E se eu for o Próximo?
5 As Primeiras Consequências
As Primeiras Consequências
Não esperei para ver qual seria a reação de Ferdinan, eu não queria saber. Não queria vê-lo ficar chateado, bravo e muito menos triste. Então, me levantei e saí do restaurante, ignorando o que ele dizia atrás de mim. Corri pela beirada da autoestrada e segui de volta para a escola pelo mesmo trajeto que eu tinha saído dela, continuei correndo, sem olhar para trás, sem pensar no que estava acontecendo, talvez se eu chegasse em meu quarto, tudo voltasse ao normal.
Faltavam quinze minutos até o início das aulas do turno da tarde, troquei de roupa, peguei meus materiais e fui para os complexos estudantis, tentando evitar ao máximo o contato com outras pessoas, não sabia até que ponto havia ido a brincadeira de Fabiola. Acendi um cigarro e segui meu caminho de cabeça baixa, até o bloco de enfermagem e radiologia, e cada vez que eu chegava mais perto, pude ouvir as risadas, piadas e os xingamentos. Todos pareciam já estar sabendo do vídeo.
Entrei no prédio e tentei andar pelo corredor até minha sala, mas ao passar por um dos veteranos do meu curso, o rapaz derrubou meus livros no chão e sussurrou em meu ouvido: “bichinha”. Uma garota perguntou se eu achava que a escola era um motel, enquanto seu namorado perguntava quanto eu cobrava por um boquete. Todos estavam rindo e em nenhum rosto que eu olhasse, conseguia encontrar solidariedade. Ninguém aparentava querer me ajudar, todos seguiam uma onda, que crescia como um tsunami e logo acabaria me atingindo em cheio.
Sai do bloco e lá fora no pátio acabei esbarrando em Ferdinan, olhei diretamente em seus olhos, que apenas demonstravam ressentimento. Ele se afastou e resmungou alguma coisa, tentei seguir para o lado contrário ao dele, mas ele segurou meu braço, seus olhos agora estavam marejados.
— Achei que você sentisse algo por mim – ele falou baixo.
— Eu sinto – respondi.
— Não – ele apertou meu braço com mais força – você não passa de um putinho oportunista.
— Achei que era você – falei, tentando controlar minha voz – eu juro.
Aos poucos as pessoas começaram a se amontoar em nossa volta, prestando atenção na discussão que viria a seguir.
— Vai dizer que você não notou isso! – Ferdinan ergueu sua camisa e apontou para a cicatriz em sua barriga – vai dizer que ele tinha uma dessas também?
— Não – respondi em voz baixa.
— O que? – perguntou Ferdinan – não consegui escutar, parece que tem algo em sua boca, talvez um pau.
As pessoas ao nosso redor riram e aquilo fez meu sangue correr frio, a cada minuto eu me sentia mais humilhado.
— Não me lembro – gritei – eu estava bêbado.
— Não coloque a culpa por seus erros na bebida – Ferdinan soltou uma risada sarcástica – você é um viadinho.
— Não entendo, você queria que eu fizesse o que? Ficasse esperando que o soberano aí, tomasse alguma atitude? – questionei, sem pensar com clareza em minhas palavras – eu esperei, mas você demorou demais – engoli a vontade de chorar – e não sei se você se lembra, mas você é tão viado quanto eu.
Mesmo que eu achasse aqueles termos terríveis, não podia evitar que Ferdinan experimentasse do próprio veneno.
— Aliás – continuei – você só queria uma experiência e não um relacionamento.
— Você não sabe nada sobre relacionamentos.
— E você não sabe nada sobre a vida – gritei – Você é só um frouxo, que ganha tudo dos seus pais ridículos.
Vários alunos seguravam celulares a nossa volta e depois que eu parei de falar, Ferdinan avançou em minha direção, com o punho do braço direito cerrado e só tive tempo de fechar meus olhos e sentir seu golpe acertar meu rosto, cambaleei para trás e sem apoio acabei caindo de costas ao chão.
— Nunca mais – Ferdinan fez uma pausa para respirar – Fale da minha família novamente.
Rapidamente alguns professores apareceram e apartaram a briga e em seguida fui encaminhado para a direção, pelo visto o meu vídeo havia viralizado rapidamente. O diretor me informou que estavam tentando fazer de tudo para tirar o vídeo do ar, mas não era uma situação fácil, já que o mesmo havia sido enviado para inúmeras pessoas e não era possível saber o alcance da situação.
— E você teve alguma notícia de Fabiola? – perguntou o Sr. Hoobs, o diretor – sabemos que foi ela que deu o pontapé inicial.
— Ela me mandou uma mensagem mais cedo, dizendo que ia para a casa dos pais – informei – e horas depois me mandou um link com o vídeo.
— Nós notamos a ausência dela e depois do ocorrido tentamos contato com sua família, mas eles disseram que ela não havia retornado – o diretor fez uma pausa – se você tiver contato com ela novamente, aja de forma racional, não tente confronta-la, ainda não sabemos o que a motivou a fazer isso.
Concordei com o Sr. Hoobs e ele me liberou do restante das aulas da semana, mas eu não tinha como voltar para minha casa se não fosse na sexta-feira, então fiquei e lidei com as consequências, da melhor forma que pude. Fiquei a tarde toda em meu dormitório, evitando todos que eu pudesse, até mesmo Caio, o único que tentou me ajudar, mas algo em meu subconsciente indicava que ele também estava envolvido.
O sinal da janta soou como de costume e esperei alguns minutos para ir até o refeitório e quando o adentrei, todos voltaram suas atenções em minha direção, tentei manter o controle, mas novamente as risadas e o deboche me atingiram, assim como um copo plástico, cheio de suco, jogado por alguém. Senti minha camisa umedecer e meu sangue ferveu instantaneamente, olhei na direção de onde o copo veio e vi a turminha popular rindo.
— Sorria para a cama, bicha – disse Valéria, segurando seu celular com a câmera virada em minha direção.
Fui cegado pela raiva e andei em direção aquela mesa.
— Decidiu virar homem agora? – zombou Ícaro.
Todos riram e num impulso rápido arranquei o celular das mãos de Valéria e o joguei contra o chão, sem me importar com o que resultaria daquilo.
— Você vai pagar caro por isso – resmungou Valéria.
Bati com minhas duas mãos sobre a mesa, fazendo com que uma das gêmeas se assustasse e soltasse um gritinho, todos ficaram quietos em seguida.
— Não, querida – sussurrei – Você é quem vai!
Deslizei meu braço sobre a mesa, derrubando os pratos de comida e o que mais estivesse sobre ela e os insultos logo recomeçaram, dei as costas para o grupo e saí do refeitório. Andei no escuro até chegar ao ipê próximo ao campo de futebol, sentei sob a árvore, acendi um cigarro e desabei, ali era o único lugar que eu me sentia seguro para chorar.
Poucos minutos depois ouvi passos se aproximarem e olhei na direção do som, eram Caio e Matias.
— Sabia que você estaria aqui – disse Caio – está tudo bem?
— O que você acha? – olhei para ele, sem tentar evitar um olhar de reprovação.
Eles sentaram ao meu lado e Caio me deu um abraço solidário.
— Consegui tirar o vídeo da rede – informou Matias – Mas é quase impossível apaga-lo.
— Pois é, uma vez na nuvem, sempre na nuvem – falei – Obrigado! – forcei o melhor sorriso que consegui.
— Agora estamos tentando contato com Fabiola, mas ela sumiu – observou Caio.
— Eu percebi.
— Ela só vai aparecer depois que a poeira abaixar, ela não é boba – concluiu Matias.
— Só é uma otária – zombou Caio e nós rimos.
— Espera aí, você não estava com ela ontem? – perguntei a Caio.
— Sim – ele fez uma pausa, tentando se lembrar do que havia acontecido na noite anterior – estávamos no maior amaço, daí ela recebeu uma mensagem, ou sei lá, e saiu apressada. Não sei para onde ela foi.
Concordei e ficamos em silencio por um momento, até Matias se pronunciar.
— Olha, Hector – disse ele – sei que você passou por uma situação bem difícil, mas você não consegue se lembrar de quem estava com você naquela hora?
— Não, bebi muito ontem, eu lembro do corpo, mas ele estava usando uma máscara, eu só o reconheceria caso visse todos os rapazes nus.
— O que não seria problema pra você – comentou Caio ao cutucar meu ombro.
Nós rimos e por um momento parecia que meus problemas não existiam, mas logo minha ficha cairia e eu teria de enfrentar a vida como de fato ela é.
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