesmo.

Ficamos em silêncio por um momento e dei uma volta no tumulo, para acender uma vela atrás do anjo de mármore e notei um envelope preso em uma das mãos da estátua.

— Ei – chamei Victor – acho que mais alguém esteve aqui.

Apontei para o envelope e Victor o pegou.

— Será que é de Fabiola? – questionou ele.

— Abra e descubra.

Percorri a lanterna a nossa voltada, na medida que eu sentia que o clima ficava mais denso e Victor abria um envelope.

— Acho que é o bilhete de suicídio dela – observou ele, segurando uma folha de papel amassada.

— Como assim? – perguntei – ninguém encontrou um.

Victor me entregou o papel e as letras que haviam nele, eram idênticas as de Beatriz, perfeitas e alongadas, a única diferença é que haviam perdido o traço leve e pareciam ter sido escritas às pressas, como ela costumava fazer quando estava sem paciência. E no bilhete constava:

“Eu me sinto suja! Eles precisam pagar.”

Beatriz sempre fora uma jovem divertida e adorada por todos, sempre estava disposta a ajudar, colocando os outros em primeiro lugar, era uma excelente amiga e não demonstrava nenhum sinal de depressão, ou qualquer outro problema que poderia a levar ao suicídio, mas depois da minha festa de aniversário de dezoito anos, ela se afastou de todos, sem dar nenhuma explicação e meses depois tirou a própria vida, enforcando-se com uma corda velha no celeiro da fazenda de seus avós.

— Tem mais – Victor me entregou outro papel.

Era uma foto e nela estávamos eu, Beatriz, Fabiola e Victor, com uma roda gigante de plano de fundo, eu me lembrava daquele dia, ele tinha sido divertido, tínhamos por volta de quinze anos e não pensávamos nas consequências da vida. Seria uma foto perfeita, se o rosto de Fabiola não estivesse todo riscado, como se a foto tivesse sido arranhada a faca.

— Olha no verso – orientou Victor, demonstrando insegurança em sua voz.

Virei a foto e no verso estava escrito, com um material em tom vermelho: “VOCÊS VÃO PAGAR!”.

— Isso é sangue? – questionei ao passar meus dedos na escrita.

— Eu não sei – respondeu Victor.

Senti um calafrio percorrer minha nuca e olhei para trás instintivamente, e observei uma pessoa, parada ao longe, vestida de preto, usando a máscara de caveira bovina e acenando com um machado em nossa direção, enquanto andava de costas para trás, desaparecendo na escuridão do cemitério.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.