E o jogo começa.

5 A segunda impressão.


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Assim que chegamos, ele me disse onde era meu quarto, e que não estava muito arrumado porque ele não costumava receber visitas. Eu subi e quando cheguei, vi que ele estava falando sério. O quarto estava com uma caixa cheia de jornais, revistas, fotos, roupas, cheio de coisas empoeiradas e velhas, e se ele não me dissesse com tanta certeza que era um quarto, eu diria que era um sótão. Eu tirei uma parte dos jornais que estavam ali, e me sentei. Pensei em tudo o que estava acontecendo. Uma amiga minha iria morrer, eu estava sendo caçada por um maluco, briguei com um agente federal e estava em sua casa agora, estava longe do meu país, da minha família. Aquilo parecia um sonho, um sonho em que eu daria tudo para acordar. Enfim, peguei meu celular e decidi que tinha que falar com a Jenny, mas assim que vi seu nome na minha agenda telefônica, pulei para K, de Kate. Liguei para ela, e nos falamos bastante, então eu fui dormir.


Quando acordei de manhã, meu celular estava anunciando uma nova mensagem, era da Jenny. Dizia que ela não se importava que eu ficasse na casa dela, que eu não estava deixando ela mais cansada, e que eu não tinha que ir para a casa do Gibbs por isso. Imaginei se foi o que ele disse, para que ela se convencesse que eu queria ir pra casa dele por qualquer outro motivo. E no fim da mensagem, ela colocou um pequeno “eu te amo”. Ela nunca havia me falado isso, Kate sim, Abby também, até o Tony disse que “gostava muito de mim”, mas a Jenny nunca. Então, sem que eu percebesse, duas lagrimas caíram, e mais duas, e quando eu vi, estava soluçando baixinho. Gibbs entrou no meu quarto quase imediatamente.

– Jessy, está tudo bem? – ele disse, se sentando na ponta da cama.

– Não, não está – eu abaixei a cabeça, e para a minha surpresa, ele me abraçou.

– Tem certeza que não quer me dizer o que esta havendo com ela? – ele disse, esfregando meu braço com uma das mãos.

– Ela está doente Gibbs! Ela irá morrer dentro de alguns meses! Ou dias, semanas, sei lá! – eu disse, explodindo em choro, e ele não me soltou.

Ele arregalou os olhos, como se esperasse qualquer outro motivo. Esperou que eu me acalmasse um pouco, e me virou para ele, olhou para mim e disse o mais calmamente que conseguiu;

– Então, porque você esta evitando falar com ela, ou ficar com ela? Você deveria aproveitar o tempo que resta a vocês duas, porque ela não tem família, e como ela sempre diz, os únicos amigos dela somos nós, do NCIS, e você. E você deveria estar do lado dela agora, não chorando, entende? – ele disse, me olhando nos olhos e com as mãos nos meus ombros.

– Sim, eu fui uma tola, eu estava tão assustada, ela deve estar pior do que eu jamais me senti. – eu disse, com uma pontada de remorso.

– Está tudo bem, vamos tomar café e ir direto pra lá.

– Gibbs? – eu disse, assim que ele se levantou.

– Hm? – ele disse, segurando a porta.

– Me desculpe. Não sabia que você era assim. Eu pensei que você não gostasse de mim, mas agora eu vi que fui estupida, e que você é muito legal, mesmo. Obrigada.

– Esta tudo bem, vamos indo? – ele disse, parecendo meio desconcertado.

Chegando no estacionamento, ele disse para que eu subisse, que ele tinha que dar uma palavrinha com alguns seguranças. O prédio tinha o dobro, desde que Ari tentou me pegar na casa da Kate. Alguns agentes do FBI e da CIA estavam rondando o prédio, apesar de o Gibbs dizer que eles não estavam lá para me proteger, e sim pegar o Ari a qualquer custo, eles me faziam sentir segura, ultimamente, eu só me sentia segura cercada de pessoas. Armadas, de preferência. Ele me levou até a porta do elevador e saiu andando devagar, quando Jenny apareceu atrás, correndo, para tentar alcançar o elevador que eu estava. Mas eu não estava pronta para conversar com ela ainda, e antes que pudesse fazer qualquer coisa, Gibbs segurou a porta com as mãos, para que ela entrasse. Eu entendi que ele queria que eu esclarecesse tudo, mas eu realmente não fazia ideia de como iria fazer isso. Assim que ela entrou, e as portas se fecharam, meus olhos se encheram de lagrimas e eu tentava não olhar para ela, mas ela veio falar comigo.

– Bom dia querida – ela disse, olhando para mim, e eu não respondi – Jess? Está tudo bem?

E quando eu vi, já estava abraçada a ela, chorando copiosamente. Ela entendeu e apertou um botão, que parou o elevador no meio do caminho, e se curvou para falar novamente:

– Jéssica, você entrou no meu escritório? Foi você que... Meu Deus! Você já esta passando por tanta coisa, eu não poderia imaginar que foi justo você que descobriu!

– Então é verdade? É seu exame? Você está mesmo doente? – eu perguntei, tentando não chorar mais ainda.

– Sim, eu estou. Não sei quanto exatamente, mas estou em um estado avançado. Estou tentando alguns tratamentos novos, mas não sei quanto tempo...

– Não, por favor, não fale assim – eu disse, tentando imaginar como seria ter um “prazo” de vida.

– Me desculpe – ela disse, não conseguindo conter as lagrimas.

– Jenny, você deve estar apavorada, me desculpe ok? Eu fui uma tola de ter saído de lá, eu queria um tempo sozinha pra pensar em tudo com clareza, mas vi que deveria era ter ficado do seu lado, descobrir sozinha deve ter sido horrível, me desculpe mesmo, eu juro que volto pra sua casa hoje mesmo, e vou ficar com você até... Vou ficar com você – eu disse, agora não estava mais chorando, estava decidida.

– Me desculpe, mas eu estou fazendo tratamentos e minha casa virou um tipo de lugar que eu visito de vez em quando, quase não fico lá, então você ficaria sozinha e não deve ser bom... Alias, como está indo na casa de Jethro? Ele esta te tratando bem?

– Está tudo ótimo Jenny, não se preocupe – eu disse com pouca sinceridade, eu gostava mais de Gibbs agora, mas eu ficava muito entediada lá, ele não era muito aberto para conversar.

– Ok então – ela apertou o mesmo botão e o elevador voltou a subir, e então limpou o rímel que as lagrimas borraram – como estou?

– Linda – eu disse, e a abracei.

Chegando ao primeiro andar, assim que Jenny subiu para a sala dela, Kate, Mcgee e Tony vieram me cercar, logo Ducky e Abby também, todos perguntando coisas sobre a casa de Gibbs, como era, cores, moveis e até mesmo a comida, todos estavam muito curiosos, mas assim que eu ia começar a responder, ele chegou e estava acompanhado de dois agentes, um do FBI e um da CIA, presumi.

– Descobrimos porque Ari matou o Major Collins – um dos agentes falou – o major Collins estava criando uma célula, para se infiltrar no Hamas, uma célula espiã, e descobrir seus próximos ataques ao EUA. Ari, como todos sabem, tinha a mesma missão antes, mas preferiu se juntar à célula inimiga. Quando descobriu sobre este plano, ele não pensou duas vezes e quis cortar o problema pela raiz. Foi isso.

– Mas o que ela tem a ver com isso? – perguntou Kate, apontando um lápis para mim.

– Bom, ela estava no lugar errado, na hora errada, olhando para o homem errado – disse o outro agente – eu tenho mestrado de psicologia, e se me permitem dizer – ele olhou para os lados, e todos assentiram, inclusive Jenny que agora estava na escada – isso se tornou um jogo obsessivo para ele, ele acha que ela é um tipo de premio, e para vencer, tem que provar que é bom, ou seja, pega-la, e ele não desistira fácil, está só esperando que alguém de um passo em falso para ..

– Já chega, não? – disse Ducky, colocando as mãos no ombro do rapaz e levando – o para o elevador.

Depois daquela cena, todos ficaram muito tensos, eu sabia o que estava acontecendo, mas aquele homem me fez ter uma nova perspectiva, uma bem ruim. Chegando a noite, eu estava em meu quarto, na casa de Gibbs, conversando com Abby pelo computador, todos nós sabíamos que Ari sabia onde eu estava, então não havia mais porque de eu não usar o celular ou o computador para me comunicar com minha família e amigos distantes. Ela estava me contando que achava a Jenny diferente de uns tempos pra cá, assim como Kate e todos os outros, ela estava começando a desconfiar. Não queria mentir para nenhum deles, então disse que Gibbs estava me chamando e desliguei, fui à cozinha para tomar um copo de leite e ouvi um barulho forte no porão, desci para ver.

Assim que cheguei à escada, vi algo que me surpreendeu. Gibbs estava usando bermudas e um blusão bem antigo e havia um barco no meio do cômodo. Ele percebeu que eu estava ali antes de eu ter a chance de tentar recuar.

– Oh, entre – ele disse, com um tipo de ferramenta na mão, e apontando para uma cadeira que estava num canto.

– Não quero incomodar... – eu disse, querendo bater em mim mesma por ter descido até ali, eu estava invadindo a privacidade dele!

– Não vai ser incomodo, não tenho ninguém para conversar, então – ele foi até onde eu estava, na escada e me encarou, e eu desci.

– Isso é um barco? – ele assentiu – você que fez ele, todinho?

– Não está acabado ainda, tenho que terminar de lixar, você poderia me ajudar.

– Não quero quebrar, ou estragar. Sou péssima para essas coisas.

– Não vai estragar nada – ele disse, com um tom de impaciência na voz – vem aqui.

Ele me deu um blusão igual o dele, mas era preto e estava escrito SWAG. Eu o coloquei e ele me deu uma ferramenta enorme, eu só olhei pra ele e sorri, afinal, não fazia ideia de como usar aquela coisa e ele sorriu também, colocou uma mão em cima da minha e disse que era só ir na direção da madeira. Quando ele me falou não entendi muito bem, mas depois que ele demonstrou, eu consegui fazer certo. Ele me colocou em um tipo de tabua meio solta, para me apoiar e conseguir lixar a parte de cima.

– Gibbs, eu vou cair – eu disse me segurando nas pontas do barco e me equilibrando.

– Não, não vai. Se cair, eu te seguro, ok?

– Ok, mas não me deixe bater no chão – eu disse, e nós rimos. Ficamos trabalhando no barco até que eu peguei no sono e acabei dormindo dentro dele, com a ferramenta ainda na mão. Acordei umas horas depois, e ele estava sentado, com uma caneca de café nas mãos e um adesivo enorme, de costas para mim. Eu levantei em silêncio e espiei sobre seu ombro. O adesivo era um KELLY bem grande. Ele já tinha me chamado de Kelly.

– Eu não acordei você – ele disse, me fazendo sobressaltar – Kate ligou, disse que Dinozzo quer falar com você.

– Tony?

– Sim, ele disse que é importante, mas quando disse que estava dormindo, ele disse que falava amanhã.

– Ok... Gibbs, quem é Kelly? – perguntei sem hesitar, já estava morrendo de curiosidade.

– Ela era minha – ele pareceu oscilar – namorada.

– E por que você tem um adesivo enorme do nome dela? – eu disse, ainda tentando entender porque ele havia confundido meu nome com o da ex.

– É para o barco, eu vou colar nele e depois queima-lo.

– Mas você passou tanto tempo construindo, para queimar depois?

– Você não entenderia – ele disse, e então se levantou – vá dormir, amanhã temos o dia cheio. Se o Tony quer falar, e é algo sério, já da pra imaginar. Boa noite.

Eu subi, e fiquei imaginando se alguém do NCIS soubesse que aquele cara rancoroso, bravo, chato e mandão na verdade era daquele jeito, que eu vi no porão. Doce, gentil e engraçado. Será que o porão, era o lugar onde ele era realmente ele mesmo?

No outro dia, eu acordei e dei uma boa olhada naquele quarto, certamente precisaria arruma-lo mais tarde, estava realmente bagunçado. Quando chegamos ao NCIS, Tony apontou para a escada, como se quisesse conversar comigo lá. Fomos nós dois para lá, e Kate, Abby, Mcgee, Gibbs, Jenny e até mesmo Ducky ficaram em cima, escondidos, para ouvir o que era tão importante assim para ele me falar particularmente. Ele os viu e disse:

– Será que não podem respeitar minha privacidade não?

– Você nunca respeitou a nossa, Tony. Temos todo o direito – a Kate disse, e deu um de seus sorrisos irônicos.

– Ok então, vamos abrir o jogo. Jess, você já foi à casa da Kate, a casa da Jenny, e na casa do chefe, e nunca na minha, por quê?

– Ela já foi à minha! – Mcgee disse, e eu simplesmente supliquei com o olhar para que ele parasse, mas ele estava se divertindo com a situação – foi para pegar uma coisa, mas ela foi.

– E na minha também, com a Kate – a Abby disse, radiante – nós ouvimos CDS e comemos pizza... Foi muito bom!

– Jessy – Tony disse, e esperou.

– Semana que vem, eu juro que vou. Ok?

– Ok – ele disse e sorriu para Kate, que ficou séria.

Abby desceu as escadas e me levou para a sala do esquadrão, enquanto a equipe falava com o Tony.

– Ela é um ser humano, Tony. Precisa de comida, precisa comer. Ok? – disse Kate.

– E ela também precisa beber de vez em quando, não coisas alcoólicas – disse Mcgee.

– E ela esta correndo perigo constante, Dinozzo, sempre alerta – disse Gibbs e Jenny confirmou.

– Ok pessoal, entendi. Eu sei como cuidar dela, podem deixar – ele disse sorrindo, parecia uma criança feliz.