E se Fosse Você?

1 Carona a gente pega e não escolhe aonde vai parar


Notas iniciais
[Carona- Cidadão Quem]

Sophie.

Um vestido longo, com o mínimo de pedras bordadas mesmo sendo preparado para uma noite de tantos holofotes. Mais um dos sapatos em que deformaram os seus pés. O cabelo arrumado de uma forma senil, antiquado para alguém tão jovem. A face estava maquiada condizentemente, por mais desnecessária que fosse.

Olhos verdes dissimulados iguais aos de Capitu, com cílios enormes que lhe dão ar de uma boneca de luxo, com a boca bem desenhada. As características doces se repeliam com o contraste de um grande decote nas costas. Inocência e sensualidade envolta num corpo. Senhores com idade para serem avós se aproximavam tentando despertar algum interesse na jovem. Dezessete anos em sua alma, não espera se casar com um daqueles calvos que precisam pagar por companhias em seus iates.

Sua tia está indo embora e ela acha uma boa oportunidade para ir pra casa com uma carona.

Deep

Roupas negras iguais a de um dia de luto. Um corpo sujo, uma alma imunda. O nariz já deformado por tanto cheirar. Cheirar flores? Bom se fosse. Um passado desconhecido e uma vida falsa. Olhos negros que se confundem com a própria pupila assemelhando as jabuticabas. Um sorriso bonito mesmo perdido entre dentes amarelados pelo antigo vício.

O celular tocou e ele fingiu que não ouviu. Dezenove anos nunca aproveitados. A reviravolta feita naquele cabelo castanho claro o transformam em um ser bonito , o piercing no canto direito do lábio o deixa sexy. As tatuagens ocupam seu corpo de um jeito exagerado, o marginalizando.

Alguns amigos estão indo para o outro lado da cidade e ele aproveita para pegar uma carona, já está na hora de passar em casa, se é que ainda sabe em que lugar está. Marina

Dez horas no MSN messenger conversando com um pessoa que nunca conheceu pessoalmente. Olha para o lado e vê um grande pôster de um ídolo da adolescência, típico boy band colado na porta do quarto. Pensa em desligar o computador e ler um livro, talvez Álvarez de Azevedo ou Stephen King . Quase saindo de frente do computador alguém inicia uma conversa.

O telefone toca e ela sai por um momento para atender. A webcam está disponível e o alguém a observa atendendo ao telefone, uma hello kitty pintada de preto o enfeita. O cabelo cacheado com algumas mechas vermelhas. Ela volta e senta, se aproxima do espelho e depois volta a olhar a tela. Ele se aproxima da imagem dela numa tentativa boba de vê-la melhor, mas ele só pode perceber como os olhos dela são verdes.
Um amigo começa a buzinar até tirá-la de casa e lhe dar uma carona a uma festa. Fellip

Acabara de chegar da praia e não sabe o que fazer em casa. Tira uma cerveja da geladeira e coloca um pacote de pipoca no microondas. Pensou em tomar banho, mas resolveu olhar se alguém havia lhe deixado algum recado na rede de relacionamentos, orkut. Um recado de uma garota elogiando o seu cachorro. Riu por lembrar da velha historia de levar o cachorro para a praia e distribuir o telefone.

Fellip não precisa de um cachorro bonito para chamar a atenção. Loiro de olhos verdes do estilo sou o príncipe encantado que você e sua mãe esperam, e seu pai odeia. Sabe quais palavras são certas nas horas certas.

Vive sozinho e não precisa se explicar. Com tantos amigos arranja caronas para qualquer lugar que vá.