E se... - Ernesto e Ema
6 Capítulo 6
Notas iniciais
Acordou sentindo a cabeça doer, pediu tão logo que lhe preparassem um banho quente, porque não só sua cabeça, mas o corpo doía e precisava relaxar, à noite, mesmo que ela não lembrasse tinha sido agitada.
Depois do café da manhã, onde receberam o bilhete de Aurélio que almoçariam com eles na fazenda, o Barão pediu por um passeio na cidade. Ema podia ter se forçado a acompanhar o avô, mas a indisposição a tomara completamente, não estava com paciência para visitas, ou para cumprimentos, aquela estadia no Vale tinha se mostrado mais que bem vinda, o que mais ela precisava era sossego. Não percebera, porém, que fora justamente tal estadia que tinha avançado sua inquietude.
E ela simplesmente não soube explicar como os pés a tinham novamente a levado para cachoeira, mas ali estava ela, e mais ainda, lá ao longe, sentado na pedra que no dia anterior ela estivera, estava Ernesto. Ela tinha que ter dado meia volta, porém, mais uma vez os pés insubordinados dela fora até ele.
— Saudades?! — ela inclinou-se em cima de seu ombro, antes de perguntar-lhe. Sentiu Ernesto sorri, mas ele não se assustou como ela tinha feito no dia anterior, pelo contrario, não parecia surpreso.
— Um pouco, admito! — ela sentou-se ao lado dele. — Como passou a noite?
Ernesto ainda se preocupava com ela? Aquilo era possível?
— O cansaço estava tão grande que não consegui relaxar! Apesar de quê, está no meu antigo quarto foi... — ela sorriu, era tão simples falar com ele, por isso precisava ser prudente. — nostálgico.
— Posso imaginar! Teve algum progresso com seu avô?
— Papai e Julieta irão almoçar conosco hoje. — ela suspirou. – E acredito que os ares da fazenda já animou o Barão de Ouro Verde, ele saiu hoje mais cedo para uma volta pela cidade.
— Sinceramente, acho que seu avô já perdoou seu pai, o problema é ele admitir isso. — opinou ele, sagazmente. — O que é uma questão de tempo. A ideia de vir para fazenda foi ótima mesmo, irá amansá-lo!
— Você gosta mesmo que de ser envaidecido, não é verdade?!
Ernesto sorriu.
— Gosto de ser justo! — retrucou. — "Daí a César o que é de César!"
Ema sorriu e o olhou. Era tão fácil, tão simples, pensou, não se atendo do peso da aliança no dedo anelar esquerdo.
— Diga-me — ele interrompeu seus pensamentos. — Como anda a vida, Baronesinha?
Não seria prudente continuar aquela conversa, porém o apelido a desarmava sentira muita falta dele.
— Caminhando...
— Em passos...?
— Em passos tranquilos! — ela colocou um pouco de tom decisivo na voz.
— Sei! Quase tediosos, eu imagino! — ela começou a inquietar-se por ele parecer conhecer tão bem sua intimidade.
— Não. Sem arrobos e inconstâncias, uma vida normal, de certezas e maturidade!
— Sei... Seis anos “sem arrobos e inconstâncias”, sem novidades na dita pasmaceira, “uma vida normal”, sem nem ao menos uma criança pra alegrar as "certezas e maturidade". Diga-me o que andam fazendo das noite?
Ema arregalou os olhos.
— Você é mesmo um atrevido! — levantou-se indignada. — Não tem mais idade para isso, Ernesto, acredite em mim!
Ele gargalhou, levantando-se também.
— Personalidade não tem haver com maturidade, Baronesinha. Observe o seu avô... E mais, observe seu pai que depois de velho deixou-se arrebatar perdidamente por uma paixão como um adolescente. Eu sempre serei assim, espevitado, matreiro, atrevido... e feliz até o final da minha vida! — ele abriu os braços. — Porque eu busco minha felicidade, signora mia. Eu não estagno. Eu lhe disse uma vez, preciso de muito pouco para ser feliz, e essa é a mais pura verdade.
Ela o mirava a crescente admiração sobrepujando a irritação. A alma dele era encantadora, agora mais do que nunca ela via isso, por certo, por ser uma visão tão distinta da que ela estava habituada. Livre, tão livre que aparentemente não se prendia a nada, dinheiro, muito menos.
Ela inesperadamente sorriu, e ele sorriu junto.
— Tá com saudade do meu mundo, Baronesinha? — ele lhe lançou um olhar astuto e malicioso.
"Tá me achando bonito, Baronesinha?" a lembrança dele comendo uma maçã lhe lançando tal pergunta lhe viera à mente. Ele tinha razão, não mudara em nada.
E sim, ela estava, com muitas saudades do mundo dele, embora não conseguisse admitir em voz alta bem como não conseguira admitir naquele dia que o achava muito bonito.
Mas, ele lhe estendeu a mão. Ernesto a conhecia, ele entendia suas reservas, sabia que ela sempre precisaria de um incentivo e ela alegrou-se por isso. Estendeu a mão, mas antes mesmo de alcançá-lo já se via voando para os braços dele.
— Ernesto! — ela gritou, mas ele sorria.
— Relaxe, apenas relaxe, Baronesinha!
No segundo seguinte Ema sentiu o corpo flutuar novamente, primeiro no ar depois na água. Ela só sabia rir, rira como há muito tempo não havia feito, e se pedissem para descrever os seus sentimentos naqueles minutos com ele, ela só tinha uma palavra: felicidade. E não se dera conta, até sentir novamente, o quanto fazia falta aquele sentimento.
Nadaram, brincaram de jogar água um no outro, como duas crianças descobrindo os prazeres da liberdade, quase até a exaustão. Depois se encontraram na cena em que ele a fazia boiar, flutuar literalmente, as mãos embaixo de suas costas enquanto a tinha deitada sobres às águas. Os olhos fechados e na respiração o cheiro dele. Paz. A paz que ela achava que nunca sentiria com ele, a paz que agora só ele pôde lhe dar. Deus! Estava feliz, mas nunca estivera mais triste ao lembrar que nada daquilo duraria.
— Era para ter sido assim pra sempre! — ele comentou, parecendo ler seus pensamentos.
Ema suspirou, abriu os olhos e ergueu o corpo, mesmo não querendo fazê-lo. O olhou e em seguida deu de ombros, triste. Ele não tinha mais vivacidade no olhar, tinha uma dor, uma mágoa que antes, de algum jeito ele escondera, era a mesma dor que ela virá no dia do casamento de Mariana.
— Ernesto, eu... — perdeu as palavras, não podia dizer nada a ele sem comprometer aos dois; e não podia colocar o peso do arrependimento dela sobre ele também.
— Eu estou orgulhoso de mim sabe?! — ele disse a pegando de surpresa pelo rumo da conversa. — Eu pensei que quando a visse de novo, meu ódio explodiria, minha mágoa se sobressairia a tudo e eu a desprezaria. — Ema sentiu o corpo tremer e viu os olhos dele marejarem. — Mas... Meu Deus! — ele passou as mãos no rosto. — Eu ainda sinto um carinho, uma ternura e...
Ele não ousou dizer, mas ela entendeu. Queria muito está enganada, mas sabia exatamente o sentimento que o acometia naquele olhar.
— Pena — sentiu-se corajosa ao dizer, e o viu apertar os olhos com força. — É o que sente por mim, não é? Pena?!
— Eu sinto a mesma dor que você, Ema! Mas, não tenho o peso do arrependimento. E sinceramente, acho que você o tem. E não consigo imaginar agravante pior para uma dor.
Ele a conhecia! Não adiantava esconder nada dele. Ele a conhecia!
Ema admirou sua própria capacidade de percepção naquele momento, pois apesar da dor e do constrangimento, ela pôde ver que de um jeito ou de outro, muito ou quase nada, ele amadurecerá. Aquela calma ao falar provava isso. E sinceramente, achou que preferia que ele estivesse gritando com ela.
As lágrimas rolaram, fechou os olhos em prol de fugir, porém o que sentiu em seguida foi os braços dele a envolverem. Nenhuma palavra mais foi dita. Embora tivesse os corpos molhados completamente presos um no outro, o choro que viera em ambos lhe trouxe sua realidade, ela não mais o tinha.
Ernesto a deixara perto da fazenda. Foi convidado a ficar para o almoço, mas recusou, além de está totalmente molhado tinham que afastar-se, pelo bem de sua própria saúde mental. Ainda não se perdoava por não odiá-la, e por ainda sentir por ela todo ardor da paixão e ainda algo mais, vê-la lhe deu a certeza que ele nunca se livraria dos sentimentos por ela. E aquilo era doloroso demais.
Porém, ao decorrer do dia foi se inquietando enquanto não conseguia tirar o olhar dolorido dela de sua mente. E além da paixão e do amor, algo mais além o agitava, algo que o estava enfurecendo... Como ela pôde?
(...)
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