E no fim...
1 Capítulo 1
Notas iniciais
No fim é isso, tudo não passa de um flash back de todas as coisas que fez; um apanhado de todas as suas ações, boas ou não. O fim é reviver toda a sua vida por seus próprios olhos, chorando pelos mesmos erros e decisões estúpidas.
Era isso que estava acontecendo, e a peça de teatro –que era sua vida –já estava terminando, o último ato foi finalizado. Por isso as luzes iam se apagando e as cortinas se fechando, o público levantava de suas cadeiras, todos indecisos entre ama-lo e odiá-lo, indecisos se o perdoavam ou não.
Ele mesmo não sabia se amava-se ou odiava-se. Ele mesmo não poderia se perdoar. Tudo o que Severus sabia era que a escuridão abraçava-o, com seus braços frios e aconchegantes. Entregava-se a ela sem resistência, afinal, não haviam motivos para resistir.
E ali estava ele, morrendo tão sozinho quanto viveu. Ali estava o herói incompreendido morrendo como vilão, morrendo sem que soubesse qual era seu verdadeiro lado na guerra.
Sem mais nada a fazer, além de esperar, remoeu seus maiores erros. Se juntou a Voldemort, praticamente entregou seu amor para a morte, torturou alunos verbalmente, foi injusto com tantos outros e, por fim, mas não menos importante, matou o único homem que realmente o entendeu e confiou.
Deixou isso de lado, apenas concentrou-se no silêncio profundo ao qual estava imerso. Se aquilo era a morte, até que não era tão ruim. Talvez ela servisse para refletir, pensar na vida.
Por mais que não quisesse, acabava por voltar a atual situação. Torcia pelo Potter, o moleque tinha de vencer, caso contrário tudo seria em vão. E aquela guerra tirou muito das pessoas para que tudo fosse em vão. Mas, principalmente, ele teve muitas coisas tiradas por ela. Voldemort tirou. Como por exemplo, o futuro de Severus, que foi arrancado de si quando ele se aliou ao Lord. Ele perdeu a chance de ter uma família, de ter alguém que realmente se importasse com sua morte.
Perdeu a chance de ser feliz...
Se pudesse voltar no tempo, amaria mais Lily e não deixaria com que Voldemort tocasse nela. Nunca ficaria ao lado dele. Mas era só isso que lhe restava agora: amargura e arrependimentos. Como ele, um carrasco, poderia ser amado? Não tinha nada a oferecer a alguém...
E então, veio a luz. Um patorno no meio daquela escuridão, algo que esvaia aquele denso nevoeiro de angustia. Uma coisa que fazia com que ele se aquecesse. Lily, sua Lily.
Viu, novamente, aqueles belos olhos verdes, se sentiu bem, em paz. Não eram mais os torturantes olhos do Potter, mas sim os de sua amada e doce Lily. Os cabelos acaju caindo em cascata por suas costas, o corpo brilhante em prata e azul, um fantasma do passado que veio-lhe dar um último desejo. Atender a uma última prece.
Ela sorriu, e ele não sabia se sorria de volta ou não. Apenas ficou ali, olhando para ela, que tanto irradiava calor. Cada vez mais ela se aproximava, e cada vez mais ele se sentia quente, feliz, em paz.
—Lily... —murmurou esperando uma resposta. Não a obteve. Tudo o que foi lhe oferecido como resposta, foi um sorriso doce de perdão. Era tudo o que precisava, do perdão de seu amor.
A ruiva o envolveu num abraço, afastando totalmente os braços da escuridão, os braços da morte. Ela envolveu seu pescoço e beijou-o delicadamente. E então ela se esvaiu por entre seus dedos e braços, como água fluía de uma cachoeira. O calor se foi, a escuridão voltou, o corpo dele ficou ainda mais frio.
Mas ainda não estava morto. Ainda tinha um sopro de vida dentro de si, já que pode ouvir aquela voz. Aquela doce voz. A menina chamava-o, consolava-o e acariciava-o.
Hermione, a sabe tudo Granger, pegou sua mão. E o calor dela irradiou para dentro dele, aquecendo-o e deixando-o na mesma paz que Lily lhe causava segundos antes.
Se sentiu ser levado para algum lugar, as mãos de Hermione, que englobavam a sua e lhe davam calor, se soltaram com certa resistência. Algo estava errado, ele queria que ela ainda estivesse ali. Não tinha razão alguma para viver sem o calor dela ali.
A verdade era que amava aquela menina, assim como ainda amava Lily. As duas nascidas-trouxas dominavam seu coração. E agora, novamente, tudo o que restara a ele foi a escuridão e a voz de Lily chamando-o para um infinito negro. A mesma voz doce murmurando um sempre. E ele havia prometido que seria para sempre, mesmo que a promessa fosse para si mesmo.
(...)
A terra era jogada por cima daquele tumulo. As rosas eram jogadas sobre ele depois, brancas, vermelhas e amarelas. Hermione jogou uma sob o túmulo de seu ex professor e sua mulher. Remo e Tonks estavam sendo enterrados lado a lado, como mereciam estar durante a vida.
A mão de um homem entrelaçou-se na sua. Olhou para o lado e viu Rony, seu namorado. Não era preciso mais nada, mais nada além dele ali para ela. Nada além dele tentando acalmar sua alma ferida pela guerra.
Os dois foram os primeiros a sair do enterro, mas os últimos a saírem do cemitério. Andando mais um pouco, ali estava a lápide onde estava enterrado Severus Snape. Ron encarou a lápide, depois olhou para Hermione. Sabia que ela se sentia culpada pela morte dele, pensava que deixou-o morrer. Se lembrou do amor dele pela mãe de seu melhor amigo. E, olhando para aquela lápide cinzenta e fria, prometeu a ele o mesmo que ele prometeu a mão de Harry. Um pra sempre.
Teve a noção de uma coisa naquele momento. O para sempre não é tanto tempo, mas é tempo suficiente. E ele pode sim durar para eternidade, só depende daquele que o promete. Pois a eternidade pode ser um segundo ou uma vida.
E ele faria o Para sempre dele e Hermione durar até o fim. Pegou ela pelo braço e apertou-a contra si. Pousou a cabeça dela em seu ombro e deixou-a chorar em ombro, ainda com a chuva caindo em seus corpos, ainda que os dois estavam se molhando naquela chuva gélida e triste, melancólica.
E no fim, não havia necessidade de ter um fim. Não havia necessidade de acabar.
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