E se...
2 L'accordéoniste
Notas iniciais
Só pra não perder o costume, choveu. Sempre tinha algo que conseguia estragar meus planos. Mal sabia eu que tudo estava prestes a mudar...
Como esperado, o retiro tinha sido transferido para a escola. Seria um longo sábado... Cheguei lá meia hora antes de iniciarem as atividades, e vi que não conhecia quase ninguém. Deixando-me dominar pela timidez, sentei numa cadeira ao canto, e esperei, torcendo que Caroline não me deixasse sozinha ali. Peguei um dos livros que tinha trago, entrando no meu escudo habitual contra a humanidade, a leitura.
De repente, alguém senta ao meu lado e tira minha concentração do papel. Era Gregori, um dos componentes da banda. Ele sorriu pra mim, e perguntou o que eu estava lendo. Conversamos um pouco sobre meu livro, até que a Carol chegou, fazendo uma de suas entradas espalhafatosas de sempre, chamando por mim enquanto colocava a cabeça pelo batente da porta e saindo em disparada para outra sala. Eu dei um sorriso meio desajeitado pedindo desculpas, peguei minhas coisas e fui correndo ao encontro da rainha do drama.
Carol, desafiando as regras de não levar comida, queria que eu descesse com ela até o mercado, que ficava a uns 10 minutos da escola, e comprasse salgadinhos. Como estava chuviscando, as atividades estavam prestes a começar e eu queria voltar para conversar mais com o Gregori, tentei negar a proposta. Mas ninguém consegue contrariar a Carol. E lá fomos nós, correndo morro abaixo enquanto a chuva engrossava.
Voltamos com nossos salgadinhos e refrigerantes contrabandeados, e os escondemos na nossa sala. Depois fomos ao encontro do resto dos participantes no auditório. Infelizmente, alguém já tinha sentado onde eu estava antes, na ponta da meia lua, e já ocupara a atenção do Gregori. Fui arrastada pela Carol até a outra ponta, onde ela poderia sentar perto do Gabriel, o menino que ela – e toda a escola– consideravam o mais gato.
O Roberto, coordenador dos grupos, começou com a ladainha habitual sobre o espírito salesiano de ser, e de como devíamos seguir os passos de Dom Bosco. Rapidamente minha atenção foi desviada dele para a Carol, flertando descaradamente com o Gabriel. E depois para o Gregori, sorrindo para ela- ou seria para mim? Não, sem chance de ser pra mim. Gatos do terceirão nem sabem que eu existo. Provavelmente era para a menina teatral de cabelos vermelho-fogo ao meu lado.
Depois de algumas palestras, dinâmicas e um lanche com nossos contrabandos, saímos para almoçar num restaurante caro, no centro da cidade. Como estava chovendo e quase ninguém tinha guarda chuva, Roberto distribuiu guarda chuvas para serem usado por 3 pessoas. Quando Carol me agarrou e perguntou quem vinha com a gente, Gregori se ofereceu, confirmando minhas suspeitas de que ele estava interessado nela. Estava me preparando psicologicamente para virar a vela durante o almoço. Mas Gregori era imprevisível.
Na caminhada até o restaurante, Carol até se esforçava para puxar assunto, mas ele respondia secamente e voltava a atenção para mim, enquanto eu desviava de uma goteira, ou passava a milímetros de esbarrar em uma árvore, virando motivos de gozação para Carol, que adorava enfatizar o quão desajeitada eu era. De tão acostumada, nem ligava. Mas Gregori ligava.
– Cuidado, ou vai se machucar!- Falou, saindo do lado de Carol e indo ao meu lado. — Venha aqui, assim você sai de baixo das goteiras. E você Caroline, devia respeitar mais sua amiga.
– Ai Greg, ela nem liga. Sabe que eu a amo. Você sabe, não sabe Petit?
E voltou a puxar assunto com um Gregori desinteressado, sem ao menos esperar resposta. Esse menino começava a me intrigar. E a atitude da Carol, claramente flertando com qualquer um, começava a me dar raiva — que direito ela tinha de chamá-lo de Greg?
Preciso admitir, o Gregori não era alguém de se jogar fora. Além de ser um ótimo acordeonista -o que não é fácil de encontrar– também era bonito. Não era uma beleza comum. Um pouco maior que eu, com no máximo 1,65, cabelos castanhos curtos ondulados, olhos negros e um sorriso muito espontâneo — e branco. Aposto que fez clareamento. Mas o que mais chamava atenção nele, era seu jeito confiante. E seu perfume, é claro. Mas isso não justificava as investidas da Carol.
Na hora do almoço, o grupo se dividiu em duas das maiores mesas do restaurante. Eu e a Caroline ficamos na mesma mesa do pessoal do terceirão – sem querer, é claro. Apesar de ser pequena, sempre tive o habito de comer bastante, algo que compartilhava com a Caroline. Nossos pratos eram maiores que o do Gregori, o que me deixou envergonhada quando ele se sentou na minha frente.
–Nossa Sophie! Pra onde vai tudo isso?- ele perguntou.
–Ora Gregori, minha mãe sempre disse que preciso comer bastante para poder crescer. Você deveria fazer o mesmo. –falei, com uma risadinha tímida, torcendo para que ele não tivesse se ofendido.
–Pode me chamar de Greg. -Respondeu no meio de uma risada, mostrando que não se importava com brincadeiras. –Mas acho que pra nós não tem mais jeito né? Com 16 já não crescemos muito.
–Ainda tenho esperanças. Tenho só 14...- Falei, sentindo meu rosto corar.
–Nossa! Jurava que tínhamos a mesma idade. -Ele disse, enquanto avaliava meu corpo. Conforme o olhar dele descia, podia sentir cada centímetro corando.
A Carol rapidamente retomou a conversa, perguntando ao Greg sobre as melhores festas que ele já foi, e as melhores experiências com meninas. Passei o resto do almoço quieta, pois não tinha o que falar sobre esses assuntos.
Voltamos para a escola à tarde e seguimos com a programação do retiro, com mais palestras, algumas brincadeiras e um filme no final. Enquanto alguns ficavam assistindo o filme, quem iria fazer algo na missa ficou ensaiando. O Roberto me convidou para ler, e contrariando a Carol, que queria que eu matasse a missa com ela, aceitei o convite e fui ensaiar com o resto do pessoal. Enquanto os meninos da banda ensaiavam as musicas com o Roberto, o grupo da leitura se revezava com o microfone. Quando não era minha vez de ler, era impossível não ficar olhando o Greg tocar. O que era estranho, pois eu nunca tinha dado muita bola pra banda.
Quando fomos para a igreja, podia sentir que alguém estava me encarando cada vez que a banda parava de tocar. E quando fui ler, vi no Greg o mesmo olhar da hora do almoço, quando pareceu avaliar meu corpo. O primeiro pensamento que me veio à cabeça foi que minha roupa deveria ser estranha para o ambiente. Afinal, não é todo dia que se vê alguém pequeno, com All Star, shorts preto e regata do System of a Down lendo na igreja. Provavelmente era por isso que ele estava me encarando. Mas aquele menino realmente me intrigava. O que ele tinha de diferente dos outros?
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