Não sei ao certo o que deu em mim. Acordei com muita dor de cabeça. Gritei minha mãe, que chegou ao meu quarto desesperada. E ai eu apaguei.

Acordei de novo, mas estava no hospital. A visão estava turva, mas depois de passar quarenta dias naquele lugar, até de olhos fechados, você sabe onde está. E eu estava lá, sem sombra de dúvidas. Tentei me levantar, mas logo senti que eu não conseguiria. “Droga”, pensei, “ela me atacou de novo”. Essa “ela” é a dengue. É, tenho que admitir, meu metabolismo já foi mais resistente. Passou pela minha cabeça basicamente o que havia acontecido desde que eu apaguei. É prefiro nem me recordar. E enfim, lembrei dela. Melina. Achei que tinha sido sonho, mas não. Foi real. Isso me deu uma alegria tão grande.

Mas lembrei, que eu estava no hospital, que não iria pra escola, e não veria Melina. Chateado. Bolado. Teria que esperar mais um dia. Ah não.

Tocaram na porta, e pelo toque, não tinha duvidas. Dinda! Só minha madrinha tocava daquele jeito. Duas, duas, uma, duas. Sim, no ritmo de Radioactive. Sim, adoro Imagine Dragons. E bem, minha dinda sabia muito sobre mim. Eu ri e disse ironicamente: “Ah, quem será? Mamãe? É você? Pai? Quem é? Enfermeira?” e ela riu, e entrou. Linda como sempre. Lindsay. Cara, eu amo muita gente, mas a minha Dinda, ela eu realmente amava.

Entrou, me beijou e me abraçou. Perguntou como eu estava. Por confiar 100% nela, resolvi me abrir, e contar tudo sobre a Mel. É, ela ouviu tudo, sem falar nada, e isso me deixou desconfortável. Mas, a Dinda sempre, literalmente sempre me entende e depois de um longo tempo em silêncio, ela fala muito. E dessa vez não foi diferente. Ela falou tanto que eu quase me cansei. Mas ela é Dinda né. Deu no que deu. Ela falou, e eu ouvi.

Querendo ou não, foram conselhos bons, tirando o fato de que eu havia conhecido Melina há um dia. Dinda falava como se Mel fosse minha namorada. Eu não quis interrompê-la, mas ao fim de seu belo discurso, eu apenas olhei pra ela com uma cara de reprovação.

“O que foi Sheldonzinho lindo da titia?” ela disse e ainda por cima, apertou minhas bochechas. Cara, odiava quando ela me chamava assim, e ainda por cima apertava minhas bochechas. Ei, eu já tinha dezessete anos, e não dez. “Dinda, por favor né! Cara, primeiro, eu não tenho mais dez anos, segundo, Mel não é minha namorada, terceiro, nunca mais me chame assim e quarto, seu discurso já teve dias melhores.”

Ela riu, e me deu mais um pouco de carinho. “Querido” ela disse “tenho que ir agora. É bem provável que você tenha alta essa semana. Bem vou indo. Se cuide garotão. Mande um beijo pra Mel.”. Cara, não, não vou mandar um beijo da minha Dinda pra Melina. E outra, ela disse Mel com tanta intimidade. Ciúmes? Talvez.

“Tchau, me cuido sim, e pensarei no seu caso, baby”, e sim, eu dei aquele tom em baby.

E então ela saiu do quarto. Era impressionante como a tia Lindsay conseguia me por pra cima até dentro do hospital.

E quando voltei a ficar sozinho, adivinhe o que veio a minha cabeça. Melina? Não, claro que não. Veio comida na minha cabeça.