Notas iniciais
Reencontros...(III)

Ema sentia que o dia tinha sido proveitoso para sua família. Aurélio e Julieta que vieram para o almoço passaram praticamente a tarde toda, ainda tiveram o privilégio de passear os quatros pelo cafezal, Ema pensou naquelas horas, que Ernesto novamente tinha razão, estava ficando chato admitir aquilo com tanta frequência, mas realmente o Barão já parecia ter perdoado o filho.

Depois, todos eles foram juntos para a casa de Julieta onde encontrariam Camilo e Jane no jantar. Ema parecia uma criança no meio dos sobrinhos, enquanto brincava com eles, parecia que tinham trazido à jovialidade dela de volta, e quando por fim os pequenos foram recolhidos pelos pais, ela amargurou novamente não ter o dela nos braços. Dali a noite tornou-se melancólica, juntando com a lembrança de sua manhã na cachoeira, ela mais uma vez percebeu que as perdas superara os ganhos. Tentou forçar-se a felicidade de ver a família unida novamente, mas por algum motivo, enquanto assistia Julieta mostrar um relicário qualquer ao Barão, e Aurélio observá-los com toda satisfação que se podia, Ema teve a impressão que não pertencia mais aquele quadro.

Estava em seu quarto agora, divagando sobre força, como iria encontrá-la para retornar a São Paulo? Apesar de tudo, a casa da Ouro Verde, o seu antigo quarto lhe trazia o conforto de um refúgio. Refúgio esse que ela não encontraria na casa de Jorge. Jorge. Pensou nele, que não merecia os sentimentos de rejeição que estava se abatendo sobre ela em relação ao mundo dele. Sempre tinha sido um excelente marido, respeitava-a acima de tudo, respeitava seus limites, suas indisposições. Ema sabia o quanto tinha sido difícil no inicio do casamento, depois, quando perdera o bebê ainda mais difícil, e sabia que também tinha sido complicado nos últimos meses com ela tendo todas as indisposições possíveis, onde nada parecia realmente deixá-la feliz. Mas, não tinha culpa, tinha ciência que se forçava a melhorar, não conseguia; porém, Jorge foi de toda paciência. De tudo, ele não merecia!

Mas, naqueles simples dois dias, já tinha percebido o quanto estava mudada, apesar da tristeza que não a deixara, e que talvez até tenha se intensificado, ela se sentia mais vivaz, mais corada. Já tinha sentido o coração acelerar como nunca mais havia feito, tinha sentido o sangue correr ávido por suas veias, tinha sentido raiva e paixão, outros dois sentimentos que já tinha esquecido como era as sensações que eles causavam. Em dois dias sentira-se mais viva que em seis anos. E infelizmente, ela sabia bem o por quê.

Estava nessas divagações quando ouviu o baque surdo vindo do quarto de vestir, assustou-se, catou a sombrinha como arma que tinha largado na cadeira de canto, e apressou-se com esta em punho até lá e não pôde acreditar em seus olhos quando vira Ernesto no peitoril da janela.

Arregalou os olhos.

— O-o que pensa que está fazendo? — perguntou inquisitivamente.

Ele adentrou o quarto por fim, e aprumou o corpo.

— Vim continuar a nossa conversa! — disse altivo.

— E precisava ter sido assim? — ela indicou a janela aberta. — Não tem mais idade para isso!

Ele sorriu por um momento.

— Não vamos recomeçar por aí, Baronesinha!

Ela revirou os olhos e largou a sombrinha no sofá.

— Diga logo a que veio. — cruzou os braços o mirando, tentando firmemente controlar todos seus sentimentos que fervilhavam naquele momento.

​- Eu vim aqui dizer-lhe que não está nada bem! Nada! — a voz dele era a de sempre grossa, porém tinha um algo de agudo que a fez tremer, e percebeu ser uma mágoa latente. — Eu vim aqui Ema, porque vou embora amanhã, e seis anos de dor, amargor e sofrimento não poderiam ser apagados com um simples abraço. Não seria justo comigo!

Ela engoliu em seco, o pensamento não sabendo em que parte de sua frase se apegar, qual era a menos dolorosa, porém algo que sabia é que o que estava por vir não seria mais fácil de se ouvir.

— Mas, me responda uma coisa, com sinceridade se puder, — ele deu de ombros. — e dependendo de sua resposta, poderei ter a paz que sempre desejei.

Ela suspirou.

— Diga. – a voz mal saíra.

— Valeu à pena?

A pergunta era essa, simples, sem maiores explicações, porém ela havia entendido, como se ele tivesse acabado de revelar a chave de um enigma. E ela ponderou, ponderou em sua resposta. Ernesto tinha dado a ela a oportunidade de mentir se ela quisesse. Mas, naquele momento ela ponderou na verdade, ponderou no que deveria dizer, no que ele queria escutar — queria muito saber o que ele queria escutar, mas não fazia ideia — ponderou em qual mentira seria mais agradável aos ouvidos, o que iria fazê-lo sofre menos, sua felicidade ou sua desgraça? Mas, os olhos dele negros pela noite, intenso, num brilho quase palpável de dor, a fez perceber que ela não tinha nada a responder que não fosse à verdade:

— Não. — não esperava que a voz saísse tão convicta. — Não valeu.

Se nos olhos de Ernesto existia uma dor antes, ela não pôde descrever o que via agora.

— Eu avisei! Mas, que inferno Ema, eu lhe avisei!

Aquela era a pior coisa de se ouvir, mas ela achou que merecia, então ouviu quieta aquelas palavras que era como adagas de laminas finas, adentrando, torturando lentamente seu peito. Ernesto, porém parecia perto da exasperação, ele passava as mãos no rosto e nos cabelos, estreitava os olhos e a mirava como se tivesse esperando que ela falasse mais, que ela se justificasse, ou qualquer outra coisa, mas ela não tinha o que dizer, nada faria sentido. Como nada foi dito ele voltou-se para ela novamente.

— E é isso? — perguntou-lhe. — É simplesmente isso?

— O que quer que eu diga? O que quer que eu faça?

Ernesto estreitou os olhos para ela novamente.

— Não pode está falando sério! Vai novamente estagnar, não vai fazer nada?! Agora que admitiu faça algo, conserte isso!

— Não há o que fazer!

— Ema?! — ele adiantou-se para ela, segurando-a pelos braços; Ema logo sentiu as sensações que ele sempre causava em seu corpo, a quentura na pele, o descompassar da respiração, o arrepio na espinha. — Pelo amor de Deus, faça alguma coisa! — ele a estava implorando, com olhos, com palavras, mas ela não sentia que podia atendê-lo. O que? O que ela podia fazer, meu Deus?! Encostou a testa na dele, e fechou os olhos. — Pare! — ele disse. — Pare de se conformar. Reaja!

— Não posso! — ela sussurrou.

— Pode! — Ernesto afastou-se do rosto dela. — É claro que pode. Você pode qualquer coisa, Baronesinha! Basta querer.

Ela sorriu. Não, não podia. O que ela queria... o que ela mais queria naquele momento era beijá-lo, e era algo que ela não podia fazer. Queria voltar no tempo, isso também ela não podia. Ema acreditava que pouquíssimas eram as coisas que ela queria e, porém, podia fazer, principalmente naquele momento.

— Não, não posso. — sussurrou novamente. Tocou com os dedos delicadamente os lábios dele. A lembrança de tê-los voltou forte em sua mente, enquanto o coração arrebentava no peito.

Ernesto, porém, era seu oposto, ele podia, podia qualquer coisa; nos olhos dela via nitidamente o desejo, então iria lhe provar que sim, ela também podia. E sem delongas a tomou nos braços e a beijou.

Ema era rendida nos braços dele. Resistência? Ela e seu corpo desconhecia tal palavra. E ele sentia; a sentia mole, a sentia tremer. Um resquício de ódio perpassou pelo corpo dele. Como ela podia ter se negado aquilo? Então aprofundou o beijo com afinco. E ela entregou-se ainda mais, o beijando também, matando sua saudade. Oxigênio, ar, fôlego... Deus, para quê a existência da respiração? Poderia viver sem ela e morrer sem ela naqueles segundos. Não precisavam despertá-la por causa de algo tão banal quanto respirar.

Mas, desde quando a vida era justa? E o ar lhes faltou.

Quanto tempo durou aquele beijo? Não sabia dizer, só sabia que ele cessou. Ela não conseguira nem abrir os olhos, ainda sentia a pressão e o gosto dos lábios dele nos seus, mas quando enfim a realidade a atingiu e ela despertou, percebeu que Ernesto tinha lágrimas nos olhos, e que as dela já escorriam pela face.

O que dizer? O que fazer? Persistia a pergunta. Ela preferia ter morrido sem ar lá no beijo dele, do que enfrentar a realidade de que tinha perdido Ernesto. Ela via nos olhos dele, e por mais que ele estivesse mais uma vez ali, tentando ensinar algo a ela, existia um abismo de seis anos entre eles. Seis anos e um marido, seis anos e mágoas e dor. Ernesto estava ao alcance de suas mãos, mas nunca estiveram mais longe um do outro. Ela ainda via nele raiva e... piedade, e isso era o fim.

Pensou que jogar-se da janela seria uma boa opção.

— Viu? — ele disse por fim, a voz mais rouca que o normal, precisou pigarrear. — É só se entregar. E pode fazer o que quiser!

Ela balançou a cabeça freneticamente e afastou-se dele.

— Continua a mesma covardona de sempre, Ema! — a voz dele engrossava de novo, mas agora era a raiva, ela sabia. — Como pode? Meu Deus, como pode ser tão egoísta em relação a você mesma? — ela percebeu que acertara, ele não estava ali para lhe dar uma chance de se redimir com ele, e sim lhe dá uma chance de se redimir com ela própria. — Uma vida de vazio, sem emoção, com o seu marido de sofá... — ele aproximou-se dela novamente, fechou as mãos em seus braços como algemas. Ema ouvia o asco em sua voz, e sabia que se o mirasse nos olhos veria a mesma coisa, por isso não tinha coragem de fazê-lo. — Uma vida sem paixão, sem emoção... Meu Deus, uma mulher cheia de ímpeto, cheia de vitalidade, presa ao um maldito homem que nem a capacidade de lhe desabrochar o dom da maternidade teve!

Ema sentiu o corpo tremer, o choque perpassou por todo ele e ela olhou para Ernesto assustada com tais palavras.

— Como consegue? — ele continuou, e agora ele via, além do asco, dor. A piedade, graças a Deus, havia sumido. — Me diga como consegue? — ele chacoalhou-a. — Você não ver o quanto isso é uma chacota do seu precioso destino? Uma piada! Justamente você, a que abriu mão de tudo para cuidar, não tem mais objetos para fazê-lo. Seu avô, seu pai... Vai ter que esperar o marido caducar para realizar tal ofício novamente.

— Está me ofendendo...

— Não me importo! ​A verdade para você sempre foi uma ofensa! E você prefere viver essa vida ofensiva de ócio e... — ele pareceu pensar, acalmou-se um pouco. — Eu pedi para me dar uma resposta para aliviar minha alma e trazer-me paz. Você o fez. Porque eu realmente não posso continuar amando alguém tão sem brio. — ele a soltou; mas, Ema sentiu o coração acelerar ainda mais forte. — Passei todos esses anos me recriminando, mesmo sabendo que não tinha culpa, mas... de alguma forma, eu achava que podia ter feito mais. — ele passou as mãos novamente pelos cabelos, exasperado. — Hoje você me trás a paz de que eu não podia ter feito nada, é da sua natureza... Meu amor e meu ódio duelavam o tempo inteiro, foi uma tortura durante esses seis anos. Tantas vezes eu pensei em voltar, ver como você estava, para ver se isso me fazia seguir em frente sem o peso de algo que eu carregava, apesar de não saber exatamente o que era... mas, eu tinha medo — ele admitiu, parecendo realmente derrotado. — Tinha medo, e não era de ver sua felicidade, Ema — ele sorriu, e a dor naquele sorriso era quase insuportável para ela. — se eu a visse feliz, ah se eu tivesse a certeza que era feliz, eu teria conseguido ir em frente, com dor, mas tranquilo. Mas, eu sabia que não era isso que eu ia encontrar, e então, admito, fui covarde, não tive coragem de ver sua desgraça.

Ema chorava, as lágrimas caiam copiosas, enquanto ele a feria, ao mesmo tempo que tentava curar-se. E ela só conseguia pensar que era justo.

— Mas, agora eu vejo. Graças a Deus eu vejo. Você cavou sua própria cova, plantou suas próprias sementes espinhosas, está apenas colhendo os frutos delas. — ele continuou. — Esqueceu-se das maçãs, por isso não pode colher sua doçura. Eu não poderia ter feito nada! — ele a olhou, dessa vez resoluto. — Sou eu quem agora não pode fazer mais nada. – concluiu. Deus, por quanto tempo ficaram ali? Apenas mirando um ao outro, desbravando os sentimentos da torrente de emoções que eram os olhos... e por fim: — Adeus, Baronesinha!

Ernesto havia entendido, e apesar da dor que sentia, ele não podia mais... Não podia mais fazer com que sua vida dependesse dos sentimentos de Ema. Eles sempre foram opostos e agora mais do que nunca. Não esperava que ela largasse o marido, era ridículo até pensar nessa possibilidade, era simplesmente esperar o impossível dela, porém esperava que ela reagisse. Esperava que ela lutasse por ela mesma.

No dia da festa de casamento de Elisabeta, viu sua odiosa submissão. Os olhos de Ema imploravam para alguém a salvar, para alguém convencer Jorge a ficar. Ah, Baronesinha, só você poderia ter se salvado aquela noite, como também nessa! Ele viu a derrota em cada instante que esteve com ela. A revolta quando na cachoeira ele falara sobre as crianças que ela não teve, os olhos dela gritaram para ele parar, enquanto ela acostumada à ceder, por um motivo ou por outro, não conseguiu se revoltar, não dá maneira incisa que ele merecia por ter invadido de maneira tão vulgar a sua intimidade, ali ele percebeu que ela preferia fugir — como sempre — a enfrentar algo doloroso. Cada encontro, cada fala, cada gesto uma nuance. E Ema não aprendera nada sobre a vida, e ele não podia mais ensiná-la.

Era triste, mas era o fim!

(?...)

Notas finais
Ernesto precisava de seu momento... sim, mais do que justo!! Desculpem a demora, esses dias foram uma loucuras, em todos aspectos de minha pacata vidinha (até mesmo nos surtos por Erma), mas ai está. Se gostaram, me digam... Bjo e até o próximo capítulo Ps: Gente, eu realmente agradeço muito o carinho e vocês, viu?! É um incentivo e tanto!