Notas iniciais
A vida de Ema...

Ema adentrou em casa um tanto eufórica, era praticamente seu estado de espírito diário naqueles últimos dias. Encaixou a sobrinha no cabideiro, largou a bolsa e o chapéu na mesa de aparador da sala.

— Tenória! Tenória! — chamou apressada.

— Estou indo! — a tia veio praticamente correndo para atendê-la!

— Pelos céus tragá-me um refresco! — pediu ela, enquanto já se entretia em balançar seu leque freneticamente. — O sol está de derreter qualquer cristão!

Tenória apenas assentiu e foi para a cozinha. Voltou no minuto seguinte com a bandeja trazendo o refresco de sua amada sobrinha.

Ema sentou-se em sua escrivaninha de frente para a janela e pegou o caderno de anotações. Tenória a serviu.

— Onde estão os homens dessa casa? — perguntou a ela.

— O seu Jorge foi para o escritório, já Estilingue aproveitou o dia sem aula para levar o Barão para um passeio no parque.

— Mas, meu Deus! Nesse dia insuportável de quente? Isso pode não fazer-lhe bem! — comentou ela.

— Não creio, querida! O parque é arbóreo e por certo eles ficarão na sombra. — pigarreou. — E como foi o dia hoje?

— Ah, Tenória! — ela suspirou. — Nunca pensei que organizar um casamento fosse tão... estafante! Não me lembro do meu ter dado esse trabalho todo!

— Isso porque você fez tudo muito simples para o seu casório. À surpresa de muitos, claro!

Ema alçou as sobrancelhas!

— Está querendo dizer que todos esperavam de mim algo extravagante?

— Não extravagante, querida! Mas, por certo... é, não tão... hm...

— Nem continue, está se enrolando mais! — sorriu da mulher, que sentiu o rosto esquentar. — O fato é que Darcy que o casamento espetacular! Elisabeta é ranzinza, mas por algum motivo, talvez bom senso, ela deixou a organização em minhas mãos.

Tenória, porém achava que Elisabeta não teve muita opção, Ema era muito persistente quando queria, além disso, as outras madrinhas da noiva não tinham tanta disponibilidade quanto sua sobrinha. No fundo Tenória agradecia o evento, só assim Ema se animara e entretia-se. Antes do anuncio de Elisabeta​ ela tinha andado um tanto, não gostava nem de dizer, mas a palavra era apática e sem viço.

— Agora, tenho que mais uma vez fazer um elogio a Charlotte — continuou Ema. — Realmente está me saindo a parceira ideal. Ela tem um excelente gosto, óbvio, pela educação inglesa, mas realmente ela tem me ajudado muito, e também é ótima em convencer Elisabeta.

Passou a enumerar e riscar itens em sua agenda.

— Por falar nisso, chegou uma carta para você! — disse Tenória, lhe trazendo um envelope.

— De quem?

— Jane Bittencourt.

— Oh! — Ema exclamou entusiasmada. — Deixe-me ver se ela já tem data para chegar?

Rasgou o envelope e pôs-se a ler a caligrafia bem desenhada de Jane, enquanto o fazia Tenória viu seu semblante mudar, de entusiástico, para surpreso e em seguida melancólico, por fim discretamente lágrimas se alojaram em seus olhos.

— Algum problema?

— Não! — a voz titubeou, Ema então pigarreou, e sorriu. — Nenhum problema, na verdade uma noticia maravilhosa!

Tenória estranhou que uma noticia maravilhosa pudesse entristecê-la​.

— Jane irá se atrasar mais que o previsto. Creio que só poderá vir realmente para o casamento! Pois ela e Camilo já estão esperando o próximo rebento! — contou com um sorriso largo, porém os olhos não escondiam o brilho das intrusas lágrimas.

Tenória logo entendeu.

— É realmente uma ótima noticia para os Bittencourt! — comentou, sem mais saber o que dizer.

— Sim, já estão no terceiro! — disse Ema.

— A outra também espera, não? — a curiosidade de Tenória falou mais alto que sua discrição.

— Não! Cecília pariu seu segundo mês passado! — informou. — Achei que lhe tivesse contado!

— Creio que esqueceu-se, com tantas coisas na cabeça , não é de se admirar! — suavizou seu embaraço.

— Uma menina — continuou Ema. — Segundo eu soube, linda! Estou realmente devendo uma visita para conhecê-la! Mas como você mesma disse, são tantas coisas...!

Ela guardou a carta.

— Tudo parece ter terminado bem para a numerosa família de suas amigas, não é?

— Sim! Imagino que dona Ofélia deva está esfuziante. Tanto com a novidade de Jane, mais ainda com o casamento de Elisabeta que ela sempre considerou um caso perdido.

— O que mais dizia a carta? — perguntou Tenória. — Alguém mais virá do Vale para ajudar nos preparativos?

— Não! — Ema suspirou. — Com essa novidade de Jane quem mais poderia? Dona Ofélia está ajudando Cecília com a pequena, Mariana ainda está em viagem de férias com o coronel Brandão, Lídia até espevitou-se, mas não achamos prudente, ela e Charlotte ainda tem suas indisposições. Mas, tanto melhor ela não ajudaria em nada, do contrário. Claro que o trabalho será dobrado para mim e Charlotte, já que o casamento já é o mês que vem, mas... Creio que daremos conta!

— Tenho certeza que sim.

— Bem, eu vou me deitar um pouco antes do almoço! — comunicou ela, largando a escrivaninha. — Acho que o sol não me fez muito bem, estou com uma pequena dor de cabeça.

— Vá sim, querida! Já lhe levo um chá!

— Certo! Pode servir o almoço quando Jorge chegar. Diga-o que não é necessário esperar por mim. — deu sua última ordem e se recolheu.

Tenória não estranhou o repentino mal estar de Ema, sabia que aquele assunto era delicado para ela.

Em seu quarto, agarrada ao seu travesseiro Ema finalmente derramou às lágrimas que prendia desde que lera a noticia de Jane. Sentiu-se egoísta por fazê-lo, mas não podia evitar. Estava imensamente feliz pela amiga, porém seu coração se entristecia, e parecia que uma dor física atingia o seu ventre quando ela via todas suas amigas, emanando e paparicando suas crias e ela de braços vazios. Por que justamente ela? Perguntava-se. Justamente a que o destino designou com dom de cuidadora? Já estava casada há seis anos, e nada. A única vez que sentiu o gostinho de alegria da maternidade foi assim que se casou, porém por causa de um maldito acidente não conseguiu segurar o pequeno em seu ventre, depois disso, nunca mais. O ventre lhe tinha secado!

~

Ela só percebeu que tinha perdido os sentidos, quando despertou com um afago em seus cabelos. Jorge a olhava com aqueles mesmos olhos de encantamento, como se ela fosse uma quimera. Ema se admirava como ele conseguia manter aquilo ao longo dos anos. Ás vezes ela tinha impressão que ele tinha medo até de tocá-la para que não se desmanchasse em​ sua frente.

— Tenória disse-me que teve uma indisposição. — disse ele. — Quer que eu mande vir o médico?

— Não! Completamente desnecessário, querido! — disse, ajeitando-se na cama para vê-lo melhor. — Apenas me cansei um pouco, acho que enfado do sol.

— Tem plena certeza?

— Absoluta!

Ela via algo nos olhos dele, receio talvez.

— Tenória disse que teve notícias de Jane. — comentou ele parecendo displicente, sentando-se na borda da cama. Ema então entendeu. Jorge tentava ser sutil, e às vezes a subestimava em percepção. Ela sabia que Tenória havia relatado todo ocorrido a ele.

— Sim! — disse com a voz firme. — Jane não virá este mês para os preparativos. Ela e Camilo estão esperando de novo! — Ema sorriu. — Não é espetacular?! Dona Julieta deve está que não se aguenta de felicidade! Por conseqüência papai. Ele considera os rebentos de Camilo como seus netos... — Ema falou sem pensar, e só percebeu que aquilo a feria quando as palavras saíram.

Jorge a acarinhou a face. Ela odiou ter se entregado, viu nele aquele olhar de piedade que ela simplesmente detestava. O choro veio novamente em sua garganta.

— Não me olhe assim! Por favor, não me olhe assim! — disse, tentando continuar com a voz firme.

— Assim como, meu amor?!

— Com essa piedade nos olhos!

— Não é piedade, Ema! Por favor, não diga isso!

Ela virou a face em direção a janela, afastando assim a mão dele. Jorge fechou os olhos com força, o coração apertado no peito.

— Eu não me importo, Ema! — disse ele. — Nunca foi prioridade para mim. Você é minha prioridade, se eu a tenho já tenho tudo.

— Você fala isso para consolar-me. — remendou ela. — O maior desejo de um homem é ser pai!

— Não o meu! Além disso, temos o Estilingue! Você mesmo já dissera que é como um filho para nós.

— Sim ele é. Mas não é a mesma coisa Jorge, você sabe que não é. — às lágrimas lhe caíram novamente. — Um herdeiro, um filho de sangue onde poderemos passar horas o observando encontrando traços nossos nele, nós nunca teremos, você nunca terá. Porque escolheu uma esposa incompetente e fraca que não foi capaz de segurar o próprio filho no ventre.

— Isso não é verdade, Ema. Não é verdade! — ele puxou seu rosto novamente para que ela o mirasse, os olhos dele tinha uma agonia indescritível. — Se alguém tem culpa sou eu. Aquele acidente foi culpa minha. Eu que insisti para pegarmos a estrada à noite, e...

— Isso não importa! — ela o interrompeu. — Não faz sentido discutirmos isso mais uma vez.

— Tem razão! Mas não quero que se machuque mais com isso. Não quero que pense que está me negando algo.

Ema sabia que ele falava aquilo apenas para lhe aliviar a culpa. Mas, ela sabia que negava algo a ele, e não só a ele, a ela também. Se um filho não era prioridade para Jorge, era pra ela. E por isso lhe doía tanto! Não havia nada pior do que ser uma mulher vazia. O que fazer com todo aquele carinho que tinha em seu peito?

— Eu lhe agradeço pela generosidade! Você sempre é muito gentil! — ela enxugou ás lágrimas. — Já almoçou?

— Não. Vim vê-la primeiro.

— Então vamos almoçar. — ela se pôs de pé, se dirigindo a penteadeira. — Sabe se o Barão já chegou com Estilingue?

— Sim, estão a nossa espera!

— Estarei lá em um minuto! — disse esperando que ele se retirasse, para se recompor. Cavalheiro como sempre, ele assim o fez.

Ema olhou-se no espelho, o rosto rosado pelo mínimo choro fora coberto com uma fina camada de pó de arroz, ajeitou os cabelos desfiados. E suspirou. Seu reflexo era cansado, se ela observasse bem diria até envelhecido. Mas, era natural na verdade, agora era uma mulher, dentro um pouco seria uma senhora. É assim que caminha a vida. Mas, ela não se perdoava por não ter perdido parte de seu vigor correndo atrás de suas crias, ou por não poder curtir o surgimentos dos cabelos brancos colocando a culpa nas preocupações com as crianças. Estava envelhecendo e além do tempo, nada mais contribuía para isso.

~

— Mas vovô, creio que já está na hora de acabar com essa implicância — insistia ela na mesa do almoço.

— Não se trata de implicância, e sim de honra! — rebateu o Barão, apesar de mais velho a voz continuava imperativa. — Seu pai acha que farei igual ele e voltar como um cachorrinho de rabo entre as pernas?

— Olhe os modos à mesa, vovô! — ralhou.

— Ora... Eu jamais dividirei o teto com Julieta Bittencourt, jamais! — ele continuou esbravejando como se não tivesse a ouvido. — Uma ladra de marca maior. Que além de roubar-me a casa, não satisfeita roubou-me o filho!

Jorge, Estilingue e Tenória assistiam a cena divertidos, apesar dela ser bastante repetitiva. Já Ema parecia realmente preocupada. Apesar do aparente vigor, o Barão estava velho, não se sabia quanto tempo ainda teria ao lado de seu amado avô, embora não gostasse sequer de pensar no assunto, não queria que ele partisse brigado com o próprio filho.

— Ora vovô, Julieta já se redimiu de seus erros. Até desculpou-se com o senhor. O senhor que é ranzinza, e lhe foi muito mal educado na ocasião.

— Mal Educado! Mal educado?! Eu? Com aquela raposa viúva?! Imagine! Ela só conseguiu ludibriar o tolo do seu pai, mas a mim não. Acha que eu não sei que está tramando um golpe mortal para nós, aquela víbora!

— Então ou ela é uma excelente estrategista ou péssima, pois sua dita trama já dura seis​anos.

— Nunca subestime uma verdadeira estrategista, minha querida netinha! — ele tossiu rouco.

— O médico disse que os ares do campo lhe seriam melhor para os pulmões. — apelou ela.

— Não posso crer que quer me ver pelas costas! – o velho choramingou.

— Ora de forma alguma! O senhor sabe que não foi isso que quis dizer — Ema desculpou-se, porém sem se afetar. Estava acostumada com os dramas do avô. — Apenas que será melhor para sua saúde. Além do mais, eu sei que o senhor deve está morrendo de saudades da fazenda.

— Outra jogada daquela sem coração. Comprou de volta a Ouro Verde para seduzir seu pai. Achou que teria o mesmo efeito sobre mim.

Ema revirou os olhos.

— Por que ela tentaria seduzir o senhor?

— Para terminar de tirar-me o resto das calças!

Estilingue não aguentou e vazou a risada, mas num olhar de repreensão de Tenória retomou a postura.

— Ela por certo deve querer que eu morra, assim terá o título de baronesa! — continuou o Barão. — Mas isso ela nunca terá! Sou capaz de levantar do túmulo, se seu pai ousar dar o meu título aquela mulher.

— Não se afobe com isso. Não irá acontecer. — Todos, provavelmente sem exceção já tinha explicado ao barão que o seu titulo não mais tinha tanta serventia desde a república, mas aquela informação era algo que ele não guardava.

— Mas, não irá mesmo, porque eu jamais permitirei!

— Eu só acho que o senhor podia reconsiderar o perdão a seu filho. — insistiu ela. — Amo com toda minha alma ter o senhor aqui. Mas, acredito que se sentiria melhor em casa. Olhando seus cafezais florescerem. Sentindo a leveza do ar do campo. — ela divagou e por um momento pode ver com frescor e acalanto no peito a imagem​ que descrevera. — O senhor nunca gostou da cidade. E como o senhor mesmo repetiu inúmeras vezes antes de papai casar-se com Julieta, aquela fazenda é sua por direito. E ele sente tanto sua falta!

— O seu pai?! O que não teve a coragem de reaver a minha fazenda a mim? O mesmo que me traiu? Ora, pois bem que acredito em sua saudade! Ainda por cima vivendo banhado pelo veneno daquela cascavel!

Ema decidiu colocar um ponto final na conversa, ao menos por ora. Mas, ela não desistiria de ver sua família unida outra vez, era o que lhe restará.

(...)

Notas finais
Ema, Ema... o que eu faço com você, querida?!

Gente, as opiniões de vocês são sempre bem vindas tá?
Bjo e até o próximo capitulo! ​♥