E essas Faíscas?

4 Um dia fora de série


Eu não sabia muitas coisas sobre Melina. Pra falar a verdade, eu não sabia quase nada. Bem, ela se chamava Melina Kanakaredes. Odiava seu sobrenome. Nessa vida ninguém nunca a chamara de Mel, só eu. Ela ria de tudo, e só naquele dia, havia rido sete vezes de mim ou para mim. Morava a dois quarteirões da minha rua. Tinha com certeza um pai e um irmão muito ciumentos. Ela não suportava Humanas, era 100 % Exatas. Tem mais o que dizer? Ah é, estudava no terceiro ano do ensino médio, e devia ter entre dezesseis e dezoito anos. As próximas perguntas que eu faria pra ela, com certeza, seriam: “e a sua idade é?” e “Então Mel, que dia você faz aniversário?”. Mas parei e pensei: “Calma gafanhoto, uma coisa de cada vez.”. Mas eu não via a hora da tarde passar, da noite passar, do Sol raiar, o dia amanhecer, eu ir pra escola e encontrar de novo aquela baixinha dos cabelos misturados e dos olhos que mudam de cor. É, eu já tava precisando dela. Meus deuses, como isso soa gay!

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Mas enfim, chegou á noite. Meus pais voltaram do trabalho e eu estava no meu quarto. Como todo dia, as 20h11 minha mãe gritou: “Jô meu filho, desça, seu pai, eu e o jantar estamos te esperando.”

Levantei-me da cama e desci as escadas. Mamãe me beijou, e papai e eu fizemos nosso toque de sempre. Por cima, por baixo, na frente, nas costas e um “soco” no ombro. É eu gostava daquilo.

Quando olhei pra mesa, minha comida favorita estava lá. Arroz, feijão, carne moída, salada agridoce e o molho especial da mamãe. Sem dúvidas, aquele era o meu dia.

Sentei-me e comi até me encher. Quase nunca conversava com meus pais, mas aquele dia estava tão perfeito, que resolvi fazer diferente, perguntando:

“E ai pai, como foi seu dia hoje?”

“Foi muito bom filho. Tivemos grandes produções e vendas na nossa empresa!” ele disse, e dava pra perceber que ele estava espantado com o diálogo que provavelmente iria se iniciar. “E você Jô, o que fez de bom no seu primeiro quinto dia de aula?”

“Ah pai, nada de mais, nem parecia que depois das minhas longas férias, era meu primeiro quinto dia de aula.” Eu respondi, mentindo claro. Mas eu não via motivos e certa oportunidade para me abrir falando da Mel, mas OK. Mamãe levantou da mesa e pegou os pratos pra levar pra cozinha.

Bem, nem ajudei ela, mas acho que ela nem sentiu tanto assim. Sai da cozinha e dei de cara com meu cachorro, um Golden Retriever, chamado Tequila. Sim Tequila. Mas que nome lindo né? Fazia muito tempo que não brincava com ele, mas me deu vontade.

Assim que terminei de brincar com Tequila, subi pro meu quarto, e ao encostar a cabeça no travesseiro me senti a melhor pessoa do mundo.

Conheci a Mel, e mesmo não sabendo ao certo porque, sabia que jamais esqueceria aquele dia. Comi a melhor comida do Universo, e sim, depois de muito tempo sem nem passar a mão no Tequila, brinquei com ele, e ele me deu o mesmo carinho de sempre.

Ah, e só pra constar, moramos em uma cidade no estado de Dallas, nos Estados Unidos. Moro nessa cidade desde que me entendo por gente. Sempre fui filho único, mas mamãe sempre sonhou em ter mais um filho. Pro papai tanto faz. E bem, eu já tenho o Tequila, então, pra mim, sei lá, também tanto faz.

Deitei, dormi. Se sonhei ou não, sinceramente não lembro. Sei que acordei muito mal.