E se Fosse Você?

3 “Minhas lágrimas não caem mais,eu já me transformei em pó.E os meu gritos não se escutam mais, estão na direção do Sol”


Notas iniciais
[Ao Fim de Tudo-Cidadão Quem]
“Passageiros do vôo, um sete oito três, com destino a Austrália, favor se apresentarem no portão de embarque. Crianças, idosos e deficientes físicos fiquem no começo da fila. Obrigada!”

Uma voz bonita anunciou a partida de seus vôos. O que provocou uma discussão rápida com os seus destinos iria ou não neste avião. Será que teria alguém os esperando quando chegassem? Aquilo tudo poderia ser um golpe.

Sophie encontrou uma tia que iria viajar na fila dos passageiros daquele vôo. Pensou em ir junto, mas a tia só iria ficar três dias lá e voltaria. A tal mulher conseguia ser mais perua que a sobrinha. Com um terno rosa bem justo, uma calça branca e um salto que poderia ser usado como agulha. As duas se despediram e a garota voltou sorrindo de certa forma que a deixava ainda mais bonita.

Os passageiros entraram no avião, com exceção dos quatro. Resolveram esperar pelos dois que sumiram, para obterem alguma informação.

Quando o avião decolou se explodiu no ar! Sophie olhou estática para a grande mancha no céu. Os três se entreolharam pensando que podiam estar naquele avião. Sophie abraçou Deep que estava no seu lado. Abraçou com muita força e chorou. Soluçou feito uma criança o que era capaz de comover a pessoa mais sem coração daquele lugar..

- Minha tiaaa! – Berrou. Sua coriza ela tentava conter com a manga da blusa. -Nãaaaao! – Seu peito parecia estar se contraindo, como se fosse explodir. – Não. –Olhou para o Deep. – Por quê? – O abraçou novamente.

Deep não sabia o que tinha de fazer. Sempre tentando se mostrar mais forte do que era. Com aquela garota nos braços ele não conseguia lhe ajudar, apenas a abraçava. Sentia que ela precisava daquilo. A dor de ter perdido o avô ainda não havia sido superada. Uma lágrima saiu de seus olhos avermelhados. Rapidamente levou a mão até o rosto para secá-la, não queria se inferiorizar na frente dos outros, por mais que isso não fosse acontecer.

Marina e Fellip estavam chocados com tudo aquilo. As equipes médicas chegando ao local do acidente. Pessoas chorando no aeroporto. Os dois ficaram sentados observando tudo o que acontecia, talvez eles sentissem mal por não conseguirem chorar com algo que não era com eles.

Sophie e Deep ainda abraçados como se fossem irmãos. Ele estava tremendo de nervosismo ela não queria soltar ele como se sentisse protegida de tudo que estava acontecendo e poderia acontecer.

A imprensa começou a chegar ali. Quando olharam o sofrimento de Sophie logo deduziram que ela podia ter alguém conhecido lá dentro. Se não tivesse, aquele rosto bonito e triste, lhe renderiam vários jornais vendidos.

A desgraça alheia é sempre atrativa para os olhos de quase todos. Como se fosse uma vitória de seu time na capa do jornal. Poderia ser assim que certas pessoas pensassem. Talvez como uma notícia para compartilhar pelo resto da semana e se possível chorarem com ela para demonstrarem como são bons cidadãos.

A câmera já estava filmando Sophie sem ela nem ter dado permissão.

- Você e seu irmão perderão o pai? – Um repórter perguntava enquanto jogava o microfone perto da boca de Sophie.

- Eu não estou bem. – Disse pra Deep enquanto se escondia por trás de seu peito.

- Ela não quer falar! Dá para ter respeito! – Com um tom estúpido o empurrou.

- Olhem, só. O casal está comovido. Como é triste este acontecido. – Um semblante triste para a câmera como se realmente estivesse sofrendo. – Eles perderam os pais e agora não conseguem dar uma entrevista.

Uma mentira poderia vender a notícia. Largou os dois para filmar uma mãe desesperada que havia perdido dois filhos. Isto poderia comover quem estivesse vendo, mas era uma falta de respeito. Será que não se pode sofrer sem interrupções. A dor de uma perda de um filho não deveria ser uma manchete nacional.

Marina falou para os outros três que talvez fosse melhor eles irem para o térreo. Em pouco tempo a imprensa encheria o lugar, o que não seria nada bom pra Sophie.

Enquanto desciam um homem vestido com uma camisa da rádio os encontrou desesperado. Sua camisa era muito diferente da qual o casal tinha.

- Como vocês chegaram aqui? Eu vi a Sophie pela televisão, que loucura!

Um homem bonito poderia até ser um modelo. Os levou para um canto da parte externa do aeroporto.

- Como chegaram aqui? – Ele parecia não saber como haviam chegado. Se soubesse era o melhor ator que eu poderia ter conhecido.

- Um casal nos trouxe lá do hotel. – Marina respondeu percebendo que ninguém ali faria.

- Eu estava procurando vocês até agora. Casal? Como eles eram?

- Os dois vestiam umas roupas feias e eram baixinhos e gordinhos.

- Não existe ninguém assim na rádio.

Os quatro ficaram em duvida se ficavam felizes ou tristes por terem sido enganados.

- O nosso vôo. – Olhou em seu relógio. – Deve sair em três horas.

- Acabou de acontecer um acidente, os vôos vão atrasar! Olhe o estado dela! – Marina apontou para Sophie, a qual estava sentada ao lado de Deep.

- Nós vamos pegar um helicóptero até São Paulo e de lá iremos. Ei Sophie, já está melhor? – Perguntou abaixado em frente a ela como se estivesse perguntando se seu joelho já estava melhor após ter caído.

- Acho que devo ir. – Uma voz rouca. Alguém nem tão dona de si como antes.

- Tem certeza? – Marina achava que ela devia estar muito abalada para ir viajar.

- Eu não quero ir pra casa. – Pegou a mão de Deep que estava ao seu lado e a observou por uns instantes.

- Então vamos! – Márcio disse. Na sua camisa havia o seu nome escrito. – Ainda precisamos ir para São Paulo.

Pegaram suas malas e foram até perto do helicóptero. O vento estava forte. Entraram no helicóptero e lá ficaram sabendo para que lugar estavam sendo levados e por quantos dias. Assinaram um contrato. Estavam ansiosos demais e mal conseguiram ler as três páginas com fonte Times New Roman com o tamanho dez.

Sophie já nem chorava na viagem para São Paulo. Ao lado de Deep ela fitava o céu e a cidade que sobrevoavam. Ele mexia com os dedos compulsivamente, precisava de cigarros.

Fellip estava fazendo alguns batuques na poltrona em sua frente. Isto já estava irritando Marina, mas ela estava com um péssimo humor e sabia que se falasse algo pra ele acabaria se arrependendo. Era bonito e teria de ficar bastante tempo perto dele e isso bastava.

A viagem até a Austrália foi demorada. Horas de vôo às quais não conseguiram dormir.

Chegaram ao outro país sem nenhuma recepção calorosa. Foram levados em uma van até uma mansão no estado Queensland. Nada de Sidney para os recém-chegados que esperavam encontrar o .... mas o champanhe logo na entrada lhes agradou divinamente.

Sophie se conteve para não comentar nada, mas Phellip definitivamente não sabia segurar uma taça. Colocou a mão na parte superior da taça para segura-la. Sem nenhuma culpa enquanto Sophie quase tinha um ataque o observando. As bolinhas não estavam borbulhando da forma certa!

- Gostaram da casa? – Um homem alto e moreno com roupas de garçom lhes perguntou enquanto entrava no hall da casa onde se encontravam.

- Já servi a bebida pra eles. – Márcio sorriu enquanto colocava a garrafa entre o gelo.

- Existem dois quartos na casa. Duas camas de casal em cada. Vocês tem alguma preferência por companheiro de quarto?

- O Benji vai vir mesmo? – Marina não se suportava mais. A promoção dizia claramente que os vencedores conheceriam a banda Good Charlotte.

- É. – Marcio olhou pro garçom. — Hoje ainda não. Mas ainda nesta semana.

- Quantos dias ficaremos aqui? – As pessoas estranhariam sua ausência após a morte da tia.

- Não leram o contrato? – Como se fosse algo óbvio. – Vão ficar um mês.

- Um mês?! – Jogou o cabelo que estava caindo em seus olhos para trás. – Vocês me arranjam cigarro? – Maldita nicotina que se tornava sua única preocupação.

- Cigarros? – Marcio pensou um pouco consigo mesmo. – Só se você fumar depois da janta e só!

- Como assim? Horário pra fumar? – Ninguém lhe dava ordens para o que faria e que horas.

- Parece que vocês não leram o contrato! Só depois da janta e está terminado o assunto. Tenho que sair. – Buscou uns papéis que estavam sobre a mesa. – August irá fornecer tudo o que precisam.

Márcio saiu em disparada da casa. Os quatro ficaram ali com August.

Dois sofás brancos cobertos com almofadas estampadas de zebra separavam o hall da sala de visitas. O pé direito da casa devia ser de uns três metros o que tornava o local mais amplo. O teto parecia estar emoldurado por aqueles moldes de gesso com linhas tão bem detalhadas que surpreenderiam qualquer pessoa por mais desatenta que fosse. Olhando para os pés podiam perceber o piso de mármore branco tão lustrado que brilhava. Na continuação daquele branco, móveis rústicos pareciam objetos de decoração. Uma mesinha pequena estava encostada à parede com algumas gavetas ao lado do lugar onde ficavam os casacos de quem chegava.

Um ambiente bem organizado, mesmo com tantos elementos não se tornava exagerado, o que acabaria cansando os olhos de quem vê. Para terminar a bela decoração um belo lustre daqueles que aparece em castelos da nossa imaginação quando ouvimos histórias de princesas.

Saindo da sala, uma escada para a parte superior. Parecia ter sido esculpida no meio daquela casa. Um telefone estilo anos sessenta sobre um aparador lhes lembrou os filmes americanos que tinham visto.

August os encaminhou até o andar de cima. Chegando a frente aos quartos saiu para ir até a cozinha olhar como estavam preparando o almoço.

Sophie e Marina decidiram ficar no mesmo quarto. Entraram numa suíte enorme. Marina pensou consigo mesmo que aquele quarto deveria ser a metade do tamanho da casa dela, mas não iria falar para Sophie. Não falaria para aquela garota metida, capaz de lhe ficar contando mil coisas sobre seus conhecimentos fúteis de decoração. Jogou a mala sobre a cama e ficou observando o movimento da força peso em sua cama. A massa mais a gravidade pareciam surpreendentes.

Sophie arrastou sua mala de rodinhas até o lado da cama. Sentou em cima do colchão e ficou observando o quarto. Três paredes brancas e a da cabeceira das camas verde. Uma tv de plasma de umas 52 polegadas na parede. Uma prateleira na parede de entrada.

Marina notou o pequeno criado mudo ao lado de sua cama com vários papéis de pontos turísticos da cidade e se ocupou os lendo. Enquanto Sophie abria a porta ao lado da janela.

Um closet enorme com várias roupas. Sua boca abriu voluntariamente enquanto ela tirava as roupas para analisá-las. Ao lado uma estante repleta de calçados! Outra porta a levou para um banheiro enorme com uma banheira de casal tirou toda sua atenção dos outros detalhes.

- Marina, venha até aqui! – Não podia acreditar que tudo era pras duas! – Marina! – Ansiosa para ver a reação da outra.

- Ca-ra-lho! – Vidrou os olhos no que o closet lhe proporcionaria. — Olha essas roupas! – Pegou as roupas que Sophia havia retirado e deixado espalhadas. – Não creio! – Disse após olhar o gigantesco banheiro branco que lhes aguardavam.

No outro quarto Phellip já havia se jogado sobre a cama. Deep tinha arremessado a mala contra a cama por estar se sentindo traído por aquele maldito cara que o queria lhe impor regras.

- Mira essa tela! – Phellip riu consigo mesmo, enquanto ligava o televisor. – Eu gosto disso.

- Que merda! – Chutou a mala. Sentou sobre o colchão.

- Qual tu vai traçar?

- Que? – Encarou o maldito loiro que não iria calar a boca tão cedo pelo jeito.

- A loirinha ou a morena? Acha que eu não percebi o climinha entre você e aquela tal de Sophie?

- Sei lá cara. – O que ele tinha de falar? Cale a boca?

- Ah só. E a parada do cigarro, eu também quero.

- Ah. – Não devia nem ter colocado uma gota de cerveja na boca o que iria querer com cigarros aquele ser falante.

- Uma porta no lado da janela. Será que é daquelas de casa antiga, me tia tinha uma assim. Você abria e se alguém jogasse, já era. – Caminhou até a porta. – Porra! Tem muita roupa aqui! Vem ver.

Deep se deitou na cama e fingiu não ouvir o que o outro falava. Mentia para si mesmo, que seu problema era a falta de nicotina no corpo. Às vezes fingimos que acreditamos em nós mesmos para não encarar nossas próprias verdades.