E se... - Ernesto e Ema
13 Capítulo 13
Notas iniciais
Embasbacados! Pode-se dizer que foi assim como a família Conti a recebeu, e Ema pensou naquele momento que realmente deveria ter atinado antes em sua aparência ao se apresentar diante deles. Podia imaginar a figura que estavam vendo:
Os cabelos desgrenhados, o vestido molhado e amarrotado, a capa de lona de algum empregado do pomar sobre os ombros e o sorriso sem graça na face. Uma bela visão, na opinião de Ernesto que sorria tranquilamente na frente dos ex patrões e agora amigos.
— Essa é a minha Ema! – apresentou ele, e Ema sentiu um involuntário afago no peito com o sentimento de propriedade dele. Ela simplesmente adorava ser dele.
A senhora Conti suspirou, soltando a respiração que tinha prendido, provavelmente, com a entrada abrupta do casal quando eles estavam próximos de fechar o armazém, sorriu!
— Que bela ragazza! — disse ela encaminhando-se até Ema. Lhe segurou as mãos. — Um encanto! Um tanto desgrenhada é verdade — ela passou as mãos pelos cabelos da moça — Mas, tão só um encanto!
Ema sorriu entre constrangida e exuberante. Algo naquela mulher a lembrava da própria dona Nicolleta, tinha inclusive as mesmas feições. Desconfiava que Ernesto a considerava muito, e muito provavelmente por isso também.
— Grazie! — disse encabulada.
— Jantarão conosco! — anunciou o Sr Conti, que abriu um grande sorriso em sua face larga, verdadeiramente sincero de felicidade.
Ema logo olhou para Ernesto. Não era bem o que planejava.
— Podemos deixar para amanhã, meu caro! Ema está cansada da viagem! — disse ele, talvez tendo os mesmos pensamentos que ela.
— Ora, mas por isso mesmo! — interveio a Sra Conti. — Ela tem que se alimentar bem! E nada melhor que uma verdadeira comida caseira italiana para suster um corpo cansado!
Ernesto não podia rebater aquilo. E se era verdade que Ema precisava de descanso, também era verdade que deveria se alimentar bem, ainda mais agora, comendo por dois. Sorriu aquele pensamento. Se distraiu tanto que não percebeu que todos no recinto o olhavam.
— Tudo bem, então! — ele confirmou, mesmo que ainda a olhasse como se esperando que a própria Ema confirmasse. Sabia que ela teria suas ressalvas por sua primeira impressão de Sandra. Porém, Ema deu de ombros quase que imperceptivelmente, e ele identificaria qualquer mínimo sinal daquele corpo agora mais bem conhecido do que nunca. Com um meio sorriso ela reafirmou o conhecimento dele sobre ela . — Certo então! Nós vestiremos para o jantar, e os encontro em casa! – concluiu, por fim.
— Ora! Por que não vamos agora? Não vai deixar a senhorita se arrumar naquele cubículo que você chama de quarto, Ernesto!
A menção “senhorita” da Sra Conti despertou algo em Ema. Ernesto sorriu.
— A baronesinha, creio, que está acostumada — disse num meio sorriso dissimulado. — Já falei que morávamos num cortiço?!
Não esperaram mais muito tempo, ele catou as malas dela e saíram. A noite já tinha caído, e estava cada vez mais fria, talvez pelas roupas molhadas. Ernesto seguiu para a lateral do armazém, indicando as escadas que pela tarde tinha chamado atenção de Ema. Ela apenas sorriu, ainda lembrando-se do período em que moraram no cortiço, no que até então ela podia chamar de melhor período de sua vida, apesar de tão modesta.
Quando adentraram ela notou, aquele quarto era menor e menos aconchegante que o quarto do cortiço, porém o jeito bruto sem nenhuma decoração aparente refletia a simplicidade de Ernesto. Era um pequeno cômodo todo coberto de madeira, um armário velho, uma cama e uma mesa com apenas uma cadeira, tudo pragmático, lhe deu a sensação que ele só adentrava ali para dormir. Olhou para Ernesto que a examinava enquanto a via fazer o mesmo, aparentemente, com a sua vida. Porém, quando os olhares se cruzaram, ele desviou do dela, fingindo ajustar as malas em um lugar qualquer. Aquilo a incomodou, muito. E não saber porquê ele também pareceu incomodado a perturbou ainda mais.
Ela olhou ao redor novamente e suspirou.
— Faz um pouco de frio aqui. — comentou, decidindo sondar o terreno; não mais deixaria mal entendidos entre eles, porém a cautela era aconselhada, afinal não foram apenas dois meses, ainda eram seis anos.
— Não faz ideia do quando. — ele murmurou muito baixo, ainda acocorado junto às malas dela.
E Ema já havia entendido. Aproximou-se dele, e pôs a mão em seu ombro, que agora estava frio, acocorando-se ao seu lado.
— Não mais serão! — a voz só conseguindo o tom de um sussurro, pois uma espécie de dor e angustia a invadiu ao pensar no sofrimento dele durante seis anos naquele quarto frio.
Ele virou-se, e ajoelhou-se, e ela fez o mesmo. O olhar dele era tão intenso e brilhante, era como na noite em que estiveram juntos em seu quarto na Ouro Verde, tinha uma dor latente ali, porém Ema via um lampejo de esperança tentando se apossar da angustia, e aquilo era no que tinha que se apegar para salvar a ambos das dolorosas lembranças do passado.
— Eu não vim aqui para nada! — ela disse, levando a mão ao rosto dele. — Eu vim aqui para ficar. Para ficar para sempre. — Os olhos dele brilharam em lágrimas e ela viu quando ele desceu o olhar em direção a sua barriga. — Ernesto! — ela chamou a atenção dele novamente para seus olhos, porém precisou chamá-lo outra vez para então ele atendê-la. — Eu quero que saiba... Meu amor, eu preciso que você saiba. Nosso filho me deu coragem, essa é a mais pura verdade! Eu não sei se presa no emaranhado de comodismo e aceitação em que eu me encontrara durante esses seis anos teria tido força para sair de lá... Mas, eu preciso que saiba, que em tudo, minha felicidade só estaria atrelada a você. – Ela sentiu uma frustração invadi-la por não conseguir explicar-se a ele, e começou a chorar, balançando a cabeça negativamente. — Eu queria poder explicar...
— Você não precisa! — disse ele, a voz mais rouca que o normal. — Eu entendo!
— Não diga isso!
— O que? — perguntou, confuso.
— Não diga que entende! Nem eu consigo... Sou uma idiota!
— Mas, eu entendo! — ele repetiu, seguro. – Não concordo Ema, isso é e sempre será um fato, porém, a entendo. Entendo porque a conheço. Fez tudo porque achava que era o certo, fez por amor, fez pensando na felicidade dos outros exceto na sua como sempre faz, porque no fundo, lá no fundo você sempre soube que estava condenando sua felicidade. Mas, sei que fez por amor. E o que disse agora, é na verdade, o que tudo em você sempre lhe disse: sua felicidade só seria possível comigo. Por isso jamais conseguiria de outra forma.
Ema sorriu, em meio às lágrimas, do quão ele era petulante mesmo numa hora como aquela.
— Eu não estou a culpando por está aqui pelo nosso filho. – ele continuou. — Você me trouxe os dois maiores presentes, os meus desejos e sonhos. Como eu poderia exigir algo mais?
— Não é justo, Ernesto! Não é justo!
— O que não é justo, meu amor? — foi à vez de ele acarinhar seu rosto, aproveitando para lhe enxugar as lágrimas.
— A maneira como tudo aconteceu. Eu devia ter enxergado antes, devia ter entendido, tudo era sinais desde o principio, e eu uma tola, cega...
— É passado, Ema! Não adianta se culpar mais. Estamos aqui, não estamos? — ele embrenhou a mão até a nuca dela querendo fazê-la sentir o toque, a presença... ele estava ali.
A viu fechar os olhos, mas não era em prazer era em dor. Os olhos e os lábios comprimidos ao máximo, e pode parecer loucura, mas ele ouvia, ou sentia, o coração dela bater desesperado.
— O que há, minha baronesinha? O que há? – Se tornando tão desesperado quanto ela ao presenciar aquela dor, a puxou para um abraço forte. Queria protegê-la do mundo, porém percebeu que levaria ainda mais tempo para protegê-la do remorso dela mesma.
Ema chorava e soluçava, ajoelhada e abraçada a ele, o corpo tremia e ela amou ainda mais Ernesto, por simplesmente não a questionar, por simplesmente continuar retendo ela em seus braços, lhe acarinhando os cabelos e lhe beijando a têmpora. O súbito choro foi se abrandando quando ela, recostada em seu peito, se concentrou em ouvir as batidas do coração dele. Passou a brincar com o tecido de sua camiseta, ignorando a dor nos joelhos que começara a incomodar.
— Eu devia ter percebido! — murmurou ela por fim. — Tinhamos que ficar juntos. É incrível que seja, simplesmente, inevitável. E se eu tivesse percebido antes, teria poupado tanto sofrimento, tanta dor, tanto remorso...
Ernesto não respondeu, e Ema sabia que era porque ele não tinha argumentos quanto aquilo. Era a verdade que ele sempre insistia em joga em sua cara. E sinceramente, ela não queria consolo quanto a isso.
— Preciso lhe contar algo, para que não haja mais nada mal dito entre nós. — Sentiu o corpo dele enrijecer. Buscou a coragem, e em seu interior percebeu que dessa vez esta não veio de seu ventre, nem vinha do abraço que ela recebia, vinha dela e só dela, talvez da dor mais atroz que a acompanhava. Então o olhou.
— Eu já estive grávida uma vez! — disse, por fim.
Os olhos dele se estreitaram confuso.
— Assim que me casei – continuou não esperando nada, precisava apenas falar de uma vez. — No casamento de Mariana, você lembra?
— Lembro — a voz dele mal saiu, e ele parecia um tanto petrificado, ela afastou-se um pouco para olhá-lo melhor.
— Eu estava grávida!
Ernesto arregalou os olhos.
— O acidente! – ele mal abriu a boca.
— Sim, — Ema fechou os olhos, a dor e o cansaço tomando seu corpo. — Eu perdi! Naquele maldito acidente. — Ela agitou-se de repente, e levantou-se ficando de costas para ele. — Tanta dor, tanta dor para nós, tantos anos para entender, para aceitar. Se meu bebê tivesse vingado, se... Eu saberia, eu saberia sem sombras de dúvidas, quando eu visse o rostinho dele eu iria saber... — ela voltou a chorar copiosamente, quase em desespero, apertava os braços junto ao busto como se emanasse a criança que nunca teve a oportunidade de preencher aquele espaço. — Quando eu o perdi, perdi você mais uma vez!
— Ema, eu... — Ernesto não sabia o que dizer, suas lágrimas caiam apenas por ver a dor dela, a dor de perder um filho que nem havia conhecido devia ser a mais insuportável possível, porém, não entendia o que ela estava dizendo, apesar de achar que... sim, fazia sentido, mas ele não queria acreditar.
— Era seu! — ela disse e virou-se de uma vez, cansada, exausta, o acertando forte no peito com aquelas palavras. — Era seu! Eu perdi... perdi nosso filho!
Ernesto não soube dizer o que perpassou pelo seu corpo naquele momento. Um frio, uma enervação, uma sensação que tinha saído de órbita ou algo do gênero, porém, os soluços de Ema não lhe deixava depreender-se totalmente.
— C-como... — ele precisou pigarrear e respirar fundo. — Como sabe que... que...?
— Do mesmo jeito que sei que esse — ela abraçou a barriga em consolo e proteção. — também é. Acredito que Jorge não possa ter filhos. — ela sorriu amarga, pensando que a vida podia espezinhar sem piedade quando dava para ser caprichosa. — As únicas vezes que consegui conceber foi quando estive...
— Comigo!
Ela estava extremamente corada. Aquela conversa era intima demais, não que se importasse em ser intima de Ernesto, era o que mais lhe abrasava na vida, porém, aquela conversa implicava algo além deles dois, e aquele algo definitivamente ela queria deixar bem longe. Viu Ernesto fechar os olhos e os punhos com muita força, viu a face dele assumir um rubro e a expressão era perigosa. O coração dela afundou no peito enquanto ainda batia angustiado. A culpa nunca lhe abateu tão forte como naquele momento. Achou que perderia as forças, achou que sairia correndo, porém agora, existia não apenas a sua dor, agora também existia a dor de Ernesto. E a dor de Ernesto era frágil demais, merecia todo cuidado do mundo, pois de todos os envolvidos ele não tinha culpa de absolutamente nada. Ela precisava curá-lo.
—Ernesto? — ela usou o tom mais suave que pôde. Ele não se moveu. — Por favor... Me perdoe! — Ela não sabia pelo quê estava pedindo perdão, mas logo percebeu que era por tudo, absolutamente tudo. — Por favor, me perdoe!
Ele respirou fundo, que força no universo o fez acalmar-se ele não sabia, mas o fato foi que sentiu uma paz descer sobre ele. Ema havia se aproximado, ele podia sentia as mãos trêmulas em sua barba, mas mais que isso ele sentia o cheio inebriante dela assaltar suas narinas. Ela estava ali, e nada mais importava, ela estava ali e finalmente iriam construir uma vida. O passado existia, porém não podia mais interferir no futuro.
— Meu amor! — ela lhe segurou a face e uniu suas testas. — Me perdoe!
— Perdoo. — ele pontuou por fim, mas ainda não tinha aberto os olhos, ainda não queria enxergar. — Tenho que perdoar! Eu não tenho uma vida sem você, Ema!
Admitir aquilo, ah... era tão dolorosos quanto libertador. E quando ele abriu os olhos, enfim, percebeu que era mais libertador, pois os dela quase grudados nos seus, sorriam, a dor sumindo gradativamente, e não existia nada mais incrível e heroico para ele que tirar a dor dos olhos de Ema.
Ela o beijou, sôfrega e intensa.
— Não tenho como voltar no tempo, meu amor, não tenho. Não tenho como reparar os meus erros. Mas, prometo... prometo passar a vida me redimindo por eles. — cada frase era um beijo na face, no maxilar, no ombro, no pescoço.
— Olhe — ele a segurou pelos braços com força, mirando fundo nos olhos dela já enervado de desejo, pronto para dizer-lhe, com toda convicção, que ela não precisava fazer aquilo, porém decidiu, naquele momento, que deixaria a nobreza para depois. — Irei lhe cobrar, baronesinha! Ah, como irei!
Ema sorriu.
— Adorarei receber a conta cada vez que me apresentá-la! – Sorriu com o desejo irradiando tudo mais dentro de si e então, voltou beijá-lo.
Amaram-se novamente, e como sempre em cada cantinho de pele, de corpo e de alma. Dessa vez, porém, onde o amor tocava ele expulsava a dor, e nunca foi tão significativo para eles se amar!
(...)
Fale com o autor