E se... - Ernesto e Ema
14 Capítulo 14
Notas iniciais
Acordou sentindo-se envolvida nos braços dele, numa paz que nunca havia encontrado antes, era algo tão sublime que não dava para descrever. Ernesto já estava acordado, pois acarinhava seus cabelos.
— Bom dia, minha baronesinha! — O ouviu murmurar em seu ouvido, a voz grossa e preguiçosa lhe causando arrepios.
— Como sabia que eu havia acordado?- perguntou ainda de olhos fechados, ignorando o solavanco no peito que aquele momento lhe trazia.
Ele sorriu.
— Sua respiração ficou irregular. Provavelmente quando sentiu o meu cheiro! — respondeu, com uma espécie de altivez auto justificável.
Ema travou os dentes.
— Seu... atrevido! — bateu no peito dele, que sorriu ainda mais. Ela precisava ver aquilo, ter certeza de que era real. Abriu os olhos e lá estava o sorriso tão brilhante quantos os olhos. Hipnotizou-se, pois perdeu as ações apenas presa ao rosto dele.
— Eu sabia! — Ernesto falou depois de um tempo.
— O que? — ela mal percebera a voz sair.
— Você me acha mesmo bonito, não é baronesinha?! — sorriu ainda mais.
E Ema não se conteve e sorriu, escondendo o rosto no pescoço dele. Nenhum lugar melhor, aquele cheiro... era um elixir, era refugio, era realmente tudo, Ernesto estava certo, mas ela nunca diria isso a ele.
— Estou faminta.
— Eu poderia responder essa frase de muitas maneiras — disse ele, num tom beirando o malicioso. — Porém, você realmente precisa se alimentar. — Se moveu em prol de levantar-se, porém Ema o manteve bem preso sob seu corpo. O abraço apertou ainda mais.
— Queria ficar aqui para sempre! — murmurou, rente ao pescoço dele sentindo sua pele arrepiar-se.
— Eu poderia ceder facilmente a esse pedido — disse Ernesto fechando os olhos, aspirando o cheiro dos cabelos dela. — Mas, você precisa se alimentar, não comeu nada ontem, tem uma pessoinha aí dentro de você que se sair ao pai deve estar dando cambalhotas de fome! — Ema sorriu forte. Era tão emocionante e leve aquele tipo de conversa. — Além disso, quero levá-la a um lugar hoje!
Ela levantou a cabeça, curiosa.
— Aonde vamos?
— É surpresa!
— Ah, Ernesto...
— Não, nem adianta, baronesinha. Só saberá na hora. — pontuou, afastando-se para levantar. — E se está realmente curiosa é bom se por de pé!
Ema largou-se na cama agarrando-se ao travesseiro de Ernesto, aspirando forte o cheiro que vinha dali.
— Baronesinha! Baronesinha! Deixe de ser preguiçosa ande! — Ernesto tornou a ela, apoiando-se com as mãos no colchão, o corpo em cima do dela. Beijou-lhe o pescoço, fazendo-lhe cócegas atiçando seu despertar. Ema se debatia enquanto sorria, tentando segurar o impulso de gargalhar alto. Porém o gritinho de surpresa foi inevitável quando ele, de alguma maneira, o suspendeu nos braços a tirando da cama com a facilidade de quem carrega uma pluma.
Nos braços dele, ainda sorrindo ela viu a mesa posta do café da manhã, e o viu procurar por algo, ela sabia que era um lugar para colocá-la. E sorriu ainda mais.
— Precisamos também ver o problema da disposição dos moveis, meu amor! — disse, agarrando-se mais ao pescoço dele. — Ao menos um berço e mais uma cadeira!
Ernesto a olhou tão profundamente naquele momento que o sorriso morreu em sua face.
— O que? — ela perguntou, realmente confusa com aquele reação, que só os olhos testemunhavam.
— É realmente só disso que você precisa?
Ela sorriu novamente.
— Tendo você comigo... — beijou-o. — Ah Ernesto, sim, eu sinto que não preciso de mais nada! — o abraçou. — Olhe isso, sinta isso — pediu, com os olhos fechados sentindo uma plenitude a invadir. — Nunca me senti tão completa. — O olhou novamente. — Tenho tudo que preciso. — ele sorriu por fim. — Quero dizer, não iria me importar com mais uma cadeira...
Ernesto gargalhou e a beijou, em seguida, a depôs sentada em cima da mesa. Foi à vez de Ema gargalhar. Ele então se sentou na única cadeira do recinto.
— Daremos um jeito nisso. – comentou com uma pitada de mistério na voz.
Ema pareceu não perceber, estava entretida demais em virar-se a mesa para alcançar tudo que pudesse, a fome rugiu fortemente dentro dela, e assim já teve a certeza que o filho sairia sim ao apetite do pai.
O café da manhã era recheado e nutritivo, farto demais para uma refeição alá Ernesto Pricelli.
— Que delicioso! — dizia ela enquanto se empanturrava com uma fatia generosa de bolo de cenoura. -É caseiro? Onde..?
— A Sra Conti é uma eximia cozinheira!
— O café da manhã foi...?
— Estive lá hoje mais cedo — ele deu um meio sorriso, a voz tornando-se mansa de repente. — Ela disse que como não aparecemos para o jantar, supôs que amanheceríamos com ainda mais fome — ele soltou entre explicador e malicioso. — Então preparou um reforçado café da manhã para nós.
Ema, com certo esforço, parou de comer e o mirou.
— Eles sabem de mim, não é? Sabem que sou... que fui casada.
Ernesto suspirou, ciente de que aquilo poderia ser um peso para ela.
— Creio que desconfiam. Entenda, eu nunca fui de conseguir esconder meus sentimentos. E eles se tornaram minha família, era inevitável falar de você, mesmo que doloroso, mas eu nunca disse o motivo de nossa separação. Apenas que seguimos por caminhos diferentes.
O coração de Ema sorriu, apesar de triste. Ela desconfiava que em algumas, talvez, muitas vezes aquela tristeza reapareceria junto com a pontada de remorso, porém, o afago em seu peito foi ver que Ernesto ainda sim cuidara dela, não a julgou para os outros, por mais que considerasse a atitude dela indigna. Ela também suspirou, limpando o coração.
— Eu não me importo — tentou alcançar com os seus olhos o fundo dos deles. — De verdade, Ernesto, eu não me importo. — Ele levantou-se, se aproximando dela, lhe acarinhou a face. — Não é uma questão para mim, meu amor! Estou ciente que tenho que enfrentar as consequências de minha escolhas. E você ter me perdoado, Ernesto, é mais do que eu poderia...
Ele a calou com um beijo. Forte, sôfrego tanto que Ema só se deu conta que já estava nos braços dele novamente quando precisou de ar. Ernesto largou-se na cadeira com ela aninhada em seu colo.
— Esqueça isso. Esqueça! Não quero que se torture mais, não suporto que faça isso! Não nos torture mais... Já passou, Ema! Já passou! — a voz de Ernesto era tão resoluta e o abraço que ele lhe deu em seguida tão confiante que ela que algo dentro dela se convenceu.
E sim, ele estava resoluto, não existia um pingo de duvida, rancor ou ressentimento nele. Não havia nem raiado o sol e Ernesto a custo tinha soltado-se dela, estava angustiado demais, havia saído sem rumo com os pensamentos lhe massacrando e o coração doendo no peito. Em meio ao pomar meio perdido entre as árvores derramou todas as lágrimas que pôde pelo filho que nunca teria em seus braços, gritou com toda força pelos anos perdido ao lado da mulher que amava, socou a terra fofa pelo peso de uma culpa que ele sabia que não tinha. A dor naqueles momentos fora dilacerante, porém quando o sol nascendo lentamente no horizonte foi lhe acalmando gradativamente foi lhe acalentando numa linda esperança, lhe mostrando que era o futuro dali para frente, e dali ele tinha tudo, absolutamente tudo que sempre sonhara. E quando voltou para o quarto e viu Ema dormindo delicadamente em sua cama... ah, nenhuma dor podia alcançá-lo mais.
E agora estavam ali entre carinhos e café da manhã, com toda a plenitude que só acalçavam quando estavam um como o outro.
~
— Ernesto onde estamos indo? Eu pensei que iríamos nos Conti, preciso agradecer a Sra Conti pelo café da manhã! — perguntou Ema, enquanto Ernesto os esgueirava pela escada do armazém.
— Shiii, baronesinha! Se eles nos ouvir o nosso passeio estará terminado sem nem ao menos ter começado! — rebateu ele, cochichando.
— Não seja ingrato, seu italiano mal educado, temos que...
— Ema! — ele tapou a boca dela com mão, a recostando na parede lateral do armazém. — Pelo amor... dos seus vestidos rendados, eu sei o que estou fazendo, acredite! — olhou fundo nos olhos dela lembrando-se de um momento qualquer de seus passados, e não resistindo beijo-a em seguida. — Confie em mim. – sussurrou nos lábios dela.
Ema com as pernas bambas e não confiando em si para qualquer outro argumento, agarrou-se ao braço dele e o seguiu. Caminharam um pouco até a pequena praça de Avella, observou Ernesto fazer um simples aceno ao um cavalheiro qualquer sentado por lá, e no minuto seguinte ela já estava em cima de um automóvel com Ernesto no banco do motorista.
— Posso perguntar como você...?
— Meglio un amico in piazza che soldi in tasca, baronesinha! — ele lhe tascou um beijo. — Se bem que em todo caso... — ele deixou a frase inacabada e deu de ombros. — Apenas curta o passeio.
Ela decidiu ouvi-lo, estava farta de não ter respostas, e ao que parecia Ernesto realmente não as daria por ora, então tratou de sim, saborear o passeio.
O automóvel, bem conduzido por sinal pegou a estrada de terra, a mesma que ela havia pego a passos com Enrico no dia anterior. Ema pôde, dessa vez com uma visão melhor, admirar o pomar. As macieiras bem distribuídas em fileiras, com seus frutos desabrochando, salpicando o verde das folhas, alguns bem vermelhos outros ainda alcançando a cor. O vento batia em seu rosto trazendo o cheiro doce, que misturado com o da terra molhada era ainda mais reconfortante. Olhou para Ernesto em sua concentração na estrada. Ela estava com um sentimento tão forte de completa felicidade que achava que realmente não precisava de mais nada na vida.
Ernesto, porém, ainda não estava satisfeito. Num determinado momento, ele estacionou o automóvel e a olhou.
— Chegamos? — perguntou ela, voltando a curiosidade.
Ele sorriu malicioso.
— Confia em mim?
Ema fechou os olhos temendo o que viria, ao abrir os revirou.
— Confio!
Ele sorriu um pouco mais, e tirou do bolso um pedaço grande de retalho.
— Terá que vendar os olhos, baronesinha!
— Ah, não! Ah não Ernesto! Isso não se faz com uma mulher grávida!
— Por favor, poderia não usar o meu filho nas suas chantagens — ralhou ele com falsa indignação. — Só você já me é mais que suficiente para...
— Está desistindo da ideia de me vendar?
— De jeito nenhum! Só avançaremos com você de olhos bem tampados!
Ema bufou, vendo no sorriso dele que ele não cederia.
— Está bem, mas olhe lá hein, Ernesto! Estou carregando seu filho no ventre... — disse, virando-se de costas para ele.
— Vejo que será um exercício diário a questão da chantagem... — ele murmurou enquanto passava o retalho pelos olhos dela. Amarrou o nó delicadamente na parte de trás de sua cabeça, desceu as mãos e apertou seus braços. — Apenas confie em mim, minha baronesinha! — a voz rouca e sussurrada ao pé do ouvido teve o efeito que ele queria, sentiu a pele de Ema arrepiar-se e ela puxar o ar com força. A aprumou novamente no banco e voltou a dar partida no automóvel, Ema entorpecida deixou-se guiar com o coração transbordando de paixão e curiosidade.
Alguns poucos minutos a frente ela o ouviu desligar o motor, o sentiu descer do veiculo e abrir a porta do carona, a pegar no colo e pousá-la delicadamente no chão. Ernesto posicionou-se atrás dela, a guiando um pouco mais para frente até estar na posição em que ele achava adequada.
— Está preparada?
O coração de Ema batia furioso em ansiedade, ela puxou uma grande lufada de ar, tragou dali o cheiro doce do pomar que agora se misturava com algo ainda mais doce, jasmim, ela reconheceu. Sentiu-se em casa.
— Sim. — respondeu por fim.
Ele afrouxou o nó e enfim a venda sumiu dos olhos dela e quando Ema finalmente os abriu perdeu o ar.
Linda! Branca com as venezianas azuis “assim como a Ouro Verde”, foi seu primeiro pensamento. Os jasmineiros ficavam nas laterais, já o jardim florido parecia percorrer todo seu arredor, limitando-se até as escadas da frente que dava para o alpendre. Situava-se, aparentemente, no espaço de campo bem no meio da plantação. A casa era um sonho e trazia uma sensação de paz indescritível.
— Ernesto o quê..?
— É nossa!
— O quê? — ela enfim, virou-se para ele.
— Desde que eu comprei os campos venho reformando-a. Já está pronta há quase um ano, mas eu ... — ele deu de ombros. — Nunca tive coragem de me mudar! — deu de ombros novamente. — Bem, agora...
— Ernesto?! — a voz de Ema mal saía.
— O quê? — ele sorriu do espanto dela. — Eu sempre estive esperando por você, baronesinha... Mesmo sem saber!
Ela jogou-se nos braços dele sabendo que era a mais abençoada das mulheres. E se... era ciente de que não merecia o amor daquele homem, era ainda mais ciente que passaria o resto da vida para amá-lo de volta com a mesma intensidade.
E Fim...
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