E se... - Ernesto e Ema
3 Capítulo 3
Notas iniciais
Em casa a desolação. Não era ali que ela queria está. Queria está com sua amiga, com seus amigos, com sua família. Pensou amargamente que aceitara aquele casamento com Jorge para salvar a sua família, e, no entanto onde sua família estava agora? Arrependeu-se no segundo seguinte, Jorge não merecia aqueles pensamentos.
Ele tinha se recolhido. Além de cansado deveria está magoado. Mas, o que mais ela podia fazer além do que já tinha feito? Sentou-se no sofá da sala escura, e divagou. Divagou sobre sua vida sobre seus ganhos e suas perdas, naquele momento foi egoísta e contou mais perdas que ganho. Pensou em Ernesto, coisa que há tempo ela não se permitia fazer, tão jovial, como sempre, entrara ele na casa dos Bittencourt, alegrando o ambiente como sempre fizera. Lembrou-se que a única vez que não o vira fazê-lo foi na noite do seu fatídico acidente, na noite do casamento de Mariana. Ernesto parecia o homem mais derrotado do mundo naquela ocasião e por isso foi tão doloroso para ela vê-lo. E também, porque ainda tinha vívido na pele o calor do toque dele, as cenas da noite que se entregara a ele, um dia antes de seu casamento com Jorge, quando ele fora em seu quarto implorar-lhe pela última vez que não fizesse aquilo.
Ema sabia que casar com Jorge era o mais certo a se fazer e o melhor para todos, mas também sabia que o que sentia por Ernesto não podia ser descartado como se nunca tivesse existido. Então quando ele a beijou, uma já saudade abateu-se forte sobre ela, era quase um desespero. E se por uma vida ela não mais o teria, pelo menos aquela noite, precisava dele, queria ser dele antes de ser de qualquer outro. E Deus a perdoa-se, pois ali, agora sentada na sala silenciosa de sua casa, ela tinha convicção de que não se arrependera, e por certo não se arrependeria nunca.
Ele era um alento. Os momentos, cada um deles vividos era um alento, de que um dia vivera algo que realmente valeu à pena. Mas, por muito tempo, justamente por achar esse sentimento degradante para com seu devoto marido, não se permitia, sequer lembrar-se do nome de Ernesto. Era um tanto em vão porque ele sempre lhe assaltava nos sonhos, porém, ela não se culpava por sonhar. Que domínio tinha ela sob seu subconsciente? O fato era, Ernesto era seu segredo mais intimo. Era algo só dela, que ela não se atrevia a compartilhar com ninguém.
Porém vê-lo... Ela não podia descrever nem o que sentiu, nem o que sentiria dali para frente. Mas, de alguma maneira vê-lo despertou uma mudança nela. Algo que ela sabia ser perigoso mesmo sem saber do que se tratava. Ela sentiu em seu interior, a tranca dos pensamentos nele não mais se fechava, ela não conseguia. O vazio da sua vida tornou-se algo muito consciente, e ela se perguntou como encararia o dia seguinte com todas suas barreiras interiores, que fora arduamente construída durante esses anos, destruídas.
Porém antes mesmo de pensar na resposta vozes embargadas a despertou, um dueto desafinado alcançou seus ouvidos. Ela correu até a porta e ao abri-la mal pôde acreditar. Ernesto passara cambaleante pelo portão de entrada, empurrando desajeitadamente a cadeira de rodas do avô que também lhe parecia entorpecido, pois agitava os braços no ar entoando uma velha cantiga italiana. Os dois não faziam idéia do que era notas, ritmo ou afinação naquele momento, pareciam está num mundo paralelo enquanto os versos finais da canção eram entoados com um tal fervor de dar inveja a mais eximia cantora lírica.
"E quest'è il fiore del partigiano. Morto per la liberaaaaaà"
Ela adiantou-se para o terraço.
— O que pensam que estão fazendo? — ralhou ela num sussurro severo. Os dois já estavam próximos a escada e pareceram despertar quando ouviram a sua voz.
Ernesto ainda tropicou nos próprios pés, antes de se aprumar e encará-la.
— Nós divertindo, Baronesinha!
Ema sentiu um solavanco no peito ao ouvir tão saudoso apelido. Porém, ignorou seus sentimentos e desceu as escadas.
— Isso lá são horas de um senhor decente, de idade... um Barão, está vagando pelas ruas, ainda por cima, voltando da esbórnia? — disse ela diante da cadeira de rodas do avô, que piscou os olhos algumas vezes com o semblante que ela lhe falara num dialeto desconhecido. — E o senhor — mirou Ernesto. — Confiei no senhor que o traria em segurança!
— Ora, não seja desmancha prazeres! — disse ele. — Além do mais, apesar de não termos acordado nada sobre "segurança" aqui está — ele indicou o Barão que parecia prestes a tirar um cochilo ali mesmo. — sem nenhum arranhão. E mais uma vez, além do mais, se considera o casamento de sua melhor amiga uma esbórnia, realmente Elisabeta está precisando rever seus conceitos de amizade.
Ema admirou-se de que em tal estado de enervação ele pudesse argumentar tão bem. Estreitou os olhos para ele.
— Estava preocupada...
— Vejo que não mudou em nada — ele a interrompeu. — Continua se preocupando com o que não deve. — ele pigarreou, a voz tornou-se mais sóbria de repente. — Eu jamais deixaria algum mal acontecer ao seu avô.
— Sei que não. — a frase saiu como um sussurro.
O ronco do Barão alertou Ema e ela não perdeu-se no olhar de Ernesto. O avô já ressonava com a cabeça apoiada numa das mãos.
— Como vamos levá-lo para cima? — perguntou ela a Ernesto.
— Eu posso levá-lo, e você trás a... — Ernesto se inclinou para sustentar o Barão.
— Oh, pelo amor de Deus, você não se aguenta nem consigo mesmo, quem dirá...
Ele voltou a mirá-la, os olhos estreitados.
— Não estou tão bêbado quanto pareço.
— Ah não? Não foi o que espetáculo que eu acabei de presenciar me indicara.
— Apenas deixei-me levar pela... pelo embalo da melodia! — justificou-se ele, nem um pouco convincente, e por isso mesmo Ema não sabia que força no universo a tinha feito confiar nele naquele momento. Porque em seguida, ele abaixou-se e sustentou o Barão nos braços. Ema correu para o seu lado, tentando ignorar o calor em seu peito ao sentir o cheiro dele tão próximo de seus sentidos, estendeu os braços no ar, como se pudesse aparar a queda do avô caso ela viesse. Mas, andou passo a passo ao lado de Ernesto, com o coração na boca e ela não sabia se era por medo ou por saudade.
Mais ou menos no quarto degrau da escada, Ernesto cambaleou e automaticamente Ema aparou-o, uma de suas mãos nas costas dele, a outra na cintura, lhe dando eixo da linha reta que ele tinha que seguir para deixar o Barão em segurança, que a essa altura, parecia está desmaiado. Entraram, e Ema continuou guiando Ernesto pelo corredor até o quarto de hospedes, onde ele depositou o velho na cama parecendo usar seu último resquício de força. E foi quando Ernesto aprumou-se novamente que ela percebeu que ainda o tocava, e só então um choque percorreu sua pele. Ela afastou-se bruscamente.
— Pronto. — ele disse, virando-se para ela, tragando o ar com força pelo esforço. — Entregue em segurança.
Ema suspirou. Por um momento ela não soube o que dizer, ou o que fazer.
— Obrigada! — foi o máximo que conseguira, porém o erro dela foi olhá-lo, dessa vez não tinha nada para despistá-la, então perdera-se naquele momento.
O quarto sumiu, a noite sumiu, tudo de material sumiu, só existia, através daquele olhar, sensações e sentimentos, e eram tantos e tão complexos que não se podia separá-los e distingui-los. Não se podia identificar um só. Por isso Ema sentiu ser tragada pela intensidade daqueles olhos que agora estavam negros por causa da falta de luz do ambiente — seja qual for — onde estavam. Ela sentiu que não respirava, sentiu que não pensava, sentiu que não existia tempo, e que este não havia passado, era uma redoma onde só existia ela e Ernesto e absolutamente nada mais. E por incrível que pareça, não era nenhum pouco vazio. Na verdade, há exatos seis anos ela não se sentia tão preenchida.
— Ema? — a voz afetada de Jorge, chegou a seus ouvidos a assustando. Ela saiu do seu transe, e viu o marido parado na soleira da porta, o rosto inchado indicando que acabara de acordar, os olhos estreitos indicando sua confusão e o maxilar travado mostrando que ele não gostara nada da cena que presenciava.
Ema precisou pigarrear antes de falar.
— Ernesto veio trazer vovô! — ela pigarreou novamente, pois a voz saíra entrecortada e só então ela percebeu que ainda prendia a respiração, também deu-se conta que as pernas estavam um tanto bambas.
— Sim — a voz de Ernesto fez suas mãos tremerem, e ela cruzou os braços sobre o peito. — Ele já está entregue e eu de saída!
Ela não ousou olhá-lo novamente, olhava um ponto em seu ombro.
— Mais uma vez obrigada! — ela engoliu a seco. — Eu o acompanho até a porta.
— Não precisa, eu me lembro do caminho.
— Eu...
— Deixe que eu faço isso! — interveio Jorge, e indicou o corredor para Ernesto, que adiantou-se sem demora e Jorge o seguiu.
Ema ficou ali, paralisada. Dessa vez sem saber nem o que pensar e então correu para o quarto. Jorge demorou para voltar, ela agradeceu por isso, despiu-se do penhoar e soltou os cabelos, enfiou-se em seguida debaixo dos lençóis. Não queria enfrentar os olhos acusadores e magoados do marido, por isso fechou os seus. Ela ouviu quando ele abriu a porta e entrou.
Jorge fez todo movimento e barulho que pôde antes de se deitar, Ema sabia que ele tinha consciência que ela apenas fingia dormir. Mas, polido como sempre não ousaria confrontá-la, não naquele momento.
Ema não dormiu aquela noite. E em determinado momento, não mais suportando o estado de inércia por não querer despertar Jorge, ela lentamente levantou-se e foi para sala, precisava de ar, o quarto nunca tinha sido tão sufocante.
Em torno de cinco minutos se passaram desde que ela tinha se levantado, olhava além da vidraça da janela, o portão da casa, e ali só via Ernesto entrando cambaleando empurrando a cadeira do Barão. O rosto jovem entorpecido enquanto os olhos fechados demonstravam a intensidade da melodia desafinada que ele entoava, ela não se deu conta que sorria.
— Perdeu o sono?! — a voz de Jorge novamente a assustou, ela deu um salto, a mão levada ao peito.
— Me assustou.
Ele ignorou o comentário.
— Está inquieta?
Ema pigarreou.
— O dia foi agitado.
Ela veio para a sala assim como ele, que impediu sua passagem para além nos corredores.
— O que tanto a agitou? — o tom dele era nitidamente forçado a ser contido, e ele a olhava com o que para ela era o pior olhar dele, desde a noite de seu acidente. Aquele olhar automaticamente lhe trazia lembranças dolorosas demais, a transportava para a casa de Brandão, ou mais além, a transportava para o hospital onde ela recebera a pior noticia de sua vida.
Por isso ela não conseguiu mais se culpar tanto diante do olhar de inquisição dele, mesmo que fosse raro ele lançá-lo, porque ela tomou ciência que qualquer pecado que ela viesse a cometer, embora no momento não tenha cometido algum, não era digno daquele olhar.
— Não acha que foi? — ela retrucou.- Desde manhã, melhor, há um mês não tenho descanso por causa do casamento e hoje em especial... bem, — ela pensou. — Eu realmente não acho que precise explicar o quanto estou cansada. — ela tentou novamente passar por ele, mas ele continuou em sua frente.
— Achei que tivesse gostado. — ela sentiu o duplo sentido na frase. — De organizar o casamento. Tenória mesmo havia comentado que você estava tão bem disposta ultimamente, enérgica!
— Sim, claro que sim. Não podia ter estado mais feliz. E não estou dizendo que não gostei do dia, foi perfeita a cerimônia, o que digo é que foi agitado. Para todos nós, até mesmo para você, que deixou a festa na metade, por causa de seu cansaço! — ela tentou não acusá-lo de nada, mas quando as palavras saíram, ela sentiu o tom de critica.
— Acho que tive meus motivos.
— Sim, por certo deve ter tido. — ela o contornou dando a volta no sofá, dirigindo-se enfim, para os corredores.
— Ema! — ele a chamou, resoluto, e ela estancou imediatamente. — O que sentiu?
— O que?
— O que sentiu quando o viu?
Ema sentiu o coração afundar, e o frio percorrer seu estômago.
— Ora Jorge, por favor, não comece...
— Diga-me o que sentiu.
Ela virou-se para ele, Jorge continuava de costas.
— Eu não vou discutir isso. — pontuou firmemente.
Ela ouviu ele sorrir.
— Seis anos. Seis anos e nada mudou, nem um pouco, nem para que eu pudesse ter um pingo de esperança de seu amor absoluto.
— Jorge, por favor...
— Eu não sei se consigo me arrepender em ter me casado com você, mas... Meu Deus...! — Ela o viu, passar as mãos pelo rosto. — Eu nem sei mais o que dizer. Nada do que eu dissesse expressaria o que eu estou sentindo nesse momento, vai além da frustração... — ele finalmente virou para ela, o olhar tão resoluto quanto à voz. — Você o ama. Você ainda o ama.
Ema engoliu em seco, pela milésima vez aquela noite.
— Eu não vou ficar ouvindo isso... — foi o que disse antes de virar-se novamente, seguiu quase correndo para o quarto; arrependeu-se no segundo seguinte que entrou. Mas, não tinha mais para onde ir, se sentiu completamente desamparada. Nem sequer tinha para onde ir! Embrenhou-se debaixo das cobertas novamente, e mais uma vez não conseguiu dormir, porém dessa vez Jorge não voltara. E depois de um longo tempo, foi vencida pelo cansaço e se entregou ao sono.
(...)
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