"Mamãe! Mamãe, acorda!" pediu Matt, chorando, enquanto chacoalhava seu corpo desacordado

"Não se preocupe, Matthew, vai estar com ela logo, logo." Disse Chuck, sorrindo e lhe apontando a arma

"Coloque a arma no chão, chute-a em minha direção e coloque as mãos ao alto!" gritou o segurança do aeroporto, que se localizava alguns metros atrás dele, lhe apontando uma arma

"O quê?! Você não pode me tratar como se eu fosse um criminoso. Você tem idéia de quem eu sou? Sou Chuck Comeau!"

"Não me importa se você é Chuck Comeau, Chuck Norris, Príncipe Charles ou o presidente da república, só sei que você foi pego em flagrante dando um tiro nessa mulher desarmada e ameaçando uma criança e, sim, isso torna até o grande astro Sr. Chuck Comeau, um criminoso. Faça o que eu digo ou vou ter que atirar em você." Ele gritou enfurecido e fez com que Chuck, com medo de perder a vida, fizesse tudo o que o segurança lhe havia pedido "Ótimo. Ele está desarmado! Algemem-no!" ele gritou, comandando alguns policias que estavam atrás dele e recolhendo a arma que Chuck chutara em sua direção

"Vocês não podem fazer isso comigo!" gritou Chuck, enquanto um policial o algemava "O meu advogado vai processá-los por isso! Querem dinheiro? Posso lhes dar quanto quiserem, mas me larguem!"

"Você tem o direito de permanecer..."

"É, é, eu conheço todo esse discurso. Também assisto filmes. Vocês não podem me prender! Não têm direito de fazer isso! Eu não sou criminoso!"

"Senhor, é melhor parar de dizer essas coisas. Elas podem ser usadas contra o senhor..."

"Em uma corte de justiça, eu sei disso. Mesmo assim, a lei é falha para gente tão rica quanto eu. Eu vou te processar por isso, seu desgraçado!"

"Levem-no para a cadeia agora! Acusem-no de tentativa de homicídio; no caso dela estar morta ou de vir a falecer, de homicídio doloso; de ameaça contra menor; desacato à autoridade; ameaça contra policiais; e tentativa de suborno."

"O quê?! Eu vou passar minha vida na cadeia!"

"Eu disse que tudo o que dissesse poderia ser usado contra você e já não precisa mais ser provado. Se não quiser se envolver em um problema ainda maior, sugiro que use o seu direito de permanecer calado e não responda nada sem a presença de seu advogado. Diria que se você não pudesse pagar por um, o Estado lhe apontaria um livre de custos, mas eu realmente acho que você não precisa de nada livre de custos." Disse-lhe o segurança "Levem-no!"

"Sim, senhor." Respondeu um policial, tirando Chuck do aeroporto

"E a minha mãe?" perguntou Matt chorando

"Não se preocupe. Já telefonamos para a ambulância. Eles estão vindo. Peça para o seu pai vir te buscar."

"Não dá. O homem que vocês acabaram de prender... ele é o meu pai."

"Não tem mais ninguém que possa vir?"

"Todos os adultos que eu conheço moram em Montreal."

"Bom, então... espero que sua mãe fique bem."

O aeroporto todo parou para assistir à cena e todos pareciam chocados com o ocorrido. Chocados e sentindo pena de Matt. Suas lágrimas eram tão tristes que não houve pessoa que não lhe sentisse a dor. Assim como não houve pessoa que se aproximasse para lhe oferecer um ombro ou uma companhia por algumas horas. Naquele momento, ele desejou mais do que tudo naquele mundo que jamais houvesse nascido. Amanda seria médica, Pierre e Alex jamais teriam se separado porque Amanda não precisaria de um pai para o seu filho, Alex não estaria internada porque Chuck não teria motivos para lhe dar um tiro ou provocar-lhe uma doença, Pierre não estaria preso, Amanda não estaria morrendo, o Simple Plan não teria acabado, Alex ainda poderia ter filhos e, talvez, Pierre e Alex já teriam pelo menos um filho deles... Todas as pessoas que ele amava estariam muito melhores se ele não tivesse nascido, se não existisse...

Após alguns minutos, a ambulância chegou, os faxineiros limparam o sangue e o aeroporto voltou a sua rotina como se nada houvesse ocorrido. Onde Amanda havia passado algum tempo deitada sangrando, pessoas caminhavam e onde Chuck havia sido preso, pessoas formavam filas para comprar suas passagens. Porém Matt não havia voltado a ser como era apenas alguns segundos antes do tiro. Talvez até nunca mais voltasse.

Ele passou duas horas sozinho no hospital, esperando por notícias de Amanda, sentado no chão, em frente à porta do quarto dela e a única coisa que fez durante aquelas duas horas foi chorar. Chorar porque tinha medo, chorar porque se sentia culpado e chorar porque, apesar de tudo, ele não queria perder a mãe.

Agora que Chuck estava preso, ele não sabia mais o que iria lhe acontecer se Amanda morresse, mas ele não se importava mais. Ele achou que talvez essa fosse a única maneira para que ele pudesse deixar todos viverem suas vidas, sem que ele as atrapalhasse, afinal de contas, ele sabia que não foi nada além de um erro. E, talvez com o tempo, tudo voltasse ao lugar onde deveria estar se ele não tivesse nascido. Doeria nunca mais ver Amanda, Pierre e Alex, e ele sabia que iria ser difícil de agüentar isso, mas ele também sabia que seria melhor assim.

Após aquelas longas duas horas, uma equipe de médicos saiu do quarto dela e procuraram por alguém que não fosse menor de idade para informar-lhe sobre as condições de Amanda, porém, não encontrando ninguém, dirigiram-se a Matt.

"Onde está o papai?"

"O de verdade ou o que me criou?"

"Tanto faz. O de verdade."

"Está preso por tentar matar a minha mãe."

"E o que te criou?"

"Está preso por tentar matar a minha madrasta."

"Nossa, mas que família estranha. Então... você está sozinho? Não tem nenhum adulto com você?"

"Não. Todos os adultos que eu conheço ou estão presos, ou estão morrendo, ou estão em Montreal."

"Nossa. Bom... a sua mãe disse que não queria que eu te dissesse sobre as condições dela e, já que ela é sua mãe, não aquela que te criou porque a outra foi presa por tentar matar seu padrasto, eu vou ter que manter a minha promessa." Ele respondeu "Mas eu vou fazer algo por você. Eu também tenho um filho e eu sei que eu ficaria louco se meu filho menor de idade ficasse sozinho assim, então eu vou te deixar quebrar o horário de visitas. Pode ficar com a sua mãe o tempo que quiser e até usar a cama ao lado da dela como sua cama, mas chame outro adulto para tomar conta de você o mais rápido possível, certo?"

"Certo. Obrigado."

"Tudo bem. Pode entrar então."

Sem trocar mais nenhuma palavra com o médico, ele entrou no quarto de sua mãe. Porém, naquele momento, ele viu algo que jamais queria ter visto. Viu o corpo dela pálido e com vários tubos conectados a ele. Não importava o quanto ele tentasse, aquela mulher em sua frente não o fazia se lembrar de sua mãe. Ela era tão forte... Era como se fosse indestrutível. Aquela não era a mesma Amanda. Se fisicamente ela não parecia igual, emocionalmente ela definitivamente não era igual. Logo em que ela o viu entrar, lágrimas se formaram em seus olhos e ela fez sinais para que ele se aproximasse. Ela parecia estar sofrendo, mas a dor não era física, era muito pior do que isso.

"Vem aqui, meu amor." Ela praticamente sussurrou com sua voz cansada

No momento em que ele se aproximou, ela o fez deitar em sua cama e o abraçou firme, enquanto acariciava seus cabelos castanho claro e chorava todas as lágrimas que passou anos segurando. Ela não conseguia parar de se perguntar porque ela não tinha percebido antes o quanto era maravilhoso abraçar o filho. Ela o carregou dentro de seu corpo por nove meses, mas aquela era a primeira vez que ela se sentia tão próxima dele, ainda assim, ela sabia que já era tarde para perceber que ele era o melhor presente de sua vida. Ela passava a se perguntar por que as pessoas não conseguiam dar valor às coisas enquanto elas eram alcançáveis.

"Queria ter percebido antes que você e o seu pai são as melhores coisas que já aconteceram na minha vida."

"O Chuck?"

"Não, o Pierre. Eu ainda não consigo acreditar que eu fui a única por quem ele sentiu alguma coisa além da Alex e eu consegui destruir isso... Se eu não tivesse sido tão idiota... Mas a Alex merece uma pessoa como ele, eu sei disso. Merece muito mais do que eu. Ela é uma ótima pessoa e eu realmente desejo que ela melhore."

"Mãe, não precisa falar como se estivesse tudo acabado, você vai melhorar também. Vai melhorar e vai encontrar alguém como o meu pai. E, ainda assim, vocês dois podem ser amigos. Grandes amigos."

"Matt, eu tenho que ser sincera com você para que você não sofra tanto. Não me peça para te explicar nada porque vai doer ainda mais, mas saiba que eu vou morrer. Se aceitar isso antes que eu parta, vai sofrer bem menos. Eu te amo, meu anjinho, mas a mamãe não vai sobreviver."

"Não, mamãe, não. Você não pode estar falando sério. O Chuck não vai ser o responsável pela sua morte. Você ainda vai viver muito e só vai morrer quando tiver mais de cem anos, não vai ser agora. Você vai sobreviver, não fala assim. Eu preciso muito de você comigo durante o resto da minha vida. Eu não quero que você morra."

"Eu queria poder te dizer que eu vou ficar bem, meu amor, mas depois você vai sofrer muito. Eu já não agüento mais a dor que eu estou sentindo. Eu não vou te dizer tudo o que o médico me disse, mas eu sei que não vou sobreviver e eu já imaginava isso quando decidi parar de ajudar o Chuck. Eu não vou suportar muito tempo e, antes que a gente se separe, eu queria que você fizesse um favorzinho para a mamãe, você faz?"

"Claro, o que é?"

"Pega o meu celular e procura pelo telefone do Jeff. Depois, liga para ele e peça para que ele venha o mais rápido possível."

"Por quê? O que você está planejando?"

"Isso fica entre mim e o Jeff. Eu tenho que acertar tudo antes de te deixar."

"Porque você não fala com ele pelo telefone? É mais fácil do que fazê-lo viajar até aqui só para conversar com você."

"Você vai entender. O que eu tenho para conversar com o Jeff precisa ser cara à cara. Telefone para ele, por favor, Matt. A gente vai precisar muito que ele venha. E telefone de um orelhão. Se ele vir o número do meu celular, não vai atender."

"Tudo bem, então. Se é isso o que você realmente quer..."

Sem discutir, ele pegou o celular de dentro da mala dela, copiou o número de telefone e saiu do hospital em procura de um orelhão para fazer o que sua mãe lhe havia pedido. Ele não entendeu seus motivos, mas ele tinha a sensação de que esse telefonema iria mudar toda a sua vida.